terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não sei se por acaso alguma vez aqui comentei, que não gosto nem só um pouco de Francês, mas existe nesta língua, uma palavra, que me diverte e que uso com alguma frequência, porque ela significa muito mais do que a sua tradução literal e na realidade pode descrever tudo aquilo que por vezes admiramos em determinadas pessoas, mas que não sabemos o que é exactamente.

Na realidade, foi uma palavra muito usada durante o reinado do Rei Sol, em França e tem também um pouco a ver com aquela época, em que as mulheres para se fazerem notar, ou poderem viver como pensavam e queriam, tinham que ter em abundância. Estamos a falar de um altura, em que as mulheres em todo o lado do Mundo eram consideradas apenas objectos e pouco mais, mas que em França, davam cartas na literatura, na poesia e na filosofia. Muitas das regras de etiqueta e muito do que a língua francesa é hoje, e que todos conhecemos, em muito lhes deve.

Mas voltando à palavra em si: “Ésprit”, significa muito mais que espírito. Significa, isoladamente, ou em conjunto, “Mente”, “Destreza”; “Jogo de Cintura”; “Espinha Dorsal”, “Inteligência”; “Esperteza”; “Ser”, ou como alguém descrevera na altura: «Um poder que todos os outros reconhecem.»

Aristocrata que não tivesse “Ésprit”, depressa era devorado pela máquina cabalista, intriguista e maquiavélica, que era a Corte da altura de Luís XVI. O “Ésprit”, tornou-se um apetrecho social imperativo.

Alguém sabe onde é que se pode comprar, para poder oferecer aos nossos acefálicos políticos?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

… Daqui a 30 dias eu fosse ficar rica?!

 

Agora, e infelizmente apenas no plano da fantasia, se eu daqui a 30 dias fosse ficar rica o que deveria fazer? O que fariam vocês se soubessem, com toda a certeza, que iriam ficar ricos? Que planos fariam, que atitudes tomariam, que medidas achariam necessárias?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

abismo (2) Existe algo que os homens nunca compreenderam, mas que eu vou tentar explicar: as mulheres mudam o seu comportamento, conforme a forma como estão vestidas. Ela ontem estava nua, desprotegida, apenas podia contar com a sua pele, para a influenciar, mas hoje, ela tem uma farda vestida. É certo que é de escuteira, algo que inspira pouco ou nenhum respeito, mas de todas as formas, é uma farda e, portanto, ela age à altura do que veste. Eles são militares, movem-se e comunicam como tal e ela também sabe jogar esse jogo. Ela compreende muito bem esse orgulho que provém de se estar a cumprir uma missão, seja ela qual for. Ela também tem uma: sobreviver.

- Bem! Já que aqui estás, ao menos que te tornes útil. Vê se preparas algo comestível para almoçarmos. – ordenou-lhe, olhando-a frente a frente, olhos nos olhos. Ela sabia que não o podia enfrentar como fez na noite anterior, por isso, limitava-se a olhar o horizonte, tal como havia aprendido a fazer nas paradas. Ele era o superior hierárquico dos outros dois e ele nunca permitiria uma insubordinação vinda da parte dela, à frente dos outros. Ela tinha conhecimento disso e sabia que, aceitar isso como um facto, a salvaria de qualquer outro problema. Acatou a sua ordem, com uma submissão militar, que ainda o desconcertava.

Acabou por procurar, na cozinha improvisada, qualquer coisa para fazer para o almoço. Não pôde deixar de comparar aquela construção tão tosca, com aquelas que ela insistia em fazer nos seus acampamentos. Ela era uma líder de patrulha e era muito boa nisso. As suas construções de troncos e sisal eram elaboradas e admiradas por todos. Aquelas que eles tinham feito, não chegavam sequer aos pés, das dela. Ela não sabe porquê, mas sentiu-se orgulhosa por isso. Achou entretanto umas latas de feijão, tomate pelado e atum. Decidiu fazer uma feijoada de atum e quando já passava do meio-dia, chamou-os para almoçarem.

domingo, 9 de agosto de 2009

Lisboa, 19 de Outubro de 1929 – Lisboa, 8 de Agosto de 2009

 

Sem mais palavras, pois já todas foram ditas, fica apenas aqui como prova da minha tristeza, uma das frases que mais gostei de ouvir, um actor dizer:

“Façam o favor de ser felizes!”

Por mais triste que me sinta, rio-me sempre com uma cassete que tenho de Solnado com "É do inimigo?”.

Obrigada e Adeus!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Antes de mais, desculpem ter ficado tanto tempo sem actualizar o blog, mas a verdade é que férias e computador, por mais portátil que seja, não combinam. Contudo estou de volta e com o meu retorno ao dia-a-dia pavoroso, voltaram, as pequenas pérolas que fazem dos meus dias, algo melhor.

Hoje tive que apanhar um autocarro, algo que simplesmente odeio, não suporto. Se de comboio eu sinto alguma liberdade e calma, posso ler e escrever, dormitar e sonhar, de autocarro, apenas perco tempo. Fico enjoada, não consigo ler e muito menos escrever e passo todo o tempo a pensar quando é que o estupor do condutor, não se vai espetar numa curva.

Estava eu nesse sacrifício, quando um senhor, com mais de 60 anos, se sentou ao meu lado. Cumprimentou-me, algo que achei educado, acho sempre que se deve dizer bom-dia, boa-tarde, boa-noite, é um bonito hábito que nos temos vindo a esquecer. Mesmo quando não conhecemos as pessoas, pois se elas se cruzaram no nosso caminho nesse dia, e depois de nos terem que ter visto, acho que é o mínimo que devemos fazer para melhorar o seu dia, desejar “Bom-alguma-coisa”. No entanto não ficou por aí e isso, já acho mal. Eu gosto de pensar e odeio que estraguem o meu raciocínio, mas o Sr. precisava de falar e na falta de se dirigir a um padre na confissão, eis que eu surgi, como um elemento salvador da sua alma e pensamentos torturados. (A igreja católica tem que fazer algo sobre isto, antigamente as pessoas não iam aos psicólogos, iam ter com um padre, eram de graça, poupavam ouvidos alheios, ninguém ficava a saber e eram igualmente desculpados e perdoados por qualquer acto que tivessem cometido e acima de tudo, não me chateavam). Mas estou a desviar-me das pérolas.

O Senhor, depois de ter contado uns quantos segredos sobre a mulher coscuvilheira que tinha feito uns amigos “Testemunha daquele gajo, o Jeová” e que lhe estavam a dar a volta à cabeça, ao ponto de ele quase ter querido bater-lhe na noite passada, confissão que foi seguida por uma frase minha, muito perspicaz e talvez a única que proferi:

“A violência é um poço sem fundo, do qual se faz bungee jumping, mas cujo elástico nunca permite voltar para cima, porque se parte!”

Acham que ele percebeu alguma coisa? ! O certo é que ele disse que eu tinha toda a razão e continuou, mudando de assunto, para uma sequência de pérolas que eu vou agora transcrever e acreditem que o contexto fez tanto sentido, quanto o que eu agora vou atribuir: Nenhum. E vou sublinhar as palavras que foram destorcidas ao longo do seu fluente discurso.

- E já viu a Gripe A? Começa a ser probremático. É um micróbrio, complicado de se evitar.

- É que as pessoas esqueceram-se do que é a hipiene.

- Nós tínhamos bácoros, ovelhas e cabras em casa, mas tínhamos as orelhas e as unhas sempre limpas e não tínhamos cá esses luxos como os putos de agora têm, como essas coisas que se usa nos ouvidos: os cordonetes.

- Mas basta ver nos supermercados. Deixam entrar todo o tipo de pessoas. Como é que a fruta pode ser segura, se drógados, pretos e ciganos, entram e mexem nelas. (Acreditem que se não fosse pelo facto de eu estar internamente a rir-me com a ironia de alguém que comete tantos erros de vocabulário pronunciar a palavra drogado, como os tios de Cascais, eu ter-me-ia levantado e ido embora naquele momento.)

- Se não vão comprar não podem entrar. Se os empregados têm que usar tocas e luvas, porque é que deixam entrar os piolhentos daqueles pretos e brancos drógados que usam aqueles cabelos cheios de m**** que não prenteiam?!

- É por isso que os micróbrios da Gripe A, não morrem.

- E os disvorcios?! (esta fez-me mesmo rir, pois alguém que fez parte das minhas férias também diz divorcio assim) Já ninguém fica casado! É tudo disvorciado e ninguém tem vergonha. Não acha?!

- Antigamente é que era, os miúdos brincavam na rua e nunca riscavam um carro ou roubavam um autromóvel. (talvez porque não houvesse muitos para roubar, mas roubavam outras coisas, o roubo não é uma invenção deste século)

Bem, acreditem que houve muito mais, até os trinta minutos da minha viagem tivessem terminado e felizmente pudesse sair do autocarro.

Digam lá se não foi uma excelente maneira de começar o dia?! Mas o mais engraçado é que se este senhor entrasse para o programa Novas oportunidades e tivesse passado aquelas pérolas para o papel, teria direito ao 12º ano.

domingo, 26 de julho de 2009

image001 (1) É quase impossível olhar o mar e não me apaixonar, não me perder nos seus encantos, não querer deitar-me nele e deixar-me embalar nos seus braços e permitir que ele me torne parte dele.
 image002Não faço ideia quem foi o arquitecto do Universo, mas seja quem for, sabia o que estava a fazer.
Nota:  Imagens de Clark Little

sábado, 25 de julho de 2009

Nós humanos somos uns bichos complicados, demasiado complicados, talvez! Levamos a vida a andar e a correr de um lado para o outro, sempre stressados e a arranjar problemas para resolver Mesmo quando eles não existem, ficamos sempre à espera que eles surjam, e nessa espera, nesse entretanto, perdemos muita coisa boa que podemos fazer, muita coisa que nos deixaria mais em paz connosco mesmo, mais calmos, melhores pessoas, não só com os que nos rodeiam, mas com os outros também, os outros que nos dizem pouco, ou mesmo nada.

Apercebo-me sempre disso, cada vez que tenho tempo para férias, sempre que guardo alguns momentos para estar com a minha irmã, a minha sobrinha, os meus tios, os meus primos, os meus amigos. Fico mais Eu. Não grito, não me irrito, volto a sorrir, não tenho maus pensamentos, não quero o mal de ninguém. Apenas quero viver em paz, ver as pessoas livres e felizes, soltas e leves, comunicativas, abertas, prontas para amar e se deixarem amar.

Queria muito que o meu dia-a-dia fosse sempre assim!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

agua

 

Adivinhar qual é a substância da vida, é o mesmo que encontrarmos o nosso verdadeiro Eu.

Conhecermos-nos na perfeição é conhecermos o Universo, é conhecermos tudo.

sábado, 18 de julho de 2009

 

 

Por vezes, o risco de se perder aquilo que se tem é tão grande, que tenho medo de arriscar. Acho que se pode sempre ficar pior do que se está.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

abismo1 (1) - Não penses que eles te vão tratar melhor, do que te trataram a noite passada e nem penses que eu os vou impedir. – continuou a rir-se.

Ela apenas se limitou a beber o café e a tentar reconhecer o local onde estava. Não podia ser muito distante do acampamento onde estava o namorado e os seus amigos. Eles tinham montado campo numa falésia. O vento era uma constante. Para além da tenda onde pernoitara, existia uma caverna na montanha que era usada pelos outros dois soldados. Tinham uma mesa, um toldo e uma cozinha rudimentar. Ele observava, com uns binóculos, algo que se passava numa clareira mais abaixo. Ela reconheceu o seu acampamento, preparavam-se para a alvorada. Aquela posição mais elevada, permitia-lhes o anonimato, apesar de os soldados poderem observar perfeitamente, todas as actividades do seu acampamento.

- O teu namorado está muito calmo. Nem sequer foi o primeiro a acordar. Aparentemente, ele só vai dar pela tua falta quando aparecerem todos, para o hastear da bandeira. – ele queria irritá-la, mas não era só isso, ele queria mais. Ele queria que ela percebesse que o outro, valia muito menos, do que ela merecia. Eram os ciúmes a falar mais alto.

Ambos ficaram a observar o resto da rotina e ele tinha razão, o seu namorado, apenas deu sinal da sua ausência, quando as elementos da sua patrulha o foram avisar. Ele era aquele com quem ela estava preocupada na noite anterior. Aquele que agora, se fingia surpreendido pela sua ausência. Os chefes reuniram-se e tomaram as medidas necessárias para organizar uma patrulha de buscas. Ele riu-se perante a hipocrisia daquele chefe de agrupamento. Ela atirou o resto do café para as cinzas da fogueira da noite anterior e disse com uma calma aparente.

- Mas agora eles vão procurar-me e eles são bons batedores. Antes do meio-dia, já cá vão estar. – ele olhou-a incrédulo, aquela pequena, não parava de o espantar. Pareceu-lhe agora, ainda mais arrogante que a noite anterior e a verdade é que ela estava mesmo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

2152449Nada é eterno, mas tudo o que fazemos e pensamos, são para sempre, eternamente, experiências nossas.

 

Nota:  Fotografia retirada do site Olhares.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Passado poucos minutos, o outro soldado entrou na tenda. Ela não se recordava muito bem deste. Ele atirou-lhe a farda de escuteira, com a qual ela estava vestida, antes do seu rapto. Encheu uma bacia com a água que estava num jarrican perto da mesa e foi ter com ela. Ela encolheu-se e desviou o olhar. Ele apenas a agarrou por um braço e a arrastou até a mesa. Ela sentia-se desconfortável, assim, nua à luz do dia, frente a um homem que desconhecia.

- Lava-te e veste-te. O Chefe espera-te lá fora. Despacha-te. – ela olhou-o por uns instantes. Ele era maior que o seu parceiro na noite anterior, era muito mais alto e musculado, talvez um pouco gordo e tinha uma cara macilenta e cansada. Não era feio, mas não era alguém que ela procurasse numa festa. Ele entendeu aquele olhar como um pedido de privacidade e riu-se. – Nem penses que vais fazer de mim um pau mandado. Não sei o que foi que lhe fizeste ontem à noite, para que ele esteja assim, mas comigo não resulta. Despacha-te. Não te deixo sozinha nem por um instante.

Ela acabou por lavar o rosto. A água estava fria, mas ela lavou também a ferida provocada pelos dentes do seu raptor. O seu ombro estava todo negro e ainda deitava um pouco de sangue. As feridas da sua cara ardiam, mas ela suportava-o bem. Vestiu-se, ignorando por completo a presença daquele soldado. Tanto lhe fazia se ele a olhava, ou não. Era algo que ela não controlava, pelo que preferiu nem tentar. Quando ia a apertar o cinto nos seus calções repara que a bainha do canivete suíço e da faca de mato estavam vazias.

- Onde estão as minhas coisas? – perguntou num tom insolente.

- Como se nós te as fôssemos dar! – riu-se – Despacha-te. O chefe espera-te e tu és muito lenta. – e dito isto, agarra-a de novo pelo braço e empurra-a para fora da tenda. Ela tenta esbracejar e livrar-se do seu domínio, chega mesmo a bater-lhe e a cuspir-lhe, ao que ele responde com uma bofetada. Ela não se dá por vencida e apenas pára quando ele fala. – Aqui está, chefe.

O seu raptor estava à sua frente, com uma caneca de café na mão, estendida na sua direcção e ria-se divertido com a cena. Ela agarrou a caneca e bebeu em pequenos tragos, o líquido castanho e aromático que continha. Estava quente e isso fazia com que o seu corpo aquecesse um pouco. O Verão estava a acabar e naquela serra no Norte de França, o frio era quase Invernoso. Aquela farda sem um casaco, ou um pulôver, começava a não ser suficiente, para a manter quente. O soldado afastou-se juntando-se ao mais velho, deixando-os, de novo, sós.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sou sincera: nunca percebi o ditado popular “Morrer de pé como uma árvore”. Nunca entendi simplesmente, por que não acho que ficar parado, sem nada fazer, sem recorrer a todos os recursos, seja digno. Acho que se deve morrer a lutar e as árvores não o podem fazer. Alguém o tem que fazer por elas. Assim o ditado nada me diz e continuo a achá-lo absurdo.

A verticalidade deve-se a uma constante moral e não ao facto de nos mantermos de pé e estáticos. Quando morrer que seja a lutar por algo, que seja a correr, a rastejar no chão, a fazer amor com quem amo, que seja a lutar contra uma doença numa cama de hospital, que seja a combater um fogo, a salvar alguém que se afoga, com um tiro a lutar por algo que acredito, que seja acorrentada a uma árvore, mas que seja a morrer de forma activa.

Recuso-me a morrer como uma árvore.

 

PS.: Obrigada Entremares, por me teres inspirado (aqui).

sábado, 4 de julho de 2009

É impressão minha, vontade de ser mazinha, ou de ter algo para aqui dizer, ou o Elton John está, realmente, cada vez mais, parecido com um Hobbit?!!!!

E que história é aquela de dedicar a mesma música do funeral da  Diana ao Cristiano Ronaldo? Que o rapaz é “delicadinho” eu tenho as minhas suspeitas, basta ver a quantidade de vezes que está a rebolar-se pelo chão ao longo dos jogos, a cobrar faltas inexistentes, mas Elton, não cheguemos a tanto que o menino de ouro não tem perfil de princesa. Ou será que o Sir Elton John, tem segundas intenções?! 

Está bem, está bem, não batam mais no ceguinho, eu sei que a música foi dedicada com ironia, de que era uma fama passageira, algo que passou e se esvaiu em fumo, blá, blá, blá… Mas que visão deliciosa do Cristiano com o Elton… Vai dar-me para o dia todo.

Que saudades de quando o futebol ainda era um jogo de homens…

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um dia destes alguém virá por mim aqui escrever e virá para comunicar aos poucos mas leais leitores que eu morri…

Não pensem que será por doença ou outra qualquer efeméride que devam lamentar, pois a razão será a seguinte: Se me oferecerem droga mais uma vez que seja no Rossio ou na R. Augusta, em plena luz do dia e à hora do almoço, eu vou-me a eles. A sério que vou. E será uma guerra!

As razões para ter chegado a este ponto de rotura, são várias,:

1º  - Não tenho aspecto de drogada e sinto-me ofendida por acharem que sim,

2º  - É à luz do dia e estamos muito longe dos consumos espontâneos da noite, como os que podem surgir junto das discotecas e clubes nocturnos, ou do Bairro Alto, antiga morada destes párias e assassinos.

3º – Porque estão fartos de fazer o mesmo com o meu primo de 21 anos (e que eu continuo a ver como um miúdo que tenho que proteger) e à minha prima de 16 e percebo nos seus olhares quando me contam, o constrangimento e a vergonha.

4º -  A polícia está mesmo ali ao lado, a guardar as joalharias e nada faz e não me venham com desculpas, de que se eles forem para lá eles mudam de lugar, pois eu acho que devem mudar, que mudem para qualquer outro lugar, como por exemplo para uma cadeia sobrelotada, sujeitos a tudo aquilo, e sem cair nos habituais clichés, acontece nas cadeias, pois é o lugar deles, desses criminosos, traficantes, assassinos.

Ainda me lembro numa das primeiras vezes que fui ao Bairro Alto e um rapaz perguntou-me entre dentes “Axixe?”, ao que eu na minha inocência, achei o máximo e respondi, “Sim, estou fixe, e tu?!”

Já passaram muitos anos desde esse dia, em que não me passou pela cabeça que me estariam a oferecer droga numa rua cheia de gente! E sinceramente?!

ESTOU FARTA!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Descalça, com os pés envoltos em meias de algodão, deslocava-me em bicos de pé, pelo corredor. Já passava e muito da minha hora de dormir, mas mesmo assim, adormecer tinha sido algo impossível de fazer naquela noite.

Ia estrear na RTP (o único canal de televisão naquela altura) com pompa e circunstâncias, uma curta metragem/videoclip do Michael Jackson e como haviam avisado que poderia ser impressionável, a minha mãe proibiu-nos de ver. As intenções eram as melhores, bem sei, mas eu adorava o Michael. Para mim, praticante de dança jazz e ballet, ele era o máximo, o suprasumo e apenas por isso, já seria difícil respeitar a vontade da minha mãe, mas ela havia feito algo muito pior: havia proibido. Proibir de fazer algo, para alguém como eu, é um convite aberto para que o faça, sem pensar nas consequências.

Dito e feito! Pé ante-pé, percorri o corredor com a  esperança de que no outro lado, na sala da televisão, a minha mãe tivesse adormecido no sofá, como sempre acontecia e que eu, escondida no esconso entre a cozinha e a sala, conseguisse ver o teledisco. Sentei-me o mais confortável que consegui e aguardei, quase sem respirar com esperança que a minha presença não fosse denunciada. Esperei o que me pareceu uma eternidade de tempo e quando estava quase a começar, suspirei. Respirei bem fundo e exalei o ar com um sonoro “Ahhh” de alívio. Depressa dei conta do que fizera e tapei a boca com as duas mãos, como se isso anulasse o meu gesto anterior.

- Não achas que ficas mais confortável no sofá? – soa a voz meiga e algo ensonada da minha mãe.

Levanto-me com a sensação das pernas estarem dormentes, salto para cima do sofá e aninho-me junto dela.

- Eu sabia que não me irias obedecer! – continua com um beijo nos meus cabelos – Quero ver como é que acordas amanhã para a escola.

- Oh mãe, eu sei! Mas é o Michael… – ela riu-se e a curta metragem começou.

Vi tudo sem pestanejar e acabei a vibrar com a coreografia final e a tentar imitar os passos, e não dormi durante três dias, com a sensação de que um morto vivo podia sair do meu colchão ou pelas paredes do meu quarto, mas valeu a pena. Se valeu!

Afinal… era o Michael!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

DSC02278Eu fui sempre uma daquelas alunas que não se importava com a escola. A escola sempre me foi simples e muito pouco desafiante. Não me interpretem mal, não era má aluna, muito pelo contrário: achava tudo demasiado fácil e por isso mesmo, fazia coisas que me dificultavam a vida: Não sabia quando existiam testes, assim eram sempre uma surpresa e tinha que ter a melhor nota, sem ter aparecido nas aulas ou estudado e ficava sempre no grupo que sobrava nos trabalhos para média, pois raramente estava nas aulas em que eram atribuídos (apesar disto ter começado a correr contra os meus desígnios, pois como acabava por fazer os trabalhos quase sozinha e tinha sempre excelentes notas, os meus colegas do liceu, começaram a disputar-me na atribuição dos grupos, mesmo sem estar presente).

Sempre fui uma pessoa que inicia coisas, adoro inícios e tenho uma alergia muito especial a fins. Sempre que algo está prestes a começar eu fico excitada, empenho-me a fundo, dou o melhor que tenho (mas guardo sempre um pouco para os momentos em que adrenalina descarrega, mas isso é outra história) e assim era, com cada ano lectivo. Nos últimos dias de Verão, começava a preparar os cadernos, lia os manuais e os livros que sabia que ia dar em Português, adiantava matéria e imaginava tarefas e trabalhos em grupo que sabia de antemão que iriam ser feitos em determinadas disciplinas e ficava muito empolgada. Jurava que não ia faltar a uma aula, a um dia que fosse, que ia estudar para todos os testes e ia ser muito participativa. Conseguia fazer três trimestres em três semanas, sozinha, eu com os meus livros e depois, começavam as aulas e alistava-me em tudo quanto era grupo extracurricular: a Iris estava no grupo de teatro, no grupo de Alemão, fazia parte dos fundadores do Ecoclube (este tal como o teatro, levava muito a sério), do Clube  de Fotografia, fazia parte das listagens para as associações de estudantes e invariavelmente tornava-me uma vogal das mesmas, fazia parte da rádio da escola e um sem fim de outras actividades para as quais me pediam ajuda e eu nunca dizia que não.

Mas as aulas começavam, os toques começavam, todos nos metamorfoseávamos em carneiros, que mudavam de sala de aulas, em rebanho, de 55 em 55 minutos, ao toque de uma campainha, tal qual cães de Pavlov e eu perdia, toda e qualquer força de vontade e começava a faltar. Faltava dias seguidos, aparecia a uma ou duas aulas por dia, durante semanas (sim, porque biologia, português, filosofia e educação física, eram aulas às quais eu tentava não faltar, menos biologia, que o que se aprendia era tão fácil, que não precisava das aulas para ter excelentes notas, mas gostava da professora e da matéria e por isso fazia um esforço para aparecer, acreditem que era um esforço.

Aparecia em todos os grupos e assim os professores sabiam que eu estava viva e bem. Muitos conversavam comigo, com aquele tom paternal e diziam-me que deveria ir às aulas mais vezes, mas eu não conseguia, nem mesmo quando queria muito fazer-lhes a vontade.

Adorava a cara que o meu professor de Português fazia quando eu aparecia no clube de teatro, ao fim do dia, fresca que nem uma alface e depois dizia com o tom mais sério que conseguia manter:

- “Ao menos podias aparecer de vez em quando! Só e apenas para me dares a vã ilusão de que sou teu professor. Não fazias isso por este pobre homem?!” – e eu, que fingia estar muito preocupada com o ar sério dele, acenava com a cabeça que sim e depois desatávamos os dois a rir.

Se me perguntarem porque é que eu gostava tanto de português e porque é que passei a gostar tanto de teatro, eu sei exactamente o que responder: foi por causa do Professor António, meu professor de Português do 7º ao 10º ano, o que me convidou para fazer parte da peça Antigona, que mais tarde veio a dar nome ao grupo de teatro, por ter sido a primeira pessoa com que pude falar de Margarite Durás, Milan Kundera, Yukio Mishima, entre outros, por ter sido sempre mais meu amigo, que professor.

Aprendia muito mais fora de aulas do que dentro daquelas salas claustrofóbicas, castradoras, e por isso mesmo, fiquei conhecida no liceu, como a Baldas e mais tarde, na Universidade, representaram-me no Livro de final de curso com a cena do filme de Chuck Norris, com a minha caricatura a sair da água, vestida com a minha farda de escuteira, faca de mato nos dentes e com as letras a formarem: Desaparecida em Combate.

Nunca perdi um ano, nunca deixei uma disciplina para trás, tive sempre boas médias, mas fui sempre uma Baldas.

sábado, 27 de junho de 2009

Pôr do solSeguia de pés nus e em bicos, pelo corredor de chão de madeira. Não queria acordar ninguém, mas o meu coração batia tão alto e a minha respiração era tão pesada, que temia não ser preciso fazer mais nenhum barulho para além de o de existir, para que denunciasse a minha presença, que se queria secreta.

Mas era assim que eu gostava! De acordar ao meio da noite, correr pelo corredor pela frescura da madrugada, chegar à cozinha e saltar para cima do balcão que existia por baixo da janela e esperar que o dia que se seguia, surgisse no horizonte. Ver a noite escura passar para um azul anilado, as nuvens tornarem-se cor de rosa, uns raios de luz surgirem por entre as brechas fazendo-me crer que eram os braços de Deus que me queriam abraçar, abraçar o mundo, beijar-nos e desejar-nos bom dia.

Eram trinta minutos que eu adorava, trinta minutos que estava apenas comigo e com a criação e sentia-me plena, parte de um todo, viva.

Eram manhãs que recalibravam forças, repunham energias. Sobretudo se essa madrugada fosse a madrugada do solstício de Verão, o início do dia mais longo do ano.

Recordo-me, vivamente, desses momentos descalça. Tinha pouco mais de 11 anos e sabia muito mais do que sei hoje.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

 A maioria dos nossos superiores hierárquicos,  são-nos tão inferiores?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

tristeza01 Como eu gostava de ter superpoderes, um dom especial e secreto que me fosse útil nestas horas. Como eu gostava de te abraçar nos meus braços e aquecer o teu coração com amor. Como eu gostava de te beijar e sugar de ti toda a amargura, angústia e temor. Como eu gostava de te falar e que as minhas palavras, a minha voz te servissem de consolo e remédio para a tua dor.

Como eu gostava de ser capaz de transferir toda a tua tristeza e juntá-la à minha, para que não sofresses nem mais um segundo, nem mais um fôlego. Como eu gostava de poder transformar tudo isso em coragem e esperança!

Como eu gostava! Oh, meus Deus, como gostava! Mas não posso! Não consigo! Não sei como!

Eu falo-te, mas não sirvo de consolo, eu abraço-te mas o teu coração gela com o desgosto, eu beijo-te e sinto a angústia, a revolta e a dor, darem voltas dentro de ti, da mesma forma como se revolvem dentro de mim.

Mana, minha querida e adorada irmã, carne da minha carne, sangue do meu sangue, eu quero devolver-te o bebé, que prematuramente perdeste, o meu sobrinho ou sobrinha, que ainda antes de nascer já era amado. Quero silenciar esse grito mudo que ecoa na tua alma, quero absorver todo esse negro que se pinta dentro de ti e torná-lo só meu. Eu quero mana, eu quero, juro-te que quero… mas não posso, não consigo, não sei como.

Apenas o tempo pode, mana.  Apenas o tempo sabe!

Somente posso chorar contigo, gritar e revoltar-me e, por fim, carpir.

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