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quinta-feira, 14 de julho de 2011

 

 

Pois é! Desta vez apanhei um susto grande, não tanto pelo facto de ter estado doente, pois já estive doente muitas vezes, mas nunca estive doente assim.

Assim como?! -  Devem estar vocês a perguntar.

Doente sem me poder mexer de forma alguma.

Não era o facto de ter de ficar deitada, na caminha, cházinhos quentes e 3 dias depois estar boa, era não me mexer, ao ponto do respirar doer até trazer lágrimas aos olhos. Deitar?! Só numa única posição, entupida de analgésicos de todos os tipos, antibiótico e para completar um anti-inflamatório.

A única posição minimamente confortável, era deitada de barriga para o céu, no chão, ou sentada direita no sofá e mesmo assim, respirar doía. Percebem o que quero dizer?!

Claro que não percebem, se eu não o tivesse vivido, também não ia perceber.

Mas o que raios tive eu?! Pois bem! Começou com uma pequena dor nas costas que ignorei. Pensei comigo mesmo que teria dormido torta e que tinha que passar a estar mais direita no sofá, mas depois dessa pequena dor, respirar fundo começou a doer. Como eu não sou de ficar quieta, ainda ajudei a transportar o móvel da sala que finalmente veio para cá para casa, 3 andares porque os elevadores não funcionam (outra coisa que tenho de contar),  e toca de fazer a limpeza geral do lar, porque eu odeio desarrumação.

Nessa noite, o respirar já era quase insuportável, dormir nem ver, e vai de passar uma pomadinha nas costas para ver se aquilo passava.

Foi um jeito!

Dizia eu a quem me via contorcer de dores. Mas foi um jeito que num belo Sábado há 15 dias atrás, na festa de aniversário da Evinha (a minha nova sobrinha - sobrinha do meu maridão), eu mal consegui comer, quanto mais conhecer o resto das pessoas e onde sorrir era um esforço hercúleo.

Quando quase todos se tinham ido embora e depois de ajudar a cunhada do Filipe, (o meu mais que tudo....tenho tanto para contar!) que estava na altura na eminência de ter a minha afilhada a qualquer momento, a arrumar a cozinha, as lágrimas vieram-me aos olhos e pedi ao Fi que me levasse ao hospital que não aguentava mais.

No Hospital drogaram-me com mil coisas para me tirar as dores e foi aí que recebi como receita, descanso absoluto, um anti-inflamatório, três analgésicos que me obrigavam a estar a tomar medicamentos de 2 em duas horas e saquinho de água quente na ruptura dos músculos intra-costais, que fiz sem saber como!

Mas isso foi Sol de pouca dura. Mais uma noite sem dormir. Descanso no Domingo e na Segunda-Feira toca de ir trabalhar. E quem conseguia trabalhar? Olhar para o pc doía, respirar doía, falar doía, tudo doía. Ao ver a minha cara  e ao aperceber-se do meu esforço, a minha colega aconselhou-me:

Se vires que continuas assim depois do almoço não voltes!

E não voltei. Almocei com o marido, mas a caminho do emprego, mal conseguia segurar no volante. Toca a dar meia volta e vai para casa, deitar no chão a olhar para o tecto, porque virar não conseguia, respirar doía.

Nessa madrugada, acabei por gritar pois não conseguia mais engolir os gritos de dor que se dissipavam pelo corpo. O Fi ajuda-me a vestir, a calçar a pentear a lavar os dentes e vai comigo para o Hospital. No Hospital dizem-me que ouviram no meio da auscultação da minha respiração (acto que fazia de forma cada vez mais espaçada, pois doía), algo que não gostaram, por isso toca a drogar-me de novo para DIMINUIR as dores, chamam ambulância e vou de toque para o Hospital da Feira para poder fazer um Raio-X, que àquela hora, não se pode fazer no Hospital de S. João da Madeira.

No Raio-X, lá mostra uma inflamação nos brônquios, já bastante alastrada, para além da inflamação dos músculos que anda hoje não faço ideia de como a fiz.

Conclusão Mais de uma semana em casa, sem dormir, sem me mexer e quase não ficava boa, para ir ao baptizado do meu sobrinho lindo no Domingo dia 10.

Hoje ainda não estou perfeita e respirar fundo ainda dói como tudo, mas pelo menos já estou a trabalhar, fui ao baptizado, a minha sobrinha mais novinha e afilhada já nasceu e é linda e já consigo respirar sem chorar.

Continuo a questionar-me é como é que raios eu fiquei doente assim?!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A minha sobrinha e euUm  destes dias estava a levar a minha sobrinha à escola, tarefa que é sempre feita às corridinhas, aos saltos e pinotes, entre outras actividades que me deixam exausta, ainda antes de chegar ao escritório, quando no meio de um silêncio perturbador, diz-me:

-Tia?!

-Sim?! – imitei o tom inquiridor.

- O pai Natal existe?

-Claro que existe! – Retorqui pronta e convincentemente. – Quem é que achas que te dá aquelas prendas todas no Natal?!

-Mas tia?!

- Sim! – Já não imitei, pois adivinhava algo complicado.

– É que… – silêncio.

- Porque perguntas? O que se passa?!

- É que quando eu era pequena, lembras-te daquele Natal em que o Pai-Natal apareceu para comer os biscoitos que fizemos? – acenei que sim -  Ele tinha os mesmos sapatos que o meu pai, por isso não sei!

- Isso e porque o Pai-Natal, comprou os sapatos na mesma loja que o teu pai.

- Mas o Pai-Natal, compra os sapatos no Pólo Norte!

- Já ouviste falar na globalização? – pensei em baralha-la.

-Sim! – eu é que fiquei confusa – A minha professora já disse algo sobre isso!

- Então sabes que com as novas formas de comunicação, as mesmas coisas que existem em Portugal, também existem nos outros países e vice-versa, logo os sapatos que o Pai-Natal, comprou no Pólo Norte…

-São os iguais aos que o meu pai comprou cá!

-Isso!

- Hummmm! – aquele “hum”, não me soo muito bem, mas ela ficou calada e já estávamos quase a chegar.

- Vais ter teste de quê?

- De matemática, já disse! – arremessa.

-Está tudo bem?! – ficou calada e eu passados alguns segundos volto a perguntar – Que é que foi agora?! Que me queres perguntar?! – perguntei com medo do que aí vinha.

- Tia?!

- Sim?!

- O que é vice-versa? – eu sorrio aliviada e respondo-lhe com calma.

Talvez a minha sobrinha chegue aos oito a acreditar que a magia existe!

 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011



Hoje de manhã senti a falta de um rebuliço que há pouco mais de um ano, já não me é comum. Senti a falta da lufa, lufa de preparar a minha sobrinha para a escola, do longo caminho que fazíamos as duas, por estradas misteriosas, cheias de Dragões mágicos que ela matava com uma espada espiritual e do charco dos sapos mal-cheirosos e de outros lugares, caminhos e recantos que rebaptizamos, apenas com o intuito de transformar o banal e cansativo caminho para a escola (que fazíamos a pé, sempre que não chovia), numa aventura mística e magnífica, que ainda hoje, ela com 10 anos feitos, se recorda.

Talvez por isso, me tenha recordado de um momento especial do crescimento dela, um momento que eu tive a o privilégio de assistir em primeira mão e por isso, volto a colocá-lo aqui para também vocês se recordarem.

Estava uma solarenga manhã de Primavera e eu observava de longe e sem dar nas vistas, a azáfama da minha pequena sobrinha. Enquanto arrumava o quarto, fazia a cama e limpava o pó, a pequena menina de cabelos longos e dourados, parecia uma formiguinha, de um lado para o outro da varanda (o seu espaço de brinquedos); mexendo e remexendo, virando os cestos de cabeça para baixo e voltando a enchê-los com os mesmos objectos coloridos espalhados pelo chão, pela força da gravidade.

Era mais que óbvio que ela procurava algo, talvez um brinquedo com o qual sonhara, ou que alguma coisa a havia feito recordar. O certo é que estava decidida a encontrá-lo e continuava, numa busca metódica, na senda do objecto misterioso.

- Precisas de ajuda? - Pergunto solícita.
- Não tia! Obrigada! - A resposta foi tão seca e pronta que coloquei a hipótese, de também ela, não ter a certeza do que procurava.

Continuei com os meus afazeres, mas os meus ouvidos continuaram atentos à lufa-lufa ruidosa. Por vezes, ouvia-a suspirar, ou resmungar algo entre dentes e depois, quando estava prestes a chamá-la para irmos para a escola, o silêncio instalou-se.
Disse-me o meu instinto, que quando se trata de crianças, o silêncio nunca é bom sinal e preparava-me para ir ver o que se passava quando ouvi uma sonora gargalhada de satisfação, um Ah! Ah! de missão cumprida. Sorri ainda antes de ver o seu semblante angelical de enormes olhos pestanudos, avançar para mim, com uma confiança readquirida.

- Ainda demoramos muito, tia? - Perguntou ao esconder algo no bolso lateral da mochila laranja.
- É só vestires o casaco. - Sorri-lhe e ela obedeceu com o meu auxílio.
- Podemos tomar um café, antes de irmos?
- Sim, temos tempo. Respondi desconfiada. Fosse o que fosse que procurava, tinha utilização ao ar livre.

Descemos os três andares, apenas trocando olhares cúmplices e sorrisos. Ela, tagarela por excelência, não disse uma palavra durante o percurso feito de elevador. Assim que chegámos ao R/C, correu para a porta perguntando, enquanto abria:

- É um café, não é? - Acenei que sim, tentando conter a minha curiosidade.
- Não corras! - Disse antes de a porta do prédio bater com estrondo. "Já era hora de arranjarem a mola!" - Pensei, ao precipitar-me para a rua, pois ficar sem ver a minha bebé, era algo que não me deixava confortável.

Quando cheguei ao café, (ainda a vi a correr para lá), já ela transportava, vitoriosa, a chávena para uma das mesas. Cumprimentei as pessoas que lá estavam e sentei-me para beber o líquido quente e energizante.

- Posso ir lá para fora? - Pergunta-me com os olhos brilhantes e expectantes.
- Mas não saias aqui da frente. - Recomendo e ela corre lá para fora com algo na mão, deixando a mochila em cima duma cadeira.

Olhei-a atenta, finalmente iria descobrir o segredo que me escondia. As suas mãos pequenas, seguraram em dois punhos amarelos, enquanto, com uma graça de serpente encantada, uma corda caiu no chão. Era um pouco grande, pelo que enrolou uma volta em cada mão e devagar, fez várias tentativas de rotação. Em menos de um minuto, a corda já passava por cima da sua cabeça e batia no chão, num movimento rotacional que seria perfeito, se não fosse, invariavelmente, interrompido pelos seus pés trapalhões, que se recusavam a sair do chão, quando a sua mente mandava.

Mudou de estratégia. Respirou fundo, deixou a corda quieta e pulou cinco vezes, apenas para verificar se não havia nenhuma pastilha elástica pegajosa, deixada por um qualquer duende brincalhão, que a estivesse a impedir de saltar, como se via a saltar na sua cabeça. Olhou mais uma vez, desconfiada, para a sola dos ténis e desviou-se, perto de um metro do local onde estava. A corda voltou a girar e desta vez, passou por completo, batendo 1, 2, 3 vezes no chão, antes de encontrar, de novo, os seus pés preguiçosos. Balbuciou qualquer coisa e recomeçou, desta vez, mais devagar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, e de novo os pés.

- 1, 2, 3... - Ouvia-se a sua vózinha ofegante, mas muito concentrada. - 6, 7, 8, 9, 10... - A sua cara soltou-se e esboçou um sorriso de contentamento. - 13, 14... - Uma gargalhada. - 16, 17, 18... - Um gancho cai no chão. - 19, 20.

Pára cansada do esforço. Recupera o fôlego com inspirações rápidas. Tenho vontade de ir dar-lhe os parabéns, mas sei que nestas ocasiões, ficamos sempre atrapalhados, queremos mostrar a nossa façanha e nunca a conseguimos repetir. Sei perfeitamente, o quão frustrante essa sensação pode ser, por isso, deixei-me ficar sentada, lutando contra a minha vontade. Ainda podia dar mais quinze minutos e ela parecia tão feliz!
Em pouco tempo recomeça. Eu tiro o telemóvel da mala e começo a filmar.

- 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... - E ri-se eufórica. - 13, 14, 15, 16... - Uma gargalhada, esta bem sonora. - 20, 21, 22, 23, 24... - Olha pelo vidro do café e confirma feliz que eu estou a ver. - 30, 31, 32, 33, 34, 35. - Parou. Correu para os meus braços, transpirada, desfraldada e despenteada. - Viste, Titi? Viste?! - Acenei que sim e dou-lhe um beijo na testa, ao mesmo tempo que lhe componho a roupa e o cabelo.

- Muito bem! Saltas muito bem! - Coloco-lhe a mochila às costas.
- Ao princípio, não conseguia, mas agora é fácil. Antes era ainda bebé, era pequenina, tinha 4 anos. Mas agora já consigo.
- Pois! O importante é não desistir. Quando não se consegue à primeira, respiramos fundo e voltamos a tentar, tantas vezes, quantas forem necessárias. Nunca se desiste.
- Pois não tia! Eu não desisti.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Nunca é. Mas que é compensador, não tenho qualquer dúvida. Mais tarde irei colocar aqui, imagens do meu Natal, por enquanto fica aqui uma ideia.

A verdade é que com o emprego, os amigos e a família, estou quase a uma semana a tentar acabar a decoração da minha casa e ainda faltam duas divisões e alguns pormenores que ficam sempre para mais tarde. Mas está a ficar bonito. No entanto o meu sonho de um Natal Victoriano teve que ser adiado para dias melhores, por este ano fizemos algo que está entre o Natal tradicional português e o Mundo Fantástico do Natal, dedicado única e exclusivamente à coqueluche da família: a minha sobrinha de 6 anos, Iara. No outro dia falava com um amigo em como era importante criar o espírito correcto de Natal nos petizes. Ele, que tem uma filha linda, disse-me; como é que isso é possível, se mesmo para comprar um calendário do advento num hiper-mercado, apenas se consegue encontrar com figuras do Nody, da Puka, da Hello Kitty e afins, remetendo as crianças para o consumismo de merchandising destes "Bonecos Marca"? Realmente é difícil, mas não impossível e ontem tive a prova disso mesmo, quando às seis e quarenta e cinco da manhã, a minha sobrinha veio ter comigo à cama, acordou-me e disse: "Não achas que estás a dormir demais? Ainda temos muita coisa para fazer. Temos que acabar de decorar a sala grande (sala de jantar da minha casa), temos que pintar as pinhas para as argolas dos guardanapos e ainda tenho que escolher um brinquedo antigo meu, para dar a outras crianças que não têm. Despacha-te tia."

Ela é uma menina linda e de bom coração, sempre pronta a ajudar, mas sempre pronta a pedir também, mas enquanto fazia a carta para o Pai Natal disse: "Eu sei que ele não vai poder dar-me tudo, existem muitos meninos, mas se me der apenas um já é bom, não fico chateada. Todos temos que contribuir, para que todos possam ter um pouco." Isto foram literalmente palavras dela, palavras tão crescidas para quem tem meia dúzia de anos.

Esta foi sem dúvida e ainda antes do dia 25, o melhor presente que eu poderia ter recebido.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012


Estava uma solarenga manhã de Primavera e eu observava de longe e sem dar nas vistas, a azáfama da minha pequena sobrinha. Enquanto arrumava o quarto, fazia a cama e limpava o pó, a pequena menina de cabelos longos e dourados, parecia uma formiguinha, de um lado para o outro da varanda (o seu espaço de brinquedos); mexendo e remexendo, virando os cestos de cabeça para baixo e voltando a enchê-los com os mesmos objectos coloridos espalhados pelo chão, pela força da gravidade.

Era mais que óbvio que ela procurava algo, talvez um brinquedo com o qual sonhara, ou que alguma coisa a havia feito recordar. O certo é que estava decidida a encontrá-lo e continuava, numa busca metódica, na senda do objecto misterioso.

- Precisas de ajuda? - Pergunto solícita.
- Não tia! Obrigada! - A resposta foi tão seca e pronta que coloquei a hipótese de também ela, não ter a certeza do que procurava.

Continuei com os meus afazeres, mas os meus ouvidos continuaram atentos à lufa-lufa ruidosa. Por vezes, ouvia-a suspirar, ou resmungar algo entre dentes e depois, quando estava prestes a chamá-la para irmos para a escola, o silêncio instalou-se.

Disse-me o meu instinto, que quando se trata de crianças, o silêncio nunca é bom sinal e preparava-me para ir ver o que se passava quando ouvi uma sonora gargalhada de satisfação, um Ah! Ah! de missão cumprida. Sorri ainda antes de ver o seu semblante angelical de enormes olhos pestanudos, avançar para mim, com uma confiança readquirida.

- Ainda demoramos muito, tia? - Perguntou ao esconder algo no bolso lateral da mochila laranja.
- É só vestires o casaco. - Sorri-lhe e ela obedeceu com o meu auxílio.
- Podemos tomar um café, antes de irmos?
- Sim, temos tempo. Respondi desconfiada. Fosse o que fosse que procurava, tinha utilização ao ar livre.

Descemos os três andares, apenas trocando olhares cúmplices e sorrisos. Ela, tagarela por excelência, não disse uma palavra durante o percurso feito de elevador. Assim que chegámos ao R/C, correu para a porta perguntando, enquanto abria:

- É um café, não é? - Acenei que sim, tentando conter a minha curiosidade.
- Não corras! - Disse antes de a porta do prédio bater com estrondo. "Já era hora de arranjarem a mola!" - Pensei, ao precipitar-me para a rua, pois ficar sem ver a minha bebé, era algo que não me deixava confortável.

Quando cheguei ao café, ainda a vi a correr para lá, já ela transportava, vitoriosa, a chávena para uma das mesas. Cumprimentei as pessoas que lá estavam e sentei-me para beber o líquido quente e energizante.

- Posso ir lá para fora? - Perguntou-me com os olhos brilhantes e expectantes.
- Mas não saias daqui da frente. - Recomendei e ela corre lá para fora com algo na mão, deixando a mochila em cima duma cadeira.

Olhei-a atenta, finalmente iria descobrir o segredo que me escondia. As suas mãos pequenas, seguraram em dois punhos amarelos, enquanto, com uma graça de serpente encantada, uma corda caiu no chão. Era um pouco grande, pelo que enrolou uma volta em cada mão e devagar, fez várias tentativas de rotação. Em menos de um minuto, a corda já passava por cima da sua cabeça e batia no chão, num movimento rotacional que seria perfeito, se não fosse, invariavelmente, interrompido pelos seus pés trapalhões, que se recusavam a sair do chão, quando a sua mente mandava.

Mudou de estratégia. Respirou fundo, deixou a corda quieta e pulou cinco vezes, apenas para verificar se não havia nenhuma pastilha elástica pegajosa, deixada por um qualquer duende brincalhão, que a estivesse a impedir de saltar, como se via a saltar na sua cabeça. Olhou mais uma vez, desconfiada, para a sola dos ténis e desviou-se, perto de um metro do local onde estava. A corda voltou a girar e desta vez, passou por completo, batendo uma, duas, três vezes no chão, antes de encontrar, de novo, os seus pés preguiçosos. Balbuciou qualquer coisa e recomeçou, desta vez mais devagar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, e de novo os pés.

- 1, 2, 3... - Ouvia-se a sua vózinha ofegante, mas muito concentrada. - 6, 7, 8, 9, 10... - A sua cara soltou-se e esboçou um sorriso de contentamento. - 13, 14... - Uma gargalhada. - 16, 17, 18... - Um gancho cai no chão. - 19, 20.

Pára cansada do esforço. Recupera o fôlego com inspirações rápidas. Tenho vontade de ir dar-lhe os parabéns, mas sei que nestas ocasiões, ficamos sempre atrapalhados, queremos mostrar a nossa façanha e nunca a conseguimos repetir. Sei perfeitamente, o quão frustrante essa sensação pode ser, por isso, deixei-me ficar sentada, lutando contra a minha vontade. Ainda podia dar mais quinze minutos e ela parecia tão feliz!

Em pouco tempo recomeça. Eu tiro o telemóvel da mala e começo a filmar.

- 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... - E ri-se eufórica. - 13, 14, 15, 16... - Uma gargalhada, esta bem sonora. - 20, 21, 22, 23, 24... - Olha pelo vidro do café e confirma feliz que eu estou a ver. - 30, 31, 32, 33, 34, 35. - Parou. Correu para os meus braços, transpirada, desfraldada e despenteada. - Viste, Titi? Viste?! - Acenei que sim e dou-lhe um beijo na testa, ao mesmo tempo que lhe componho a roupa e o cabelo.

- Muito bem! Saltas muito bem! - Coloco-lhe a mochila às costas.
- Ao princípio, não conseguia, mas agora é fácil. Antes era ainda bebé, era pequenina, tinha 4 anos. Mas agora já consigo.
 - Pois! O importante é não desistir. Quando não se consegue à primeira, respiramos fundo e voltamos a tentar, tantas vezes, quantas forem necessárias. Nunca se desiste.
- Pois não tia! Eu não desisti.


sábado, 25 de julho de 2009

Nós humanos somos uns bichos complicados, demasiado complicados, talvez! Levamos a vida a andar e a correr de um lado para o outro, sempre stressados e a arranjar problemas para resolver Mesmo quando eles não existem, ficamos sempre à espera que eles surjam, e nessa espera, nesse entretanto, perdemos muita coisa boa que podemos fazer, muita coisa que nos deixaria mais em paz connosco mesmo, mais calmos, melhores pessoas, não só com os que nos rodeiam, mas com os outros também, os outros que nos dizem pouco, ou mesmo nada.

Apercebo-me sempre disso, cada vez que tenho tempo para férias, sempre que guardo alguns momentos para estar com a minha irmã, a minha sobrinha, os meus tios, os meus primos, os meus amigos. Fico mais Eu. Não grito, não me irrito, volto a sorrir, não tenho maus pensamentos, não quero o mal de ninguém. Apenas quero viver em paz, ver as pessoas livres e felizes, soltas e leves, comunicativas, abertas, prontas para amar e se deixarem amar.

Queria muito que o meu dia-a-dia fosse sempre assim!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

tristeza01 Como eu gostava de ter superpoderes, um dom especial e secreto que me fosse útil nestas horas. Como eu gostava de te abraçar nos meus braços e aquecer o teu coração com amor. Como eu gostava de te beijar e sugar de ti toda a amargura, angústia e temor. Como eu gostava de te falar e que as minhas palavras, a minha voz te servissem de consolo e remédio para a tua dor.

Como eu gostava de ser capaz de transferir toda a tua tristeza e juntá-la à minha, para que não sofresses nem mais um segundo, nem mais um fôlego. Como eu gostava de poder transformar tudo isso em coragem e esperança!

Como eu gostava! Oh, meus Deus, como gostava! Mas não posso! Não consigo! Não sei como!

Eu falo-te, mas não sirvo de consolo, eu abraço-te mas o teu coração gela com o desgosto, eu beijo-te e sinto a angústia, a revolta e a dor, darem voltas dentro de ti, da mesma forma como se revolvem dentro de mim.

Mana, minha querida e adorada irmã, carne da minha carne, sangue do meu sangue, eu quero devolver-te o bebé, que prematuramente perdeste, o meu sobrinho ou sobrinha, que ainda antes de nascer já era amado. Quero silenciar esse grito mudo que ecoa na tua alma, quero absorver todo esse negro que se pinta dentro de ti e torná-lo só meu. Eu quero mana, eu quero, juro-te que quero… mas não posso, não consigo, não sei como.

Apenas o tempo pode, mana.  Apenas o tempo sabe!

Somente posso chorar contigo, gritar e revoltar-me e, por fim, carpir.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Saímos no meio do natural tumulto matinal e disse à minha sobrinha:

-A tia precisa de tomar um café! - apenas dormi 3 horas, acreditem que o café era mais do que uma prioridade e em casa não havia.

-Oh, Tia! Queria ir já para a escola! Tomas o café depois.

-Um café rápido no Sr. Zé e vamos para a escola. – demando.

- Ok! – aceita contrafeita e logo depois lembra-se de algo – Tia?!

- Sim!

- Preciso de um borracha e não tinhas nenhuma no teu estojo. – bem me parecia que a minha carteira não estava como a deixara – Podias comprar-me uma!

- Está bem! Tomamos o café e passamos pela papelaria a caminho da escola! – entramos no café e ela:

- Bom dia! É um café para a minha tia, se faz favor! – depois vira-se para mim –Tia, dá-me o dinheiro que eu vou lá, enquanto tomas o café! – a minha cabeça dizia: “Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!”

- Quanto é que custa a borracha? – trazem o café.

- Não sei, mas vou perguntar, posso?! -  a papelaria fica no fim da praceta, três prédios depois do café, mas a minha cabeça dizia: “Não! Não! Não! Não! Não! Não!

- Está bem! – e ela sai a correr e assim que ela sai, eu corro para a porta e lá está ela a entrar dentro da papelaria. “Não olhes, não olhes, não olhes, não olhes!” Vejo os ténis dela e volto a fingir que tomo o café. Ela entra eufórica:

- São 60 cêntimos a mais barata e 80 cêntimos a mais cara.

- E qual é a que queres?! – preparo-me para tirar um euro do porta moedas.

- Não as vi! Dá-me o dinheiro, que eu escolho agora e trago-te o papel. – parecia que já fazia aquilo todos os dias. Dou-lhe a moeda – Volto já! – e sai porta fora. Largo a chávena e alcanço a porta quase a correr. “Tem que ser! Tem que ser! Tem que ser!” Grita a minha consciência e o meu coração aperta. Ela entra dentro da papelaria. Aguardo! Ela sai e eu volto a beber o café. Arrepio-me! O café está frio. – Toma! – entrega-me o recibo, o troco e mostra-me a borracha.

- Foi a mais barata! – constato

- Era a que eu queria! – pago o café enquanto ela guarda a borracha no estojo – Ah! – olho para ela – Pedi à senhora para guardar a revista das Winx desta semana que ela disse que já tinha chegado, sabes a que traz a carteira de oferta, a mala. – diz sem pausas, pontuando apenas com a entoação.

- E quanto é que é a revista?! – não responde logo.

- Até amanhã D. Luísa e Sr. Zé!

- Até amanhã, pestinha! – respondem os dois, enquanto eu aceno e me despeço também.

- São cinco euros e noventa e cinco cêntimos, depois passas por lá, não passas?!

- Quanto mais cresces, mais cara me ficas! – ela sorri pois sentia-se realizada por ter comprado a borracha sozinha sem a ajuda de ninguém adulto.

- Passamos lá agora! – Fizemos festas à linda grandanoir que se mudou para a nossa praceta  e que fazia o seu passeio matinal, (que inveja eu tenho do seu companheiro humano) e digo-lhe – Mas com tantas coisas que recebes, nem penses que o Coelho da Páscoa te vai trazer muita coisa.

- Oh, tia! Eu sei, mas não me importo! – deixo de prestar atenção ao cão e olho para ela, que a sorrir conclui, enquanto me abraça e quase me deita ao chão – Tenho-te a ti! 

 

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ao ler um outro parceiro “bloguista” lembrei-me desta mensagem que há muito queria aqui colocar.

Vivemos numa sociedade onde todos pensamos que a comunicação é algo perfeitamente ao alcance de todos. Num mesmo minuto, posso estar a escrever aqui, no meu blog, comunicar com familiares por telefone, a trocar mensagens no msn, com amigos e, no entanto, estou só.

A minha sobrinha apenas com sete anos recebeu um Magalhães e já faz tudo sozinha. E quando digo sozinha, digo só, porque acho que com a tecnologia de hoje, os miúdos estão cada vez mais a só, todos nós estamos mais sós... estamos desesperadamente sós. Os miúdos já não brincam nas ruas, não pulam ao elástico, não jogam à “sirumba”, às escondidas, ao mata, não podem sair à rua para irem ter com tos amigos, não podem simplesmente fazer corridas de bicicleta.

Iludimos-nos que vivemos numa sociedade de comunicação e esquecemos simplesmente que essa comunicação é virtual, um conjunto de monólogos que se tentam fazer ouvir, porque não existe algo básico e primordial, o contacto humano, o toque...

quarta-feira, 18 de março de 2009

São engraçados os sonhos, não são?! Eles aparecem mesmo quando não os pedimos, surgem através de um estímulo incontrolável, contra a nossa vontade, do vazio, do nada e, imediatamente, ficamos para sempre com eles na consciência, presos na nossa pele, no nosso respirar.

É assim que acontece comigo, foi assim que aconteceu comigo, quando ao 16 anos a minha tia disse que estava grávida. Desde esse estímulo que o meu sonho principal foi ser mãe, ter na minha vida, alguém que poderia amar incondicionalmente e ser retribuída, ter dentro de mim, uma outra vida por quem seria inteiramente responsável e que sem a qual, dificilmente, continuaria a viver.

A minha prima nasceu, passado uns oito anos nasceu a minha sobrinha e passado oito anos, nascerá outra criança do ventre da minha irmã e eu… eu continuo a olhar para o meu sonho e vejo-o cada vez mais destorcido, desfocado, inalcançável, surrealista como num quadro de Picasso, apenas porque investi demasiado tempo, naquilo que nunca investiu tempo em mim…

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2009


Pois bem, Novo Ano, hora de balanço e feitas as contas, tenho muito por agradecer: agradecer por ter emprego (mesmo que seja um martírio), agradecer por ter família, agradecer porque vou tendo saúde, agradecer porque a minha sobrinha e os meus primos enchem-me de alegrias e de orgulho, agradecer pela amizade dos meus amigos de longa da data, agradecer pela consolidação de amizades recentes, agradecer por tudo aquilo que aprendi, agradecer por todas as experiências boas e más, que fazem de mim um ser humano, cada vez mais forte e melhor, agradecer por ainda ter mãe e por me irritar tantas vezes com ela, agradecer por ainda viver e por ainda ter tempo para continuar a ser melhor, a fazer melhor e a querer melhor.


A todos que contribuiram para tudo isto: Muito Obrigada!
A todos um Excelente ano de 2009!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

 
 
A minha irmã estava de folga, pelo que senti a falta da voz da minha sobrinha às seis da manhã, mas às sete, o telemóvel deu o alarme e ao som de Mondobongo de Joe Strummer e os Mescaleros, o meu cérebro, lentamente, acordou. Mas foi mesmo muito, muito, muito, lentamente. Começou por dar ordem aos olhos para abrirem, mas estes em contacto com a pele, decidiram ficar quietos. A pele sentia-se quente e protegida e pediu aos olhos, mais alguns minutos de tranquilidade.
 
O cérebro pediu então aos músculos que se mexessem, que se espreguiçassem, que induzissem alguma energia ao resto do corpo em plena greve, mas estes mal estremeceram, fizeram a pele sentir-se refrescada, numa nova posição e os nervos enviaram nova mensagem ao cérebro, pedindo mais alguns minutos de tranquilidade.
 
O cérebro pediu então, num apelo quase desesperado a todo o corpo para que acordasse, que já eram horas, mas os ouvidos ignoraram o novo alarme, os músculos recusaram a mover-se, os olhos mantiveram-se quietos e a pele, esse órgão tão importante e tantas vezes ignorado, gritou:
 
- Deixa-te ficar mais um bocado! - Assim o cérebro fez e, numa retirada estratégica, sonhou acordado por mais um pouco. À terceira repetição do alarme, encheu-se de energia e berrou:
 
- Acorda, corpo gordo e preguiçoso, o descanso acabou! - os olhos irritados mantiveram-se fechados e a pele aquecida pediu aos músculos para não se mexerem, mas estes, como soldados bem treinados e ofendidos pelo insulto gritado pelo cérebro, moveram o corpo num impulso, contraindo os abdominais, ao mesmo tempo que os bícepes e os lombares, deixando o corpo na posição de um gato a espreguiçar-se ao sol, com os lençóis a escorregarem para todo o lado.
 
A pele sentiu assim o frio da manhã e num arrepio mal humorado, disse então aos olhos:
 
- Abram lá! Já chega de mandriar!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

 

E é basicamente isso que tenho para dizer. Faltam 30 dias para a festa que eu mais gosto.

Já comecei os preparativos, (leiam-se as limpezas) e no fim-de-semana, a tradicional ida a Sintra, com a minha sobrinha e prima e talvez, até alguns amigos se juntem a nós. Espero que sim pois o que mais me agrada nesta época do ano é a partilha e eu adoro partilhar os momentos felizes com os meus amigos.
 
Por isso espero que aceitem o meu convite, que se juntem a nós neste passeio pela Serra Encantada, que redescubram os monumentos, a aura de magia, que desfrutem da companhia de quem lhes quer bem, que se deixem guiar pelos risos e brincadeiras dos mais pequenos, que mergulhem de cabeça no espírito natalício e deixem invadir as suas almas pela boa disposição, bom humor e boa vontade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

 

No outro dia tive uma daquelas temidas conversas com a minha sobrinha de 6 anos.
- Tia! - chama enquanto se aproxima - Eu ouvi uma palavra, que é uma asneira, eu sei que não se diz... - Fala comigo em segredo - Posso perguntar o que quer dizer? - E eu, tremendo por dentro por não saber o que teria que responder, digo:
- Claro! Pergunta sempre o que quiseres. - Então, aproxima-se um pouco mais e diz-me ao ouvido:
- P*t*. - disse tão baixo que nem consegui ouvir, por isso repete, desta vez, uns décibeis mais elevados, mas ainda assim, de forma inaudível. Depois repete uma terceira vez e dessa vez eu entendo.
- Olha! - Tento ganhar tempo para pensar numa resposta - Vai buscar a escova para te pentear e depois eu digo o que quer dizer. - Ela obedece. Volta com a escova e eu sem saber muito bem como, começo a falar - Essa palavra... - Opto, conscientemente, por não a repetir - Quer dizer, ou melhor, é o nome que se dá a mulheres que têm muitos namorados. - Depois arrependo-me do que digo, não quero transmitir a ideia de que ela não pode namorar, ou experimentar. Sei que é cedo para isso, mas a dúvida pode ficar dentro dela e não quero. Para além disso, a palavra não quer dizer isso. - Melhor... não é que tenham muitos namorados, que não há mal nisso.
- Então o que é?
- É que ter muitos namorados é o trabalho delas. Os homens pagam para elas serem namoradas deles, por umas horas, uns dias e isso é errado. - Ela pensa, queixa-se por lhe estar a apertar demasiado o rabo de cavalo. Desisto e faço-lhe dois tótós.
- É só isso? - Pergunta inocente.
- Sim, é só!
- Pensei que se dizia essa palavra, porque eram más, ou coisas assim... tipo bruxa, ou assim! - Pensa e eu viro-a para ver o penteado - Percebes o que quero dizer? - Encolho os ombros - Se elas fazem de namoradas, não pode ser assim tão mau! - Calo-me, não sei como explicar melhor, ela ainda não iria perceber e ela continua. - Ouvi outra palavra.
- E qual foi?! - Esperava pelo pior.
- M*r*a! - Sorrio, pois depois da outra essa era fácil de explicar.
- Isso é uma palavra malcriada, para dizer cocó.
- Ah! Que engraçado. Que mal tem dizer cocó?! Era mais fácil, não era?
E eu rio-me com ela e penso, quanto tempo terei ainda para lhe ensinar o que as coisas querem dizer. Depressa virá o dia em que ela me ensinará, palavras que nunca terei ouvido antes.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Estava uma solarenga manhã de Primavera e eu observava de longe e sem dar nas vistas, a azáfama da minha pequena sobrinha. Enquanto arrumava o quarto, fazia a cama e limpava o pó, a pequena menina de cabelos longos e dourados, parecia uma formiguinha, de um lado para o outro da varanda (o seu espaço de brinquedos); mexendo e remexendo, virando os cestos de cabeça para baixo e voltando a enchê-los com os mesmos objectos coloridos espalhados pelo chão, pela força da gravidade.
Era mais que óbvio que ela procurava algo, talvez um brinquedo com o qual sonhara, ou que alguma coisa a havia feito recordar. O certo é que estava decidida a encontrá-lo e continuava, numa busca metódica, na senda do objecto misterioso.
- Precisas de ajuda? - Pergunto solícita.
- Não tia! Obrigada! - A resposta foi tão seca e pronta que coloquei a hipótese,e também ela, não ter a certeza do que procurava.
Continuei com os meus afazeres, mas os meus ouvidos continuaram atentos à lufa-lufa ruidosa. Por vezes, ouvia-a suspirar, ou resmungar algo entre dentes e depois, quando estava prestes a chamá-la para irmos para a escola, o silêncio instalou-se.
Disse-me o meu instinto, que quando se trata de crianças, o silêncio nunca é bom sinal e preparava-me para ir ver o que se passava quando ouvi uma sonora gargalhada de satisfação, um Ah! Ah! de missão cumprida. Sorri ainda antes de ver o seu semblante angelical de enormes olhos pestanudos, avançar para mim, com uma confiança readquirida.
- Ainda demoramos muito, tia? - Perguntou ao esconder algo no bolso lateral da mochila laranja.
- É só vestires o casaco. - Sorri-lhe e ela obedeceu com o meu auxílio. - Podemos tomar um café, antes de irmos? - Sim, temos tempo. Respondi desconfiada. Fosse o que fosse que procurava, tinha utilização ao ar livre.
Descemos os três andares, apenas trocando olhares cúmplices e sorrisos. Ela, tagarela por excelência, não disse uma palavra durante o percurso feito de elevador. Assim que chegámos ao R/C, correu para a porta perguntando, enquanto abria:
- É um café, não é? - Acenei que sim, tentando conter a minha curiosidade.
- Não corras! - Disse antes de a porta do prédio bater com estrondo. "Já era hora de arranjarem a mola!" - Pensei, ao precipitar-me para a rua, pois ficar sem ver a minha bebé, era algo que não me deixava confortável.
Quando cheguei ao café, ainda a vi a correr para lá, já ela transportava, vitoriosa, a chávena para uma das mesas. Cumprimentei as pessoas que lá estavam e sentei-me para beber o líquido quente e energizante.
- Posso ir lá para fora? - Pergunta-me com os olhos brilhantes e expectantes.
- Mas não saias aqui da frente. - Recomendo e ela corre lá para fora com algo na mão, deixando a mochila em cima duma cadeira.
Olhei-a atenta, finalmente iria descobrir o segredo que me escondia. As suas mãos pequenas, seguraram em dois punhos amarelos, enquanto, com uma graça de serpente encantada, uma corda caiu no chão. Era um pouco grande, pelo que enrolou uma volta em cada mão e devagar, fez várias tentativas de rotação. Em menos de um minuto, a corda já passava por cima da sua cabeça e batia no chão, num movimento rotacional que seria perfeito, se não fosse, invariavelmente, interrompido pelos seus pés trapalhões, que se recusavam a sair do chão, quando a sua mente mandava.
Mudou de estratégia. Respirou fundo, deixou a corda quieta e pulou cinco vezes, apenas para verificar se não havia nenhuma pastilha elástica pegajosa, deixada por um qualquer duende brincalhão, que a estivesse a impedir de saltar, como se via a saltar na sua cabeça. Olhou mais uma vez, desconfiada, para a sola dos ténis e desviou-se, perto de um metro do local onde estava. A corda voltou a girar e desta vez, passou por completo, batendo 1, 2, 3 vezes no chão, antes de encontrar, de novo, os seus pés preguiçosos. Balbuciou qualquer coisa e recomeçou, desta vez, ais devagar. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, e de novo os pés.
- 1, 2, 3... - Ouvia-se a sua vózinha ofegante, mas muito concentrada. - 6, 7, 8, 9, 10... - A sua cara soltou-se e esboçou um sorriso de contentamento. - 13, 14... - Uma gargalhada. - 16, 17, 18... - Um gancho cai no chão. - 19, 20.
Pára cansada do esforço. Recupera o fôlego com inspirações rápidas. Tenho vontade de ir dar-lhe os parabéns, mas sei que nestas ocasiões, ficamos sempre atrapalhados, queremos mostrar a nossa façanha e nunca a conseguimos repetir. Sei perfeitamente, o quão frustrante essa sensação pode ser, por isso, deixei-me ficar sentada, lutando contra a minha vontade. Ainda podia dar mais quinze minutos e ela parecia tão feliz!
Em pouco tempo recomeça. Eu tiro o telemóvel da mala e começo a filmar.
- 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... - E ri-se eufórica. - 13, 14, 15, 16... - Uma gargalhada, esta bem sonora. - 20, 21, 22, 23, 24... - Olha pelo vidro do café e confirma feliz que eu estou a ver. - 30, 31, 32, 33, 34, 35. - Parou. Correu para os meus braços, transpirada, desfraldada e despenteada. - Viste, Titi? Viste?! - Acenei que sim e dou-lhe um beijo na testa, ao mesmo tempo que lhe componho a roupa e o cabelo.

- Muito bem! Saltas muito bem! - Coloco-lhe a mochila às costas. - Ao princípio, não conseguia, mas agora é fácil. Antes era ainda bebé, era pequenina, tinha 4 anos. Mas agora já consigo. - Pois! O importante é não desistir. Quando não se consegue à primeira, respiramos fundo e voltamos a tentar, tantas vezes, quantas forem necessárias. Nunca se desiste. - Pois não tia! Eu não desisti.

quarta-feira, 21 de maio de 2008


Ando tão desanimada com o meu emprego, que passo o dia a contar.

São 9 horas. Saio de casa e levo a minha sobrinha ao colégio. Ainda sobra tempo, talvez um café e 30 dias para…

São 11 horas. Entro no escritório, ligo o computador e na folha em branco (odeio espaços vazios, quase tanto quanto o Universo), anoto: 180.

180 minutos, claro está! Cento e oitenta minutos… Respondo a e-mails de clientes, refaço a agenda, faço chamadas e o meu olhar, recai no canto inferior direito do monitor: 140. Ainda 140! Mais umas chamadas, uma cliente que chega, um fornecedor, mais chamadas, muitas chamadas. No fim do dia, o telefone já se anexou ao meu ouvido, pelo processo de osmose. Mais cartas, mais alguns e-mails.

69! Penso na ironia do número, imagino como seria divertido fazer um intervalo para realizar outra actividade que aquele conjunto de algarismos sugere. Um colega traz-me à realidade, quer tirar umas dúvidas. Dúvidas esclarecidas, mais dois e-mails, mais duas chamadas.

34! Gostava mais do número anterior, mas este não vem sem vantagens. Menos de uma hora. Mais umas chamadas, um fornecedor pede uma reunião. Mais umas chamadas.
1! Um minuto. São 14 horas, vou almoçar. 


Duas horas livres.

Vou até ao ginásio, talvez uma sauna, pois não tenho tempo para mais. Isso, uma sauna e uma sandes. O meu livro, o que estou a ler e o que estou a escrever, sim, é sempre um prazer algumas páginas de ambos.
Quinze minutos para as dezasseis. Dirijo-me ao escritório. Sento-me à frente do computador e anoto: 240…184…173…163…107… (osmose completa) …91…80…48… (não vi o 69 passar) …40…28…algo me distrai, quando olho para o relógio, está na hora de sair.

Adeus contas de subtrair. Até amanhã!

Talvez vá ao cinema.

Nota: Em homenagem ao meu professor da 1ª classe que me ensinou as “contas de menos”.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

É impressão minha ou este Carnaval ficou muito próximo do Natal? Mal tenho tempo para respirar. Bem mas este ano tenho que cumprir uma promessa. A minha sobrinha pediu-me para mascarar com ela e eu tive a infeliz ideia de dizer que sim.


Pensei muito no que iria vestir, inclusivamente pensei em vestir apenas umas roupas velhas e dizer que seriam a máscara de qualquer coisa, mas não. Fiz uma promessa e vou cumpri-la com todo o brio e garbo. Acabei por pensar numa máscara de pirata e é isso que vou ser naqueles 3 dias de folia, Uma Mulher Pirata.


Sempre dá para pensarmos noutras possibilidades, em universos paralelos e em: " E se?!"


Sou da opinião que todos os dias usamos uma máscara, uma máscara que fomos aperfeiçoando ao longo dos anos de vida, de forma a defendermos-nos do que nos rodeia, de forma a criarmos uma maior sensação de segurança em relação ao Mundo. Muitas vezes essa máscara não corresponde com o que realmente somos ou queremos ser, no Carnaval temos hipótese de escolher algo que se aproxima mais desse outro Eu, que tanto almejamos.


Divirtam-se!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Ok! Eu sei. Ainda não faltam 30 dias para o Natal, mas certas coisas devem ser feitas com antecedência. Sei que parece ridículo, mas mais ou menos por esta altura, eu começo a preparar a casa para o Natal.
Descansem os corações mais aflitos, preparar não é decorar, apenas a preparo para receber as decorações e os convivas. Todos aqueles que têm uma casa a seu cargo, sabem do que falo.
Faço uma limpeza mais profunda, encero o chão, tudo o que existe para encerar ou envernizar, também tem lugar nesta data, tapo buracos na parede, retoco a pintura, endireito aquele quadro cujo prego já caiu umas 30 vezes, preparo a lareira (no meu caso é fictícia, fico-me por ir buscar os aquecedores ao sótão e colocá-los em pontos estratégicos), troco e lavo os cortinados, coloco edredons nas camas, vejo que cobertores e roupa já não uso e posso dar, vejo com os meus primos (quando eram mais pequenos) e sobrinha, que brinquedos querem doar, entre outras inúmeras tarefas que guardo sempre para estes últimos dias antes da grande decoração natalícia.

Uma das outras tradições que tenho, é por esta altura, ir até à Serra de Sintra com os mais pequenos e apanhar pinhas, troncos, musgo e tudo aquilo que nos possa parecer que vai dar uma grande decoração de Natal. Chegados a casa e depois de um chocolate quente (Lembras-te Mara? Fizemos isso algumas vezes!), lavamos os objectos, secamos, pintamos e adicionamos tudo aquilo que nos vier à cabeça, para fazer a decoração mais gira do ano. É claro que a pistola de cola quente, sprays dourados ou de neve, fitas de cetim e de veludo, dão um enorme jeito por esta altura.

Na maioria são tarefas enfadonhas, mas que me recordam que tempos de dar, convívio e receber amigos, estão a chegar e então, coloco um CD de Louis Armstrong (a batida das BigBands e os sons da martirizada cidade de St. Louis, têm um poder energético em mim), respiro fundo e após uma boa chávena de café quente, com um pitada de canela, um pão acabado de fazer com manteiga (comprado na padaria, que não tenho tempo para mais), revitalizo e começo esta necessária empresa...

Aqui fica a sugestão.

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