quinta-feira, 27 de agosto de 2009

CAVERNA2 - Bons dias!

- Bom dia! – respondem em uníssono, os dois soldados. – Que fazem vocês por estas bandas?

- Já cá estão a algum tempo? – inquere a voz madura do namorado dela.

- A alguns dias. Estamos a treinar para uma missão especial. – responde o mais novo.

- E vocês? – pergunta o mais velho.

- Estamos a fazer um acampamento, nada de mais, apenas a aproveitar os últimos dias de férias de Verão dos miúdos. – ela vê-o a sorrir, com a segurança de quem sabe o que tem que fazer e gosta do trabalho que o espera. Ela observa-o, enquanto ele sai para ir ter com eles.

- Bom dia! Posso ajudá-los? – diz assim que sai da tenda. Ele observou os três intrusos com atenção e cuidado, há que estar preparado para qualquer eventualidade e nunca desprezar os seus inimigos. No entanto, não deixa de sorrir, novamente, quando se apercebe, que para além de mais novo, é também, mais bem-parecido, que o namorado da sua refém.

- Talvez! – responde-lhe o chefe da sua recente amada com cuidado.

- Tudo o que estiver ao meu alcance. – oferece. Aquele homem de trinta e poucos anos, aproxima-se dele e confessa.

- Um elemento do nosso agrupamento, desapareceu esta noite. Não sabemos o que se terá passado e andamos à sua procura, antes de tomarmos qualquer medida mais extrema. Você sabe como são estes adolescentes, não queremos passar por nenhuma vergonha.

- Não vimos ninguém, lamento. – responde o mais novo, ele confirma.

- Realmente não vimos nada fora do normal, mas que idade tem ela? Como é que ela é? – o namorado olha para os seus companheiros antes de formular uma resposta e responde de forma pouco segura.

- É uma menina comum, bonita, bem desenvolvida, cabelos pretos que lhe chegam até o meio das costas, olhos azuis lindíssimos. – ela chora – Tem doze anos, mas parece muito mais velha que isso. - ele apercebe-se que o namorado da sua prisioneira, havia mentido na idade. Fazia-a passar por mais nova, para que, no caso de a encontrarem, a tratarem como uma criança. Era esperto e ele tirava-lhe o chapéu. Porém, sabia perfeitamente que ela deveria ser mais velha que isso.

- Agora tenho a certeza que lamento não a ter visto. – gracejou, com vontade. O namorado não se riu. – Vocês vão ficar aqui muito tempo?

- Mais dois dias. Depois de amanhã, vamos-nos embora. – dois dias não era muito tempo, eles poderiam esperar esse tempo. – Vocês querem juntar-se a nós esta noite? Serão bem-vindos. Podem jantar connosco e assistir ao fogo-de-conselho. Sempre seria uma fuga à vossa rotina de treino. – os dois soldados olharam para o seu chefe, ansiosos. Eles não se importariam de se divertir um pouco. Fazia já um mês que não contactavam com mais ninguém. Por outro lado, ele próprio queria saber mais sobre o seu anjo e isso, era mais importante que tudo o resto.

- Claro! Será um enorme prazer. É muito simpático da vossa parte.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

caravaggio-01 Recebi um repto de um amigo, para que explicasse o porquê desta necessidade física, emocional e mental de escrever, escrever compulsivamente, sobre tudo e sobre nada, sobre sentimentos e sobre o que ouvi, sobre a vida dos outros, sobre mim.

Para dizer a verdade, terei que admitir que estou cheia de medo. Tenho medo porque não gosto de explorar os meus vícios com muita profundidade, não quero encontrar por trás dos mesmos, explicações que irão, de certa forma, retirar o prazer de os praticar e escrever é um vício que tenho, um dos que me dá maior gozo, que mais me completa. Acho que é por isso mesmo, que a psicoterapia para mim, é uma perda de tempo.

Mas porque escrevo eu?! Porque retiro eu recompensas da minha escrita, para as quais não tenho palavras para descrever?! Porque seria para mim impossível não escrever, mesmo que fosse apenas na minha cabeça?!

Talvez seja pela mesma razão que o cérebro precisa de sonhar para descansar. Sabem que o corpo só descansa, mentalmente, se sonhar e que os sonhos são uma forma de podermos arrumar pensamentos, de colocar os ficheiros em ordem?! O processo é complicado e não faz sentido numa tradução literal, mas permite organizar recordações, limpar a mente. Creio que escrevo, compulsivamente, pela mesma razão: porque tenho uma necessidade constante de organizar pensamentos, recordações, sentimentos, dores e apenas o consigo fazer se o passar para o papel, mesmo que, tal como os sonhos, estes não surjam de forma simples e directa, mas sim em pequenas metáforas, em pequenos subentendidos, em pequenas nuances, em pequenos pormenores, (como a cor da flor que a heroína usava na barra da saia, do lado esquerdo). Pode não fazer sentido, mas o que escrevo contém tudo de mim. Tudo o que sinto, tudo o que vejo, tudo o que anseio, tudo o que receio, tudo o que desejo. Ao escrever faço as pazes comigo mesmo, conheço-me melhor, aprendo a gostar de mim, a descobrir em mim, atributos, que pensava não possuir, gostos que achava improváveis.

Acho ainda que, escrever é uma forma de dar a conhecer quem sou, quem eu realmente sou e não aquela que todos vêm no comboio todos os dias, aquela  pessoa insatisfeita com o seu emprego, aquela pessoa cansada por não fazer o que realmente gostava de fazer. Escrever é uma forma de eu gritar aos outros e dizer: Vejam, eu sou assim, sou assim mesmo. Gostam?! Querem conhecer-me melhor?!

Escrever faz de mim uma pessoa melhor, porque me obriga a conhecer a mim mesma, a reconhecer tudo. É por isso que escrevo.

Sejam livres de escrever o que vos apetecer e se quiserem podem dizer-me porque gostam vocês de escrever, de partilhar as vossas coisas!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

aloneSentaram-se os três à mesa e esperaram ser servidos. Ela respirou fundo, procurando alguma calma e paz de espírito. Atirou com a comida para cima de cada uma das marmitas e aguardou, sentada numa rocha, que eles acabassem de devorar, o que havia cozinhado. Não sentia fome, no seu estômago estava apenas um nó. Ele observava-a constantemente. Ela já nem ligava. Quando se apercebeu que tinham acabado com tudo o que estava na panela, foi retirar a loiça para lavá-la. Ele sorria candidamente, de uma ou outra piada que os outros diziam.

Ele tinha uma aura de menino de ouro. Não lhe parecia assim tão velho, agora. Era até bem novo, para quem já ocupava uma posição de oficial. Tinha a certeza que ele não tinha mais de vinte e cinco anos e era, pelo menos, capitão. Ela não sabe como, mas apercebia-se sempre dessas coisas. Quando voltou para buscar a panela, o soldado mais velho sentou-a no seu colo e recomeçou com as brejeirices, que já tinha proferido, na noite anterior. Ela protestou, esbracejou e debateu-se. Ela bem procurava os olhos do seu raptor, mas ele não se apercebia do que se estava a passar, apenas prestava atenção a um som, que só ele ouvia. Num berro, manda-os calar. Eles obedeceram de imediato, deixando-a recompor-se. Todos aguardavam ansiosos, novas ordens.

- Eles vêm aí! Ajam com naturalidade. Eu já venho. – só passado um pouco é que ela se apercebe do que se trata, mas já era tarde de mais. Ele já lhe tinha tapado a boca, com as suas enormes mãos e arrastava-a para dentro da tenda. Ele olha-a por uns instantes e liberta a boca dela, os segundos suficientes para a poder beijar. Amordaça-a logo em seguida. Ela larga, finalmente uma lágrima. Ele deita-a gentilmente na cama em que ambos dormiram e amarra-a. – Quem me dera que não fosse preciso fazer isto! – confessa-lhe. Ela engole o choro quando ouve a voz do seu namorado secreto e o seu corpito estremece. Implora-lhe com os olhos, para que a deixe ir, mas ela não sabe, que ele já não o pode fazer. Mesmo que quisesse, agora já era tarde. Ele já a amava. Ela era demasiado nova para ter consciência disso. Estava determinado a conquistá-la. Ele iria tê-la, mas iria ser ela quem o iria permitir. Aquele papel de violador, a que ele se impusera a si próprio, na noite anterior, não se iria repetir. Pelo menos, assim ele o planeava. Seria muito mais fácil, se ela passasse a ser sua amante. Ele espera um pouco com ela, dentro da tenda e ouve, atento, o que se passa lá fora.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não sei se por acaso alguma vez aqui comentei, que não gosto nem só um pouco de Francês, mas existe nesta língua, uma palavra, que me diverte e que uso com alguma frequência, porque ela significa muito mais do que a sua tradução literal e na realidade pode descrever tudo aquilo que por vezes admiramos em determinadas pessoas, mas que não sabemos o que é exactamente.

Na realidade, foi uma palavra muito usada durante o reinado do Rei Sol, em França e tem também um pouco a ver com aquela época, em que as mulheres para se fazerem notar, ou poderem viver como pensavam e queriam, tinham que ter em abundância. Estamos a falar de um altura, em que as mulheres em todo o lado do Mundo eram consideradas apenas objectos e pouco mais, mas que em França, davam cartas na literatura, na poesia e na filosofia. Muitas das regras de etiqueta e muito do que a língua francesa é hoje, e que todos conhecemos, em muito lhes deve.

Mas voltando à palavra em si: “Ésprit”, significa muito mais que espírito. Significa, isoladamente, ou em conjunto, “Mente”, “Destreza”; “Jogo de Cintura”; “Espinha Dorsal”, “Inteligência”; “Esperteza”; “Ser”, ou como alguém descrevera na altura: «Um poder que todos os outros reconhecem.»

Aristocrata que não tivesse “Ésprit”, depressa era devorado pela máquina cabalista, intriguista e maquiavélica, que era a Corte da altura de Luís XVI. O “Ésprit”, tornou-se um apetrecho social imperativo.

Alguém sabe onde é que se pode comprar, para poder oferecer aos nossos acefálicos políticos?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

… Daqui a 30 dias eu fosse ficar rica?!

 

Agora, e infelizmente apenas no plano da fantasia, se eu daqui a 30 dias fosse ficar rica o que deveria fazer? O que fariam vocês se soubessem, com toda a certeza, que iriam ficar ricos? Que planos fariam, que atitudes tomariam, que medidas achariam necessárias?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

abismo (2) Existe algo que os homens nunca compreenderam, mas que eu vou tentar explicar: as mulheres mudam o seu comportamento, conforme a forma como estão vestidas. Ela ontem estava nua, desprotegida, apenas podia contar com a sua pele, para a influenciar, mas hoje, ela tem uma farda vestida. É certo que é de escuteira, algo que inspira pouco ou nenhum respeito, mas de todas as formas, é uma farda e, portanto, ela age à altura do que veste. Eles são militares, movem-se e comunicam como tal e ela também sabe jogar esse jogo. Ela compreende muito bem esse orgulho que provém de se estar a cumprir uma missão, seja ela qual for. Ela também tem uma: sobreviver.

- Bem! Já que aqui estás, ao menos que te tornes útil. Vê se preparas algo comestível para almoçarmos. – ordenou-lhe, olhando-a frente a frente, olhos nos olhos. Ela sabia que não o podia enfrentar como fez na noite anterior, por isso, limitava-se a olhar o horizonte, tal como havia aprendido a fazer nas paradas. Ele era o superior hierárquico dos outros dois e ele nunca permitiria uma insubordinação vinda da parte dela, à frente dos outros. Ela tinha conhecimento disso e sabia que, aceitar isso como um facto, a salvaria de qualquer outro problema. Acatou a sua ordem, com uma submissão militar, que ainda o desconcertava.

Acabou por procurar, na cozinha improvisada, qualquer coisa para fazer para o almoço. Não pôde deixar de comparar aquela construção tão tosca, com aquelas que ela insistia em fazer nos seus acampamentos. Ela era uma líder de patrulha e era muito boa nisso. As suas construções de troncos e sisal eram elaboradas e admiradas por todos. Aquelas que eles tinham feito, não chegavam sequer aos pés, das dela. Ela não sabe porquê, mas sentiu-se orgulhosa por isso. Achou entretanto umas latas de feijão, tomate pelado e atum. Decidiu fazer uma feijoada de atum e quando já passava do meio-dia, chamou-os para almoçarem.

domingo, 9 de agosto de 2009

Lisboa, 19 de Outubro de 1929 – Lisboa, 8 de Agosto de 2009

 

Sem mais palavras, pois já todas foram ditas, fica apenas aqui como prova da minha tristeza, uma das frases que mais gostei de ouvir, um actor dizer:

“Façam o favor de ser felizes!”

Por mais triste que me sinta, rio-me sempre com uma cassete que tenho de Solnado com "É do inimigo?”.

Obrigada e Adeus!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Antes de mais, desculpem ter ficado tanto tempo sem actualizar o blog, mas a verdade é que férias e computador, por mais portátil que seja, não combinam. Contudo estou de volta e com o meu retorno ao dia-a-dia pavoroso, voltaram, as pequenas pérolas que fazem dos meus dias, algo melhor.

Hoje tive que apanhar um autocarro, algo que simplesmente odeio, não suporto. Se de comboio eu sinto alguma liberdade e calma, posso ler e escrever, dormitar e sonhar, de autocarro, apenas perco tempo. Fico enjoada, não consigo ler e muito menos escrever e passo todo o tempo a pensar quando é que o estupor do condutor, não se vai espetar numa curva.

Estava eu nesse sacrifício, quando um senhor, com mais de 60 anos, se sentou ao meu lado. Cumprimentou-me, algo que achei educado, acho sempre que se deve dizer bom-dia, boa-tarde, boa-noite, é um bonito hábito que nos temos vindo a esquecer. Mesmo quando não conhecemos as pessoas, pois se elas se cruzaram no nosso caminho nesse dia, e depois de nos terem que ter visto, acho que é o mínimo que devemos fazer para melhorar o seu dia, desejar “Bom-alguma-coisa”. No entanto não ficou por aí e isso, já acho mal. Eu gosto de pensar e odeio que estraguem o meu raciocínio, mas o Sr. precisava de falar e na falta de se dirigir a um padre na confissão, eis que eu surgi, como um elemento salvador da sua alma e pensamentos torturados. (A igreja católica tem que fazer algo sobre isto, antigamente as pessoas não iam aos psicólogos, iam ter com um padre, eram de graça, poupavam ouvidos alheios, ninguém ficava a saber e eram igualmente desculpados e perdoados por qualquer acto que tivessem cometido e acima de tudo, não me chateavam). Mas estou a desviar-me das pérolas.

O Senhor, depois de ter contado uns quantos segredos sobre a mulher coscuvilheira que tinha feito uns amigos “Testemunha daquele gajo, o Jeová” e que lhe estavam a dar a volta à cabeça, ao ponto de ele quase ter querido bater-lhe na noite passada, confissão que foi seguida por uma frase minha, muito perspicaz e talvez a única que proferi:

“A violência é um poço sem fundo, do qual se faz bungee jumping, mas cujo elástico nunca permite voltar para cima, porque se parte!”

Acham que ele percebeu alguma coisa? ! O certo é que ele disse que eu tinha toda a razão e continuou, mudando de assunto, para uma sequência de pérolas que eu vou agora transcrever e acreditem que o contexto fez tanto sentido, quanto o que eu agora vou atribuir: Nenhum. E vou sublinhar as palavras que foram destorcidas ao longo do seu fluente discurso.

- E já viu a Gripe A? Começa a ser probremático. É um micróbrio, complicado de se evitar.

- É que as pessoas esqueceram-se do que é a hipiene.

- Nós tínhamos bácoros, ovelhas e cabras em casa, mas tínhamos as orelhas e as unhas sempre limpas e não tínhamos cá esses luxos como os putos de agora têm, como essas coisas que se usa nos ouvidos: os cordonetes.

- Mas basta ver nos supermercados. Deixam entrar todo o tipo de pessoas. Como é que a fruta pode ser segura, se drógados, pretos e ciganos, entram e mexem nelas. (Acreditem que se não fosse pelo facto de eu estar internamente a rir-me com a ironia de alguém que comete tantos erros de vocabulário pronunciar a palavra drogado, como os tios de Cascais, eu ter-me-ia levantado e ido embora naquele momento.)

- Se não vão comprar não podem entrar. Se os empregados têm que usar tocas e luvas, porque é que deixam entrar os piolhentos daqueles pretos e brancos drógados que usam aqueles cabelos cheios de m**** que não prenteiam?!

- É por isso que os micróbrios da Gripe A, não morrem.

- E os disvorcios?! (esta fez-me mesmo rir, pois alguém que fez parte das minhas férias também diz divorcio assim) Já ninguém fica casado! É tudo disvorciado e ninguém tem vergonha. Não acha?!

- Antigamente é que era, os miúdos brincavam na rua e nunca riscavam um carro ou roubavam um autromóvel. (talvez porque não houvesse muitos para roubar, mas roubavam outras coisas, o roubo não é uma invenção deste século)

Bem, acreditem que houve muito mais, até os trinta minutos da minha viagem tivessem terminado e felizmente pudesse sair do autocarro.

Digam lá se não foi uma excelente maneira de começar o dia?! Mas o mais engraçado é que se este senhor entrasse para o programa Novas oportunidades e tivesse passado aquelas pérolas para o papel, teria direito ao 12º ano.

domingo, 26 de julho de 2009

image001 (1) É quase impossível olhar o mar e não me apaixonar, não me perder nos seus encantos, não querer deitar-me nele e deixar-me embalar nos seus braços e permitir que ele me torne parte dele.
 image002Não faço ideia quem foi o arquitecto do Universo, mas seja quem for, sabia o que estava a fazer.
Nota:  Imagens de Clark Little

sábado, 25 de julho de 2009

Nós humanos somos uns bichos complicados, demasiado complicados, talvez! Levamos a vida a andar e a correr de um lado para o outro, sempre stressados e a arranjar problemas para resolver Mesmo quando eles não existem, ficamos sempre à espera que eles surjam, e nessa espera, nesse entretanto, perdemos muita coisa boa que podemos fazer, muita coisa que nos deixaria mais em paz connosco mesmo, mais calmos, melhores pessoas, não só com os que nos rodeiam, mas com os outros também, os outros que nos dizem pouco, ou mesmo nada.

Apercebo-me sempre disso, cada vez que tenho tempo para férias, sempre que guardo alguns momentos para estar com a minha irmã, a minha sobrinha, os meus tios, os meus primos, os meus amigos. Fico mais Eu. Não grito, não me irrito, volto a sorrir, não tenho maus pensamentos, não quero o mal de ninguém. Apenas quero viver em paz, ver as pessoas livres e felizes, soltas e leves, comunicativas, abertas, prontas para amar e se deixarem amar.

Queria muito que o meu dia-a-dia fosse sempre assim!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

agua

 

Adivinhar qual é a substância da vida, é o mesmo que encontrarmos o nosso verdadeiro Eu.

Conhecermos-nos na perfeição é conhecermos o Universo, é conhecermos tudo.

sábado, 18 de julho de 2009

 

 

Por vezes, o risco de se perder aquilo que se tem é tão grande, que tenho medo de arriscar. Acho que se pode sempre ficar pior do que se está.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

abismo1 (1) - Não penses que eles te vão tratar melhor, do que te trataram a noite passada e nem penses que eu os vou impedir. – continuou a rir-se.

Ela apenas se limitou a beber o café e a tentar reconhecer o local onde estava. Não podia ser muito distante do acampamento onde estava o namorado e os seus amigos. Eles tinham montado campo numa falésia. O vento era uma constante. Para além da tenda onde pernoitara, existia uma caverna na montanha que era usada pelos outros dois soldados. Tinham uma mesa, um toldo e uma cozinha rudimentar. Ele observava, com uns binóculos, algo que se passava numa clareira mais abaixo. Ela reconheceu o seu acampamento, preparavam-se para a alvorada. Aquela posição mais elevada, permitia-lhes o anonimato, apesar de os soldados poderem observar perfeitamente, todas as actividades do seu acampamento.

- O teu namorado está muito calmo. Nem sequer foi o primeiro a acordar. Aparentemente, ele só vai dar pela tua falta quando aparecerem todos, para o hastear da bandeira. – ele queria irritá-la, mas não era só isso, ele queria mais. Ele queria que ela percebesse que o outro, valia muito menos, do que ela merecia. Eram os ciúmes a falar mais alto.

Ambos ficaram a observar o resto da rotina e ele tinha razão, o seu namorado, apenas deu sinal da sua ausência, quando as elementos da sua patrulha o foram avisar. Ele era aquele com quem ela estava preocupada na noite anterior. Aquele que agora, se fingia surpreendido pela sua ausência. Os chefes reuniram-se e tomaram as medidas necessárias para organizar uma patrulha de buscas. Ele riu-se perante a hipocrisia daquele chefe de agrupamento. Ela atirou o resto do café para as cinzas da fogueira da noite anterior e disse com uma calma aparente.

- Mas agora eles vão procurar-me e eles são bons batedores. Antes do meio-dia, já cá vão estar. – ele olhou-a incrédulo, aquela pequena, não parava de o espantar. Pareceu-lhe agora, ainda mais arrogante que a noite anterior e a verdade é que ela estava mesmo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

2152449Nada é eterno, mas tudo o que fazemos e pensamos, são para sempre, eternamente, experiências nossas.

 

Nota:  Fotografia retirada do site Olhares.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Passado poucos minutos, o outro soldado entrou na tenda. Ela não se recordava muito bem deste. Ele atirou-lhe a farda de escuteira, com a qual ela estava vestida, antes do seu rapto. Encheu uma bacia com a água que estava num jarrican perto da mesa e foi ter com ela. Ela encolheu-se e desviou o olhar. Ele apenas a agarrou por um braço e a arrastou até a mesa. Ela sentia-se desconfortável, assim, nua à luz do dia, frente a um homem que desconhecia.

- Lava-te e veste-te. O Chefe espera-te lá fora. Despacha-te. – ela olhou-o por uns instantes. Ele era maior que o seu parceiro na noite anterior, era muito mais alto e musculado, talvez um pouco gordo e tinha uma cara macilenta e cansada. Não era feio, mas não era alguém que ela procurasse numa festa. Ele entendeu aquele olhar como um pedido de privacidade e riu-se. – Nem penses que vais fazer de mim um pau mandado. Não sei o que foi que lhe fizeste ontem à noite, para que ele esteja assim, mas comigo não resulta. Despacha-te. Não te deixo sozinha nem por um instante.

Ela acabou por lavar o rosto. A água estava fria, mas ela lavou também a ferida provocada pelos dentes do seu raptor. O seu ombro estava todo negro e ainda deitava um pouco de sangue. As feridas da sua cara ardiam, mas ela suportava-o bem. Vestiu-se, ignorando por completo a presença daquele soldado. Tanto lhe fazia se ele a olhava, ou não. Era algo que ela não controlava, pelo que preferiu nem tentar. Quando ia a apertar o cinto nos seus calções repara que a bainha do canivete suíço e da faca de mato estavam vazias.

- Onde estão as minhas coisas? – perguntou num tom insolente.

- Como se nós te as fôssemos dar! – riu-se – Despacha-te. O chefe espera-te e tu és muito lenta. – e dito isto, agarra-a de novo pelo braço e empurra-a para fora da tenda. Ela tenta esbracejar e livrar-se do seu domínio, chega mesmo a bater-lhe e a cuspir-lhe, ao que ele responde com uma bofetada. Ela não se dá por vencida e apenas pára quando ele fala. – Aqui está, chefe.

O seu raptor estava à sua frente, com uma caneca de café na mão, estendida na sua direcção e ria-se divertido com a cena. Ela agarrou a caneca e bebeu em pequenos tragos, o líquido castanho e aromático que continha. Estava quente e isso fazia com que o seu corpo aquecesse um pouco. O Verão estava a acabar e naquela serra no Norte de França, o frio era quase Invernoso. Aquela farda sem um casaco, ou um pulôver, começava a não ser suficiente, para a manter quente. O soldado afastou-se juntando-se ao mais velho, deixando-os, de novo, sós.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sou sincera: nunca percebi o ditado popular “Morrer de pé como uma árvore”. Nunca entendi simplesmente, por que não acho que ficar parado, sem nada fazer, sem recorrer a todos os recursos, seja digno. Acho que se deve morrer a lutar e as árvores não o podem fazer. Alguém o tem que fazer por elas. Assim o ditado nada me diz e continuo a achá-lo absurdo.

A verticalidade deve-se a uma constante moral e não ao facto de nos mantermos de pé e estáticos. Quando morrer que seja a lutar por algo, que seja a correr, a rastejar no chão, a fazer amor com quem amo, que seja a lutar contra uma doença numa cama de hospital, que seja a combater um fogo, a salvar alguém que se afoga, com um tiro a lutar por algo que acredito, que seja acorrentada a uma árvore, mas que seja a morrer de forma activa.

Recuso-me a morrer como uma árvore.

 

PS.: Obrigada Entremares, por me teres inspirado (aqui).

sábado, 4 de julho de 2009

É impressão minha, vontade de ser mazinha, ou de ter algo para aqui dizer, ou o Elton John está, realmente, cada vez mais, parecido com um Hobbit?!!!!

E que história é aquela de dedicar a mesma música do funeral da  Diana ao Cristiano Ronaldo? Que o rapaz é “delicadinho” eu tenho as minhas suspeitas, basta ver a quantidade de vezes que está a rebolar-se pelo chão ao longo dos jogos, a cobrar faltas inexistentes, mas Elton, não cheguemos a tanto que o menino de ouro não tem perfil de princesa. Ou será que o Sir Elton John, tem segundas intenções?! 

Está bem, está bem, não batam mais no ceguinho, eu sei que a música foi dedicada com ironia, de que era uma fama passageira, algo que passou e se esvaiu em fumo, blá, blá, blá… Mas que visão deliciosa do Cristiano com o Elton… Vai dar-me para o dia todo.

Que saudades de quando o futebol ainda era um jogo de homens…

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um dia destes alguém virá por mim aqui escrever e virá para comunicar aos poucos mas leais leitores que eu morri…

Não pensem que será por doença ou outra qualquer efeméride que devam lamentar, pois a razão será a seguinte: Se me oferecerem droga mais uma vez que seja no Rossio ou na R. Augusta, em plena luz do dia e à hora do almoço, eu vou-me a eles. A sério que vou. E será uma guerra!

As razões para ter chegado a este ponto de rotura, são várias,:

1º  - Não tenho aspecto de drogada e sinto-me ofendida por acharem que sim,

2º  - É à luz do dia e estamos muito longe dos consumos espontâneos da noite, como os que podem surgir junto das discotecas e clubes nocturnos, ou do Bairro Alto, antiga morada destes párias e assassinos.

3º – Porque estão fartos de fazer o mesmo com o meu primo de 21 anos (e que eu continuo a ver como um miúdo que tenho que proteger) e à minha prima de 16 e percebo nos seus olhares quando me contam, o constrangimento e a vergonha.

4º -  A polícia está mesmo ali ao lado, a guardar as joalharias e nada faz e não me venham com desculpas, de que se eles forem para lá eles mudam de lugar, pois eu acho que devem mudar, que mudem para qualquer outro lugar, como por exemplo para uma cadeia sobrelotada, sujeitos a tudo aquilo, e sem cair nos habituais clichés, acontece nas cadeias, pois é o lugar deles, desses criminosos, traficantes, assassinos.

Ainda me lembro numa das primeiras vezes que fui ao Bairro Alto e um rapaz perguntou-me entre dentes “Axixe?”, ao que eu na minha inocência, achei o máximo e respondi, “Sim, estou fixe, e tu?!”

Já passaram muitos anos desde esse dia, em que não me passou pela cabeça que me estariam a oferecer droga numa rua cheia de gente! E sinceramente?!

ESTOU FARTA!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Descalça, com os pés envoltos em meias de algodão, deslocava-me em bicos de pé, pelo corredor. Já passava e muito da minha hora de dormir, mas mesmo assim, adormecer tinha sido algo impossível de fazer naquela noite.

Ia estrear na RTP (o único canal de televisão naquela altura) com pompa e circunstâncias, uma curta metragem/videoclip do Michael Jackson e como haviam avisado que poderia ser impressionável, a minha mãe proibiu-nos de ver. As intenções eram as melhores, bem sei, mas eu adorava o Michael. Para mim, praticante de dança jazz e ballet, ele era o máximo, o suprasumo e apenas por isso, já seria difícil respeitar a vontade da minha mãe, mas ela havia feito algo muito pior: havia proibido. Proibir de fazer algo, para alguém como eu, é um convite aberto para que o faça, sem pensar nas consequências.

Dito e feito! Pé ante-pé, percorri o corredor com a  esperança de que no outro lado, na sala da televisão, a minha mãe tivesse adormecido no sofá, como sempre acontecia e que eu, escondida no esconso entre a cozinha e a sala, conseguisse ver o teledisco. Sentei-me o mais confortável que consegui e aguardei, quase sem respirar com esperança que a minha presença não fosse denunciada. Esperei o que me pareceu uma eternidade de tempo e quando estava quase a começar, suspirei. Respirei bem fundo e exalei o ar com um sonoro “Ahhh” de alívio. Depressa dei conta do que fizera e tapei a boca com as duas mãos, como se isso anulasse o meu gesto anterior.

- Não achas que ficas mais confortável no sofá? – soa a voz meiga e algo ensonada da minha mãe.

Levanto-me com a sensação das pernas estarem dormentes, salto para cima do sofá e aninho-me junto dela.

- Eu sabia que não me irias obedecer! – continua com um beijo nos meus cabelos – Quero ver como é que acordas amanhã para a escola.

- Oh mãe, eu sei! Mas é o Michael… – ela riu-se e a curta metragem começou.

Vi tudo sem pestanejar e acabei a vibrar com a coreografia final e a tentar imitar os passos, e não dormi durante três dias, com a sensação de que um morto vivo podia sair do meu colchão ou pelas paredes do meu quarto, mas valeu a pena. Se valeu!

Afinal… era o Michael!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

DSC02278Eu fui sempre uma daquelas alunas que não se importava com a escola. A escola sempre me foi simples e muito pouco desafiante. Não me interpretem mal, não era má aluna, muito pelo contrário: achava tudo demasiado fácil e por isso mesmo, fazia coisas que me dificultavam a vida: Não sabia quando existiam testes, assim eram sempre uma surpresa e tinha que ter a melhor nota, sem ter aparecido nas aulas ou estudado e ficava sempre no grupo que sobrava nos trabalhos para média, pois raramente estava nas aulas em que eram atribuídos (apesar disto ter começado a correr contra os meus desígnios, pois como acabava por fazer os trabalhos quase sozinha e tinha sempre excelentes notas, os meus colegas do liceu, começaram a disputar-me na atribuição dos grupos, mesmo sem estar presente).

Sempre fui uma pessoa que inicia coisas, adoro inícios e tenho uma alergia muito especial a fins. Sempre que algo está prestes a começar eu fico excitada, empenho-me a fundo, dou o melhor que tenho (mas guardo sempre um pouco para os momentos em que adrenalina descarrega, mas isso é outra história) e assim era, com cada ano lectivo. Nos últimos dias de Verão, começava a preparar os cadernos, lia os manuais e os livros que sabia que ia dar em Português, adiantava matéria e imaginava tarefas e trabalhos em grupo que sabia de antemão que iriam ser feitos em determinadas disciplinas e ficava muito empolgada. Jurava que não ia faltar a uma aula, a um dia que fosse, que ia estudar para todos os testes e ia ser muito participativa. Conseguia fazer três trimestres em três semanas, sozinha, eu com os meus livros e depois, começavam as aulas e alistava-me em tudo quanto era grupo extracurricular: a Iris estava no grupo de teatro, no grupo de Alemão, fazia parte dos fundadores do Ecoclube (este tal como o teatro, levava muito a sério), do Clube  de Fotografia, fazia parte das listagens para as associações de estudantes e invariavelmente tornava-me uma vogal das mesmas, fazia parte da rádio da escola e um sem fim de outras actividades para as quais me pediam ajuda e eu nunca dizia que não.

Mas as aulas começavam, os toques começavam, todos nos metamorfoseávamos em carneiros, que mudavam de sala de aulas, em rebanho, de 55 em 55 minutos, ao toque de uma campainha, tal qual cães de Pavlov e eu perdia, toda e qualquer força de vontade e começava a faltar. Faltava dias seguidos, aparecia a uma ou duas aulas por dia, durante semanas (sim, porque biologia, português, filosofia e educação física, eram aulas às quais eu tentava não faltar, menos biologia, que o que se aprendia era tão fácil, que não precisava das aulas para ter excelentes notas, mas gostava da professora e da matéria e por isso fazia um esforço para aparecer, acreditem que era um esforço.

Aparecia em todos os grupos e assim os professores sabiam que eu estava viva e bem. Muitos conversavam comigo, com aquele tom paternal e diziam-me que deveria ir às aulas mais vezes, mas eu não conseguia, nem mesmo quando queria muito fazer-lhes a vontade.

Adorava a cara que o meu professor de Português fazia quando eu aparecia no clube de teatro, ao fim do dia, fresca que nem uma alface e depois dizia com o tom mais sério que conseguia manter:

- “Ao menos podias aparecer de vez em quando! Só e apenas para me dares a vã ilusão de que sou teu professor. Não fazias isso por este pobre homem?!” – e eu, que fingia estar muito preocupada com o ar sério dele, acenava com a cabeça que sim e depois desatávamos os dois a rir.

Se me perguntarem porque é que eu gostava tanto de português e porque é que passei a gostar tanto de teatro, eu sei exactamente o que responder: foi por causa do Professor António, meu professor de Português do 7º ao 10º ano, o que me convidou para fazer parte da peça Antigona, que mais tarde veio a dar nome ao grupo de teatro, por ter sido a primeira pessoa com que pude falar de Margarite Durás, Milan Kundera, Yukio Mishima, entre outros, por ter sido sempre mais meu amigo, que professor.

Aprendia muito mais fora de aulas do que dentro daquelas salas claustrofóbicas, castradoras, e por isso mesmo, fiquei conhecida no liceu, como a Baldas e mais tarde, na Universidade, representaram-me no Livro de final de curso com a cena do filme de Chuck Norris, com a minha caricatura a sair da água, vestida com a minha farda de escuteira, faca de mato nos dentes e com as letras a formarem: Desaparecida em Combate.

Nunca perdi um ano, nunca deixei uma disciplina para trás, tive sempre boas médias, mas fui sempre uma Baldas.

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