sexta-feira, 13 de março de 2009


Ala dos Namorados: Loucos de Lisboa Música: João Gil Letra: João Monge
Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao sorrir agradecia









[Refrão]
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar












Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal
Compramos a entrada p’ra sessão
P’ra ver tal personagem no ecrã
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã








[refrão]







Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.





[refrão]

terça-feira, 10 de março de 2009

E porque alguém num comentário, fez-me recordar este poema, achei por bem aqui colocá-lo.

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
de Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 9 de março de 2009

Não sou grande apreciadora de "Demonstrações Públicas de Carinho", apesar de achar algumas deliciosas. Mas quando essas demonstrações de carinho começam a parecer o canal XXL num Sábado de madrugada, deixam-me incomodada e começo logo a pensar em como a Liberdade dos Outros acaba, quando a minha devia Começar.
Até que estava a ser uma boa manhã, cheguei cedo a Lisboa, tinha tempo para ler e-mails e escrever alguma coisa enquanto tomava o meu capuccino no Jeronymo do Rossio com o meu pão de sementes com queijo, antes de entrar no meu pavoroso emprego.
Sim, estava tudo a correr bem, até que na mesa ao lado duas raparigas, que pelo aspecto ainda são adolescentes, se agarraram uma à outra, numa troca de beijos e mãos, pernas para cima e para baixo, línguas rosadas e outras coisas...
E pronto, assim se estragou o meu pequeno almoço, a vontade de escrever a mensagem que queria e apareceu a necessidade deste desabafo. É que para além de serem "Demonstrações Públicas de Carinho" muito explícitas, eram duas mulheres, algo que me deixa ainda mais desconfortável e arrepiada.

Não gosto e ponto, mesmo que sejam a seguir ao Dia da Mulher.

domingo, 8 de março de 2009

Por vezes eu apenas acordo assim, melancólica com pensamentos pesados, um pouco mais escuros do que os habituais. Geralmente. Acordo num dum dia de chuva, mas hoje nem isso, apenas na minha alma chove.

Já me perguntei o porquê desta negritude, o porquê deste “Blues” arritmado, que aparece sem compasso, despido de “Beat” e a resposta surge sempre tímida, emitida por um moribundo sussurro e, implacavelmente, sem sentido.

São dias em que a morte surge como pensamento central, não como um desejo, longe disso, mas mais como um problema que deve ser resolvido, percebido, dissecado. Pequenas coisas, quase nada, coisas em que ninguém pensa, acho eu. Como por exemplo, quero uma campa e um caixão?! Algo onde mais tarde alguém poderá ler quando é que eu nasci, quando morri e quem é que vai sentir saudades de mim, ou se quero ser cremada e que lancem as minhas cinzas no ar, onde simplesmente o meu corpo volta rapidamente para a terra que lhe deu forma, sem passar por todo o processo de degradação e decomposição que me parece tão pouco glamoroso, sujo. Coisas como se devo deixar os meus últimos desejos escritos, deixar destinado aos meus amigos os meus parcos bens, ou se simplesmente devo confiar no seu bom-senso.

Sei que não são pensamentos normais, mas que me atingem como flechas nestas manhãs e que me acompanham ao longo de todo o dia, mas que felizmente terminam quando me deito, sem ter chegado a nenhuma solução, simplesmente porque não imagino a vida de quem me rodeia sem mim e tomo a decisão de continuar a fazer todos os possíveis por me tornar imortal.

quarta-feira, 4 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

-Como te chamas? – ela pensa antes de responder, mas chega à conclusão que ao dar um nome a si própria, estará a criar para si, uma personalidade, deixando de ser apenas um objecto vivo.
-Dalila. – diz sem rodeios e com a verdade. Ele não pode deixar de soltar um riso miúdo.
-Mulher traidora. Isso é bom, fica-te bem esse nome. – “Será ele o Sansão?”, pensa Dalila sem na realidade querer pensar. Não dizem mais nada de imediato. Ele traga de novo o seu cigarro e aumenta a ansiedade daquela criança.


– Que idade tens?
-Não lhe posso responder a isso. Sabe melhor do que eu que não lhe posso responder a isso!
-Como assim, não me podes responder?! – pergunta admirado com a segurança que a rapariga apresentava. – Quantos anos tens? – grita-lhe. Ela estremece, mas não responde, apenas esconde o olhar. Ela sabe que qualquer outra informação acerca dela, só lhe dará ainda mais desvantagem. Quanto menos ele souber dela, melhor, é um trunfo que ela guarda.

Ele perde a pouca paciência que tem. Levanta-se e pontapeia qualquer coisa metálica, que estava no chão. Ela fecha os olhos e aguarda o pior. Ele ainda não viu a cor dos seus olhos, a luz é pouca. Pega numa cadeira de campismo que estava encostada à mesa e senta-se entre as duas camas, bem no centro da tenda. Acende um novo cigarro e pousa os seus enormes braços nas costas da cadeira.


Ela abre os olhos de novo e olha-o sem receio. Apercebe-se que talvez, ele tenha olhos verdes, mas é-lhe impossível ter a certeza. Ele apercebe-se perfeitamente dos seus olhos azuis, brilhantes como duas safiras. Ela fica com a sensação de que ele está menos à vontade naquele papel, do que ela. Decide tomar a liderança, com calma.


- Onde é que eu estou? – pergunta com uma confiança controlada.
- Não te recordas de nada? – pergunta desconfiado, ao que ela acena que não. Ela, agora, olha-o sempre de frente, como se o testasse. A ele, não lhe agrada essa provocação. Ele precisa que ela tenha medo dele e não, que o enfrente com tanta insolência. – Não te recordas dos meus companheiros lá fora? Do que eles te fizeram? Não te recordas com quem estavas antes de vires parar aqui? – se ela se recordasse, o trabalho dele seria mais simples, ela teria medo dele de novo.


Ela cai na sua armadilha, mal desconfia, que seria melhor para ela desconhecer o que se passou, continuar, momentaneamente amnésica. Tenta recordar-se das horas anteriores, fecha os olhos e esforça-se. Recorda-se de algumas coisas, mas uma, sobretudo uma imagem, aperta-lhe o coração.


- O que é que lhe fizeram? – diz subitamente assustada.
- Não lhe fizemos nada que tu não lhe irias fazer em pouco tempo. Tu és uma gata arisca. – responde-lhe divertido.
- Eu não iria fazer nada. Estávamos a falar. Eu estava a convencê-lo a... – detém-se, não deve continuar. - Estavas a tentar convencê-lo que ainda não tinha chegado o momento certo, não era? – a resposta foi o silêncio. Ele aceita-o como um sim.
– Diz-me uma coisa, se nós não tivéssemos aparecido, tu irias permitir que ele insistisse ou tentasse algo , mesmo contra a tua vontade?
- Eu não vou responder a isso! Nada tem com a minha vida, não lhe devo esse tipo de explicações. – ele impacienta-se, aquela criança deveria ser mais cooperativa.
- Responde de uma vez. Estás a fazer-me perder tempo e paciência, duas coisas que eu não tenho em abundância. Podes estar certa que não vais gostar quando isso acontecer. – gritou-lhe. A cada grito que dava, o corpinho dela estremecia e isso, dava-lhe confiança.
- Eu não sei como responder a isso! – era sincera, ela era sempre sincera. Uma coisa ela aprendera, não existia mentira mais credível, do que a verdade pura e crua.
- Não sabes ou não queres saber? – ele levanta-se e aproxima-se dela. Ela encolhe-se o quanto pode, mas não desvia o seu olhar – Eu vou voltar a perguntar. – avisa com voz grave e ponderada – E tu vais responder. – ordena, ao que ela acena que sim – Tu ias permitir que ele fizesse o que queria, ou irias impedi-lo? - Sei que não vai acreditar em mim. – ele tenta não perder a compostura pelo que torna a sentar-se na cadeira de novo.

Ela levanta-se por sua vez, e avança até ele, com uma suavidade de Madona Barroca, como se quisesse que ele percebesse que ela nada tinha a recear com a sua resposta e, com uma voz suave, feminina e intrigante, responde-lhe ao ouvido, com uma confiança quase assustadora:

- Não sei.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Numa das melhores cerimónias dos últimos tempos, só houve uma coisa que me irritou solenemente: que os interesses politico-económicos se tenham tornado mais importantes que o cinema.

No entanto, Hugh Jackman não podia ter sido melhor. Ele é homem para cantar, dançar, tem músculos para dar e vender, um sotaque Australiano que nos leva, sempre, o pensamento para homens de barba rija e muito calor, ou seja, o perfil do Homem que encheria os meus requisitos e para além de tudo, fez renascer a entrega de prémios que mais gosto.

Por falar em Hugh Jackman, até a banda sonora de "Austrália" era melhor que a do Slumdog Millionaire. É claro que é só a minha opinião e esta conta o que conta.

Bons filmes...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Não sei se seria só de mim, mas acho que seria uma óptima forma de começar um fim de semana prolongado. Pequeno almoço na cama, duche em conjunto, um passeio por Sintra, almoço na Ericeira e ao fim da tarde, depois de um pôr-de-sol, na baía de Cascais, voltar para casa e terminar como tudo começou.
Uma rapariga, sempre pode sonhar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Cenário: Chamada de Madrugada, mulher na cama a tentar dormir, homem do outro lado do telefone e do Oceano Atlântico H - Porque é que quando as coisas estão a correr mal, de um momento para o outro, acontece algo, surge uma corrente de ar quente, um balão de oxigénio e as coisas começam a recompor-se, a voltar ao normal?! M- Porque depois da tempestade vem a bonança? H - Odeio frases feitas... M - Deus escreve certo por linhas tortas. - provoca, soltando um riso que fica dentro de si. H- Então essa, é a que eu mais odeio! M - Como é que se pode odiar uma frase? - diverte-se H - Deus criou o Mundo, o Universo e sei lá mais o quê, pois é todo poderoso, mas não foi capaz de ter feito só linhas direitas? - ela ri-se - Se só tivesse feito linhas direitas, não precisava de corrigir a escrita. M -Se assim fosse os homens não existiriam e eu poderia estar agora a dormir.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Finalmente lançaram-me um desafio da blogosfera. Já havia ouvido falar deles, mas para mim eram um mistério até que o woody lançou-me um. Estarei para sempre em dívida. Obrigada.
O desafio consiste em: pegar no livro que está mais perto; abrir na página 161 e encontrar a 5ª frase mais completa, transcrevendo-a. Esta da 5ª frase mais completa é que me confundiu, pois não entendi o que queria dizer a 5ª frase mais completa. Seria simplesmente 5ª frase, ou depois de 4 frases, a que se seguisse mais completa, ou após 4 frases completas a 5ª que se seguisse? Como não cheguei a conclusão nenhuma, optei pela frase mais completa que se aproximasse da 5ª.
Os livros que estão mais próximos de mim são dois que estão na minha carteira (não imaginam o tamanho dela, mas nada se compara ao peso, garanto). Um deles é da Marguerite Duras, Os Insolentes, pag. 161, 5ª frase mais completa: "O fantasma da mãe tocou-a ao de leve, era tão suave quando o recordava, bom como o Verão que se aproxima, o Verão em que se pensa quando ainda é Inverno." Ou então, o segundo na carteira, Ele e Ela, de Iris Barroso, ainda por concluir (um livro por concluir, já é um livro?), pag. 161 do manuscrito, 5ª frase mais completa: "Queriam esquecer, ignorar, fazer de conta que não se viam, mas era impossível: o desejo que acordou assim que sentiram a presença um do outro, foi tão forte, que se transformou numa dor física que fazia latejar as entranhas, que lhes roubava o ar, que os fazia gritar num silêncio oco." Pronto, desafio respondido, espero que me tenha saído bem! Venham mais.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ela pode ouvir a chuva cair, suavemente, sobre a tenda. É uma chuva miudinha, macia, quase um acompanhamento ao crepitar das chamas da fogueira, que arde fora daquele tecto. Ela gosta da mistura de cheiros que todo aquele cenário proporciona. É algo mais forte do que ela, algo que estimula uma parte do seu cérebro, que ela não controla. Ela gosta quando isso acontece. Ela gosta de perder o controlo. São poucas as coisas que ela não controla e é sempre uma agradável surpresa, quando ela descobre uma. É um desafio e, ela gosta de desafios. Ele, no entanto, conhece bem essa parte do cérebro, conhece como trabalha, sabe quais são os efeitos dessa sensação. Ele sabe tudo sobre a libido, sobre o impulso sexual. Sabe que não o controla por completo, mas há anos que lida com ele e sabe até onde pode ir.

Abre a camisa, que lhe havia dado há instantes. Camisa que ainda guarda o seu forte cheiro. Tira-a devagar, botão por botão, como se a redescoberta daquele corpo que ele já tocara, fosse uma oportunidade única, que não devia ser desperdiçada com precipitações. Ele toca finalmente nos seus redondos seios, sente-os firmes, um pouco entumecidos. Sorri, perante a excitação da sua prisioneira. Ela ainda não decidiu o que irá fazer, tudo dependerá do que se vai passar a seguir. São sempre decisões de instantes. O cérebro, sobretudo o seu inconsciente é que decide, o que o corpo fará a seguir. Ela sabe-o bem. Todos denominamos essas fracções de segundos, em que tomamos essas decisões importantes, de intuição, instinto, mas ela não. Ela sabe que o seu corpo sabe o que é melhor para ela. Ela é apenas mais um animal da terra e, como todos os animais, ela tem que sobreviver e sabe, que a mãe natureza lhe deu tudo o que ela precisa para tal. Sim, ela sabe que na altura certa, o seu corpo saberá o que fazer, para que ela sobreviva, da melhor maneira possível. Não lhe cabe a ela pensar nas alternativas, ela não quer interferir com a sabedoria que já lhe foi passada ao longo de tantas gerações. Ele ajoelha-se, é grande demais para aquele pequeno corpo. Ele pretende beijar-lhe o ventre, os seios, mas de pé é quase impossível. Contudo, quando aproxima os seus lábios à pele suave daquele anjo, ela foge, refugiando-se na cama, onde já tinha estado. Ele ri-se, levanta-se e acende um novo cigarro. Ela procura os seus olhos em tom de desafio, desafio esse que ele aceita. Sentando-se na outra cama.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Facto: Quase todas as mulheres afirmam gostar de homens românticos.
Realidade:
Um casal está naquela fase do dizer adeus, sem que nenhum dos dois tenha vontade de abandonar o outro.
M- Bem que podias acompanhar-me ao carro... - dá-lhe um beijo e pisca os olhos como as meninas pequenas quando querem muito, alguma coisa, num gesto, puramente, instintivo. - Sempre eram mais uns segundos, uns minutos que estávamos juntos.
H- O que são dois minutos para quem quer passar toda a eternidade contigo! - diz satisfeito por ter dito algo tão profundo e romântico, por se ter saído tão bem, mas ela, num reflexo automático de auto defesa, ri-se cínica, numa gargalhada sonora:
M- Dizes isso por pensares que é o que quero ouvir e pensas que assim te safas!
Conclusão: As mulheres querem homens românticos mas não acreditam que eles estejam a ser genuínos quando o são.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

 
Com os Óscars à porta, tento sempre ver todos os filmes que estão nomeados, pelo que, este fim de semana, fui ver o Revolutionary Road e apesar da beleza visual do filme e de pequenos grande pormenores de realização, o que eu mais gostei este filme, foi o que eu aprendi sobre a América do após II Grande Guerra:
1 - Os filhos desapareciam sempre que assim era conveniente.
2 - Os loucos parecem-se com pessoas "normais" e as pessoas "normais", parecem sempre loucas.
3 - Na década de 50 e 60, os homens americanos sofriam todos do grave problema de Ejaculação Precoce, pelo menos os que viviam (segundo a amostra) na Revolutionary Road.
Agora um pouco mais a sério, o filme está muito bem realizado, mas percebo a não nomeação do Leonardo para melhor actor e não entendo o Globo de Ouro da Kate Winslet, apesar da sua excelente performance. Mas enfim, gostos são gostos e cada macaco tem o seu. Não deixo no entanto de sugerir que o vejam, pois consegui rir à gargalhada durante um drama doméstico, o que normalmente costuma ter o efeito inverso em mim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cenário: Grupo de três amigos, depois de um jantar em casa, duas horas de risco, duas horas de um DVD, duas garrafas de vinho tinto, vodka e água tónica.
1 - Adorava ser um gato.
2 - Um gato para quê?
3 - Ela quer ser a catwoman... - risos.
1 - Porque adorava deitar-me ao sol todo o dia, à noite receber festinhas do dono e ronronar no seu colo enquanto vê um pouco de televisão.
3 - Sempre podes casar com alguém que te sustente. - Serve-se de mais vodka.
2 - Só um homem para dizer algo tão absurdo.
1 - Sim, só um homem. - indigna-se por não ter sido entendida.
3 - Não percebo tanata indignação. Não disse nada de novo.
2 - Não tem nada de novo, mas é ofensivo para uma mulher moderna, para além de que não foi nada disso que ela quiz dizer.
1 - Pois não!
3 - Ilucidem-me...
1 - É mais do que a ausência de um trabalho, emprego, de obrigação. Tem mais a haver com a liberdade, com a ligeireza com que os gatos passam por este mundo: a sua memória curta; o seu corpo ligeiro; os seus afectos convenientes; a independência é total.
2 - Até que ponto se pode considerar independência, se nunca tiver havido nada de que se dependesse?
3 - A mais não seja, é-se dependente do facto de se ser independente.
2 - Isso é o vodka a falar. - o 3 e a 1 riem-se. - E um gato doméstico apenas é independente, porque depende do dono para tudo o que podia comprometer a sua independência.
3 - Na realidade é como continuar criança eternamente.
2 - Mas uma criança recorda e todo o ser humano é dependente das suas memórias. Eu não entendo o conceito de se ser independente.
1 - E eu só quis, por alguns minutos e sobre a influência do sono, ser um gato.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ela avança num passo lento e controlado. Dir-se-ia uma gata pronta a atacar. Mal deixa marcas dos seus pés descalços, na terra molhada. Ela aproxima-se daquele homem que não conhece. Sente nos seus pés, a humidade da terra e sente frio. Um odor particular intensifica-se, mas não o consegue distinguir. Uma nuvem pesada, forma-se a cada exalação do soldado. Ela está agora perto o suficiente dele. Engole em seco, finalmente apercebe-se que tem sede e que os seus lábios estão secos. Humedece-os, ligeiramente com a língua e diz com uma voz quase inaudível: “Aqui estou!” Até para ela lhe pareceu fraca demais, tanto que se prontificava a repetir, quando ele afirma com uma voz dura e seca:
- “A partir de agora, sempre que eu der uma ordem, tu obedeces, sem sequer pensar. Compreendes?” - Ela acena que sim, mas ele de costas espera uma resposta audível. - “Compreendes?” - Grita de novo e, desta feita, ela responde com um sonoro
- “Se eu achar que devo.” - e ao terminar de falar, fecha os olhos, aguardando uma reacção violenta ao seu desafio. Ela conhece-o bem. Pareceria a qualquer um, que ela já tinha estado perante tal situação e tal como previra, ele vira-se com a intenção de lhe bater, mas ao aperceber-se tão previsível, sorri e diz apenas: -De onde saiu essa coragem toda? – ela apenas treme, mas agora de frio. Não lhe responde. Na verdade, não saberia o que lhe responder, nem ela mesmo sabe.
Estão tão perto um do outro, que conseguem sentir o calor emanado pelo corpo de ambos e, inconscientemente, gostam os dois, dessa aproximação. A disparidade de estaturas é absurda. Ela parece-lhe mais nova agora que está de pé, perto de si. Mas é imponente no seu metro e sessenta e picos, talvez mais. Até que não é baixa para uma mulher, ou menina. Ele toca no cabelo que lhe tapa parte do rosto e afasta-o para trás. Acaricia-lhe de novo a face, o pescoço. Desta vez ela pode senti-lo. A respiração dela acelera um pouco, apesar do seu controlo. Ele apercebe-se, sente-se bem e continua a sua exploração. A sua vontade era tocar-lhe por inteiro, de uma vez só, mas contém-se, mais uma vez, contém-se.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Cenário: A Caminho do comboio para vermos o Bolt.
- Tia!
- Diz amor. - continuamos a andar.
- As fadas existem? - olha para mim para tentar ver se vou inventar, porque ela às vezes já percebe.
- Claro que existem! - despacho, sabendo como é importante manter a imaginação activa, numa criança e porque aos sete anos é cedo de mais para perder a inocência, tem que ser cedo de mais.
- E todas as coisas fantásticas dos filmes e das histórias que me contas?
- Essas coisas podem não ser verdadeiras da forma como são contadas, mas existem.
- Porque é que nunca vi nenhuma dessas coisas?
- Porque vivemos em dimensões diferentes.
- Dimensões?
- Sim... - tento procurar uma explicação - Universos paralelos.
- Não entendo muito bem, tia? - franze o nariz. Como eu adoro aquelas ruguinhas que se formam em cima do nariz, quase na testa, quando ela o franze.
- Estás a ver aquela história que a tia te explicou sobre as rádios?! - ela tenta recordar-se - ...que o som de todas as rádios andam no ar ao mesmo tempo, apesar de não as ouvires nem as veres?! - ela acena que sim, mas pouco convencida - Nós só ouvimos as rádios, quando ligamos um rádio e colocamos numa frequência, certo? Percebeste isso? - Ela acena que sim - Os Universos e as dimensões são, mais ou menos, a mesma coisa. - torce o nariz - Todos vivemos no mesmo Mundo, no mesmo planeta, apenas temos frequências diferentes.
- Mas se nunca os vimos como é que sabemos que existem? - Já não é tão simples explicar as coisas.
- Porque às vezes, em determinadas situações, um tipo de energia faz com que nós possamos ver-nos uns aos outros.
- Quando?
- Por exemplo: quando caiem os dentes das crianças e elas colocam-nos debaixo da almofada...
- A fada dos dentes sente a energia e vem ao nosso mundo, tira o dente e põe uma moeda. - interrompe contente por ter compreendido alguma coisa, da minha maluquice.
- Exacto.
- E o mesmo com o Pai Natal, quando é Natal, certo?
- Certo! - Boa! Já expliquei mais uma que devia estar engatilhada.
- E o Coelho da Páscoa?
- Também.
- A fada dos sonhos, que me tirou a chucha?
- Também.
- E os monstros, tia? Os trolls e os vampiros e essas coisas?
- Esses têm mais poder que as coisas boas e andam entre os dois mundos com muita facilidade. Mascaram-se de humanos e estão sempre prontos a fazer maldades.
- A sério, tia?! - criar algum medo sempre fez parte da educação das crianças, porque não?!
- A sério! Por isso é que tens que ter muito cuidados a falar com estranhos, pois nunca se sabe se essa pessoa não é um desses monstros, mascarado.
- Ah! Está bem, tia. Vou ter cuidado, prometo.
- Agora vamos andar mais depressa ou perdemos o comboio.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009


Pois bem, Novo Ano, hora de balanço e feitas as contas, tenho muito por agradecer: agradecer por ter emprego (mesmo que seja um martírio), agradecer por ter família, agradecer porque vou tendo saúde, agradecer porque a minha sobrinha e os meus primos enchem-me de alegrias e de orgulho, agradecer pela amizade dos meus amigos de longa da data, agradecer pela consolidação de amizades recentes, agradecer por tudo aquilo que aprendi, agradecer por todas as experiências boas e más, que fazem de mim um ser humano, cada vez mais forte e melhor, agradecer por ainda ter mãe e por me irritar tantas vezes com ela, agradecer por ainda viver e por ainda ter tempo para continuar a ser melhor, a fazer melhor e a querer melhor.


A todos que contribuiram para tudo isto: Muito Obrigada!
A todos um Excelente ano de 2009!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Decidi que ia pedir ao Pai Natal alguém com quem podesse partilhar a minha vida, o meu corpo, a minha alma, a minha felicidade.

Li a carta cheia de orgulho da bonita caligrafia e do papel bem escolhido e num impulso, rasguei-a. Comecei a escrever outra, onde pedia, simplesmente, que fizessse com que algum homem se sentisse atraído por mim. Esta teve o mesmo destino que a anterior, pois pedia algo que já tenho. Pensei melhor e recomecei a escrever a terceira carta. O mesmo papel, a mesma caneta, a mesma caligrafia cuidada.

«Querido Pai Natal;

Na minha árvore, este ano, eu queria algo especial: um sentimento muito particular que uma vez já tive e que, por alguma razão alheia ao meu consciente, perdi. Este Natal, querido S. Nicolau, desejo ter de volta a "Capacidade de me Apaixonar".

Certa de que é um pedido complicado, compreenderei a demora da entrega.

Despeço-me com a mais elevada consideração e devoção.

Votos de um feliz Natal junto dos seus e que tenha neste e em todos os anos muito trabalho.

Com um beijo, desta que o respeitará para sempre. - Ass. Iris Barroso»

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

 
 
A minha irmã estava de folga, pelo que senti a falta da voz da minha sobrinha às seis da manhã, mas às sete, o telemóvel deu o alarme e ao som de Mondobongo de Joe Strummer e os Mescaleros, o meu cérebro, lentamente, acordou. Mas foi mesmo muito, muito, muito, lentamente. Começou por dar ordem aos olhos para abrirem, mas estes em contacto com a pele, decidiram ficar quietos. A pele sentia-se quente e protegida e pediu aos olhos, mais alguns minutos de tranquilidade.
 
O cérebro pediu então aos músculos que se mexessem, que se espreguiçassem, que induzissem alguma energia ao resto do corpo em plena greve, mas estes mal estremeceram, fizeram a pele sentir-se refrescada, numa nova posição e os nervos enviaram nova mensagem ao cérebro, pedindo mais alguns minutos de tranquilidade.
 
O cérebro pediu então, num apelo quase desesperado a todo o corpo para que acordasse, que já eram horas, mas os ouvidos ignoraram o novo alarme, os músculos recusaram a mover-se, os olhos mantiveram-se quietos e a pele, esse órgão tão importante e tantas vezes ignorado, gritou:
 
- Deixa-te ficar mais um bocado! - Assim o cérebro fez e, numa retirada estratégica, sonhou acordado por mais um pouco. À terceira repetição do alarme, encheu-se de energia e berrou:
 
- Acorda, corpo gordo e preguiçoso, o descanso acabou! - os olhos irritados mantiveram-se fechados e a pele aquecida pediu aos músculos para não se mexerem, mas estes, como soldados bem treinados e ofendidos pelo insulto gritado pelo cérebro, moveram o corpo num impulso, contraindo os abdominais, ao mesmo tempo que os bícepes e os lombares, deixando o corpo na posição de um gato a espreguiçar-se ao sol, com os lençóis a escorregarem para todo o lado.
 
A pele sentiu assim o frio da manhã e num arrepio mal humorado, disse então aos olhos:
 
- Abram lá! Já chega de mandriar!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ela tem a sua primeira oportunidade de o observar, sem ser vista. Levanta os olhos e vê um homem, aparentemente um militar. A sua intuição assim o diz, a roupa que ele veste e a camisa que a aquece, também. O seu corpo é extremamente musculado, mas de certa forma, é-lhe familiar. Aquela configuração não a assusta, ela já a conhece bem. O cabelo dele é negro, quase tão escuro quanto o seu e curto, como convém a um bom soldado. É alto. Bem mais alto que ela. Talvez um metro e oitenta e cinco, quem sabe mais, mas ela não tem a certeza. Veste umas calças pretas, cheias de bolsos, fechos e presilhas. A camisa não mostra qualquer insígnia, talvez estivesse numa missão secreta, mas ela podia quase afirmar, que ele era um oficial. Deve rondar os trinta anos, mas não consegue ter a certeza. Existe pouca luz, para que se possam ver bem as feições. À cintura, um cinturão, uma navalha e uma arma automática, talvez uma Beretta de sete milímetros, num coldre. Instintivamente olha para a perna direita, junto à bota e repara que algo falta, mas não sabe o quê, nem sabe porque é que procurou.
- Vem cá. – ordena num tom seco e ríspido, que, mais uma vez, não lhe é estranho – Vem cá! – secunda, desta vez com uma voz mais grave que a assusta, fazendo-a encolher-se. No ar existe um cheiro a eucalipto, a terra molhada, a fumo e a musgo, que a embriaga. – Vem cá, imediatamente! – grita-lhe, por fim.
Ela levanta-se num gesto único de gata selvagem, quase sem barulho. Controla a sua respiração acelerada pelo medo e ganha uma nova confiança. Respira fundo. Aperta devagar todos os botões da enorme camisa que lhe foi emprestada e arregaça as suas mangas. Uma ordem tinha-lhe sido dada, mas ela não tinha conhecimento de que teria de obedecer. Não, rapidamente, pelo menos, e por isso, tomou o seu tempo. Ele ouviu-a. Tinha sido treinado para isso, mas estava confuso. Aquele pequeno ser baralhava-o mais uma vez. Ele ia gritar-lhe novamente, mas antes que fosse necessário, ele ouve-a a dar os primeiros passos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

 

 

Há alguns dias (mesmo muito poucos), uma adolescente de 16 anos, acusou-me, publicamente, de ser a "Rainha das Tradições" e de ter uma imaginação demasiado fértil (Está descansada que eu sei que foi com boa intenção. Ainda não foi desta que o pai Natal te tirou da lista.)

Fez-me pensar e tive uma conversa comigo mesmo, demasiado longa, confusa e socrática, para aqui a reproduzir. Pensei e repensei, escrevi e rasguei, reescrevi e voltei a rasgar, escrevi uma última vez, li e cheguei à conclusão que, no mundo em que vivemos, na vida que tenho tido (com este eterno ganhar para depois perder), talvez e apenas essa imaginação, esse agarrar de pequenas coisas, tenha sido a razão para continuar com a vida.
 
Continuo, dia após dia, mês após mês, ano após ano, porque apesar de tudo, ainda acredito, ou pelo menos (se formos literais com a palavra imaginação), penso acreditar, que a vida vale a pena viver, que o Mundo está cheio de coisas boas e que a magia e todos os seus porta-vozes, nunca permitirão que a esperança morra... pelo menos a minha!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

 
 
Mesmo aquelas que vão sendo criadas ao longo do tempo num grupo restrito de pessoas, a quem alguns chamam família.
São lindas porque nos ajudam a recordar o quão importante é o trabalho em grupo, o quão forte pode ser uma família unida, o quão pouco importante é tudo aquilo, que por ser negativo e externo ao nosso grupo, não nos pode afectar e principalmente porque nos obriga a encontrar ainda mais vezes e a reforçar os laços que nos unem.
 
Mas para além de lindas são divertidas e este fim-de-semana voltou a provar isso mesmo. Graúdos e miúdos divertiram-se como reis, num dos cenários mais lindos do Mundo, mas como uma imagem vale mais que mil palavras, vejam vocês mesmos, no novo slide show, que coloquei na barra lateral, espero que gostem!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

 

E é basicamente isso que tenho para dizer. Faltam 30 dias para a festa que eu mais gosto.

Já comecei os preparativos, (leiam-se as limpezas) e no fim-de-semana, a tradicional ida a Sintra, com a minha sobrinha e prima e talvez, até alguns amigos se juntem a nós. Espero que sim pois o que mais me agrada nesta época do ano é a partilha e eu adoro partilhar os momentos felizes com os meus amigos.
 
Por isso espero que aceitem o meu convite, que se juntem a nós neste passeio pela Serra Encantada, que redescubram os monumentos, a aura de magia, que desfrutem da companhia de quem lhes quer bem, que se deixem guiar pelos risos e brincadeiras dos mais pequenos, que mergulhem de cabeça no espírito natalício e deixem invadir as suas almas pela boa disposição, bom humor e boa vontade.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

 
 
Com todo o respeito e consideração que tenho pelos profissionais, acho um gozo, este tipo de títulos nos jornais. É um gozo por diversas razões, mas vou apenas enumerar duas.
 
A primeira é que infelizmente, os taxistas são uma profissão que coloca em risco, todos os outros condutores. A segunda é que nos tempos que correm, posso enumerar facilmente mais do uma dúzia de outras profissões que correm muito mais risco que os taxista, como por exemplo: Pescadores, Polícias, Bombeiros, Mineiros, Lojistas de Ourivesarias, Empregados de Bombas de Gasolina, Empregados de bares e Estabelecimentos Nocturnos, Professores, Enfermeiros, Médicos, ou simplesmente pessoas que passeiam na rua ou utilizam transportes públicos...
 
Não sei! Creio que foi só um pensamento.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

 

Sempre amei os filmes do 007 com as suas armas, os carros, a classe, as lutas, as roupas, as intrigas internacionais e o suposto secretismo. Sempre achei piada ao facto do 007 ser um agente muito pouco secreto.

E assim sendo, é claro que esperava ansiosa pela estreia de mais uma sequela deste enredo que adoro, principalmente, depois de ter ficado agradavelmente surpreendida com o Casino Royal, com o Daniel Craig.

Comprei os bilhetes à hora de almoço (não fossem esgotar) e arrastei a minha mãe comigo, até ao Alvaláxia, ontem à noite, antecipando cada segundo do filme que morria para ver. E foi isso que aconteceu! Morri a cada cena, sustendo a respiração a cada corrida, a cada movimento de luta, a cada mudança (que parecem intermináveis nos filmes) que o Daniel metia no seu Aston Martin, a cada piada entre ele e M, a cada trocadilho, a cada "gadget" (que têm um valor muito pequeno neste filme).
O 007 está mais mortífero que nunca e muito se deve ao novo Actor (Daniel Craig), que na minha opinião, simplesmente incorporou a essência do verdadeiro James Bond: classe, elegância, distância, eficiência e uma capacidade de matar com três movimentos, que afasta qualquer outro agente, herói, ou cartoon da sua liga, onde reina sozinho e sem par.
Nunca o 007, matou tantos vilões, sem ordem para matar. Genial!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Porque será que eu hoje sinto que todo o mundo está de parabéns? Porque é que eu sinto que mais do que os Americanos, hoje, todo o planeta elegeu um presidente?
E porque é que será, que eu acho isso algo maravilhoso, algo digno de memória, algo digno dos livros de História, algo digno de cidadãos do Mundo e para o Mundo? Martin Luther King (na fotografia) dizia há uns anos atrás, que tinha tido um sonho... hoje por volta das 4 da manhã eu vi esse sonho tornar-se realidade e convenci-me a mim mesma que tudo, mas mesmo tudo é possível e que nada, mesmo nada, pode parar o Homem, quando este sabe o que quer. "Yes we can!" Acho que a humanidade está de parabéns e eu estou feliz.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sempre me disseram que a força do pensamento era a mais poderosa do universo. Até posso concordar com isso, não numa forma do livro "O Segredo", mas sim, é poderosa.
Mas para que um pensamento seja poderoso este terá que se materializar, tornar-se real, dar-se a conhecer e só assim poderá, na minha opinião, ter verdadeira força no mundo.
No outro dia, deparei-me com um pensamento e com uma tentativa de mensagem, bem num estore do comboio onde eu seguia (que poderão ver na fotografia desta mensagem) e fiquei triste. Fiquei triste, porque aqui está um exemplo de alguém, que por não ter prestado atenção nas aulas, nunca poderá dar a conhecer os seus pensamentos de forma eficaz e logo, nunca poderá fazer com que os seus pensamentos tenham realmente força para alterar algo.
É que para o povo se unir, Precisa de perceber a mensagem e se a mensagem não é bem transmitida, nunca passará de um pensamento, mas este estará para sempre encerrado na mente de quem o teve e nunca, nunca, poderá ter real força.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ela estava a chorar. Não caíam lágrimas, porém ele conseguia vê-las, via-as inundarem o peito da sua amada, a encherem o seu pulmão, a asfixiarem-na de mansinho, a darem um nó na sua garganta, a taparem os seus ouvidos, a matarem-na.
Teve vontade de a beijar, de sorver cada gota daquele líquido límpido e salgado que tanto a angustiva. Teve vontade de a abraçar, de a abraçar com tanta força que a tornaria parte de si, um único ser indivisível, para sempre juntos, para sempre, eternamente, um.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sempre ouvi dizer que os sonhos eram a preto e branco. Sempre refutei tal ideia, até porque tenho uma grande capacidade de recordar o que sonhei e uma das coisas que se destacam nessas recordações são mesmo as cores.
Porém há mais de uma semana que sonho a preto e branco, sonhos tristes e cinzentos, como a claridade suja de Londres e a claustrofobia do grande monstro de cimento Nova Iorquino.
Há uma semana (mais coisa, menos coisa) que não acordo contente, com um sorriso nos lábios ou com a recordação de uma cor de céu impossível de existir, mas que apenas por ter estado na minha mente durante o sono, era real e palpável. Os meus sonhos coloridos fazem de mim uma mulher mais bem disposta e eu não os quero perder.
Se os sonhos fossem a preto e branco para sempre, a cor morreria em mim.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Como se a chuva ainda não tivesses sido prenúncio suficiente de que o Verão, realmente já tinha acabado (E continuo à espera do Verão mais quente dos últimos anos!), hoje, quando cheguei de manhã a Lisboa e estava a sair da estação do Rossio, um cheirinho familiar, que faz as minhas papilas gustativas começarem a salivar tal qual "Cão de Pavlov", anunciava o retorno das castanhas.
Convém dizer que são muito poucas as coisas que me fazem vibrar no Inverno e se pudesse, faria como os ursos e hibernaria durante todo este período. Entre essas raridades estão as castanhas, a promessa do Natal, as luvas, os chapéus e os cachecóis. Não me perguntem porquê, mas gosto destas 5 coisas, fazem-me ficar quente e bem disposta, pena que com elas vêm os casacos, os guarda chuvas, as meias, os camisolões, o frio, o frio e o frio.
Mas não hoje! Hoje houve apenas aquela promessa do sabor adocicado, suave e macio das castanhas na minha boca, nos assados e no arroz (que acabarão na minha boca também), acompanhadas de vinho novo, jeropiga e vinho do porto. E isso meus senhores, é um manjar dos céus e algo que faz sentir feliz.
Fiquem bem!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Andava eu a passear na net e a ver as novidades em anúncios e deparei-me com esta foto da D&G. à primeira vista, perdoem os meus olhos femininos, apenas prestei atenção aos belos abdominais dos modelos. Passado um pouco (alguns segundos apenas, não pensem mal de mim), reparei na sugestão do sonho erótico de violação e neste caso com mais do que um homem.
Continuei a procurar e fiquei a saber que a campanha estava em "águas de bacalhau", porque havia queixas de militantes feministas, exactamente por causa dessa mensagem. Pesquisei mais um pouco, li diversas opiniões e fiquei a saber, que mais de 75% das mulheres sonha em ter sexo com mais de um homem e que 35%, gostava que fosse forçado, ou de pelo menos, imaginar que seria forçado, num jogo sexual.
Assim sendo, e visto que o sexo na publicidade, até à data, tem sido uma fórmula eficaz como meio de venda para o mercado masculino, pergunto-me porque não utilizar um dos imaginários sexuais mais recorrentes da mente feminina, para vender? Apenas porque um grupo restrito de mulheres acha ofensivo?
Que acham?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

 

No outro dia tive uma daquelas temidas conversas com a minha sobrinha de 6 anos.
- Tia! - chama enquanto se aproxima - Eu ouvi uma palavra, que é uma asneira, eu sei que não se diz... - Fala comigo em segredo - Posso perguntar o que quer dizer? - E eu, tremendo por dentro por não saber o que teria que responder, digo:
- Claro! Pergunta sempre o que quiseres. - Então, aproxima-se um pouco mais e diz-me ao ouvido:
- P*t*. - disse tão baixo que nem consegui ouvir, por isso repete, desta vez, uns décibeis mais elevados, mas ainda assim, de forma inaudível. Depois repete uma terceira vez e dessa vez eu entendo.
- Olha! - Tento ganhar tempo para pensar numa resposta - Vai buscar a escova para te pentear e depois eu digo o que quer dizer. - Ela obedece. Volta com a escova e eu sem saber muito bem como, começo a falar - Essa palavra... - Opto, conscientemente, por não a repetir - Quer dizer, ou melhor, é o nome que se dá a mulheres que têm muitos namorados. - Depois arrependo-me do que digo, não quero transmitir a ideia de que ela não pode namorar, ou experimentar. Sei que é cedo para isso, mas a dúvida pode ficar dentro dela e não quero. Para além disso, a palavra não quer dizer isso. - Melhor... não é que tenham muitos namorados, que não há mal nisso.
- Então o que é?
- É que ter muitos namorados é o trabalho delas. Os homens pagam para elas serem namoradas deles, por umas horas, uns dias e isso é errado. - Ela pensa, queixa-se por lhe estar a apertar demasiado o rabo de cavalo. Desisto e faço-lhe dois tótós.
- É só isso? - Pergunta inocente.
- Sim, é só!
- Pensei que se dizia essa palavra, porque eram más, ou coisas assim... tipo bruxa, ou assim! - Pensa e eu viro-a para ver o penteado - Percebes o que quero dizer? - Encolho os ombros - Se elas fazem de namoradas, não pode ser assim tão mau! - Calo-me, não sei como explicar melhor, ela ainda não iria perceber e ela continua. - Ouvi outra palavra.
- E qual foi?! - Esperava pelo pior.
- M*r*a! - Sorrio, pois depois da outra essa era fácil de explicar.
- Isso é uma palavra malcriada, para dizer cocó.
- Ah! Que engraçado. Que mal tem dizer cocó?! Era mais fácil, não era?
E eu rio-me com ela e penso, quanto tempo terei ainda para lhe ensinar o que as coisas querem dizer. Depressa virá o dia em que ela me ensinará, palavras que nunca terei ouvido antes.

terça-feira, 23 de setembro de 2008


...um desconhecido oferece flores.

"Se um desconhecido lhe oferecer flores isto é Impulse!"

Esta era uma frase de um anúncio que durante muito tempo andou de boca em boca e eu quase teria esquecido se ontem, um desconhecido não me tivesse oferecido uma flor.

A situação foi tão constrangedora e à frente de colegas de trabalho, que pensei que mais valia estar a ser presa pela polícia naquela altura, pois pelo menos teria como justificar o acontecimento. Mas agora, estar sentada à mesa de um restaurante e um perfeito estranho vir oferecer uma flor, foi surreal. Tão surreal que ele continua tão estranho quanto era ontem, pois nem sequer aceitei a flor, ou o cartão, nem sequer o quis ouvir, simplesmente, porque estúpida e destreinada, já não estou habituada a ser cortejada, a atitudes espontâneas, a pequenos devaneios do destino.

E o que mais irrita é que fui eu que não soube como lidar com a situação, logo eu que escrevo e falo sobre o assunto com tanta facilidade, com tanta, arrisco a dizer, imprudência, leviandade.

Devia ter aceite, devia ter trocado uma palavra simpática com ele, poderia criar uma esperança, ou simplesmente dado um sorriso, mas não, retraí-me, escondi a cara, disse que não podia falar naquele momento e sei lá mais o quê que me saiu da boca para fora.

Depois queixamos-nos, que os homens não são cavalheiros, que os homens não são românticos, que os homens isto e que os homens aquilo, mas quando são, arriscam-se como aquele pobre coitado, a serem tratados como loucos, pedintes, como se tivessem peste.

Como me recrimino!

Se por um acaso do destino está a ler esta mensagem, por favor, as minhas desculpas, mas compreenda... não estou habituada. A verdade é que aceito a flor e aceito o seu gesto e um dia mais tarde, talvez, também você, possa aceitar as minhas desculpas.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O seu corpo continua a tremer, mas agora mais de medo, do que de frio. Ela está nua, não sabe onde está, não se recorda como é que lá foi parar, não reconhece a situação em que se encontra, mas mesmo assim, aquela criança, sente-se desprotegida e fraca, mas não vencida.

Ele apenas a observa. Não tece qualquer comentário, não faz soar qualquer ruído, não faz anunciar a sua presença. Ele apenas a observa, de pé, a três ou quatro passos da sua cama. Ela insinua falar, mas arrepende-se e decide também ela, observar.

Ela ainda não o olhou. Ele é o que mais receia naquele momento e, por isso, apenas sente a sua presença pesada. Reconhece de imediato uma tenda militar. Um ou dois candeeiros a petróleo, um candeeiro a gás, algum equipamento, incluindo duas mochilas semi-desfeitas. Duas camas em lados opostos, sendo uma delas, aquela onde se encontra.

No meio, entre as duas camas, mas por cima delas, uma mesa de construção tosca de troncos e cordas, junto à outra cama e preso com alfinetes à parede da tenda, está um enorme mapa-mundo e algumas fotos de satélite. Não consegue ler o que dizem. O chão está húmido e tem restos de sisal, por todo o lado. Na cabeceira da sua cama, encontram-se duas cordas, que percebe, pelas marcas dos seus pulsos, a sua função. Observa por fim, as marcas de uma luta sem glória, que se espalham pela sua pele leitosa, agora suja de lama, pó e suor. 

Ele cansa-se de a observar. Lentamente tira um cigarro e, num gesto aprendido no cinema, acende-o com um fósforo. Pela primeira vez, ela toma plena consciência que estava nua. Ela sabia que estava sem roupa, mas só agora se apercebe que isso faz com que ela esteja nua.

Ele sorri com o embaraço da rapariga. Dá um longo e lento trago no seu cigarro e despe a camisa. Dirige-se até a jovem e, displicentemente, alheio ao terror que lhe estava a provocar, pousa a peça de roupa, sobre as costas daquela, ainda criança. Não se demora. Tem receio da aproximação. Também ele tem medo. Afasta-se e olha o mapa do outro lado da tenda, virando as costas à sua prisioneira.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Antes de mais, quero pedir desculpas pela ausência prolongada, mas como devem ter notado pelo anterior mensagem, estive de férias e quando digo de férias, refiro-me a todo o tipo de férias. Não quis saber de notícias, não quis saber de internet, blogs, ou canetas, não usei o telefone com outro sentido que não o lúdico e cortei com qualquer tipo de preocupação.

O problema foi quando voltei. O Mundo não tinha tirado férias como eu e por isso mesmo, tinha avançado por um caminho que eu desconhecia. As férias acabaram e eu tive que voltar ao trabalho, aos telejornais, à net, ao meu patrão. Voltar a ficar encafuada num espaço de luz artificial, com um ser humano que se tem em tão alta conta que se esquece que não é ninguém sem quem o rodeia e a fazer um trabalho repetitivo, minuto, após minuto, segundo após segundo, transportou-me para uma zona de mal-estar tão escura e sombria que quase desesperei.

A verdade, é que se eu fosse outro tipo de pessoa, diria que estive com uma depressão, mas comigo, esse género de desculpas não colam. Depressões são um termo geográfico, que não se deviam aplicar a ser humanos.

Desesperei, tive vontade de gritar com todos e nenhum e gritei, amuei e chorei. Tive vontade de desaparecer de novo e para sempre, mas depois pensei, que tudo se deve a mim e às minhas escolhas e que apenas eu posso voltar a ter controlo na minha vida e em como eu ganho para a ter e assim, decidi que iria mudar de emprego até ao fim do ano e esperar que assim, volte a ser quem eu sempre fui.

Mas chega de desespero, chega de tristezas, há muita coisa a acontecer no nosso país, que são autênticas anedotas e claro isso é muito mais interessante. Aguardem pelas próximas mensagens, pois Eu estou de volta.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

... eu sinto-me assim!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Corta com a faca as cordas que a atam à cama e desfaz-se dela com uma displicência pouco comum nele. Acaricia-lhe o rosto. Tenta adivinhar quantos anos de vida tem aquele anjo, que ele mantém como seu refém. A sua anatomia confunde-o. Pensa que ela não deve ter mais de dezasseis anos, talvez ainda menos, apesar daquele corpo apresentar uma desenvoltura pouco comum, para tão pouca idade. O que o leva a pensar assim é o seu rosto e os cabelos escuros como o manto da noite que os envolve, que cobrem por completo o corpo até a cintura. “Sim!” - pensa ele – “O teu rosto denuncia uma adolescência menosprezada.”

A respiração dela acelera e a sua pele arrepia-se de frio. Ele afasta-se, mas apenas o suficiente, para poder observar a penugem loira que se irriçou. Ele sorri. Aquilo agradava-lhe. Apercebe-se que em breve ela acordará, recuperará os sentidos e afasta-se um pouco mais. O corpo dela treme agora de frio, naquela húmida tenda. Ele quis, num instinto paternal, tapar a sua nudez, mas numa disciplina militar, deteve-se.
 
Ela, até agora envolta num doce entorpecimento, começa a readquirir a consciência. Acordou aos poucos. Começou por sentir o frio na sua pele, depois a dor física de uma batalha que perdeu. Tentou por último abrir os olhos e com grande custo, acaba por ser bem sucedida. Um tecto de lona verde caqui, é o que vê primeiro. Esta foi a primeira imagem desta nova consciência. A segunda era-lhe transmitida em forma de sombra chinesa, fenómeno provocado pela luz bruxuleante dos candeeiros de petróleo, mas foi o suficiente para perceber que não estava só e num gesto instintivo, assume uma posição virginal, sentando-se naquela fria cama de campanha, agarrando junto do seu peito, os joelhos, como se, com o corpo colocado em tal posição, criasse uma concha que a iria proteger do olhar e das intenções daquele que partilhava com ela, aquele lugar.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ontem fui totalmente surpreendida, pela mensagem mais insólita que ouvi em toda a minha vida, principalmente por ter vindo de um auto falante num espaço público.
Estava eu, ao fim de um longo e estupidificante dia de trabalho, à espera de um comboio mágico que me levasse dali embora, para um local onde os patrões sabem o que dizem, cumprem com promessas e obrigações, aceitam os nossos pedidos de férias como algo que é devido e justo e que irá aumentar a produtividade do colaborador, exactamente da mesma forma, que nós trabalhamos mais 21 horas extraordinárias, nas últimas três semanas, sem sequer perguntar se por acaso iriam ser pagas. Mas voltemos à voz. Estava eu assim, à espera, quando no auto falante, uma voz diz: "Cuidado com os carteiristas nesta estação!
"Cuidado com os carteiristas nesta estação!" - Oiço de novo, passado algum tempo, como confirmação da primeira vez. Não pude deixar de soltar uma gargalhada sonora, que saiu como alívio, depois de tudo o que passara durante o dia.
Depressa me recompus dos olhares de esguelha e comecei a pensar: É essa a solução para todos os problemas: uma voz de consciência, contínua e omnipresente, que nos alerta para todos os males. Estamos distraídos a olhar para o ecran plasma que passa um videoclip numa estação de metro e alguém nos avisa: "Cuidado com os carteiristas nesta estação!" Acordamos, ficamos alertados e se por acaso um carteirista nos assaltar (porque os amigos do alheio vivem dos rendimentos), a culpa é nossa, porque não tivemos aptidão para evitar o roubo, apesar de termos sido alertados para a possibilidade. A culpa não é da falta de segurança, de policiamento e muito menos da conjuntura económico-social, que cria os carteirista. A culpa é nossa.
Vamos a uma entrevista de emprego e tudo nos parece maravilhoso e estamos distraídos com a areia que nos lançam nos olhos e uma voz diz: "Cuidado com os aldrabões!" E pronto, já não nos podemos queixar dos patrões, só nos podemos queixar de nós, apenas de nós que aceitámos o emprego ainda assim.
Agora apliquemos isto a outras situações no mundo, no quotidiano, pela vida fora e teríamos um mundo, praticamente igual ao que temos hoje, mas onde cada um de nós, era responsável por cada coisa que acontece. Apenas nós e mais ninguém.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ele leva-a ao colo, protegendo-a da noite fria. Pousa-a numa cama de campanha e ata-lhe os pulsos. Não quer preocupar-se com ela, mais tarde. Observa-a de longe, do outro lado da tenda. Ele receia este encontro, quase tanto como o anseia. O tempo passa. Ela dorme. Ele não a conhece, nem tem a certeza se o deve fazer. Aproxima-se. Observa-a atentamente, de perto, como se quisesse sentir, para além de olhar. Ele pretende mais do que pode. A sua missão é-lhe penosa. Ela está indiferente, no seu estado de inconsciência, alheia a esta atenção não pretendida. Ele observa-a de novo. Adivinha a cor dos seus olhos. Avalia cada detalhe daquele corpo jovem, daquela beleza em estado puro, ainda não madura, mas já longe de ser verde. Tudo lhe parece irreal. Ouve a sua respiração lenta, triste, fraca. Sente o calor que liberta a cada expiração.
Decide tocar-lhe, sentir a firmeza dos membros, constatar que é de carne e osso, a pobre jovem que jaz naquele leito improvisado. Sente a suavidade da sua pele e imagina que seja assim o toque da seda. Cheira o perfume jovial de rosas que exala do seu corpo e tem uma ligeira tontura. As razões podem ser várias para essa fraqueza. Nada comeu durante todo o dia. Sofre já a alguns dias os sintomas de uma gripe grave. Ou, simplesmente, o cheiro daquela presa, provoca-lhe emoções que ainda desconhece. A verdade é que nunca, os seus sentidos se baralharam desta forma. Toda aquela pureza ao alcance das suas rudes mãos, era-lhe estranha e havia-lhe sido privada, desde que se recordava como gente.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Quando ouvi na radio, que tinha havido problemas num Bairro, chamado Quinta da Fonte, pensei irónica para comigo; "As rosas devem ter atirados os seus espinhos contra as gipsofilas, por terem feito muito barulho depois da meia noite, não permitindo à Fonte, por falta de décibeis à altura, contribuir para o seu sono reparador, com o seu suave pingar!"

Mal eu adivinhava os verdadeiros problemas que estavam por trás de um nome tão belo como Quinta da Fonte.

Mas disto já todos falam, ninguém se cala. Todos dizem que é uma vergonha, que aquilo não pode acontecer, que é tapar o sol com a peneira. E é! É sim! Mas o que me choca não é isso. O que me choca são as palavras utilizadas e o que dizem na televisão.

Não preciso de ir muito longe para descobrir no mesmo parágrafo as palavras: Despejados; Gangs, Etnias, Pretos, Negros, Ciganos, entre outros adjectivos, que nem sequer me atrevo a escrever. Mas quando vem de uma das partes queixantes, então deixa-me com urticária.

O racismo existe, é latente, camuflado, mas existe. Eu sei que existe! Mas fico estupefacta, quando o racismo é mostrado com tanta clareza e crueldade. Não basta ver pessoas serem "Despejadas" num bairro social (por mais bucólico que seja o seu nome), apenas porque "dava jeito", a Expo98 estava à vista e precisavam de a concluir. Não basta ver as suas condições, pouco ou nada melhorarem. Também temos que ver como eles não fazem o mínimo esforço para o fazer. Sei que é uma questão de etnia, educação, tradição. Sei que os ciganos são povo racista, só se casam entre si, todos os outros são escumalha, mas os tempos mudam. Estão a ser dadas novas oportunidades, estão a oferecer-lhes de mão beijada uma nova vida, que pode, tão bem como qualquer uma das nossas, adaptar-se às novas circunstâncias.

A maioria destas pessoas, recebeu do Estado muito mais do que a maioria de nós já recebeu. Foi-lhes dado casa, um bairro, uma comunidade, subsídios e sei lá mais o quê! (Eu estive algum tempo desempregada e nem sequer o subsídio de desemprego tive direito, porque tinha sido uma rescisão de comum acordo.) Mas mesmo assim, ainda acham que devem revoltar-se, como povo, como comunidade, apenas e porque, não gostam dos novos vizinhos.

Eu gostaria muito de ver o que me aconteceria, se por um mero acaso, eu decidisse dizer que não gosto do meu vizinho porque ele é Árabe, Judeu, Africano, ou Latino? Provavelmente sofreria as consequências de tal acto racista. Mas não no caso destes senhores. Hostilizaram enquanto foi possível e agora que os outros estão tão organizados como comunidade (no pior sentido, mas ainda assim uma organização), sentem-se ameaçados? Bem feito! Bem feito para vocês de etnia cigana e bem feito para todos os que acham que só devem viver dentro do que conhecem, que rejeitam o que os rodeiam, que rejeitam o mundo e se acham o centro do mundo.

Um povo nómada, nunca na vida, deveria ser racista, pois geralmente são os primeiros a sofrer as consequências desse mal. Infelizmente quer-me parecer que as lições de História ficam esquecidas no exacto momento em que recebem as chaves de uma nova casa, para a qual nunca fizeram nada para merecer.

Sinto muita pena de todos os que são inocentes, de todos os que apenas queriam poder brincar livremente na rua, com o último brinquedo que alguém lhes havia dado, de o mostrar ao seu vizinho do lado, com os enormes olhos brilhantes de alegria e não de lágrimas e convidá-lo, com uma voz ainda aguda, porque é inocente e todas as vozes inocentes têm que ser obrigatoriamente agudas:

- Anda, podes brincar também. O que é meu é teu e nós somos do Mundo.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Porque será que um anúncio, um simples e até nem por isso especialmente bem realizado anúncio, persegue-me nos sonhos? É que, para além de ver os anúncios, espalhados por tudo quanto é lado, em cartazes de dimensões enormes, espaçados por menos de 2 minutos de caminhada, de ver o anúncio na televisão que repete, continuamente, a cada intervalo e de o ver na internet, ainda sonho com ele e até o chego a cheirar? Bem... podiam acontecer coisas piores.
Vocês lembram-se daquela urgência hormonal, que sentíamos enquanto adolescentes?
Aquilo não era urgência, era apenas precipitação.
Hoje, que já passei dos trinta, tenho a certeza disso. Agora sim, tudo parece urgir, o tempo escapa pelos dedos, como água, como areia e não há como voltar com os ponteiros do relógio para trás.
As coisas a fazer ainda são muitas; muitos planos a cumprir, muitas etapas para passar, muitas metas para cortar, mas os anos que surgem pela frente começam a ser, a cada dia que passa, cada vez menos, menos, menos.

terça-feira, 8 de julho de 2008

 

E porque hoje acordei ao som desta música:

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
 
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
 
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
 
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita
 
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa
 
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
Chico Buarque

sábado, 5 de julho de 2008

Sei que irei ser trucidada por causa desta opinião, mas não me importo. Não posso permitir que o politicamente correcto, seja mais importante do que a livre expressão de opiniões. Há certos pensamentos que têm e devem de ser comunicados, ou transformam-se em bombas relógio, prontas a explodir a qualquer momento, por isso, aqui vai.
Eu consigo compreender a Homossexualidade, a sério e quero que acreditem, pois é importante para perceberem o que quero dizer. Eu consigo compreender que um ser humano se sinta atraído, sexualmente, pelas características físicas e psico-comportamentais, do mesmo género e creio, que esta é a definição de homossexualidade.
Contudo, não consigo compreender a "Gaysice" e a Bichanice, pois sinceramente, se alguém se sente atraído pelas características do mesmo sexo, não devia, por princípio, sentir-se atraído por um produto de contra facção, ou substituto do sexo oposto. Consigo perceber um "Alexandre o Grande", sentir-se atraído por um corajoso e musculado Efaísto, cheio de cicatrizes de batalha, que marcam o seu corpo másculo. A sério que entendo e se eu fosse um homem, seria com toda a certeza Homossexual. Mas não consigo compreender um homem que se sente atraído pelas características do mesmo género, morrer de amores, por um "Castelo Branco", aos berros no meio do campo de batalha; "Ai acudam, acudam, que a espada dele é tão grande!", num tom de voz tão agudo, que apenas seria suportável numa diva de celulóide do cinema mudo. Nem compreendo que se tenham que tomar atitudes do género oposto, apenas para facilitar as nossas opções sexuais (porque é um acto em si, contraditório).
Entendo que o ser humano, nasce com uma dualidade sexual e que esta pode exprimir-se de uma forma mais feminina, ou mais masculina. Eu própria identifico-me muito mais, com alguns comportamentos e gostos masculinos, do que seria de esperar. Por isso, sim, também compreendo isso. No entanto, seria incapaz de me sentir atraída por outras mulheres. MAs isso sou eu, que talvez tenha nascido com o órgão sexual certo: homem que gosta de homens em corpo de mulher. (brincadeira, claro)
Agora eis que chegamos à questão: A Transsexualidade. O principal ponto, ou argumento de defesa desta prática, é a de as pessoas acharem que estão presas no corpo errado: homens que acham que são mulheres e vice-versa. Até aqui, tudo bem. Contudo, não são raros os casos que têm surgido, que me fazem pensar que a transsexualidade, não é mais do que o último recurso de um homofóbico extremo.
Podem garantir-me que, antes de qualquer mudança de sexo, as pessoas são altamente avaliadas e que apenas, os verdadeiros casos é que avançam. Mas se assim é, como se explica que os órgãos sexuais de origem, não lhes sejam retirados? Se são mulheres presas em corpos de homem, o pénis devia causar-lhe desgosto. Se é um homem, preso em corpo de mulher, ter menstruação, poder engravidar e até mesmo ter uma vagina, devia causar incómodo, náuseas e depressão. Mas isto continua a acontecer. Operações de transsexualidade, de mudança de género nada têm! São apenas um up-grade dúbio, e em vez de homens ou mulheres, passam a ser casos raros na natureza, de hermafroditismo. E isto tanto acontece, que agora tivemos uma mulher, que utilizando uma dispendiosa máscara de Carnaval de Homem, para poder levar uma vida social masculina, tirou umas férias da sua anterior aversão ao corpo feminino e não só engravidou, como deu à luz uma linda menina.
Ora, isto para mim não faz sentido.
A única forma de isto fazer algum sentido, é uma teoria que sempre defendi: A transsexualidade, não é mais do que, uma forma de Homofobia Aguda.
Eu explico. Um ser humano sente-se atraído pelas características físicas e psicológicas do mesmo sexo. Mas isso é errado. Foi o que sempre ouviu e aprendeu: É errado! - Gritam-lhe os sentidos. - Na sociedade em que vivemos, uma mulher gosta de homens e os homens gostam de mulheres.
E esta convicção cresce de forma tão grande, que se convencem a si mesmos: Estou preso no corpo errado, porque eu não sou homossexual. ser homossexual é errado, é mau, é pecado, é anti-natura, Deus assim não quis. Mas se calhar, Deus enganou-se e deu-me uma vagina em vez de um pénis. E se Deus, deu inteligência ao Homem e o Homem, inventou formas de corrigir o Erro Divino, então eu posso mudar. Mudar de sexo, namorar mulheres, casar-me com uma mulher e continuar aceite na sociedade. Sim, posso ser um homem, porque homossexual, é que não sou.
Pena só ser válido, até Deus voltar a enganar-se.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Quero deixar-me ir, quero entregar-me aos instintos, satisfazer a fome de sexo. Quero satisfazer a gula pelos seus lábios, pelo sabor da sua língua, pelo sal da sua pele.

Quero satisfazer o meu olfacto e cheirá-lo antes do sexo e cheirá-lo durante o sexo e cheirá-lo depois do sexo e já suado. Sinto saudades desse cheiro, que é só dele e que mais ninguém tem.

Quero satisfazer os meus olhos, observar a sua robustez física, a definição dos seus músculos delineados, os seus olhos esverdeados, invadir essa floresta, que de tão terna, só pode ser um reduto amazónico ainda por descobrir e encontrar a sua alma, a chama responsável por ele estar ali, quando podia estar em qualquer outro lugar, com qualquer outra mulher.


Quero satisfazer o meu tacto, a minha pele e sentir o toque forte das suas mãos, a força dos seus bíceps, tríceps, quadríceps, abdominais, glúteos, sentir o calor da sua pele, sentir a aspereza da sua barba por fazer, a suavidade acetinada do seu alter-ego, de sentir a doce dor da penetração, que depressa se transforma em puro prazer.

Quero satisfazer a minha audição, ouvir a sua voz grave segredando promessas, vomitando elogios ocos, quero ouvir os seus gemidos, o seu arfar, quero ouvir os seus pensamentos, quero ouvir o bater do seu coração.

Quero sobretudo, satisfazer a minha urgência uterina, quero agradar aos meus sentidos.
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