sexta-feira, 21 de março de 2008

Quando acordei deparei-me com um lindo dia azul. Um daqueles dias, que nos faz recordar os contos de fadas, de florestas encantadas, de paisagens bucólicas e não pude evitar de me recordar um texto que li há alguns anos. Por isso decidi partilhar com vocês.

A Primavera

Ai, que lumes e perfumes! Ai, como riem os prados! Ai, que alvoradas se ouvem! (Romance popular) No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. Saio para o horto e dou graças a Deus por este dia Azul. Concerto livre de bicos, fresco e sem fim! A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente. Que manhã! O sol põe na Terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de cem cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa, na fonte. O campo abre-se em estalidos, encrepitações, num fervedouro de vida nova e sã. É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.

Juan Ramon Jimenez - "A Primavera", do livro "Platero e Eu".

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bem alto e em plenos pulmões. Gritar o meu desespero, a minha revolta, de forma audível e inconfundível, para que todos a conheçam. Eu sou a primeira a admitir os meus erros ortográficos (alguns são mesmo de estimação) e de usar, uma ou outra, liberdade gramatical (por vezes dá jeito), mas não consigo compreender, nem compactuar com o novo acordo ortográfico aprovado. Mas nada a fazer! Mais dia menos dia, serão lançados no mercado os novos dicionários da língua portuguesa, (quem diria que eu iria necessitar de um dicionário para saber escrever as palavras que sempre escrevi...), cheios de "palavras mais fáceis de escrever", explicam os entendidos, que "une os diversos portugueses falados pelo Mundo", (e eu para aqui a pensar que a língua era uma só e que já nos unia, numa suave lusofonia), que é como quem diz: o tradicional e o brasileiro.

Mas vou tentar fazer entender-me. O meu problema, começa todo com a ideia do "Mais fácil". Porquê mais fácil? O que temos agora é complicado? Não o falamos e escrevemos desde tenra idade? Porquê alterar o código de escrita? É que da última vez (e já lá vai algum tempo, viva a TV Cabo!) que eu mudei da SIC para a TVI e da TVI para a SIC em horário nobre, a diferença de sonoridade dos portugueses falados, era muito diferente e desculpem-me, mas a minha sonoridade é muito mais fechada, do que o português cheio de vogais abertas, falado pelos brasileiros. Consequentemente, ao escrevermos as palavras da mesma forma (ou de forma aproximada), as minhas vogais irão fechar-se ainda mais. Devo ser das poucas pessoas que ainda escreve "Baptista" e não "Batista", é porque se não sabem o som é diferente, apesar do "P" mudo. Devo ser das poucas pessoas (pelo que vejo escrito em todo o lado) que ainda acha que se conta às crianças "Histórias de encantar" em vez de "Estórias de encantar". Estória?! Esta palavra sugere um sucedâneo de Estore, algo que se coloca nas janelas para tapar o sol. Que diz "Contínuo" e não "Continuado", "Morto" e não "Matado", "Liberto" e não "Libertado". Eu quero dizer ACTOR, ACTRIZ, ACTO, ACTUAR, abrindo a letra "A" sem ter que a decorar como uma árvore de natal. Ela fica tão linda casada com o "C", supostamente mudo! Mas não!
"Temos que simplificar, criar pontes, todos nos temos que perceber. "
O que acontecia até agora? Vivíamos numa Torre de Babel? Ainda bem que existem diversas pronúncias, adoro um sotaque. Mas mudar o português? O português é só um... Chamem-me "Velha do Restelo"; agarrada ao passado e a fantasmas! Digam-me que o Português é uma língua viva e que, por isso, evolui! Digam tudo isso e muito mais, que eu continuarei a achar que isto é um erro crasso.
"Simplificar! Unificar!"
Então simplifiquemos, unifiquemos e falemos todos INGLÊS. É que apesar do Inglês ser uma língua bárbara, privada de diversidade de tempos verbais, de determinantes e adjectivos, acentos, pontuações e outras coisinhas que complicam uma língua, segundo os especialistas, está cheia de vantagens em relação ao Português. Não acreditam?! Aqui estão apenas algumas:
  1. Ecológica: Como tem menos palavras, tempos verbais, determinantes e poupam nas letras, acentos e pontuação, utiliza menos tinta de caneta e toners e, consequentemente, menos papel,
  2. Rápida: por todas as razões acima apresentadas e tenho a certeza que ainda arranjava mais algumas,
  3. Única: ficaria mais de metade do Mundo a falar a mesma língua.
Mas a melhor de todas é que é também mais Económica; é que com o Inglês, não tenho que comprar um novo dicionário; já lá tenho um na estante. Que me dizem?! Eu, por enquanto, apenas digo:
HAAAAAAAAAAAAAAAH (reparem na utilização do H mudo, não foi um acaso)

segunda-feira, 10 de março de 2008

...há alguns dias a questionar-me porque não conseguia definir o homem que procuro e hoje dei por mim a perguntar como posso eu descrever-me e por incrível que pareça, apenas as coisas negativas, ou com as quais eu não estou contente, surgiram automaticamente, nos meus pensamentos, como se fosse um casamento que não deu certo, os empregos e oportunidades que deixei escapar o mau humor, quando não durmo o que devia, o não ter nenhum relacionamento amoroso, digno desse nome desde o meu divórcio; ou o meu corpo, as características que realmente me definem. Li uma vez que quando andamos assim perdidos na nossa identidade não devemos insistir.

O melhor é mesmo, afastarmo-nos das questões complicadas e começar por um exercício simples: realizar uma lista de tudo aquilo que gostamos.

É inacreditável como depressa nos apercebemos da pessoa que somos quando vemos uma lista daquilo que gostamos, em vez daquilo que nos irrita.

A lista que saíu foi esta:

Gosto de escrever, é o meu refúgio, a minha forma de expressão; gosto de café; gosto de limão; gosto de tartes; gosto de filmes, de cinema; gosto de teatro; gosto tanto de ler, que sou incapaz de dizer que livro gostei mais; gosto de viajar, nem que seja na minha mente; gosto de estar em casa, de voltar para casa; gosto de companhia; gosto da solidão e do silêncio; gosto de Arquitectura e de História; gosto de rir de mim própria e com os outros; gosto de elogios, apesar de não saber o que fazer com eles; gosto de África e das suas terras encarnadas; gosto do cheiro que a chuva deixa no ar e do cheiro de livros antigos; gosto de andar a pé; gosto de chorar, liberta; gosto de crianças, das minhas e dos outros; gosto de Samba, Bossa Nova, Jazz e de Fado, gosto dos meus amigos e de estar com eles; gosto de comprar para os outros, mais do que para mim; gosto do Natal; gosto das desculpas para ter todos os amigos e famílias reunidos, nem que para isso tenha que inventar pretextos; gosto de rotinas, só assim posso ter o prazer de as quebrar; gosto de festas de gala; gosto de qualquer festa; gosto de telefonemas de família; gosto das discussões da minha família (admitam: ninguém tem razão); gosto de saltos altos; gosto da liberdades dos rasos; gosto de desportos radicais; gosto de adrenalina; gosto da minha família; gosto dos familiares que ficaram para trás (nunca os deixei de amar); gosto de trabalhar; gosto de organizar; gosto de stress q.b.; gosto de dançar; gosto de cães, gatos e cavalos; gosto de corpos masculinos em forma; gosto de um corpo quente junto meu ao deitar; gosto de perfumes de homem; gosto de beijos e de ser acordada com eles, ou de acordar alguém com; gosto de vinho e boa comida; gosto de cozinhar; gosto de receber os meus amigos e família em casa; gosto das manhãs; gosto das tardes; gosto das noites; gosto do calor, do sol e do mar; gosto do campo; gosto de amar; de perdoar; gosto de sentir; gosto muito de viver.

Agora tirem as vossas conclusões. Tenho a certeza que algumas serão de chorar a rir...


sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Tenho andado às voltas com diversos projectos paralelos, o que me tem deixado algo à deriva em relação a alguns deles. Se consultaram o blog do Tragofadonossentidos, já devem ter reparado numa nova peça de teatro, que aliás tenho que colocar um link aqui também, mas para além dessa empresa, estamos a terminar uma outra para o Verão e eu, não sei porque carga d'água, comecei um novo livro.
Pensei que seria engraçado colocar o livro aqui, como se fosse um género de "test drive", mas receio, porém que seja algo difícil de conceber, pois irá tornar-se confuso intercalar os meus desabafos e pensamentos, com cenas do livro (bem se vê que tenho teatro e o cinema na cabeça, até o livro é dividido em cenas), mas vou ver o que se arranja. Acho que podia ser engraçado, ficar logo a saber da opinião de quem eu mais prezo, quase em tempo real. O que me dizem?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Nunca fui grande adepta das mensagens escritas por telemóvel, a não ser que sirvam, unicamente, para fazer uma comunicação cuja resposta seja sim, ou não. Sempre achei que acabava por ser mais rápido pegar no telefone, dizer o que queria à pessoa do outro lado, ouvir o que essa pessoa tem a dizer e esclarecer logo tudo, o que tiver que ser esclarecido, pois sempre que utilizei os "sms" para conversas, estas prolongaram-se por eternidades, as coisas não ficaram esclarecidas e houve, quase sempre, algum tipo de mal entendido.
Isso sempre foi algo que me fez alguma confusão, pois sempre considerei a "palavra escrita", cristalina, pura e isenta de segundas intenções. Quando se escreve um "Não", a palavra não pode, não deve, ter outro sentido para além do "Não". Quando se diz "Não", muitas vezes esse "Não" pode ser irónico, algo que é normalmente acompanhado por uma inflexão na voz, um riso nos lábios, um piscar de olho, um movimento qualquer do corpo que acompanha o som da palavra e que transforma um "Não", num "Sim", num "Talvez".
Quando lemos uma longa narrativa, também conseguimos depreender novos significados a trechos inteiros, a palavras ou frases. Mas quando uma mensagem fica reduzida a umas dez palavras, apresentadas numa forma simplificada de escrever, não pode ter espaço a segundas interpretações, a metáforas ou ironias. Mas tem! Não sei bem como, mas tem! As palavras são mal interpretadas, ganham segundos significados que nunca passaram pela cabeça de quem as escreveu e ficam diminuídas a um significado que apenas diz respeito à própria personalidade de quem as leu.
Nas aulas de Português, ninguém compreendia porque tínhamos que saber a vida do autor (algo mais relacionado com a cadeira de História), antes de lermos a sua obra. Mas um professor (não me recordo do ano, pois para mim foi sempre o meu professor de português, independentemente de todos os outros que tive), explicou, com toda a naturalidade com que as coisas lógicas merecem, que tal acontecia, porque tínhamos que ver a sua obra com os seus olhos e não com os nossos. Se mais tarde nos identificamos com os sentimentos e ideias do autor, óptimo, mas se não, então as palavras do escritor, são as palavras do escritor e não um reflexo do que nós queremos que elas sejam, ou da nossa alma.
Creio que a maioria das pessoas esqueceu-se dessa lição (eu também), ou então, nunca a compreenderam. Se o tivéssemos feito, nunca leríamos um "Não" como um "Sim" e nunca acharíamos que algo escrito por outra pessoa (que muitas vezes o faz a contragosto), pudesse significar algo diferente daquilo que as palavras significam.
Quando uma pessoa escreve, está a finalizar um acto pensado, reflectido e preparado. Pensar que essa escrita, esse código, está aberto a interpretações resultantes de uma "transpolação"(será que esta palavra existe?) de sua própria personalidade, é um erro crasso.
O escritor na altura que escreveu, já sentiu, pensou, racionalizou e definiu o que queria. Mais tarde, pode vir a pensar, sentir e racionalizar outra coisa oposta, mas o significado da palavra que fora anteriormente escrita, não altera a não ser que outras palavras sejam de novo escritas como culminar desse novo processo.
Bem, mas já divaguei demasiado e a conclusão deste desabafo é que: Nunca mais vou trocar mais do que 2 mensagens sobre o mesmo assunto, com a mesma pessoa. E sim, isto foi resultado de um processo no qual senti, raciocinei (quem diria!) e codifiquei.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Não foi de propósito mas que calha bem com a comemoração do dia de S. Valentim na próxima semana, calha.

No outro dia pediram-me para que descrevesse o meu homem ideal, aquele que eu não teria qualquer dúvida de que poderia vir a ser o pai dos meus filhos e eu fiquei sem resposta. A verdade é que nem sempre sabemos o que procuramos, ou melhor, sentimos o que queremos, mas não o racionalizamos. Na maioria das vezes, sabemos de cor, as características que não queremos, mas torna-se mais complicado, quando toca a dizer, claramente, o que realmente queremos.

Creio que isso se deve ao facto de acharmos que a nossa cara metade anda por aí, perdida, à deriva, tal como nós; gaivotas pairando no ar à procura da próxima corrente de ar quente e que chegada a altura, uma determinada altura, uma hora prevista por uma força qualquer invisível, os dois seres se irão encontrar, reconhecer-se e encaixar por artes mágicas. "Quando tiver que acontecer, acontece", é o que todos pensamos, mas e se não fôr?! E se realmente existir uma outra metade para a nossa laranja (e aqui são livres de pensar em qualquer outro fruto, ou forma geométrica) e se a tal "força" que teima em não se mostrar, a colocar no nosso caminho e nós não a reconhecermos? Será que a ausência de características por nós consideradas negativas é o suficiente para reconhecermos alguém?

Um amigo disse-me que não existem acasos do destino, que as pessoas quando se apaixonam, não foi por causa do destino, mas sim porque naquele momento se sentiam "Apaixonantes". Na altura dei a importância que poderia dar a uma questão daquelas, mas agora, depois da minha incapacidade de dizer o que eu quero, coloquei-me a pensar: seria aquilo apenas uma nova forma de dizer que temos de gostar de nós para que outros também gostem? Que temos que emitir energias, vibrações, hormonas, (ou seja lá o que fôr), que transmitamos aos outros que nos achamos dignos de se apaixonarem por nós, para que realmente tal aconteça? Mas isso não deita abaixo toda a outra teoria que existe (e esta é a expressão que mais gosto) um tampa que encaixa na nossa panela, automaticamente?

Pelo sim, pelo não e não vá a ausência de características negativas ser suficiente, para reconhecer o que nos está destinado, já comecei a fazer uma listagem de tudo aquilo que procuro num companheiro.

Quem sabe, ainda não o venho partilhar convosco...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

É impressão minha ou este Carnaval ficou muito próximo do Natal? Mal tenho tempo para respirar. Bem mas este ano tenho que cumprir uma promessa. A minha sobrinha pediu-me para mascarar com ela e eu tive a infeliz ideia de dizer que sim.


Pensei muito no que iria vestir, inclusivamente pensei em vestir apenas umas roupas velhas e dizer que seriam a máscara de qualquer coisa, mas não. Fiz uma promessa e vou cumpri-la com todo o brio e garbo. Acabei por pensar numa máscara de pirata e é isso que vou ser naqueles 3 dias de folia, Uma Mulher Pirata.


Sempre dá para pensarmos noutras possibilidades, em universos paralelos e em: " E se?!"


Sou da opinião que todos os dias usamos uma máscara, uma máscara que fomos aperfeiçoando ao longo dos anos de vida, de forma a defendermos-nos do que nos rodeia, de forma a criarmos uma maior sensação de segurança em relação ao Mundo. Muitas vezes essa máscara não corresponde com o que realmente somos ou queremos ser, no Carnaval temos hipótese de escolher algo que se aproxima mais desse outro Eu, que tanto almejamos.


Divirtam-se!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

 
DSCF1250 Custa tanto. Passo muito tempo a preparar o Natal, a escolher as decorações, cada uma das coisas que vou oferecer, o serviço de mesa que vou usar, os talheres que combinam a toalha exacta, o centro de mesa perfeito e em menos de nada, já é um novo ano, os Reis já passaram e fica o trabalho de tudo arrumar.

Mas mesmo assim, com todo o trabalho e um aperto no coração por ter terminado, posso afirmar que valeu a pena. Foi óptimo ter a família reunida, a mesa farta, as músicas, o calor da casa cheia, até mesmo os 4 kilos que ganhei valeram a pena. Ficaram as recordações de sorrisos, abraços e lágrimas e um elixir que nos enche de forças para mais um ano que já iniciou e que terminará, indubitavelmente, com outro Natal e outra festa de passagem de Ano.

A todos vocês, família e amigos do meu coração, que contribuíram para que este fosse outro grande Natal: OBRIGADO!

A todos os Outros: um Feliz Ano de 2008 e que consigam tudo o que mais desejam.

Não se esqueçam que todos os milagres começam com um pensamento!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Nunca é. Mas que é compensador, não tenho qualquer dúvida. Mais tarde irei colocar aqui, imagens do meu Natal, por enquanto fica aqui uma ideia.

A verdade é que com o emprego, os amigos e a família, estou quase a uma semana a tentar acabar a decoração da minha casa e ainda faltam duas divisões e alguns pormenores que ficam sempre para mais tarde. Mas está a ficar bonito. No entanto o meu sonho de um Natal Victoriano teve que ser adiado para dias melhores, por este ano fizemos algo que está entre o Natal tradicional português e o Mundo Fantástico do Natal, dedicado única e exclusivamente à coqueluche da família: a minha sobrinha de 6 anos, Iara. No outro dia falava com um amigo em como era importante criar o espírito correcto de Natal nos petizes. Ele, que tem uma filha linda, disse-me; como é que isso é possível, se mesmo para comprar um calendário do advento num hiper-mercado, apenas se consegue encontrar com figuras do Nody, da Puka, da Hello Kitty e afins, remetendo as crianças para o consumismo de merchandising destes "Bonecos Marca"? Realmente é difícil, mas não impossível e ontem tive a prova disso mesmo, quando às seis e quarenta e cinco da manhã, a minha sobrinha veio ter comigo à cama, acordou-me e disse: "Não achas que estás a dormir demais? Ainda temos muita coisa para fazer. Temos que acabar de decorar a sala grande (sala de jantar da minha casa), temos que pintar as pinhas para as argolas dos guardanapos e ainda tenho que escolher um brinquedo antigo meu, para dar a outras crianças que não têm. Despacha-te tia."

Ela é uma menina linda e de bom coração, sempre pronta a ajudar, mas sempre pronta a pedir também, mas enquanto fazia a carta para o Pai Natal disse: "Eu sei que ele não vai poder dar-me tudo, existem muitos meninos, mas se me der apenas um já é bom, não fico chateada. Todos temos que contribuir, para que todos possam ter um pouco." Isto foram literalmente palavras dela, palavras tão crescidas para quem tem meia dúzia de anos.

Esta foi sem dúvida e ainda antes do dia 25, o melhor presente que eu poderia ter recebido.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Por esta altura do ano, eu já sei muito bem que tipo de decoração eu quero para o Natal, mas este ano ando um pouco à toa. Meti na minha cabecinha romântica que queria um Natal Victoriano e isso meus amigos, é mais complicado do que parece. Quando vemos os filmes dos anos 50, parece tudo simples, que basta uma ramadas verdes, fitas de veludo bourdeaux, grinaldas de pipocas e velas por todo o lado, para que a decoração fique pronta... mas parece que é muito mais do que isso. Em primeiro lugar estou com dificuldade em encontrar ornamentos a que ache realmente piada, e os que eu acho giros, têm preços que me fazem fugir. Em segundo lugar, tenho a sensação de que vai parecer uma decoração feita pela minha avó (que tinha muito bom gosto, tanto quanto sei), mas definitivamente, talvez não seja a decoração mais actualizada.
Sei que parece estúpido perder tempo com estes problemas, mas para mim, estes pequenos detalhes, são a minha forma de comunicar, de mostrar aos outros que me preocupo com eles, que quero que eles gozem tanto o Natal, como eu e admitamos, não há nada melhor para isso (como diz a música), do que azevinho e cheiro do peru no forno, castanhas a assar na lareira, um bolo pronto a enfeitar pousado na mesa e uma coroa na porta da casa, a desejar a todos um santo Natal.
Sei que no fim, tudo vai ficar giro, fica sempre, mas por enquanto, ainda não faço ideia do que vou fazer. Se tiverem ideias quanto a decorações Victorianas, imagens ou algo que me possam ajudar, agradeço que me deiam a conhecer.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Tanta coisa com o s 30 dias para cá, 30 dias para lá e quando realmente faltavam 30 dias para o dia de Natal, não pude escrever nada. Falhei redondamente, mas aqui estou eu, a admitir a minha culpa e a pedir a todos desculpa.
Mas aí está ele, a menos de um mês, cheio de vontade de entrar de mansinho pelas nossas casas a dentro, de nos invadir por dentro das luvas e cachecóis, fazer-nos marcar jantar de amigos, arranjar o presente ideal para ver aquela pessoa especial, desfazer-se num sorriso ao desmanchar o embrulho que demorou tanto tempo a fazer e cantar, cantar desmedidamente todos os jingles de que nos conseguimos recordar.
Agora meus senhores, é só não resistir e deixarem-se guiar pela maré de paz e boa vontade que todos podemos criar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Ok! Eu sei. Ainda não faltam 30 dias para o Natal, mas certas coisas devem ser feitas com antecedência. Sei que parece ridículo, mas mais ou menos por esta altura, eu começo a preparar a casa para o Natal.
Descansem os corações mais aflitos, preparar não é decorar, apenas a preparo para receber as decorações e os convivas. Todos aqueles que têm uma casa a seu cargo, sabem do que falo.
Faço uma limpeza mais profunda, encero o chão, tudo o que existe para encerar ou envernizar, também tem lugar nesta data, tapo buracos na parede, retoco a pintura, endireito aquele quadro cujo prego já caiu umas 30 vezes, preparo a lareira (no meu caso é fictícia, fico-me por ir buscar os aquecedores ao sótão e colocá-los em pontos estratégicos), troco e lavo os cortinados, coloco edredons nas camas, vejo que cobertores e roupa já não uso e posso dar, vejo com os meus primos (quando eram mais pequenos) e sobrinha, que brinquedos querem doar, entre outras inúmeras tarefas que guardo sempre para estes últimos dias antes da grande decoração natalícia.

Uma das outras tradições que tenho, é por esta altura, ir até à Serra de Sintra com os mais pequenos e apanhar pinhas, troncos, musgo e tudo aquilo que nos possa parecer que vai dar uma grande decoração de Natal. Chegados a casa e depois de um chocolate quente (Lembras-te Mara? Fizemos isso algumas vezes!), lavamos os objectos, secamos, pintamos e adicionamos tudo aquilo que nos vier à cabeça, para fazer a decoração mais gira do ano. É claro que a pistola de cola quente, sprays dourados ou de neve, fitas de cetim e de veludo, dão um enorme jeito por esta altura.

Na maioria são tarefas enfadonhas, mas que me recordam que tempos de dar, convívio e receber amigos, estão a chegar e então, coloco um CD de Louis Armstrong (a batida das BigBands e os sons da martirizada cidade de St. Louis, têm um poder energético em mim), respiro fundo e após uma boa chávena de café quente, com um pitada de canela, um pão acabado de fazer com manteiga (comprado na padaria, que não tenho tempo para mais), revitalizo e começo esta necessária empresa...

Aqui fica a sugestão.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

 
Aqui fica uma receita de "confort food", para sentir o Natal um pouquinho mais perto. Façam uma tarte de maçã, com massa quebrada e para recheio, maçã cortada aos gomos, colocada por camadas, intercalada com açúcar mascavado escuro, canela e gengibre. Se quiserem e gostarem, podem adicionar também, umas gotas de sumo de limão e passas. Acamem até chegar ao topo da tarteira de fundo amovível. Enquanto vai ao forno médio, por 15 a 25 minutos, preparem um chá.

Para o chá deixo duas sugestões: "Christmas Black Leaf Tee" (do IKEA), Chá Verde com Aromas do Oriente, da Lipton, que tem um cheiro maravilhoso a anis. Deliciem-se com o conforto que este lanche trás ao coração. Conhecem algo que cheire mais a Natal?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

 

Agora que o frio já se vai fazendo sentir (apesar de Novembro já ir a meio), tudo já começa a cheirar a Natal.

Na verdade talvez não cheire, mas eu quero que cheire, quero sentir o seu odor e confortar-me com ele. Tenho saudades do Natal, constantemente. No Dia dos Reis, largo sempre uma lágrima, porque o Natal acabou e nesse mesmo dia, as minhas entranhas sentem logo os sinais de uma nostalgia que me invade automaticamente.

A bem dizer, eu sinto mais do que saudades do Natal, eu sinto falta do que o Natal me recorda e faz sentir, porque o Natal para mim é como África, como a minha Angola e eu sinto saudades delas também.

Sei que parece contrasenso, que o Natal é frio e neve, bonecos brancos com nariz de cenoura, cachecóis, gorros e meias de lã, e o consumismo absurdo, tão comum por terras ocidentais. Mas para mim, o Natal é calor, o calor dos chás aromáticos com especiarias do Norte d'África e Oriente, o calor das lareiras, cujas cor das chamas recordam o pôr-do-sol de paragens mais a Sul, é o calor do encarnado por todo o lado, que recorda a cor da terra fértil d'Angola, é o calor do convívio entre famílias e amigos que eu recordo dos tempos de Luanda, é o calor de todos sentados à mesa, apreciando iguarias que demoraram horas a preparar, é o calor da música festiva que nos aquece o coração.

Já repararam que é quase impossível lembrar África, sem associar música ao pensamento? É como o Natal! Natal sem Jingles, Bing Crosby, Louis Armstrong, Aretha Franklin, Frank Sinatra, nem as portuguesas Janeiras, não é Natal! Tirando o Carnaval, onde a ideia do calor do samba nos faz mover os pés, lembram-se de outra comemoração que associem à música? Eu não!

Sei que ainda faltam mais do que 30 dias para..., mas eu já vou sentindo falta do Natal.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Conhecem o ditado que diz: "A curiosidade matou o gato!"? Pois bem, se um gato eu fosse, já teria morrido muitas vezes. Recordo-me de uma em particular, (porque agora o cenário me é familiar), na qual estava eu a passar o Tejo, da margem Norte para a margem Sul, num barco para o Barreiro, num dia de Primavera, ou talvez não! Creio que seria Primavera. Eu vinha na proa e havia sol, mas não muito calor, suponho por isso, que fosse Primavera, ou talvez um daqueles Outonos bonitos em Portugal, que mais parecem Primaveras. Era então Primavera, ou Outono, se preferirem, pois não havia calor nem frio suficientes, para ser Verão ou Inverno.

Era essa época do ano e eu estava a filtrar os raios de sol (que eu gosto tanto), com a minha pele. Ao meu lado, um rapaz, talvez universitário, não sei, não me recordo, eu não tinha mais de doze anos e todos os rapazes mais velhos pareciam-me sempre universitários, estava a escrevinhar qualquer coisa, num caderno de capa preta, como tantos que eu iria ter pela minha vida fora. Creio que ia de visita à minha tia. Sim, disso tenho a certeza. A minha tia morava no Barreiro e essa era a única razão, pela qual eu apanharia aquele transporte: para a ir visitar. Talvez estivesse também com a minha irmã. Ela andava sempre comigo, por isso é mais do que provável que ela lá estivesse, mas não me lembro dela neste episódio e só por isso, não é importante.

Estava então na proa do barco, brisa na face, raios de sol na pele e o rapaz, provavelmente universitário, a escrevinhar qualquer coisa nas linhas de um caderno, cuja capa preta seria pouco mais grossa que o papel pautado.

Sei perfeitamente que a escrita é um acto privado, talvez o mais privado de todos e que invadir esse acto é um grave crime que atenta à privacidade. Já nessa altura o sabia. Sabia também, que mais tarde o produto dessa escrita, pode ou não ser partilhado, mas na altura do acto, quando o que se escreve ainda não é produto, mas sim confissões da mente, é algo que não deve ser invadido. Mas compreendam-me: era Primavera, ou Outono, num barco a atravessar as águas do rio Tejo, para o Barreiro, sol na cara, brisa no cabelo, rapaz, talvez universitário, ao lado e eu sem nada para fazer, a ouvir as gaivotas grasnar e as conversas sem interesse dos restantes viajantes sem rosto e aquela caneta, caneta azul, em plena batalha com aquele papel branco de linhas pretas, a produzir um som que agora conheço tão bem, a reproduzir algo privado, que não era de todo, da minha conta; provocava em mim, uma luta interna, na qual uma parte de mim dizia: "Olha!" e a outra dizia: "Não é nada contigo!"

Já não faltava muito para chegarmos e a caneta azul não parava e eu, eu lutava para não olhar, não olhar. O céu azul, os raios de sol, a brisa macia, as gaivotas barulhentas, as conversas surdas, o balançar do barco e a curiosidade a roer dentro de mim. Olhei! Sim, olhei, passei a barreira da privacidade e espreitei para além do ombro, para além das mãos do rapaz, (talvez universitário) e li as linhas que a sua mão ia deixando visíveis:

«..num barco, a caminho do Barreiro, eu escrevo, escrevo sem saber porquê, apenas porque tenho necessidade de transcrever o que penso. Uma miúda abelhuda olha para mim, para o meu caderno e lê o que eu escrevo...»

Não li mais. O sangue subiu-me à face, corei, afinal, a minha invasão havia sido apanhada e equivalia a eu espreitá-lo num duche, a ele, aquele rapaz, talvez universitário. Era como se os nossos olhares se tivessem cruzado e ele tivesse deixado cair a toalha, ou aberto a cortina da banheira.

Por isso agora, sempre que escrevo, como se tornou meu hábito a toda a hora e em qualquer lugar, e sempre que alguém espreita o que eu escrevo, recordo-me deste episódio e quase sinto o cheiro da maresia, a brisa mole nos cabelos e os raios de sol na pele.

Assim, como no velho ditado popular: "A curiosidade matou o gato!", também eu já poderia ter morrido muitas vezes, para isso bastava que em vez de humana, fosse um pequeno e doméstico felino.

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