terça-feira, 24 de março de 2009

A ideia fixa-se na sua mente e torna-se quase impossível deixar de pensar naquilo.

E se acontecesse?! Que mal lhe poderia acontecer? O que mudaria na sua vida se ela caísse em tentação e se deixasse guiar pelos seus impulsos?

sexta-feira, 20 de março de 2009

 

Era dia 20 de Março de 2009. Um cheiro doce pairava no ar, como se as flores quisessem tornar-se visíveis, mesmo na escuridão.

Nessa mesma noite, onde uma brisa suave soprava em todas as direcções, como se até o vento não quisesse que os cheiros se dissipassem, andava pela floresta um outro ser. Devido à pouca luz, era impossível decifrar se se tratava de um ser vivo, ou algo etéreo, não corpóreo. Vestia algo branco, de tecido leve, que surgia quase azul devido à luz da lua crescente. Os seus pés alvos por há muito tempo não serem beijados pelo sol, pisavam a caruma enquanto rodopiavam no meio das árvores e os cabelos, longos e escuros, desenhavam no ar espirais perfeitas. A sua pele, sim suponhamos que era pele, tinha o tom do alabastro e tremia do frio da noite alta. Ela esperava algo, aguardava por algo, rodopiava e olhava, inspirava e olhava. Dançava ao som do vento e esperava. Gradualmente, num crescendo frenesim, aumentou a frequência dos movimentos: rodopiava mais depressa, saltava mais alto, dançava freneticamente ao som do coração que batia, cada vez mais depressa, devido à antecipação. Rodou e girou, saltou e pulou, dançou e abraçou o ar que a rodeava com tanta intensidade que acabou por cair exausta.

A caruma húmida do orvalho da noite, molhou as suas finas vestes. Sentada no chão, as suas mãos formaram uma concha e agarram algumas folhas, relva e trevos e num gesto de bailarina, lançou esse pequeno tesouro ao ar. Observou embevecida os círculos que o vento desenhava com aqueles elementos. Na sua face um sorriso começou a forma-se e deixou-se cair  sem resistência para trás, no tapete macio do bosque, ficando a olhar para as poucas estrelas que ainda estavam no céu. Respirou fundo, a alça do vestido descaiu mostrando um pouco mais do seu seio suave. Não se importou, pois ninguém a observava enquanto esperava. Ela continuava a esperar que algo muito importante aparecesse.

Já quase não se via a lua, o ar começava a aquecer e a noite deu lugar a um lusco-fusco confuso. Um pássaro matutino piou e ela soube então, sentiu dentro de si, que já chegara e, nesse mesmo instante, nesse mesmo segundo em que respirou de novo, sorriu e disse numa voz cristalina:

“Bem Vindo Sr. Equinócio! Vá descansado, que eu cuido da Primavera.”

quarta-feira, 18 de março de 2009

São engraçados os sonhos, não são?! Eles aparecem mesmo quando não os pedimos, surgem através de um estímulo incontrolável, contra a nossa vontade, do vazio, do nada e, imediatamente, ficamos para sempre com eles na consciência, presos na nossa pele, no nosso respirar.

É assim que acontece comigo, foi assim que aconteceu comigo, quando ao 16 anos a minha tia disse que estava grávida. Desde esse estímulo que o meu sonho principal foi ser mãe, ter na minha vida, alguém que poderia amar incondicionalmente e ser retribuída, ter dentro de mim, uma outra vida por quem seria inteiramente responsável e que sem a qual, dificilmente, continuaria a viver.

A minha prima nasceu, passado uns oito anos nasceu a minha sobrinha e passado oito anos, nascerá outra criança do ventre da minha irmã e eu… eu continuo a olhar para o meu sonho e vejo-o cada vez mais destorcido, desfocado, inalcançável, surrealista como num quadro de Picasso, apenas porque investi demasiado tempo, naquilo que nunca investiu tempo em mim…

 

segunda-feira, 16 de março de 2009

 

Vou ser tia pela segunda vez e não podia ter ficado mais feliz do que quando li a mensagem que a minha irmã enviou ao meio da manhã.

“Parabéns, titi!”, era como acabava e a felicidade foi tanta, que apesar de nada ter dito, todos à minha volta se aperceberam da minha mudança de espírito e, automaticamente, esboçaram sorrisos.

“Parabéns, titi!, fez-me esquecer o facto de que na mesma mensagem a minha irmã comunicava que tinha comprado o presente que eu estava a planear oferecer à minha mãe.

“Parabéns, titi!”, fez-me esquecer a minha mãe, sim porque é o aniversário dela, apesar de termos passado o fim de semana a festejá-lo.

Parabéns, titi!”, fez-me esquecer o aborrecimento do meu trabalho.

“Parabéns, titi”, fez-me esquecer, por instantes, que eu quero muito ouvir e ler: Parabéns, mamã!

sexta-feira, 13 de março de 2009


Ala dos Namorados: Loucos de Lisboa Música: João Gil Letra: João Monge
Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao sorrir agradecia









[Refrão]
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar












Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal
Compramos a entrada p’ra sessão
P’ra ver tal personagem no ecrã
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã








[refrão]







Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.





[refrão]

terça-feira, 10 de março de 2009

E porque alguém num comentário, fez-me recordar este poema, achei por bem aqui colocá-lo.

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
de Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 9 de março de 2009

Não sou grande apreciadora de "Demonstrações Públicas de Carinho", apesar de achar algumas deliciosas. Mas quando essas demonstrações de carinho começam a parecer o canal XXL num Sábado de madrugada, deixam-me incomodada e começo logo a pensar em como a Liberdade dos Outros acaba, quando a minha devia Começar.
Até que estava a ser uma boa manhã, cheguei cedo a Lisboa, tinha tempo para ler e-mails e escrever alguma coisa enquanto tomava o meu capuccino no Jeronymo do Rossio com o meu pão de sementes com queijo, antes de entrar no meu pavoroso emprego.
Sim, estava tudo a correr bem, até que na mesa ao lado duas raparigas, que pelo aspecto ainda são adolescentes, se agarraram uma à outra, numa troca de beijos e mãos, pernas para cima e para baixo, línguas rosadas e outras coisas...
E pronto, assim se estragou o meu pequeno almoço, a vontade de escrever a mensagem que queria e apareceu a necessidade deste desabafo. É que para além de serem "Demonstrações Públicas de Carinho" muito explícitas, eram duas mulheres, algo que me deixa ainda mais desconfortável e arrepiada.

Não gosto e ponto, mesmo que sejam a seguir ao Dia da Mulher.

domingo, 8 de março de 2009

Por vezes eu apenas acordo assim, melancólica com pensamentos pesados, um pouco mais escuros do que os habituais. Geralmente. Acordo num dum dia de chuva, mas hoje nem isso, apenas na minha alma chove.

Já me perguntei o porquê desta negritude, o porquê deste “Blues” arritmado, que aparece sem compasso, despido de “Beat” e a resposta surge sempre tímida, emitida por um moribundo sussurro e, implacavelmente, sem sentido.

São dias em que a morte surge como pensamento central, não como um desejo, longe disso, mas mais como um problema que deve ser resolvido, percebido, dissecado. Pequenas coisas, quase nada, coisas em que ninguém pensa, acho eu. Como por exemplo, quero uma campa e um caixão?! Algo onde mais tarde alguém poderá ler quando é que eu nasci, quando morri e quem é que vai sentir saudades de mim, ou se quero ser cremada e que lancem as minhas cinzas no ar, onde simplesmente o meu corpo volta rapidamente para a terra que lhe deu forma, sem passar por todo o processo de degradação e decomposição que me parece tão pouco glamoroso, sujo. Coisas como se devo deixar os meus últimos desejos escritos, deixar destinado aos meus amigos os meus parcos bens, ou se simplesmente devo confiar no seu bom-senso.

Sei que não são pensamentos normais, mas que me atingem como flechas nestas manhãs e que me acompanham ao longo de todo o dia, mas que felizmente terminam quando me deito, sem ter chegado a nenhuma solução, simplesmente porque não imagino a vida de quem me rodeia sem mim e tomo a decisão de continuar a fazer todos os possíveis por me tornar imortal.

quarta-feira, 4 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

-Como te chamas? – ela pensa antes de responder, mas chega à conclusão que ao dar um nome a si própria, estará a criar para si, uma personalidade, deixando de ser apenas um objecto vivo.
-Dalila. – diz sem rodeios e com a verdade. Ele não pode deixar de soltar um riso miúdo.
-Mulher traidora. Isso é bom, fica-te bem esse nome. – “Será ele o Sansão?”, pensa Dalila sem na realidade querer pensar. Não dizem mais nada de imediato. Ele traga de novo o seu cigarro e aumenta a ansiedade daquela criança.


– Que idade tens?
-Não lhe posso responder a isso. Sabe melhor do que eu que não lhe posso responder a isso!
-Como assim, não me podes responder?! – pergunta admirado com a segurança que a rapariga apresentava. – Quantos anos tens? – grita-lhe. Ela estremece, mas não responde, apenas esconde o olhar. Ela sabe que qualquer outra informação acerca dela, só lhe dará ainda mais desvantagem. Quanto menos ele souber dela, melhor, é um trunfo que ela guarda.

Ele perde a pouca paciência que tem. Levanta-se e pontapeia qualquer coisa metálica, que estava no chão. Ela fecha os olhos e aguarda o pior. Ele ainda não viu a cor dos seus olhos, a luz é pouca. Pega numa cadeira de campismo que estava encostada à mesa e senta-se entre as duas camas, bem no centro da tenda. Acende um novo cigarro e pousa os seus enormes braços nas costas da cadeira.


Ela abre os olhos de novo e olha-o sem receio. Apercebe-se que talvez, ele tenha olhos verdes, mas é-lhe impossível ter a certeza. Ele apercebe-se perfeitamente dos seus olhos azuis, brilhantes como duas safiras. Ela fica com a sensação de que ele está menos à vontade naquele papel, do que ela. Decide tomar a liderança, com calma.


- Onde é que eu estou? – pergunta com uma confiança controlada.
- Não te recordas de nada? – pergunta desconfiado, ao que ela acena que não. Ela, agora, olha-o sempre de frente, como se o testasse. A ele, não lhe agrada essa provocação. Ele precisa que ela tenha medo dele e não, que o enfrente com tanta insolência. – Não te recordas dos meus companheiros lá fora? Do que eles te fizeram? Não te recordas com quem estavas antes de vires parar aqui? – se ela se recordasse, o trabalho dele seria mais simples, ela teria medo dele de novo.


Ela cai na sua armadilha, mal desconfia, que seria melhor para ela desconhecer o que se passou, continuar, momentaneamente amnésica. Tenta recordar-se das horas anteriores, fecha os olhos e esforça-se. Recorda-se de algumas coisas, mas uma, sobretudo uma imagem, aperta-lhe o coração.


- O que é que lhe fizeram? – diz subitamente assustada.
- Não lhe fizemos nada que tu não lhe irias fazer em pouco tempo. Tu és uma gata arisca. – responde-lhe divertido.
- Eu não iria fazer nada. Estávamos a falar. Eu estava a convencê-lo a... – detém-se, não deve continuar. - Estavas a tentar convencê-lo que ainda não tinha chegado o momento certo, não era? – a resposta foi o silêncio. Ele aceita-o como um sim.
– Diz-me uma coisa, se nós não tivéssemos aparecido, tu irias permitir que ele insistisse ou tentasse algo , mesmo contra a tua vontade?
- Eu não vou responder a isso! Nada tem com a minha vida, não lhe devo esse tipo de explicações. – ele impacienta-se, aquela criança deveria ser mais cooperativa.
- Responde de uma vez. Estás a fazer-me perder tempo e paciência, duas coisas que eu não tenho em abundância. Podes estar certa que não vais gostar quando isso acontecer. – gritou-lhe. A cada grito que dava, o corpinho dela estremecia e isso, dava-lhe confiança.
- Eu não sei como responder a isso! – era sincera, ela era sempre sincera. Uma coisa ela aprendera, não existia mentira mais credível, do que a verdade pura e crua.
- Não sabes ou não queres saber? – ele levanta-se e aproxima-se dela. Ela encolhe-se o quanto pode, mas não desvia o seu olhar – Eu vou voltar a perguntar. – avisa com voz grave e ponderada – E tu vais responder. – ordena, ao que ela acena que sim – Tu ias permitir que ele fizesse o que queria, ou irias impedi-lo? - Sei que não vai acreditar em mim. – ele tenta não perder a compostura pelo que torna a sentar-se na cadeira de novo.

Ela levanta-se por sua vez, e avança até ele, com uma suavidade de Madona Barroca, como se quisesse que ele percebesse que ela nada tinha a recear com a sua resposta e, com uma voz suave, feminina e intrigante, responde-lhe ao ouvido, com uma confiança quase assustadora:

- Não sei.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Numa das melhores cerimónias dos últimos tempos, só houve uma coisa que me irritou solenemente: que os interesses politico-económicos se tenham tornado mais importantes que o cinema.

No entanto, Hugh Jackman não podia ter sido melhor. Ele é homem para cantar, dançar, tem músculos para dar e vender, um sotaque Australiano que nos leva, sempre, o pensamento para homens de barba rija e muito calor, ou seja, o perfil do Homem que encheria os meus requisitos e para além de tudo, fez renascer a entrega de prémios que mais gosto.

Por falar em Hugh Jackman, até a banda sonora de "Austrália" era melhor que a do Slumdog Millionaire. É claro que é só a minha opinião e esta conta o que conta.

Bons filmes...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Não sei se seria só de mim, mas acho que seria uma óptima forma de começar um fim de semana prolongado. Pequeno almoço na cama, duche em conjunto, um passeio por Sintra, almoço na Ericeira e ao fim da tarde, depois de um pôr-de-sol, na baía de Cascais, voltar para casa e terminar como tudo começou.
Uma rapariga, sempre pode sonhar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Cenário: Chamada de Madrugada, mulher na cama a tentar dormir, homem do outro lado do telefone e do Oceano Atlântico H - Porque é que quando as coisas estão a correr mal, de um momento para o outro, acontece algo, surge uma corrente de ar quente, um balão de oxigénio e as coisas começam a recompor-se, a voltar ao normal?! M- Porque depois da tempestade vem a bonança? H - Odeio frases feitas... M - Deus escreve certo por linhas tortas. - provoca, soltando um riso que fica dentro de si. H- Então essa, é a que eu mais odeio! M - Como é que se pode odiar uma frase? - diverte-se H - Deus criou o Mundo, o Universo e sei lá mais o quê, pois é todo poderoso, mas não foi capaz de ter feito só linhas direitas? - ela ri-se - Se só tivesse feito linhas direitas, não precisava de corrigir a escrita. M -Se assim fosse os homens não existiriam e eu poderia estar agora a dormir.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Finalmente lançaram-me um desafio da blogosfera. Já havia ouvido falar deles, mas para mim eram um mistério até que o woody lançou-me um. Estarei para sempre em dívida. Obrigada.
O desafio consiste em: pegar no livro que está mais perto; abrir na página 161 e encontrar a 5ª frase mais completa, transcrevendo-a. Esta da 5ª frase mais completa é que me confundiu, pois não entendi o que queria dizer a 5ª frase mais completa. Seria simplesmente 5ª frase, ou depois de 4 frases, a que se seguisse mais completa, ou após 4 frases completas a 5ª que se seguisse? Como não cheguei a conclusão nenhuma, optei pela frase mais completa que se aproximasse da 5ª.
Os livros que estão mais próximos de mim são dois que estão na minha carteira (não imaginam o tamanho dela, mas nada se compara ao peso, garanto). Um deles é da Marguerite Duras, Os Insolentes, pag. 161, 5ª frase mais completa: "O fantasma da mãe tocou-a ao de leve, era tão suave quando o recordava, bom como o Verão que se aproxima, o Verão em que se pensa quando ainda é Inverno." Ou então, o segundo na carteira, Ele e Ela, de Iris Barroso, ainda por concluir (um livro por concluir, já é um livro?), pag. 161 do manuscrito, 5ª frase mais completa: "Queriam esquecer, ignorar, fazer de conta que não se viam, mas era impossível: o desejo que acordou assim que sentiram a presença um do outro, foi tão forte, que se transformou numa dor física que fazia latejar as entranhas, que lhes roubava o ar, que os fazia gritar num silêncio oco." Pronto, desafio respondido, espero que me tenha saído bem! Venham mais.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ela pode ouvir a chuva cair, suavemente, sobre a tenda. É uma chuva miudinha, macia, quase um acompanhamento ao crepitar das chamas da fogueira, que arde fora daquele tecto. Ela gosta da mistura de cheiros que todo aquele cenário proporciona. É algo mais forte do que ela, algo que estimula uma parte do seu cérebro, que ela não controla. Ela gosta quando isso acontece. Ela gosta de perder o controlo. São poucas as coisas que ela não controla e é sempre uma agradável surpresa, quando ela descobre uma. É um desafio e, ela gosta de desafios. Ele, no entanto, conhece bem essa parte do cérebro, conhece como trabalha, sabe quais são os efeitos dessa sensação. Ele sabe tudo sobre a libido, sobre o impulso sexual. Sabe que não o controla por completo, mas há anos que lida com ele e sabe até onde pode ir.

Abre a camisa, que lhe havia dado há instantes. Camisa que ainda guarda o seu forte cheiro. Tira-a devagar, botão por botão, como se a redescoberta daquele corpo que ele já tocara, fosse uma oportunidade única, que não devia ser desperdiçada com precipitações. Ele toca finalmente nos seus redondos seios, sente-os firmes, um pouco entumecidos. Sorri, perante a excitação da sua prisioneira. Ela ainda não decidiu o que irá fazer, tudo dependerá do que se vai passar a seguir. São sempre decisões de instantes. O cérebro, sobretudo o seu inconsciente é que decide, o que o corpo fará a seguir. Ela sabe-o bem. Todos denominamos essas fracções de segundos, em que tomamos essas decisões importantes, de intuição, instinto, mas ela não. Ela sabe que o seu corpo sabe o que é melhor para ela. Ela é apenas mais um animal da terra e, como todos os animais, ela tem que sobreviver e sabe, que a mãe natureza lhe deu tudo o que ela precisa para tal. Sim, ela sabe que na altura certa, o seu corpo saberá o que fazer, para que ela sobreviva, da melhor maneira possível. Não lhe cabe a ela pensar nas alternativas, ela não quer interferir com a sabedoria que já lhe foi passada ao longo de tantas gerações. Ele ajoelha-se, é grande demais para aquele pequeno corpo. Ele pretende beijar-lhe o ventre, os seios, mas de pé é quase impossível. Contudo, quando aproxima os seus lábios à pele suave daquele anjo, ela foge, refugiando-se na cama, onde já tinha estado. Ele ri-se, levanta-se e acende um novo cigarro. Ela procura os seus olhos em tom de desafio, desafio esse que ele aceita. Sentando-se na outra cama.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Facto: Quase todas as mulheres afirmam gostar de homens românticos.
Realidade:
Um casal está naquela fase do dizer adeus, sem que nenhum dos dois tenha vontade de abandonar o outro.
M- Bem que podias acompanhar-me ao carro... - dá-lhe um beijo e pisca os olhos como as meninas pequenas quando querem muito, alguma coisa, num gesto, puramente, instintivo. - Sempre eram mais uns segundos, uns minutos que estávamos juntos.
H- O que são dois minutos para quem quer passar toda a eternidade contigo! - diz satisfeito por ter dito algo tão profundo e romântico, por se ter saído tão bem, mas ela, num reflexo automático de auto defesa, ri-se cínica, numa gargalhada sonora:
M- Dizes isso por pensares que é o que quero ouvir e pensas que assim te safas!
Conclusão: As mulheres querem homens românticos mas não acreditam que eles estejam a ser genuínos quando o são.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

 
Com os Óscars à porta, tento sempre ver todos os filmes que estão nomeados, pelo que, este fim de semana, fui ver o Revolutionary Road e apesar da beleza visual do filme e de pequenos grande pormenores de realização, o que eu mais gostei este filme, foi o que eu aprendi sobre a América do após II Grande Guerra:
1 - Os filhos desapareciam sempre que assim era conveniente.
2 - Os loucos parecem-se com pessoas "normais" e as pessoas "normais", parecem sempre loucas.
3 - Na década de 50 e 60, os homens americanos sofriam todos do grave problema de Ejaculação Precoce, pelo menos os que viviam (segundo a amostra) na Revolutionary Road.
Agora um pouco mais a sério, o filme está muito bem realizado, mas percebo a não nomeação do Leonardo para melhor actor e não entendo o Globo de Ouro da Kate Winslet, apesar da sua excelente performance. Mas enfim, gostos são gostos e cada macaco tem o seu. Não deixo no entanto de sugerir que o vejam, pois consegui rir à gargalhada durante um drama doméstico, o que normalmente costuma ter o efeito inverso em mim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cenário: Grupo de três amigos, depois de um jantar em casa, duas horas de risco, duas horas de um DVD, duas garrafas de vinho tinto, vodka e água tónica.
1 - Adorava ser um gato.
2 - Um gato para quê?
3 - Ela quer ser a catwoman... - risos.
1 - Porque adorava deitar-me ao sol todo o dia, à noite receber festinhas do dono e ronronar no seu colo enquanto vê um pouco de televisão.
3 - Sempre podes casar com alguém que te sustente. - Serve-se de mais vodka.
2 - Só um homem para dizer algo tão absurdo.
1 - Sim, só um homem. - indigna-se por não ter sido entendida.
3 - Não percebo tanata indignação. Não disse nada de novo.
2 - Não tem nada de novo, mas é ofensivo para uma mulher moderna, para além de que não foi nada disso que ela quiz dizer.
1 - Pois não!
3 - Ilucidem-me...
1 - É mais do que a ausência de um trabalho, emprego, de obrigação. Tem mais a haver com a liberdade, com a ligeireza com que os gatos passam por este mundo: a sua memória curta; o seu corpo ligeiro; os seus afectos convenientes; a independência é total.
2 - Até que ponto se pode considerar independência, se nunca tiver havido nada de que se dependesse?
3 - A mais não seja, é-se dependente do facto de se ser independente.
2 - Isso é o vodka a falar. - o 3 e a 1 riem-se. - E um gato doméstico apenas é independente, porque depende do dono para tudo o que podia comprometer a sua independência.
3 - Na realidade é como continuar criança eternamente.
2 - Mas uma criança recorda e todo o ser humano é dependente das suas memórias. Eu não entendo o conceito de se ser independente.
1 - E eu só quis, por alguns minutos e sobre a influência do sono, ser um gato.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ela avança num passo lento e controlado. Dir-se-ia uma gata pronta a atacar. Mal deixa marcas dos seus pés descalços, na terra molhada. Ela aproxima-se daquele homem que não conhece. Sente nos seus pés, a humidade da terra e sente frio. Um odor particular intensifica-se, mas não o consegue distinguir. Uma nuvem pesada, forma-se a cada exalação do soldado. Ela está agora perto o suficiente dele. Engole em seco, finalmente apercebe-se que tem sede e que os seus lábios estão secos. Humedece-os, ligeiramente com a língua e diz com uma voz quase inaudível: “Aqui estou!” Até para ela lhe pareceu fraca demais, tanto que se prontificava a repetir, quando ele afirma com uma voz dura e seca:
- “A partir de agora, sempre que eu der uma ordem, tu obedeces, sem sequer pensar. Compreendes?” - Ela acena que sim, mas ele de costas espera uma resposta audível. - “Compreendes?” - Grita de novo e, desta feita, ela responde com um sonoro
- “Se eu achar que devo.” - e ao terminar de falar, fecha os olhos, aguardando uma reacção violenta ao seu desafio. Ela conhece-o bem. Pareceria a qualquer um, que ela já tinha estado perante tal situação e tal como previra, ele vira-se com a intenção de lhe bater, mas ao aperceber-se tão previsível, sorri e diz apenas: -De onde saiu essa coragem toda? – ela apenas treme, mas agora de frio. Não lhe responde. Na verdade, não saberia o que lhe responder, nem ela mesmo sabe.
Estão tão perto um do outro, que conseguem sentir o calor emanado pelo corpo de ambos e, inconscientemente, gostam os dois, dessa aproximação. A disparidade de estaturas é absurda. Ela parece-lhe mais nova agora que está de pé, perto de si. Mas é imponente no seu metro e sessenta e picos, talvez mais. Até que não é baixa para uma mulher, ou menina. Ele toca no cabelo que lhe tapa parte do rosto e afasta-o para trás. Acaricia-lhe de novo a face, o pescoço. Desta vez ela pode senti-lo. A respiração dela acelera um pouco, apesar do seu controlo. Ele apercebe-se, sente-se bem e continua a sua exploração. A sua vontade era tocar-lhe por inteiro, de uma vez só, mas contém-se, mais uma vez, contém-se.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Cenário: A Caminho do comboio para vermos o Bolt.
- Tia!
- Diz amor. - continuamos a andar.
- As fadas existem? - olha para mim para tentar ver se vou inventar, porque ela às vezes já percebe.
- Claro que existem! - despacho, sabendo como é importante manter a imaginação activa, numa criança e porque aos sete anos é cedo de mais para perder a inocência, tem que ser cedo de mais.
- E todas as coisas fantásticas dos filmes e das histórias que me contas?
- Essas coisas podem não ser verdadeiras da forma como são contadas, mas existem.
- Porque é que nunca vi nenhuma dessas coisas?
- Porque vivemos em dimensões diferentes.
- Dimensões?
- Sim... - tento procurar uma explicação - Universos paralelos.
- Não entendo muito bem, tia? - franze o nariz. Como eu adoro aquelas ruguinhas que se formam em cima do nariz, quase na testa, quando ela o franze.
- Estás a ver aquela história que a tia te explicou sobre as rádios?! - ela tenta recordar-se - ...que o som de todas as rádios andam no ar ao mesmo tempo, apesar de não as ouvires nem as veres?! - ela acena que sim, mas pouco convencida - Nós só ouvimos as rádios, quando ligamos um rádio e colocamos numa frequência, certo? Percebeste isso? - Ela acena que sim - Os Universos e as dimensões são, mais ou menos, a mesma coisa. - torce o nariz - Todos vivemos no mesmo Mundo, no mesmo planeta, apenas temos frequências diferentes.
- Mas se nunca os vimos como é que sabemos que existem? - Já não é tão simples explicar as coisas.
- Porque às vezes, em determinadas situações, um tipo de energia faz com que nós possamos ver-nos uns aos outros.
- Quando?
- Por exemplo: quando caiem os dentes das crianças e elas colocam-nos debaixo da almofada...
- A fada dos dentes sente a energia e vem ao nosso mundo, tira o dente e põe uma moeda. - interrompe contente por ter compreendido alguma coisa, da minha maluquice.
- Exacto.
- E o mesmo com o Pai Natal, quando é Natal, certo?
- Certo! - Boa! Já expliquei mais uma que devia estar engatilhada.
- E o Coelho da Páscoa?
- Também.
- A fada dos sonhos, que me tirou a chucha?
- Também.
- E os monstros, tia? Os trolls e os vampiros e essas coisas?
- Esses têm mais poder que as coisas boas e andam entre os dois mundos com muita facilidade. Mascaram-se de humanos e estão sempre prontos a fazer maldades.
- A sério, tia?! - criar algum medo sempre fez parte da educação das crianças, porque não?!
- A sério! Por isso é que tens que ter muito cuidados a falar com estranhos, pois nunca se sabe se essa pessoa não é um desses monstros, mascarado.
- Ah! Está bem, tia. Vou ter cuidado, prometo.
- Agora vamos andar mais depressa ou perdemos o comboio.
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