terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Decidi que ia pedir ao Pai Natal alguém com quem podesse partilhar a minha vida, o meu corpo, a minha alma, a minha felicidade.

Li a carta cheia de orgulho da bonita caligrafia e do papel bem escolhido e num impulso, rasguei-a. Comecei a escrever outra, onde pedia, simplesmente, que fizessse com que algum homem se sentisse atraído por mim. Esta teve o mesmo destino que a anterior, pois pedia algo que já tenho. Pensei melhor e recomecei a escrever a terceira carta. O mesmo papel, a mesma caneta, a mesma caligrafia cuidada.

«Querido Pai Natal;

Na minha árvore, este ano, eu queria algo especial: um sentimento muito particular que uma vez já tive e que, por alguma razão alheia ao meu consciente, perdi. Este Natal, querido S. Nicolau, desejo ter de volta a "Capacidade de me Apaixonar".

Certa de que é um pedido complicado, compreenderei a demora da entrega.

Despeço-me com a mais elevada consideração e devoção.

Votos de um feliz Natal junto dos seus e que tenha neste e em todos os anos muito trabalho.

Com um beijo, desta que o respeitará para sempre. - Ass. Iris Barroso»

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

 
 
A minha irmã estava de folga, pelo que senti a falta da voz da minha sobrinha às seis da manhã, mas às sete, o telemóvel deu o alarme e ao som de Mondobongo de Joe Strummer e os Mescaleros, o meu cérebro, lentamente, acordou. Mas foi mesmo muito, muito, muito, lentamente. Começou por dar ordem aos olhos para abrirem, mas estes em contacto com a pele, decidiram ficar quietos. A pele sentia-se quente e protegida e pediu aos olhos, mais alguns minutos de tranquilidade.
 
O cérebro pediu então aos músculos que se mexessem, que se espreguiçassem, que induzissem alguma energia ao resto do corpo em plena greve, mas estes mal estremeceram, fizeram a pele sentir-se refrescada, numa nova posição e os nervos enviaram nova mensagem ao cérebro, pedindo mais alguns minutos de tranquilidade.
 
O cérebro pediu então, num apelo quase desesperado a todo o corpo para que acordasse, que já eram horas, mas os ouvidos ignoraram o novo alarme, os músculos recusaram a mover-se, os olhos mantiveram-se quietos e a pele, esse órgão tão importante e tantas vezes ignorado, gritou:
 
- Deixa-te ficar mais um bocado! - Assim o cérebro fez e, numa retirada estratégica, sonhou acordado por mais um pouco. À terceira repetição do alarme, encheu-se de energia e berrou:
 
- Acorda, corpo gordo e preguiçoso, o descanso acabou! - os olhos irritados mantiveram-se fechados e a pele aquecida pediu aos músculos para não se mexerem, mas estes, como soldados bem treinados e ofendidos pelo insulto gritado pelo cérebro, moveram o corpo num impulso, contraindo os abdominais, ao mesmo tempo que os bícepes e os lombares, deixando o corpo na posição de um gato a espreguiçar-se ao sol, com os lençóis a escorregarem para todo o lado.
 
A pele sentiu assim o frio da manhã e num arrepio mal humorado, disse então aos olhos:
 
- Abram lá! Já chega de mandriar!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ela tem a sua primeira oportunidade de o observar, sem ser vista. Levanta os olhos e vê um homem, aparentemente um militar. A sua intuição assim o diz, a roupa que ele veste e a camisa que a aquece, também. O seu corpo é extremamente musculado, mas de certa forma, é-lhe familiar. Aquela configuração não a assusta, ela já a conhece bem. O cabelo dele é negro, quase tão escuro quanto o seu e curto, como convém a um bom soldado. É alto. Bem mais alto que ela. Talvez um metro e oitenta e cinco, quem sabe mais, mas ela não tem a certeza. Veste umas calças pretas, cheias de bolsos, fechos e presilhas. A camisa não mostra qualquer insígnia, talvez estivesse numa missão secreta, mas ela podia quase afirmar, que ele era um oficial. Deve rondar os trinta anos, mas não consegue ter a certeza. Existe pouca luz, para que se possam ver bem as feições. À cintura, um cinturão, uma navalha e uma arma automática, talvez uma Beretta de sete milímetros, num coldre. Instintivamente olha para a perna direita, junto à bota e repara que algo falta, mas não sabe o quê, nem sabe porque é que procurou.
- Vem cá. – ordena num tom seco e ríspido, que, mais uma vez, não lhe é estranho – Vem cá! – secunda, desta vez com uma voz mais grave que a assusta, fazendo-a encolher-se. No ar existe um cheiro a eucalipto, a terra molhada, a fumo e a musgo, que a embriaga. – Vem cá, imediatamente! – grita-lhe, por fim.
Ela levanta-se num gesto único de gata selvagem, quase sem barulho. Controla a sua respiração acelerada pelo medo e ganha uma nova confiança. Respira fundo. Aperta devagar todos os botões da enorme camisa que lhe foi emprestada e arregaça as suas mangas. Uma ordem tinha-lhe sido dada, mas ela não tinha conhecimento de que teria de obedecer. Não, rapidamente, pelo menos, e por isso, tomou o seu tempo. Ele ouviu-a. Tinha sido treinado para isso, mas estava confuso. Aquele pequeno ser baralhava-o mais uma vez. Ele ia gritar-lhe novamente, mas antes que fosse necessário, ele ouve-a a dar os primeiros passos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

 

 

Há alguns dias (mesmo muito poucos), uma adolescente de 16 anos, acusou-me, publicamente, de ser a "Rainha das Tradições" e de ter uma imaginação demasiado fértil (Está descansada que eu sei que foi com boa intenção. Ainda não foi desta que o pai Natal te tirou da lista.)

Fez-me pensar e tive uma conversa comigo mesmo, demasiado longa, confusa e socrática, para aqui a reproduzir. Pensei e repensei, escrevi e rasguei, reescrevi e voltei a rasgar, escrevi uma última vez, li e cheguei à conclusão que, no mundo em que vivemos, na vida que tenho tido (com este eterno ganhar para depois perder), talvez e apenas essa imaginação, esse agarrar de pequenas coisas, tenha sido a razão para continuar com a vida.
 
Continuo, dia após dia, mês após mês, ano após ano, porque apesar de tudo, ainda acredito, ou pelo menos (se formos literais com a palavra imaginação), penso acreditar, que a vida vale a pena viver, que o Mundo está cheio de coisas boas e que a magia e todos os seus porta-vozes, nunca permitirão que a esperança morra... pelo menos a minha!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

 
 
Mesmo aquelas que vão sendo criadas ao longo do tempo num grupo restrito de pessoas, a quem alguns chamam família.
São lindas porque nos ajudam a recordar o quão importante é o trabalho em grupo, o quão forte pode ser uma família unida, o quão pouco importante é tudo aquilo, que por ser negativo e externo ao nosso grupo, não nos pode afectar e principalmente porque nos obriga a encontrar ainda mais vezes e a reforçar os laços que nos unem.
 
Mas para além de lindas são divertidas e este fim-de-semana voltou a provar isso mesmo. Graúdos e miúdos divertiram-se como reis, num dos cenários mais lindos do Mundo, mas como uma imagem vale mais que mil palavras, vejam vocês mesmos, no novo slide show, que coloquei na barra lateral, espero que gostem!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

 

E é basicamente isso que tenho para dizer. Faltam 30 dias para a festa que eu mais gosto.

Já comecei os preparativos, (leiam-se as limpezas) e no fim-de-semana, a tradicional ida a Sintra, com a minha sobrinha e prima e talvez, até alguns amigos se juntem a nós. Espero que sim pois o que mais me agrada nesta época do ano é a partilha e eu adoro partilhar os momentos felizes com os meus amigos.
 
Por isso espero que aceitem o meu convite, que se juntem a nós neste passeio pela Serra Encantada, que redescubram os monumentos, a aura de magia, que desfrutem da companhia de quem lhes quer bem, que se deixem guiar pelos risos e brincadeiras dos mais pequenos, que mergulhem de cabeça no espírito natalício e deixem invadir as suas almas pela boa disposição, bom humor e boa vontade.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

 
 
Com todo o respeito e consideração que tenho pelos profissionais, acho um gozo, este tipo de títulos nos jornais. É um gozo por diversas razões, mas vou apenas enumerar duas.
 
A primeira é que infelizmente, os taxistas são uma profissão que coloca em risco, todos os outros condutores. A segunda é que nos tempos que correm, posso enumerar facilmente mais do uma dúzia de outras profissões que correm muito mais risco que os taxista, como por exemplo: Pescadores, Polícias, Bombeiros, Mineiros, Lojistas de Ourivesarias, Empregados de Bombas de Gasolina, Empregados de bares e Estabelecimentos Nocturnos, Professores, Enfermeiros, Médicos, ou simplesmente pessoas que passeiam na rua ou utilizam transportes públicos...
 
Não sei! Creio que foi só um pensamento.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

 

Sempre amei os filmes do 007 com as suas armas, os carros, a classe, as lutas, as roupas, as intrigas internacionais e o suposto secretismo. Sempre achei piada ao facto do 007 ser um agente muito pouco secreto.

E assim sendo, é claro que esperava ansiosa pela estreia de mais uma sequela deste enredo que adoro, principalmente, depois de ter ficado agradavelmente surpreendida com o Casino Royal, com o Daniel Craig.

Comprei os bilhetes à hora de almoço (não fossem esgotar) e arrastei a minha mãe comigo, até ao Alvaláxia, ontem à noite, antecipando cada segundo do filme que morria para ver. E foi isso que aconteceu! Morri a cada cena, sustendo a respiração a cada corrida, a cada movimento de luta, a cada mudança (que parecem intermináveis nos filmes) que o Daniel metia no seu Aston Martin, a cada piada entre ele e M, a cada trocadilho, a cada "gadget" (que têm um valor muito pequeno neste filme).
O 007 está mais mortífero que nunca e muito se deve ao novo Actor (Daniel Craig), que na minha opinião, simplesmente incorporou a essência do verdadeiro James Bond: classe, elegância, distância, eficiência e uma capacidade de matar com três movimentos, que afasta qualquer outro agente, herói, ou cartoon da sua liga, onde reina sozinho e sem par.
Nunca o 007, matou tantos vilões, sem ordem para matar. Genial!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Porque será que eu hoje sinto que todo o mundo está de parabéns? Porque é que eu sinto que mais do que os Americanos, hoje, todo o planeta elegeu um presidente?
E porque é que será, que eu acho isso algo maravilhoso, algo digno de memória, algo digno dos livros de História, algo digno de cidadãos do Mundo e para o Mundo? Martin Luther King (na fotografia) dizia há uns anos atrás, que tinha tido um sonho... hoje por volta das 4 da manhã eu vi esse sonho tornar-se realidade e convenci-me a mim mesma que tudo, mas mesmo tudo é possível e que nada, mesmo nada, pode parar o Homem, quando este sabe o que quer. "Yes we can!" Acho que a humanidade está de parabéns e eu estou feliz.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sempre me disseram que a força do pensamento era a mais poderosa do universo. Até posso concordar com isso, não numa forma do livro "O Segredo", mas sim, é poderosa.
Mas para que um pensamento seja poderoso este terá que se materializar, tornar-se real, dar-se a conhecer e só assim poderá, na minha opinião, ter verdadeira força no mundo.
No outro dia, deparei-me com um pensamento e com uma tentativa de mensagem, bem num estore do comboio onde eu seguia (que poderão ver na fotografia desta mensagem) e fiquei triste. Fiquei triste, porque aqui está um exemplo de alguém, que por não ter prestado atenção nas aulas, nunca poderá dar a conhecer os seus pensamentos de forma eficaz e logo, nunca poderá fazer com que os seus pensamentos tenham realmente força para alterar algo.
É que para o povo se unir, Precisa de perceber a mensagem e se a mensagem não é bem transmitida, nunca passará de um pensamento, mas este estará para sempre encerrado na mente de quem o teve e nunca, nunca, poderá ter real força.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ela estava a chorar. Não caíam lágrimas, porém ele conseguia vê-las, via-as inundarem o peito da sua amada, a encherem o seu pulmão, a asfixiarem-na de mansinho, a darem um nó na sua garganta, a taparem os seus ouvidos, a matarem-na.
Teve vontade de a beijar, de sorver cada gota daquele líquido límpido e salgado que tanto a angustiva. Teve vontade de a abraçar, de a abraçar com tanta força que a tornaria parte de si, um único ser indivisível, para sempre juntos, para sempre, eternamente, um.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sempre ouvi dizer que os sonhos eram a preto e branco. Sempre refutei tal ideia, até porque tenho uma grande capacidade de recordar o que sonhei e uma das coisas que se destacam nessas recordações são mesmo as cores.
Porém há mais de uma semana que sonho a preto e branco, sonhos tristes e cinzentos, como a claridade suja de Londres e a claustrofobia do grande monstro de cimento Nova Iorquino.
Há uma semana (mais coisa, menos coisa) que não acordo contente, com um sorriso nos lábios ou com a recordação de uma cor de céu impossível de existir, mas que apenas por ter estado na minha mente durante o sono, era real e palpável. Os meus sonhos coloridos fazem de mim uma mulher mais bem disposta e eu não os quero perder.
Se os sonhos fossem a preto e branco para sempre, a cor morreria em mim.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Como se a chuva ainda não tivesses sido prenúncio suficiente de que o Verão, realmente já tinha acabado (E continuo à espera do Verão mais quente dos últimos anos!), hoje, quando cheguei de manhã a Lisboa e estava a sair da estação do Rossio, um cheirinho familiar, que faz as minhas papilas gustativas começarem a salivar tal qual "Cão de Pavlov", anunciava o retorno das castanhas.
Convém dizer que são muito poucas as coisas que me fazem vibrar no Inverno e se pudesse, faria como os ursos e hibernaria durante todo este período. Entre essas raridades estão as castanhas, a promessa do Natal, as luvas, os chapéus e os cachecóis. Não me perguntem porquê, mas gosto destas 5 coisas, fazem-me ficar quente e bem disposta, pena que com elas vêm os casacos, os guarda chuvas, as meias, os camisolões, o frio, o frio e o frio.
Mas não hoje! Hoje houve apenas aquela promessa do sabor adocicado, suave e macio das castanhas na minha boca, nos assados e no arroz (que acabarão na minha boca também), acompanhadas de vinho novo, jeropiga e vinho do porto. E isso meus senhores, é um manjar dos céus e algo que faz sentir feliz.
Fiquem bem!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Andava eu a passear na net e a ver as novidades em anúncios e deparei-me com esta foto da D&G. à primeira vista, perdoem os meus olhos femininos, apenas prestei atenção aos belos abdominais dos modelos. Passado um pouco (alguns segundos apenas, não pensem mal de mim), reparei na sugestão do sonho erótico de violação e neste caso com mais do que um homem.
Continuei a procurar e fiquei a saber que a campanha estava em "águas de bacalhau", porque havia queixas de militantes feministas, exactamente por causa dessa mensagem. Pesquisei mais um pouco, li diversas opiniões e fiquei a saber, que mais de 75% das mulheres sonha em ter sexo com mais de um homem e que 35%, gostava que fosse forçado, ou de pelo menos, imaginar que seria forçado, num jogo sexual.
Assim sendo, e visto que o sexo na publicidade, até à data, tem sido uma fórmula eficaz como meio de venda para o mercado masculino, pergunto-me porque não utilizar um dos imaginários sexuais mais recorrentes da mente feminina, para vender? Apenas porque um grupo restrito de mulheres acha ofensivo?
Que acham?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

 

No outro dia tive uma daquelas temidas conversas com a minha sobrinha de 6 anos.
- Tia! - chama enquanto se aproxima - Eu ouvi uma palavra, que é uma asneira, eu sei que não se diz... - Fala comigo em segredo - Posso perguntar o que quer dizer? - E eu, tremendo por dentro por não saber o que teria que responder, digo:
- Claro! Pergunta sempre o que quiseres. - Então, aproxima-se um pouco mais e diz-me ao ouvido:
- P*t*. - disse tão baixo que nem consegui ouvir, por isso repete, desta vez, uns décibeis mais elevados, mas ainda assim, de forma inaudível. Depois repete uma terceira vez e dessa vez eu entendo.
- Olha! - Tento ganhar tempo para pensar numa resposta - Vai buscar a escova para te pentear e depois eu digo o que quer dizer. - Ela obedece. Volta com a escova e eu sem saber muito bem como, começo a falar - Essa palavra... - Opto, conscientemente, por não a repetir - Quer dizer, ou melhor, é o nome que se dá a mulheres que têm muitos namorados. - Depois arrependo-me do que digo, não quero transmitir a ideia de que ela não pode namorar, ou experimentar. Sei que é cedo para isso, mas a dúvida pode ficar dentro dela e não quero. Para além disso, a palavra não quer dizer isso. - Melhor... não é que tenham muitos namorados, que não há mal nisso.
- Então o que é?
- É que ter muitos namorados é o trabalho delas. Os homens pagam para elas serem namoradas deles, por umas horas, uns dias e isso é errado. - Ela pensa, queixa-se por lhe estar a apertar demasiado o rabo de cavalo. Desisto e faço-lhe dois tótós.
- É só isso? - Pergunta inocente.
- Sim, é só!
- Pensei que se dizia essa palavra, porque eram más, ou coisas assim... tipo bruxa, ou assim! - Pensa e eu viro-a para ver o penteado - Percebes o que quero dizer? - Encolho os ombros - Se elas fazem de namoradas, não pode ser assim tão mau! - Calo-me, não sei como explicar melhor, ela ainda não iria perceber e ela continua. - Ouvi outra palavra.
- E qual foi?! - Esperava pelo pior.
- M*r*a! - Sorrio, pois depois da outra essa era fácil de explicar.
- Isso é uma palavra malcriada, para dizer cocó.
- Ah! Que engraçado. Que mal tem dizer cocó?! Era mais fácil, não era?
E eu rio-me com ela e penso, quanto tempo terei ainda para lhe ensinar o que as coisas querem dizer. Depressa virá o dia em que ela me ensinará, palavras que nunca terei ouvido antes.

terça-feira, 23 de setembro de 2008


...um desconhecido oferece flores.

"Se um desconhecido lhe oferecer flores isto é Impulse!"

Esta era uma frase de um anúncio que durante muito tempo andou de boca em boca e eu quase teria esquecido se ontem, um desconhecido não me tivesse oferecido uma flor.

A situação foi tão constrangedora e à frente de colegas de trabalho, que pensei que mais valia estar a ser presa pela polícia naquela altura, pois pelo menos teria como justificar o acontecimento. Mas agora, estar sentada à mesa de um restaurante e um perfeito estranho vir oferecer uma flor, foi surreal. Tão surreal que ele continua tão estranho quanto era ontem, pois nem sequer aceitei a flor, ou o cartão, nem sequer o quis ouvir, simplesmente, porque estúpida e destreinada, já não estou habituada a ser cortejada, a atitudes espontâneas, a pequenos devaneios do destino.

E o que mais irrita é que fui eu que não soube como lidar com a situação, logo eu que escrevo e falo sobre o assunto com tanta facilidade, com tanta, arrisco a dizer, imprudência, leviandade.

Devia ter aceite, devia ter trocado uma palavra simpática com ele, poderia criar uma esperança, ou simplesmente dado um sorriso, mas não, retraí-me, escondi a cara, disse que não podia falar naquele momento e sei lá mais o quê que me saiu da boca para fora.

Depois queixamos-nos, que os homens não são cavalheiros, que os homens não são românticos, que os homens isto e que os homens aquilo, mas quando são, arriscam-se como aquele pobre coitado, a serem tratados como loucos, pedintes, como se tivessem peste.

Como me recrimino!

Se por um acaso do destino está a ler esta mensagem, por favor, as minhas desculpas, mas compreenda... não estou habituada. A verdade é que aceito a flor e aceito o seu gesto e um dia mais tarde, talvez, também você, possa aceitar as minhas desculpas.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O seu corpo continua a tremer, mas agora mais de medo, do que de frio. Ela está nua, não sabe onde está, não se recorda como é que lá foi parar, não reconhece a situação em que se encontra, mas mesmo assim, aquela criança, sente-se desprotegida e fraca, mas não vencida.

Ele apenas a observa. Não tece qualquer comentário, não faz soar qualquer ruído, não faz anunciar a sua presença. Ele apenas a observa, de pé, a três ou quatro passos da sua cama. Ela insinua falar, mas arrepende-se e decide também ela, observar.

Ela ainda não o olhou. Ele é o que mais receia naquele momento e, por isso, apenas sente a sua presença pesada. Reconhece de imediato uma tenda militar. Um ou dois candeeiros a petróleo, um candeeiro a gás, algum equipamento, incluindo duas mochilas semi-desfeitas. Duas camas em lados opostos, sendo uma delas, aquela onde se encontra.

No meio, entre as duas camas, mas por cima delas, uma mesa de construção tosca de troncos e cordas, junto à outra cama e preso com alfinetes à parede da tenda, está um enorme mapa-mundo e algumas fotos de satélite. Não consegue ler o que dizem. O chão está húmido e tem restos de sisal, por todo o lado. Na cabeceira da sua cama, encontram-se duas cordas, que percebe, pelas marcas dos seus pulsos, a sua função. Observa por fim, as marcas de uma luta sem glória, que se espalham pela sua pele leitosa, agora suja de lama, pó e suor. 

Ele cansa-se de a observar. Lentamente tira um cigarro e, num gesto aprendido no cinema, acende-o com um fósforo. Pela primeira vez, ela toma plena consciência que estava nua. Ela sabia que estava sem roupa, mas só agora se apercebe que isso faz com que ela esteja nua.

Ele sorri com o embaraço da rapariga. Dá um longo e lento trago no seu cigarro e despe a camisa. Dirige-se até a jovem e, displicentemente, alheio ao terror que lhe estava a provocar, pousa a peça de roupa, sobre as costas daquela, ainda criança. Não se demora. Tem receio da aproximação. Também ele tem medo. Afasta-se e olha o mapa do outro lado da tenda, virando as costas à sua prisioneira.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Antes de mais, quero pedir desculpas pela ausência prolongada, mas como devem ter notado pelo anterior mensagem, estive de férias e quando digo de férias, refiro-me a todo o tipo de férias. Não quis saber de notícias, não quis saber de internet, blogs, ou canetas, não usei o telefone com outro sentido que não o lúdico e cortei com qualquer tipo de preocupação.

O problema foi quando voltei. O Mundo não tinha tirado férias como eu e por isso mesmo, tinha avançado por um caminho que eu desconhecia. As férias acabaram e eu tive que voltar ao trabalho, aos telejornais, à net, ao meu patrão. Voltar a ficar encafuada num espaço de luz artificial, com um ser humano que se tem em tão alta conta que se esquece que não é ninguém sem quem o rodeia e a fazer um trabalho repetitivo, minuto, após minuto, segundo após segundo, transportou-me para uma zona de mal-estar tão escura e sombria que quase desesperei.

A verdade, é que se eu fosse outro tipo de pessoa, diria que estive com uma depressão, mas comigo, esse género de desculpas não colam. Depressões são um termo geográfico, que não se deviam aplicar a ser humanos.

Desesperei, tive vontade de gritar com todos e nenhum e gritei, amuei e chorei. Tive vontade de desaparecer de novo e para sempre, mas depois pensei, que tudo se deve a mim e às minhas escolhas e que apenas eu posso voltar a ter controlo na minha vida e em como eu ganho para a ter e assim, decidi que iria mudar de emprego até ao fim do ano e esperar que assim, volte a ser quem eu sempre fui.

Mas chega de desespero, chega de tristezas, há muita coisa a acontecer no nosso país, que são autênticas anedotas e claro isso é muito mais interessante. Aguardem pelas próximas mensagens, pois Eu estou de volta.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

... eu sinto-me assim!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Corta com a faca as cordas que a atam à cama e desfaz-se dela com uma displicência pouco comum nele. Acaricia-lhe o rosto. Tenta adivinhar quantos anos de vida tem aquele anjo, que ele mantém como seu refém. A sua anatomia confunde-o. Pensa que ela não deve ter mais de dezasseis anos, talvez ainda menos, apesar daquele corpo apresentar uma desenvoltura pouco comum, para tão pouca idade. O que o leva a pensar assim é o seu rosto e os cabelos escuros como o manto da noite que os envolve, que cobrem por completo o corpo até a cintura. “Sim!” - pensa ele – “O teu rosto denuncia uma adolescência menosprezada.”

A respiração dela acelera e a sua pele arrepia-se de frio. Ele afasta-se, mas apenas o suficiente, para poder observar a penugem loira que se irriçou. Ele sorri. Aquilo agradava-lhe. Apercebe-se que em breve ela acordará, recuperará os sentidos e afasta-se um pouco mais. O corpo dela treme agora de frio, naquela húmida tenda. Ele quis, num instinto paternal, tapar a sua nudez, mas numa disciplina militar, deteve-se.
 
Ela, até agora envolta num doce entorpecimento, começa a readquirir a consciência. Acordou aos poucos. Começou por sentir o frio na sua pele, depois a dor física de uma batalha que perdeu. Tentou por último abrir os olhos e com grande custo, acaba por ser bem sucedida. Um tecto de lona verde caqui, é o que vê primeiro. Esta foi a primeira imagem desta nova consciência. A segunda era-lhe transmitida em forma de sombra chinesa, fenómeno provocado pela luz bruxuleante dos candeeiros de petróleo, mas foi o suficiente para perceber que não estava só e num gesto instintivo, assume uma posição virginal, sentando-se naquela fria cama de campanha, agarrando junto do seu peito, os joelhos, como se, com o corpo colocado em tal posição, criasse uma concha que a iria proteger do olhar e das intenções daquele que partilhava com ela, aquele lugar.
Subscribe to RSS Feed Follow me on Twitter!