quinta-feira, 23 de abril de 2009

- Ainda me vais resistir? – insiste enquanto lhe pega meigamente no queixo. Ela acena que sim e ele perde de novo a paciência. Bate-lhe no estômago, fazendo-a ajoelhar-se automaticamente, pela dor provocada. Depois mente, interpreta um papel que não é o seu, mas que ele vira ser interpretado várias vezes com sucesso. – É assim que vocês mulheres deveriam estar sempre: de joelhos, submissas. – mas ela estraga-lhe os planos e levanta-se mais depressa do que ele poderia imaginar e volta a enfrentá-lo com o seu olhar profundo e puro.

Mais do que nunca, ele teve a certeza de um treino militar, mas como? Ela tinha pouca idade, com um corpo plenamente desabrochado, mas era ainda uma criança. A verdade é que ela pouco ou nada se aflige com as suas agressões. Muito pelo contrário, estas apenas a têm tornado ainda mais arrogante e este olhar é prova disso mesmo. Mas afinal de contas, o que receava ele? Ela era apenas uma jovem mulher! Mas a verdade é que ele preferia não ter que a magoar, definitivamente, ele não se sentia à vontade com o papel que lhe tinha sido atribuído, ele era um amante, não um violador. 

Ela mexe com ele e, por instantes, ele quase preferia ter escolhido qualquer outra rapariga, daquele acampamento de escuteiros, qualquer outra rapariga, que não fosse esta, mas já era tarde de mais para isso. Ele afasta-se, tentando recompor-se e ela aproveita o momento para o baralhar ainda mais.

- Eles irão dar pela minha falta. Logo de manhã eles começarão a procurar-me e irão encontrar-me. Tenho a certeza que ele virá salvar-me. – ele riu-se. 

Ela estava a ser ingénua, ele conhecia a laia do homem com quem ela estava. Ele nunca iria colocar em causa a sua posição e reputação. Ele nunca admitiria, que estava com uma menor, no meio da noite, perdidos no mato. Ele sabia que ele voltaria para o acampamento e só no dia seguinte, quando outros dessem por falta dela, é que ele  faria qualquer coisa. Mas ele não temia isso e ela no fundo, sabia-o. 

– Porquê eu? – desta vez é ele quem não responde.
- Tu sabes que eu vou ter o que quero...a bem, ou... – hesitou – Tu é que sabes, tu é que escolhes.
- Então eu já escolhi. – ele levanta os olhos cheios de curiosidade e aguarda a resposta, como se ela fosse mudar alguma coisa – Não poderei ceder-lhe sem que primeiro, faça tudo o que estiver ao meu alcance, para o evitar. Nunca me perdoaria se o fizesse, seria muito pior para mim. As feridas do meu corpo saram, mas as da alma, ficam para sempre. – o seu corpo tremia gelado na sua nudez. – ele ri-se, mas de embaraço. 

Ele preferia muito mais que fosse outra a sua resposta. Será que ele não lhe agradava? Seria a primeira vez, mas também era a primeira vez que ele raptava uma mulher.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu não sei o que vocês entendem por felicidade, mas para mim, felicidade é reunir na vida, mais momentos bons, que maus.

Uma espécie de colecção de álbuns de pequenos minutos felizes.

domingo, 19 de abril de 2009

acordar4xe A noite arrefece e eu acordo, tenho frio. Procuro a pele dele no outro lado da cama, está quente, é suave, a carne endurecida pelo exercício, torna-se macia ao toque. Estreito-o nos meus braços e peço ao seu ouvido:

- Beija-me! Beija-me como se não houvesse amanhã!

E ele mesmo a dormir, vira-se, abraça-me como se quisesse que eu fizesse parte do seu corpo, como se eu fosse uma extensão de si mesmo. Abre os olhos, beija-me e faz de mim uma mulher feliz.

sábado, 18 de abril de 2009

Vocês conhecem aqueles dias em que acordamos com um nó na garganta que não sai?! Vamos trabalhar e apetece-nos chorar ainda antes de vermos o primeiro colega, mas como não o podemos fazer, engolimos diversas vezes, como se pudéssemos engolir a vontade de chorar, empurrar bem para dentro do nosso corpo e escondê-la?!

Contudo o nó continua na garganta e quando estamos quase a chegar a casa, perdemos, cada vez mais, o controlo e as lágrimas começam a cair, ainda sem ruído e uma frase, começa a repetir-se na nossa mente.

Quando abrimos a porta de casa, já as lágrimas caiem cascata. Atiramos com as coisas para o chão, saltamos para a cama e começamos então a soltar o nó preso durante todo o dia; soluçamos, choramos, soluçamos e choramos.

Lembram-se da frase?! É nesta fase que ela começa a fazer sentido. Primeiro sai como um murmuro, uma, duas vezes. Depois, explode como um grito de afirmação: “Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” É como uma frase de bêbado, pois nesta fase já estamos embriagados com o nosso próprio choro e com a sensação de liberdade que ele nos proporciona.

Vem então o estágio seguinte, aquele em que já nos dói os músculos de tanto gritar, soluçar e chorar. Sentimos os olhos inchados e a arderem por causa do sal. No entanto, chorar está a saber tão bem, que continuamos, esfregamos os olhos, limpamos o nariz com a manga da camisa e, em pranto, vamos até a um espelho. Estamos mais horríveis do que é habitual e isso só reenforça a necessidade de continuar a chorar. Então encostamos as costas à parede mais próxima e, lentamente, deixamos-nos escorregar até estarmos completamente sentados no chão, num pranto incontrolável.

“Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” Retomamos a frase. Aliás a frase pode ser qualquer coisa desde: “Fiz o meu melhor!”, “Porquê eu?!”, “Porquê?”, “Eu sou melhor!”, até à famosa frase de choro, “Não mereço isto!”

Inevitavelmente, sempre que estamos no meio de um ataque destes, o telefone teima em tocar. Podemos passar dias sem que ninguém nos ligue, mas sempre que estamos a chorar, alguém se lembra de nós. Aí, tentamos a todo o custo controlar os gemidos e as lágrimas, respiramos fundo, limpamos o nariz (e continuamos a usar a manga para esse efeito) e atendemos (sim, porque temos sempre que atender o telefone, não vá ser mais urgente que a privacidade do nosso choro), com uma voz característica de quem estava a chorar.

Nós- Estou! – fungamos.

? – Que voz é essa?! – eu imagino sempre uma voz aguda, que são as que mais me irritam, vocês façam como entenderem – Estavas a chorar?

Nós – Não! – fungamos e soluçamos – Agora a chorar! 'Tá parva!

? – É que estás com uma voz estranha!

Nós – Estou um pouco constipada, é só isso! – fungamos, soluçamos e tentamos controlar a vontade de berrar, gritar e gemer. (Também podemos dizer que estávamos a dormir, ou que estamos com uma alergia)

? – Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. – e nós sem ouvir nada.

Nós – Então ‘tá bem! - fungamos uma última vez – Depois digo qualquer coisa. – e desligamos o telefone.

“Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” - gritamos, até que adormecemos à frente da televisão, exaustos e com a alma lavada.

- Adaptado de algo que vi, li, ou ouvi, mas que não me recordo onde. -

quinta-feira, 16 de abril de 2009

E quando já não suportava mais aguentar o fôlego, chorei!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tenho um amigo que festeja o Ano Novo, apenas como uma festa do Calendário, pois para ele, a passagem do ano acontece no seu aniversário. Como eu gosto muito de festas, festejo as duas datas com prazer.

Mas não este ano! Este ano fiz do meu aniversário a celebração mais sem graça possível e apenas porque desiludiria os mais íntimos se nem sequer um bolo e uma taça de champanhe houvesse. Já para não falar na possibilidade de uma festa surpresa.

Peço desculpa a todos os que ficaram desiludidos, mas não me apetecia nada festejar a idade de Cristo. Fica aqui a promessa de uma festa daquelas a que estão habituados, para festejar a chegada do Verão

Vale?!

terça-feira, 14 de abril de 2009

beijo no pescoço.bmp Aquilo já não lhe dava mais prazer, ele não queria vê-la chorar, não era isso que ele pretendia. Na realidade, ele queria que ela gostasse dele, pelo menos durante o tempo que a relação entre ambos durasse, isso deixá-lo-ia mais à vontade no seu papel de estuprador. Ele não conhecia, até agora, outra forma de sexo, que não a consensual. – Agora despe-te! – ordenou, mas ela permaneceu tão imóvel, quanto a última vez e ele começava a perder a cabeça.

Ele olhou bem nos seus olhos, ele podia ver o seu medo, isso baralhava-o ainda mais. Quase que ele arriscava a afirmar que ela tinha tido treino militar. As posições que assumia, o que dizia, o que fazia, tudo parecia tirado de um manual de sobrevivência em caso de detenção, por parte do inimigo. Mas isso seria impossível, ela era pouco mais que uma criança. Por outro lado, era tão frágil, tão pequena, tão desprotegida. Ela despertava nele, emoções, com as quais, ele não sabia como lidar. Emoções que ele não podia dar-se ao luxo de ter.

- Despe a camisa, já! – ordenou-lhe, mas com tanto efeito, quanto o anterior. Talvez, e apenas arrisco a dizer que talvez, quanto muito, ela tenha demorado mais o seu pestanejar.

Ele, perde a pouca paciência que ainda guardava e esbofeteia-a, de novo. Ela não cai, como da outra vez, o que aumentou ainda mais a sua raiva, chegou mesmo a duvidar da sua força. Decide retirar, ele mesmo, aquela peça de vestuário, que tanta discórdia estava a causar, atirando-a para o chão. Ela não se mexe, apenas estremece ligeiramente.

- Porquê eu? – volta a insistir. O cheiro que o seu corpo exalava era tão doce que o intoxicava.

- Porque eu te escolhi. – confessa, apesar de saber, que tal resposta está longe de lhe oferecer qualquer conforto. Ela tem frio, mas treme de medo e ele sabe disso. Ele beija o seu pequeno e fino pescoço e sente um pequeno tremor nas suas próprias pernas. Ela apercebe-se e pensa que talvez seja um ponto a seu favor. Ou talvez não. – Afinal está mesmo frio! – acaba por se desculpar.

- Pois está! – concorda ela.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

…talvez por causa de tudo o que comi (e que não devia), durante a Páscoa, totalmente, “desinspirada”.

Lamento.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Saímos no meio do natural tumulto matinal e disse à minha sobrinha:

-A tia precisa de tomar um café! - apenas dormi 3 horas, acreditem que o café era mais do que uma prioridade e em casa não havia.

-Oh, Tia! Queria ir já para a escola! Tomas o café depois.

-Um café rápido no Sr. Zé e vamos para a escola. – demando.

- Ok! – aceita contrafeita e logo depois lembra-se de algo – Tia?!

- Sim!

- Preciso de um borracha e não tinhas nenhuma no teu estojo. – bem me parecia que a minha carteira não estava como a deixara – Podias comprar-me uma!

- Está bem! Tomamos o café e passamos pela papelaria a caminho da escola! – entramos no café e ela:

- Bom dia! É um café para a minha tia, se faz favor! – depois vira-se para mim –Tia, dá-me o dinheiro que eu vou lá, enquanto tomas o café! – a minha cabeça dizia: “Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!”

- Quanto é que custa a borracha? – trazem o café.

- Não sei, mas vou perguntar, posso?! -  a papelaria fica no fim da praceta, três prédios depois do café, mas a minha cabeça dizia: “Não! Não! Não! Não! Não! Não!

- Está bem! – e ela sai a correr e assim que ela sai, eu corro para a porta e lá está ela a entrar dentro da papelaria. “Não olhes, não olhes, não olhes, não olhes!” Vejo os ténis dela e volto a fingir que tomo o café. Ela entra eufórica:

- São 60 cêntimos a mais barata e 80 cêntimos a mais cara.

- E qual é a que queres?! – preparo-me para tirar um euro do porta moedas.

- Não as vi! Dá-me o dinheiro, que eu escolho agora e trago-te o papel. – parecia que já fazia aquilo todos os dias. Dou-lhe a moeda – Volto já! – e sai porta fora. Largo a chávena e alcanço a porta quase a correr. “Tem que ser! Tem que ser! Tem que ser!” Grita a minha consciência e o meu coração aperta. Ela entra dentro da papelaria. Aguardo! Ela sai e eu volto a beber o café. Arrepio-me! O café está frio. – Toma! – entrega-me o recibo, o troco e mostra-me a borracha.

- Foi a mais barata! – constato

- Era a que eu queria! – pago o café enquanto ela guarda a borracha no estojo – Ah! – olho para ela – Pedi à senhora para guardar a revista das Winx desta semana que ela disse que já tinha chegado, sabes a que traz a carteira de oferta, a mala. – diz sem pausas, pontuando apenas com a entoação.

- E quanto é que é a revista?! – não responde logo.

- Até amanhã D. Luísa e Sr. Zé!

- Até amanhã, pestinha! – respondem os dois, enquanto eu aceno e me despeço também.

- São cinco euros e noventa e cinco cêntimos, depois passas por lá, não passas?!

- Quanto mais cresces, mais cara me ficas! – ela sorri pois sentia-se realizada por ter comprado a borracha sozinha sem a ajuda de ninguém adulto.

- Passamos lá agora! – Fizemos festas à linda grandanoir que se mudou para a nossa praceta  e que fazia o seu passeio matinal, (que inveja eu tenho do seu companheiro humano) e digo-lhe – Mas com tantas coisas que recebes, nem penses que o Coelho da Páscoa te vai trazer muita coisa.

- Oh, tia! Eu sei, mas não me importo! – deixo de prestar atenção ao cão e olho para ela, que a sorrir conclui, enquanto me abraça e quase me deita ao chão – Tenho-te a ti! 

 

terça-feira, 7 de abril de 2009

1605785 Ela apenas olhou para ele. Agora não tinha dúvidas, os seus olhos eram verdes. Eram olhos de gato, inesperadamente meigos. – Não me obrigues a usar a força. Eu odeio bater em mulheres. Faz-me o favor; não me obrigues a fazê-lo. – era verdade, ele não odiava a violência, ele até gostava dela, usava-a para se excitar e activar a adrenalina no seu corpo, tinha sido treinado assim, mas odiava bater em mulheres, ou em pessoas que ele sabia de antemão, que eram mais fracas que ele. Ele via em todas as mulheres, futuras mães, futuras progenitoras e só o facto de ter que profanar um corpo que tem por fim esse objectivo divino, enojava-o. Ele amara muito a sua mãe e ainda amava muito a sua irmã. No entanto, ele usaria toda a sua força e não hesitaria um único segundo, se disso dependesse o cumprimento da sua missão.

- Pode ser que eu o faça. – tomou de novo a conversa nas suas mãos – Mas primeiro preciso de uma ou duas respostas. – ele riu-se divertido com a tamanha presunção da sua pequena refém.

- Isto deve ser divertido! Diz lá! Dispara.

- Porquê eu? Nada sei da vossa missão, nada vi, de nada vos sirvo, pelo menos nada que uma prostituta qualquer de beira de estrada não pudesse fazer muito melhor que eu. – o seu tom era firme, seguro, mas ao mesmo tempo, suave, quase arriscava afirmar, que repleto de uma sensualidade maternal. Ela conhecia o temperamento volátil do seu parceiro e não queria que a sua voz, fosse provocadora da sua ira. Ela receava que qualquer alteração, fizesse despoletar toda a violência que ela sentia-o conter.

- Tu nada sabes da nossa missão e nunca o irás saber. Pelo menos até ser necessário que tu entres em acção. Apenas te direi o que eu achar necessário. O facto de aqui estares, nada tem a ver com isso. O que tu sabes ou não, não me interessa. – disse inesperadamente calmo e cooperativo. – Posso adiantar-te que vais ter um papel muito importante nesta missão.

- O que é que pretende de mim? – ele sorriu, finalmente ela começava a desesperar e isso fazia-o sentir-se mais seguro. Não respondeu e virou costas, tentando controlar o seu contentamento – Por favor, apenas quero saber, porque é que eu estou aqui!

- E porquê? – pergunta-lhe arrogantemente – Achas que isso vai aliviar o medo que sentes? A dor que irás sentir? – ela tentou controlar-se. Os seus corpos estavam de novo, muito perto um do outro e isso deixava-a enfraquecida, talvez pelo cheiro, ela não sabia.

- Não lhe quero impor nada! – começou com uma voz com um suave timbre infantil – Sei que não estou em posição de fazer exigências, eu sei qual é o meu lugar. Apenas preciso saber o que pretende de mim, para que eu possa decidir o que fazer. Não sei porquê, apenas preciso de saber. – quase soltou uma lágrima.

- Não te adianta de nada! – concluiu.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A minha sobrinha e euUm  destes dias estava a levar a minha sobrinha à escola, tarefa que é sempre feita às corridinhas, aos saltos e pinotes, entre outras actividades que me deixam exausta, ainda antes de chegar ao escritório, quando no meio de um silêncio perturbador, diz-me:

-Tia?!

-Sim?! – imitei o tom inquiridor.

- O pai Natal existe?

-Claro que existe! – Retorqui pronta e convincentemente. – Quem é que achas que te dá aquelas prendas todas no Natal?!

-Mas tia?!

- Sim! – Já não imitei, pois adivinhava algo complicado.

– É que… – silêncio.

- Porque perguntas? O que se passa?!

- É que quando eu era pequena, lembras-te daquele Natal em que o Pai-Natal apareceu para comer os biscoitos que fizemos? – acenei que sim -  Ele tinha os mesmos sapatos que o meu pai, por isso não sei!

- Isso e porque o Pai-Natal, comprou os sapatos na mesma loja que o teu pai.

- Mas o Pai-Natal, compra os sapatos no Pólo Norte!

- Já ouviste falar na globalização? – pensei em baralha-la.

-Sim! – eu é que fiquei confusa – A minha professora já disse algo sobre isso!

- Então sabes que com as novas formas de comunicação, as mesmas coisas que existem em Portugal, também existem nos outros países e vice-versa, logo os sapatos que o Pai-Natal, comprou no Pólo Norte…

-São os iguais aos que o meu pai comprou cá!

-Isso!

- Hummmm! – aquele “hum”, não me soo muito bem, mas ela ficou calada e já estávamos quase a chegar.

- Vais ter teste de quê?

- De matemática, já disse! – arremessa.

-Está tudo bem?! – ficou calada e eu passados alguns segundos volto a perguntar – Que é que foi agora?! Que me queres perguntar?! – perguntei com medo do que aí vinha.

- Tia?!

- Sim?!

- O que é vice-versa? – eu sorrio aliviada e respondo-lhe com calma.

Talvez a minha sobrinha chegue aos oito a acreditar que a magia existe!

 

terça-feira, 31 de março de 2009

perfumeUm cheiro exótico, quente e luxuoso exalava do seu corpo. Era um cheiro desconhecido para ele, ela nunca cheirara assim. Era uma mistura intensa de fragrância oriental, onde aromas de amora-preta se entrelaçavam com o cheiro das orquídeas e do jasmim. Mas o cheiro não parava por aí, tinha algo mais, talvez um toque de sândalo, patchouli e baunilha. Aquele cheiro acordava nele uma sensualidade quente que o desnorteava e o remetia a outra vivências, a outra fase da sua vida muito distante da que se encontrava, desde que a conhecera.

No entanto, pareceu-lhe natural aquela mudança, ela naquela altura já não lhe pertencia, talvez quando a conseguisse de novo, ela voltasse a ter o cheiro que era só seu e para si, estritamente, reservado. Na realidade, essa ideia apaziguava-o; saber que apenas consigo ela se apresentava total e sem artifícios, que apenas consigo, ela não se escondia, que apenas consigo ela era ela e não aquela personagem que ele, com alguma dificuldade reconhecia.

domingo, 29 de março de 2009

Muitas amigas minhas, e alguns amigos também, perguntam-me, sempre que os convido para ver uma estreia deste género, como consigo eu gostar de filmes de acção e de estar sempre mortinha para os ir ver?! E perguntam-me isto, pois na sua opinião, os filmes de acção, são um género menor, feito para agradar a testosterona de homens que não estão em contacto com os seus sentimentos, incapazes de verem um filme e terem que pensar ao mesmo tempo. E eu fico sempre um pouco apreensiva na hora de responder, pois nunca sei se deveria optar por uma resposta politicamente correcta, ou dizer o que realmente penso.

Deveria eu defender o género dizendo que eles representam a constante e velha batalha bíblica do Bem contra o Mal, ou então que a maioria destes filmes têm uma direcção cénica fora do comum e que são um elogio aos efeitos sonoros, à montagem e aos efeitos visuais, ou então, que para além da palhaçada existe uma história de fundo que me comove.

Sim, poderia dizer tudo isso e não estaria propriamente a mentir, mas meninas, amigos e amigas, aqui fica a resposta que há anos ando para vos dar. Vocês conhecem-me e ao verem as imagens que juntei a esta mensagem, já devem ter formado uma ideia da minha razão para gostar de filmes de acção.
Mas para aqueles que ainda não me conhecem e para aqueles que são um pouco mais lentos ao raciocinar, posso explicar que gosto de filmes de acção, porque numa tentativa de Hollywood conquistar o público feminino para este género, o homem viu-se transformado num objecto sexual e isso, meus amigos, depois de tantos anos a ver a mulher ser objectivada, é uma imagem que simplesmente me agrada.Perdoem-me aqueles que acham que é superficial, aqueles que acham que eu devo ter um grave problema a ser resolvido o quanto antes, mas é a verdade e quem a verdade diz... não merece castigo.







(As fotografias colocadas no meu blog, são todas tiradas da internet e não pretendo ofender os direitos de autor de ninguém. Se tal acontecer, por favor avisem e prontamente serão retiradas.)







sábado, 28 de março de 2009

Ele e Ela - livro O vapor que sai da sua boca carnuda aquece-lhe o pescoço e ele tem que engolir em seco. Move a cabeça e respira fundo, procurando alguma presença de espírito. As suas faces quase se tocam. Inebriam-se com o seu odor. Ele levanta-se, não quer estar em desvantagem perante ela e pergunta de novo: - Permitirias? – ela não sabe o que responder, já tinha dito tudo o que podia dizer. Ela não sabe mentir e a realidade é que ela não sabia, da mesma forma como ela não sabia o que fazer, momentos antes. Era assim que ela era. No entanto, a sua hesitação, que para nós parece-nos clara e lógica, sai-lhe cara. Num ataque, que tinha tanto de impaciência como de medo, ele bate-lhe na face com as costas da mão. Ela não se surpreende, nem sequer fica muito afectada com a agressão. Na verdade, apenas se desequilibra, caindo por terra, o que a ajuda a tomar consciência que ele terá dela o que quiser, se não a bem, a mal.

- Preciso de repetir a pergunta? – volta agora mais calmo. Ela tinha vontade de chorar, mas engole em seco e responde:

- Eu não sei o que responder. Eu não sei o que teria feito, tudo dependeria do que se passasse a seguir.

- Tu sabes muito bem o que se iria passar, tão bem como sabes o que se vai passar aqui. – a sua voz era seca, ríspida, mas ao mesmo tempo melancólica. Ela apercebe-se de que ele não irá aceitar a sua resposta, está na altura de tomar outra atitude. Ela já tinha aprendido, ela sabia o que fazer. Levanta-se do chão, assume uma posição militar perante o ser carcereiro e responde num ímpeto de último suspiro:

- Acho que não iria resistir. – chorou finalmente, mas por dentro, sem lágrimas sem som, apenas ela sabia que estava a chorar, não ele. Ele admirou-se por ela levantar-se do chão com tanta rapidez. Tudo nela o admirava e não compreendia, não fazia sentido, isso desnorteava-o.

- Tu gostas de jogar com as palavras. – pensou um pouco e rodeou-a, observou-a uma vez mais, de alto a baixo, tentando compreender, fosse o que fosse – Mas isso agrada-me. – dispara por fim. – E hoje? Vais resistir-me? – tanto lhe fazia, ele teria o que queria, mas sentiu a necessidade, a curiosidade mórbida de saber, antecipadamente, quais seriam as intenções da sua vítima.

- Claro! – responde segura, ele sorri – Mas espero que não venha a ser necessário. Não quero enfrentá-lo, senhor. – olhou-o nos olhos em modo de súplica e pela primeira vez naquela noite ele foi implacável no seu papel.

- Não esperes. – desabafou. Essa era uma certeza que ele tinha. Ele cumpria ordens e era bom nisso. Tinha chegado onde chegou, porque sempre tinha sido bom em obedecer. Ele afastou-se para poder vê-la ainda melhor. Quanto mais olhava, menos a conhecia. – Tira a camisa. – esta pouco ou nada tapava, pois estava desabotoada, mas mesmo assim, atrapalhava – Quero ver-te melhor.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ao ler um outro parceiro “bloguista” lembrei-me desta mensagem que há muito queria aqui colocar.

Vivemos numa sociedade onde todos pensamos que a comunicação é algo perfeitamente ao alcance de todos. Num mesmo minuto, posso estar a escrever aqui, no meu blog, comunicar com familiares por telefone, a trocar mensagens no msn, com amigos e, no entanto, estou só.

A minha sobrinha apenas com sete anos recebeu um Magalhães e já faz tudo sozinha. E quando digo sozinha, digo só, porque acho que com a tecnologia de hoje, os miúdos estão cada vez mais a só, todos nós estamos mais sós... estamos desesperadamente sós. Os miúdos já não brincam nas ruas, não pulam ao elástico, não jogam à “sirumba”, às escondidas, ao mata, não podem sair à rua para irem ter com tos amigos, não podem simplesmente fazer corridas de bicicleta.

Iludimos-nos que vivemos numa sociedade de comunicação e esquecemos simplesmente que essa comunicação é virtual, um conjunto de monólogos que se tentam fazer ouvir, porque não existe algo básico e primordial, o contacto humano, o toque...

terça-feira, 24 de março de 2009

A ideia fixa-se na sua mente e torna-se quase impossível deixar de pensar naquilo.

E se acontecesse?! Que mal lhe poderia acontecer? O que mudaria na sua vida se ela caísse em tentação e se deixasse guiar pelos seus impulsos?

sexta-feira, 20 de março de 2009

 

Era dia 20 de Março de 2009. Um cheiro doce pairava no ar, como se as flores quisessem tornar-se visíveis, mesmo na escuridão.

Nessa mesma noite, onde uma brisa suave soprava em todas as direcções, como se até o vento não quisesse que os cheiros se dissipassem, andava pela floresta um outro ser. Devido à pouca luz, era impossível decifrar se se tratava de um ser vivo, ou algo etéreo, não corpóreo. Vestia algo branco, de tecido leve, que surgia quase azul devido à luz da lua crescente. Os seus pés alvos por há muito tempo não serem beijados pelo sol, pisavam a caruma enquanto rodopiavam no meio das árvores e os cabelos, longos e escuros, desenhavam no ar espirais perfeitas. A sua pele, sim suponhamos que era pele, tinha o tom do alabastro e tremia do frio da noite alta. Ela esperava algo, aguardava por algo, rodopiava e olhava, inspirava e olhava. Dançava ao som do vento e esperava. Gradualmente, num crescendo frenesim, aumentou a frequência dos movimentos: rodopiava mais depressa, saltava mais alto, dançava freneticamente ao som do coração que batia, cada vez mais depressa, devido à antecipação. Rodou e girou, saltou e pulou, dançou e abraçou o ar que a rodeava com tanta intensidade que acabou por cair exausta.

A caruma húmida do orvalho da noite, molhou as suas finas vestes. Sentada no chão, as suas mãos formaram uma concha e agarram algumas folhas, relva e trevos e num gesto de bailarina, lançou esse pequeno tesouro ao ar. Observou embevecida os círculos que o vento desenhava com aqueles elementos. Na sua face um sorriso começou a forma-se e deixou-se cair  sem resistência para trás, no tapete macio do bosque, ficando a olhar para as poucas estrelas que ainda estavam no céu. Respirou fundo, a alça do vestido descaiu mostrando um pouco mais do seu seio suave. Não se importou, pois ninguém a observava enquanto esperava. Ela continuava a esperar que algo muito importante aparecesse.

Já quase não se via a lua, o ar começava a aquecer e a noite deu lugar a um lusco-fusco confuso. Um pássaro matutino piou e ela soube então, sentiu dentro de si, que já chegara e, nesse mesmo instante, nesse mesmo segundo em que respirou de novo, sorriu e disse numa voz cristalina:

“Bem Vindo Sr. Equinócio! Vá descansado, que eu cuido da Primavera.”

quarta-feira, 18 de março de 2009

São engraçados os sonhos, não são?! Eles aparecem mesmo quando não os pedimos, surgem através de um estímulo incontrolável, contra a nossa vontade, do vazio, do nada e, imediatamente, ficamos para sempre com eles na consciência, presos na nossa pele, no nosso respirar.

É assim que acontece comigo, foi assim que aconteceu comigo, quando ao 16 anos a minha tia disse que estava grávida. Desde esse estímulo que o meu sonho principal foi ser mãe, ter na minha vida, alguém que poderia amar incondicionalmente e ser retribuída, ter dentro de mim, uma outra vida por quem seria inteiramente responsável e que sem a qual, dificilmente, continuaria a viver.

A minha prima nasceu, passado uns oito anos nasceu a minha sobrinha e passado oito anos, nascerá outra criança do ventre da minha irmã e eu… eu continuo a olhar para o meu sonho e vejo-o cada vez mais destorcido, desfocado, inalcançável, surrealista como num quadro de Picasso, apenas porque investi demasiado tempo, naquilo que nunca investiu tempo em mim…

 

segunda-feira, 16 de março de 2009

 

Vou ser tia pela segunda vez e não podia ter ficado mais feliz do que quando li a mensagem que a minha irmã enviou ao meio da manhã.

“Parabéns, titi!”, era como acabava e a felicidade foi tanta, que apesar de nada ter dito, todos à minha volta se aperceberam da minha mudança de espírito e, automaticamente, esboçaram sorrisos.

“Parabéns, titi!, fez-me esquecer o facto de que na mesma mensagem a minha irmã comunicava que tinha comprado o presente que eu estava a planear oferecer à minha mãe.

“Parabéns, titi!”, fez-me esquecer a minha mãe, sim porque é o aniversário dela, apesar de termos passado o fim de semana a festejá-lo.

Parabéns, titi!”, fez-me esquecer o aborrecimento do meu trabalho.

“Parabéns, titi”, fez-me esquecer, por instantes, que eu quero muito ouvir e ler: Parabéns, mamã!

sexta-feira, 13 de março de 2009


Ala dos Namorados: Loucos de Lisboa Música: João Gil Letra: João Monge
Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao sorrir agradecia









[Refrão]
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar












Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal
Compramos a entrada p’ra sessão
P’ra ver tal personagem no ecrã
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã








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Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.





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