sábado, 2 de maio de 2009

- Mas isso nada muda entre nós. Eu vou continuar a ter o que quero, só tu é que irás sofrer mais.

- Não vou, não. – responde instintivamente.

Ele volta a aproximar-se dela, agarra-a pela cintura e aproxima-a do seu peito musculado. Ele gosta dela, gosta do peso dela, gosta de a sentir, de a cheirar, aquilo não lhe é penoso, ele quer, apenas não quer é que tenha que ser violento. Ele daria tudo, para que não tivesse que usar a força, mas ela, com um golpe rápido e imprevisível, no baixo-ventre, liberta-se dos seus braços. Ele bate-lhe de imediato, nunca iria permitir que o magoassem, mesmo que quem o fizesse fosse uma mulher como ela.

Ela cai por terra. Desta vez ele tinha usado, realmente, a sua força. Agarrou-a ainda antes de ela recuperar o fôlego e atirou-a para cima da cama, onde antes já a havia acariciado. Ela fica atordoada, com a pancada que deu com a cabeça e demora um pouco a encontrar de novo discernimento, mas pouco antes de se levantar, ela sente-o a tocá-la de novo. Ela tenta resistir fugindo, serpenteando, empurrando, mas começa a faltar-lhe as forças. Ele ajoelha-se em cima da cama, chega-a de novo ao seu corpo. Ela sente o seu cheiro acre a suor e, por pouco, não se permite a desistir e a entregar-se, incondicionalmente, àquele estranho.

As suas mãos continuam a percorrer todo aquele pequeno corpo. Ele insiste naqueles preliminares desnecessários, ele quer realmente que ela o aceite, que ela queira que aquilo aconteça, mas algo nela, algo que nem ela mesmo sabe explicar, impede-a de se entregar sem dar mais luta. Ela sabe de antemão que o desfecho será aquele, mas quer ficar com a consciência tranquila, antes de desistir. Olha à volta e vê a faca de mato, no chão. Era isso que faltava nas suas calças. Ela livra-se mais uma vez dos seus braços e rebola, para junto da faca, ganhando a vantagem da distância. Ele demora algum tempo a perceber o que se passa, mas se antes ainda tinha dúvidas, ele agora tinha a certeza absoluta de que ela tinha treino militar.

x-men_origins_wolverine_movie_poster2 O que é que será que me prende à saga X-Men? O excelente enredo? O facto de ser uma das novelas cómicas que eu mais aprecio desde criança, ou o facto de que sempre que sai uma sequela do filme, o elenco melhora exponencialmente.

OK. Vocês já sabem o que eu penso dos filmes de acção, por isso só posso dizer, deadpool_wolverineque o filme não desilude. Tem todos os requisitos para nos manter atentas ao ecrã: acção, espectaculares lutas coreografadas, Ryan Reynolds, CGI, excelente montagem, efeitos sonoros de cair para o lado, Hugh Jackman,  a eterna batalha do  bem contra o mal.

Mas o mais importante  (façam um esforço para acreditar que é o que eu acho mais importante), é que Wolverine mostra de forma clara e inequívoca, o nascimento de um herói traumatizado, complexo e fascinante, exactamente, por ser idiossincrático. x-men-origins-wolverine-1501Wolverine é o mais corajoso, animalesco e selvagem dos X-Men, e, por isso, por ser um ser atormentado na busca constante do seu próprio Eu, torna-se no mais fascinante e apaixonante personagem da saga criada por Stan Lee e Jack Kirby na década de 60.

 

Eu adorei o filme. Bom fim-de-semana!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Recuperar uma casa com mais de cem anos, para eu poder morar, viver, receber, criar e escrever.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Os espertos são aqueles que apesar de um QI por vezes não superior à média, conseguem destacar-se dos demais. São aqueles, que apesar de todas as adversidades, conseguem levar a sua a avante. São aqueles que ignoram os sentimentos dos outros, se estes estiverem no meio dos seus interesses. São aqueles que são sempre mais encantadores. São aqueles que têm o maior jogo de cintura. São aqueles que usam a mentira como a verdade e a verdade como a mentira.

Os espertos são aqueles que se saem sempre melhor, são aqueles que vão mais longe. São os que conseguem os melhores empregos apesar de não estarem habilitados para os mesmos. São aqueles que conseguem as promoções e os melhores negócios. São aqueles que ficam sempre com o melhor gabinete.

Às vezes gostava de ser um pouco menos inteligente e ser muito mais esperta.

 

- Perdoem a presunção da minha pessoa, ao achar-se inteligente. -

domingo, 26 de abril de 2009

lua cheia

 

 

Eu – Vida!

V – Sim!

Eu – Aonde vais?

V – Vou ali e já volto.

Eu – Não! – impero – Fica aqui que o rumo não é esse. – ela olha para mim, com pouca vontade – Não fujas! – peço candidamente – Ainda há tempo, tem de haver! – explico-me, enquanto tento convencer-me também.

V-  Então despacha-te, estou farta de esperar!

Eu – Eu despacho-me! Prometo.

 

- A vida voltou, mas não está muito convencida. -

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Arranjar uma fonte para o meu blog, que fosse igual à minha letra.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

- Ainda me vais resistir? – insiste enquanto lhe pega meigamente no queixo. Ela acena que sim e ele perde de novo a paciência. Bate-lhe no estômago, fazendo-a ajoelhar-se automaticamente, pela dor provocada. Depois mente, interpreta um papel que não é o seu, mas que ele vira ser interpretado várias vezes com sucesso. – É assim que vocês mulheres deveriam estar sempre: de joelhos, submissas. – mas ela estraga-lhe os planos e levanta-se mais depressa do que ele poderia imaginar e volta a enfrentá-lo com o seu olhar profundo e puro.

Mais do que nunca, ele teve a certeza de um treino militar, mas como? Ela tinha pouca idade, com um corpo plenamente desabrochado, mas era ainda uma criança. A verdade é que ela pouco ou nada se aflige com as suas agressões. Muito pelo contrário, estas apenas a têm tornado ainda mais arrogante e este olhar é prova disso mesmo. Mas afinal de contas, o que receava ele? Ela era apenas uma jovem mulher! Mas a verdade é que ele preferia não ter que a magoar, definitivamente, ele não se sentia à vontade com o papel que lhe tinha sido atribuído, ele era um amante, não um violador. 

Ela mexe com ele e, por instantes, ele quase preferia ter escolhido qualquer outra rapariga, daquele acampamento de escuteiros, qualquer outra rapariga, que não fosse esta, mas já era tarde de mais para isso. Ele afasta-se, tentando recompor-se e ela aproveita o momento para o baralhar ainda mais.

- Eles irão dar pela minha falta. Logo de manhã eles começarão a procurar-me e irão encontrar-me. Tenho a certeza que ele virá salvar-me. – ele riu-se. 

Ela estava a ser ingénua, ele conhecia a laia do homem com quem ela estava. Ele nunca iria colocar em causa a sua posição e reputação. Ele nunca admitiria, que estava com uma menor, no meio da noite, perdidos no mato. Ele sabia que ele voltaria para o acampamento e só no dia seguinte, quando outros dessem por falta dela, é que ele  faria qualquer coisa. Mas ele não temia isso e ela no fundo, sabia-o. 

– Porquê eu? – desta vez é ele quem não responde.
- Tu sabes que eu vou ter o que quero...a bem, ou... – hesitou – Tu é que sabes, tu é que escolhes.
- Então eu já escolhi. – ele levanta os olhos cheios de curiosidade e aguarda a resposta, como se ela fosse mudar alguma coisa – Não poderei ceder-lhe sem que primeiro, faça tudo o que estiver ao meu alcance, para o evitar. Nunca me perdoaria se o fizesse, seria muito pior para mim. As feridas do meu corpo saram, mas as da alma, ficam para sempre. – o seu corpo tremia gelado na sua nudez. – ele ri-se, mas de embaraço. 

Ele preferia muito mais que fosse outra a sua resposta. Será que ele não lhe agradava? Seria a primeira vez, mas também era a primeira vez que ele raptava uma mulher.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu não sei o que vocês entendem por felicidade, mas para mim, felicidade é reunir na vida, mais momentos bons, que maus.

Uma espécie de colecção de álbuns de pequenos minutos felizes.

domingo, 19 de abril de 2009

acordar4xe A noite arrefece e eu acordo, tenho frio. Procuro a pele dele no outro lado da cama, está quente, é suave, a carne endurecida pelo exercício, torna-se macia ao toque. Estreito-o nos meus braços e peço ao seu ouvido:

- Beija-me! Beija-me como se não houvesse amanhã!

E ele mesmo a dormir, vira-se, abraça-me como se quisesse que eu fizesse parte do seu corpo, como se eu fosse uma extensão de si mesmo. Abre os olhos, beija-me e faz de mim uma mulher feliz.

sábado, 18 de abril de 2009

Vocês conhecem aqueles dias em que acordamos com um nó na garganta que não sai?! Vamos trabalhar e apetece-nos chorar ainda antes de vermos o primeiro colega, mas como não o podemos fazer, engolimos diversas vezes, como se pudéssemos engolir a vontade de chorar, empurrar bem para dentro do nosso corpo e escondê-la?!

Contudo o nó continua na garganta e quando estamos quase a chegar a casa, perdemos, cada vez mais, o controlo e as lágrimas começam a cair, ainda sem ruído e uma frase, começa a repetir-se na nossa mente.

Quando abrimos a porta de casa, já as lágrimas caiem cascata. Atiramos com as coisas para o chão, saltamos para a cama e começamos então a soltar o nó preso durante todo o dia; soluçamos, choramos, soluçamos e choramos.

Lembram-se da frase?! É nesta fase que ela começa a fazer sentido. Primeiro sai como um murmuro, uma, duas vezes. Depois, explode como um grito de afirmação: “Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” É como uma frase de bêbado, pois nesta fase já estamos embriagados com o nosso próprio choro e com a sensação de liberdade que ele nos proporciona.

Vem então o estágio seguinte, aquele em que já nos dói os músculos de tanto gritar, soluçar e chorar. Sentimos os olhos inchados e a arderem por causa do sal. No entanto, chorar está a saber tão bem, que continuamos, esfregamos os olhos, limpamos o nariz com a manga da camisa e, em pranto, vamos até a um espelho. Estamos mais horríveis do que é habitual e isso só reenforça a necessidade de continuar a chorar. Então encostamos as costas à parede mais próxima e, lentamente, deixamos-nos escorregar até estarmos completamente sentados no chão, num pranto incontrolável.

“Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” Retomamos a frase. Aliás a frase pode ser qualquer coisa desde: “Fiz o meu melhor!”, “Porquê eu?!”, “Porquê?”, “Eu sou melhor!”, até à famosa frase de choro, “Não mereço isto!”

Inevitavelmente, sempre que estamos no meio de um ataque destes, o telefone teima em tocar. Podemos passar dias sem que ninguém nos ligue, mas sempre que estamos a chorar, alguém se lembra de nós. Aí, tentamos a todo o custo controlar os gemidos e as lágrimas, respiramos fundo, limpamos o nariz (e continuamos a usar a manga para esse efeito) e atendemos (sim, porque temos sempre que atender o telefone, não vá ser mais urgente que a privacidade do nosso choro), com uma voz característica de quem estava a chorar.

Nós- Estou! – fungamos.

? – Que voz é essa?! – eu imagino sempre uma voz aguda, que são as que mais me irritam, vocês façam como entenderem – Estavas a chorar?

Nós – Não! – fungamos e soluçamos – Agora a chorar! 'Tá parva!

? – É que estás com uma voz estranha!

Nós – Estou um pouco constipada, é só isso! – fungamos, soluçamos e tentamos controlar a vontade de berrar, gritar e gemer. (Também podemos dizer que estávamos a dormir, ou que estamos com uma alergia)

? – Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá. – e nós sem ouvir nada.

Nós – Então ‘tá bem! - fungamos uma última vez – Depois digo qualquer coisa. – e desligamos o telefone.

“Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!” - gritamos, até que adormecemos à frente da televisão, exaustos e com a alma lavada.

- Adaptado de algo que vi, li, ou ouvi, mas que não me recordo onde. -

quinta-feira, 16 de abril de 2009

E quando já não suportava mais aguentar o fôlego, chorei!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tenho um amigo que festeja o Ano Novo, apenas como uma festa do Calendário, pois para ele, a passagem do ano acontece no seu aniversário. Como eu gosto muito de festas, festejo as duas datas com prazer.

Mas não este ano! Este ano fiz do meu aniversário a celebração mais sem graça possível e apenas porque desiludiria os mais íntimos se nem sequer um bolo e uma taça de champanhe houvesse. Já para não falar na possibilidade de uma festa surpresa.

Peço desculpa a todos os que ficaram desiludidos, mas não me apetecia nada festejar a idade de Cristo. Fica aqui a promessa de uma festa daquelas a que estão habituados, para festejar a chegada do Verão

Vale?!

terça-feira, 14 de abril de 2009

beijo no pescoço.bmp Aquilo já não lhe dava mais prazer, ele não queria vê-la chorar, não era isso que ele pretendia. Na realidade, ele queria que ela gostasse dele, pelo menos durante o tempo que a relação entre ambos durasse, isso deixá-lo-ia mais à vontade no seu papel de estuprador. Ele não conhecia, até agora, outra forma de sexo, que não a consensual. – Agora despe-te! – ordenou, mas ela permaneceu tão imóvel, quanto a última vez e ele começava a perder a cabeça.

Ele olhou bem nos seus olhos, ele podia ver o seu medo, isso baralhava-o ainda mais. Quase que ele arriscava a afirmar que ela tinha tido treino militar. As posições que assumia, o que dizia, o que fazia, tudo parecia tirado de um manual de sobrevivência em caso de detenção, por parte do inimigo. Mas isso seria impossível, ela era pouco mais que uma criança. Por outro lado, era tão frágil, tão pequena, tão desprotegida. Ela despertava nele, emoções, com as quais, ele não sabia como lidar. Emoções que ele não podia dar-se ao luxo de ter.

- Despe a camisa, já! – ordenou-lhe, mas com tanto efeito, quanto o anterior. Talvez, e apenas arrisco a dizer que talvez, quanto muito, ela tenha demorado mais o seu pestanejar.

Ele, perde a pouca paciência que ainda guardava e esbofeteia-a, de novo. Ela não cai, como da outra vez, o que aumentou ainda mais a sua raiva, chegou mesmo a duvidar da sua força. Decide retirar, ele mesmo, aquela peça de vestuário, que tanta discórdia estava a causar, atirando-a para o chão. Ela não se mexe, apenas estremece ligeiramente.

- Porquê eu? – volta a insistir. O cheiro que o seu corpo exalava era tão doce que o intoxicava.

- Porque eu te escolhi. – confessa, apesar de saber, que tal resposta está longe de lhe oferecer qualquer conforto. Ela tem frio, mas treme de medo e ele sabe disso. Ele beija o seu pequeno e fino pescoço e sente um pequeno tremor nas suas próprias pernas. Ela apercebe-se e pensa que talvez seja um ponto a seu favor. Ou talvez não. – Afinal está mesmo frio! – acaba por se desculpar.

- Pois está! – concorda ela.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

…talvez por causa de tudo o que comi (e que não devia), durante a Páscoa, totalmente, “desinspirada”.

Lamento.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Saímos no meio do natural tumulto matinal e disse à minha sobrinha:

-A tia precisa de tomar um café! - apenas dormi 3 horas, acreditem que o café era mais do que uma prioridade e em casa não havia.

-Oh, Tia! Queria ir já para a escola! Tomas o café depois.

-Um café rápido no Sr. Zé e vamos para a escola. – demando.

- Ok! – aceita contrafeita e logo depois lembra-se de algo – Tia?!

- Sim!

- Preciso de um borracha e não tinhas nenhuma no teu estojo. – bem me parecia que a minha carteira não estava como a deixara – Podias comprar-me uma!

- Está bem! Tomamos o café e passamos pela papelaria a caminho da escola! – entramos no café e ela:

- Bom dia! É um café para a minha tia, se faz favor! – depois vira-se para mim –Tia, dá-me o dinheiro que eu vou lá, enquanto tomas o café! – a minha cabeça dizia: “Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!”

- Quanto é que custa a borracha? – trazem o café.

- Não sei, mas vou perguntar, posso?! -  a papelaria fica no fim da praceta, três prédios depois do café, mas a minha cabeça dizia: “Não! Não! Não! Não! Não! Não!

- Está bem! – e ela sai a correr e assim que ela sai, eu corro para a porta e lá está ela a entrar dentro da papelaria. “Não olhes, não olhes, não olhes, não olhes!” Vejo os ténis dela e volto a fingir que tomo o café. Ela entra eufórica:

- São 60 cêntimos a mais barata e 80 cêntimos a mais cara.

- E qual é a que queres?! – preparo-me para tirar um euro do porta moedas.

- Não as vi! Dá-me o dinheiro, que eu escolho agora e trago-te o papel. – parecia que já fazia aquilo todos os dias. Dou-lhe a moeda – Volto já! – e sai porta fora. Largo a chávena e alcanço a porta quase a correr. “Tem que ser! Tem que ser! Tem que ser!” Grita a minha consciência e o meu coração aperta. Ela entra dentro da papelaria. Aguardo! Ela sai e eu volto a beber o café. Arrepio-me! O café está frio. – Toma! – entrega-me o recibo, o troco e mostra-me a borracha.

- Foi a mais barata! – constato

- Era a que eu queria! – pago o café enquanto ela guarda a borracha no estojo – Ah! – olho para ela – Pedi à senhora para guardar a revista das Winx desta semana que ela disse que já tinha chegado, sabes a que traz a carteira de oferta, a mala. – diz sem pausas, pontuando apenas com a entoação.

- E quanto é que é a revista?! – não responde logo.

- Até amanhã D. Luísa e Sr. Zé!

- Até amanhã, pestinha! – respondem os dois, enquanto eu aceno e me despeço também.

- São cinco euros e noventa e cinco cêntimos, depois passas por lá, não passas?!

- Quanto mais cresces, mais cara me ficas! – ela sorri pois sentia-se realizada por ter comprado a borracha sozinha sem a ajuda de ninguém adulto.

- Passamos lá agora! – Fizemos festas à linda grandanoir que se mudou para a nossa praceta  e que fazia o seu passeio matinal, (que inveja eu tenho do seu companheiro humano) e digo-lhe – Mas com tantas coisas que recebes, nem penses que o Coelho da Páscoa te vai trazer muita coisa.

- Oh, tia! Eu sei, mas não me importo! – deixo de prestar atenção ao cão e olho para ela, que a sorrir conclui, enquanto me abraça e quase me deita ao chão – Tenho-te a ti! 

 

terça-feira, 7 de abril de 2009

1605785 Ela apenas olhou para ele. Agora não tinha dúvidas, os seus olhos eram verdes. Eram olhos de gato, inesperadamente meigos. – Não me obrigues a usar a força. Eu odeio bater em mulheres. Faz-me o favor; não me obrigues a fazê-lo. – era verdade, ele não odiava a violência, ele até gostava dela, usava-a para se excitar e activar a adrenalina no seu corpo, tinha sido treinado assim, mas odiava bater em mulheres, ou em pessoas que ele sabia de antemão, que eram mais fracas que ele. Ele via em todas as mulheres, futuras mães, futuras progenitoras e só o facto de ter que profanar um corpo que tem por fim esse objectivo divino, enojava-o. Ele amara muito a sua mãe e ainda amava muito a sua irmã. No entanto, ele usaria toda a sua força e não hesitaria um único segundo, se disso dependesse o cumprimento da sua missão.

- Pode ser que eu o faça. – tomou de novo a conversa nas suas mãos – Mas primeiro preciso de uma ou duas respostas. – ele riu-se divertido com a tamanha presunção da sua pequena refém.

- Isto deve ser divertido! Diz lá! Dispara.

- Porquê eu? Nada sei da vossa missão, nada vi, de nada vos sirvo, pelo menos nada que uma prostituta qualquer de beira de estrada não pudesse fazer muito melhor que eu. – o seu tom era firme, seguro, mas ao mesmo tempo, suave, quase arriscava afirmar, que repleto de uma sensualidade maternal. Ela conhecia o temperamento volátil do seu parceiro e não queria que a sua voz, fosse provocadora da sua ira. Ela receava que qualquer alteração, fizesse despoletar toda a violência que ela sentia-o conter.

- Tu nada sabes da nossa missão e nunca o irás saber. Pelo menos até ser necessário que tu entres em acção. Apenas te direi o que eu achar necessário. O facto de aqui estares, nada tem a ver com isso. O que tu sabes ou não, não me interessa. – disse inesperadamente calmo e cooperativo. – Posso adiantar-te que vais ter um papel muito importante nesta missão.

- O que é que pretende de mim? – ele sorriu, finalmente ela começava a desesperar e isso fazia-o sentir-se mais seguro. Não respondeu e virou costas, tentando controlar o seu contentamento – Por favor, apenas quero saber, porque é que eu estou aqui!

- E porquê? – pergunta-lhe arrogantemente – Achas que isso vai aliviar o medo que sentes? A dor que irás sentir? – ela tentou controlar-se. Os seus corpos estavam de novo, muito perto um do outro e isso deixava-a enfraquecida, talvez pelo cheiro, ela não sabia.

- Não lhe quero impor nada! – começou com uma voz com um suave timbre infantil – Sei que não estou em posição de fazer exigências, eu sei qual é o meu lugar. Apenas preciso saber o que pretende de mim, para que eu possa decidir o que fazer. Não sei porquê, apenas preciso de saber. – quase soltou uma lágrima.

- Não te adianta de nada! – concluiu.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A minha sobrinha e euUm  destes dias estava a levar a minha sobrinha à escola, tarefa que é sempre feita às corridinhas, aos saltos e pinotes, entre outras actividades que me deixam exausta, ainda antes de chegar ao escritório, quando no meio de um silêncio perturbador, diz-me:

-Tia?!

-Sim?! – imitei o tom inquiridor.

- O pai Natal existe?

-Claro que existe! – Retorqui pronta e convincentemente. – Quem é que achas que te dá aquelas prendas todas no Natal?!

-Mas tia?!

- Sim! – Já não imitei, pois adivinhava algo complicado.

– É que… – silêncio.

- Porque perguntas? O que se passa?!

- É que quando eu era pequena, lembras-te daquele Natal em que o Pai-Natal apareceu para comer os biscoitos que fizemos? – acenei que sim -  Ele tinha os mesmos sapatos que o meu pai, por isso não sei!

- Isso e porque o Pai-Natal, comprou os sapatos na mesma loja que o teu pai.

- Mas o Pai-Natal, compra os sapatos no Pólo Norte!

- Já ouviste falar na globalização? – pensei em baralha-la.

-Sim! – eu é que fiquei confusa – A minha professora já disse algo sobre isso!

- Então sabes que com as novas formas de comunicação, as mesmas coisas que existem em Portugal, também existem nos outros países e vice-versa, logo os sapatos que o Pai-Natal, comprou no Pólo Norte…

-São os iguais aos que o meu pai comprou cá!

-Isso!

- Hummmm! – aquele “hum”, não me soo muito bem, mas ela ficou calada e já estávamos quase a chegar.

- Vais ter teste de quê?

- De matemática, já disse! – arremessa.

-Está tudo bem?! – ficou calada e eu passados alguns segundos volto a perguntar – Que é que foi agora?! Que me queres perguntar?! – perguntei com medo do que aí vinha.

- Tia?!

- Sim?!

- O que é vice-versa? – eu sorrio aliviada e respondo-lhe com calma.

Talvez a minha sobrinha chegue aos oito a acreditar que a magia existe!

 

terça-feira, 31 de março de 2009

perfumeUm cheiro exótico, quente e luxuoso exalava do seu corpo. Era um cheiro desconhecido para ele, ela nunca cheirara assim. Era uma mistura intensa de fragrância oriental, onde aromas de amora-preta se entrelaçavam com o cheiro das orquídeas e do jasmim. Mas o cheiro não parava por aí, tinha algo mais, talvez um toque de sândalo, patchouli e baunilha. Aquele cheiro acordava nele uma sensualidade quente que o desnorteava e o remetia a outra vivências, a outra fase da sua vida muito distante da que se encontrava, desde que a conhecera.

No entanto, pareceu-lhe natural aquela mudança, ela naquela altura já não lhe pertencia, talvez quando a conseguisse de novo, ela voltasse a ter o cheiro que era só seu e para si, estritamente, reservado. Na realidade, essa ideia apaziguava-o; saber que apenas consigo ela se apresentava total e sem artifícios, que apenas consigo, ela não se escondia, que apenas consigo ela era ela e não aquela personagem que ele, com alguma dificuldade reconhecia.

domingo, 29 de março de 2009

Muitas amigas minhas, e alguns amigos também, perguntam-me, sempre que os convido para ver uma estreia deste género, como consigo eu gostar de filmes de acção e de estar sempre mortinha para os ir ver?! E perguntam-me isto, pois na sua opinião, os filmes de acção, são um género menor, feito para agradar a testosterona de homens que não estão em contacto com os seus sentimentos, incapazes de verem um filme e terem que pensar ao mesmo tempo. E eu fico sempre um pouco apreensiva na hora de responder, pois nunca sei se deveria optar por uma resposta politicamente correcta, ou dizer o que realmente penso.

Deveria eu defender o género dizendo que eles representam a constante e velha batalha bíblica do Bem contra o Mal, ou então que a maioria destes filmes têm uma direcção cénica fora do comum e que são um elogio aos efeitos sonoros, à montagem e aos efeitos visuais, ou então, que para além da palhaçada existe uma história de fundo que me comove.

Sim, poderia dizer tudo isso e não estaria propriamente a mentir, mas meninas, amigos e amigas, aqui fica a resposta que há anos ando para vos dar. Vocês conhecem-me e ao verem as imagens que juntei a esta mensagem, já devem ter formado uma ideia da minha razão para gostar de filmes de acção.
Mas para aqueles que ainda não me conhecem e para aqueles que são um pouco mais lentos ao raciocinar, posso explicar que gosto de filmes de acção, porque numa tentativa de Hollywood conquistar o público feminino para este género, o homem viu-se transformado num objecto sexual e isso, meus amigos, depois de tantos anos a ver a mulher ser objectivada, é uma imagem que simplesmente me agrada.Perdoem-me aqueles que acham que é superficial, aqueles que acham que eu devo ter um grave problema a ser resolvido o quanto antes, mas é a verdade e quem a verdade diz... não merece castigo.







(As fotografias colocadas no meu blog, são todas tiradas da internet e não pretendo ofender os direitos de autor de ninguém. Se tal acontecer, por favor avisem e prontamente serão retiradas.)







sábado, 28 de março de 2009

Ele e Ela - livro O vapor que sai da sua boca carnuda aquece-lhe o pescoço e ele tem que engolir em seco. Move a cabeça e respira fundo, procurando alguma presença de espírito. As suas faces quase se tocam. Inebriam-se com o seu odor. Ele levanta-se, não quer estar em desvantagem perante ela e pergunta de novo: - Permitirias? – ela não sabe o que responder, já tinha dito tudo o que podia dizer. Ela não sabe mentir e a realidade é que ela não sabia, da mesma forma como ela não sabia o que fazer, momentos antes. Era assim que ela era. No entanto, a sua hesitação, que para nós parece-nos clara e lógica, sai-lhe cara. Num ataque, que tinha tanto de impaciência como de medo, ele bate-lhe na face com as costas da mão. Ela não se surpreende, nem sequer fica muito afectada com a agressão. Na verdade, apenas se desequilibra, caindo por terra, o que a ajuda a tomar consciência que ele terá dela o que quiser, se não a bem, a mal.

- Preciso de repetir a pergunta? – volta agora mais calmo. Ela tinha vontade de chorar, mas engole em seco e responde:

- Eu não sei o que responder. Eu não sei o que teria feito, tudo dependeria do que se passasse a seguir.

- Tu sabes muito bem o que se iria passar, tão bem como sabes o que se vai passar aqui. – a sua voz era seca, ríspida, mas ao mesmo tempo melancólica. Ela apercebe-se de que ele não irá aceitar a sua resposta, está na altura de tomar outra atitude. Ela já tinha aprendido, ela sabia o que fazer. Levanta-se do chão, assume uma posição militar perante o ser carcereiro e responde num ímpeto de último suspiro:

- Acho que não iria resistir. – chorou finalmente, mas por dentro, sem lágrimas sem som, apenas ela sabia que estava a chorar, não ele. Ele admirou-se por ela levantar-se do chão com tanta rapidez. Tudo nela o admirava e não compreendia, não fazia sentido, isso desnorteava-o.

- Tu gostas de jogar com as palavras. – pensou um pouco e rodeou-a, observou-a uma vez mais, de alto a baixo, tentando compreender, fosse o que fosse – Mas isso agrada-me. – dispara por fim. – E hoje? Vais resistir-me? – tanto lhe fazia, ele teria o que queria, mas sentiu a necessidade, a curiosidade mórbida de saber, antecipadamente, quais seriam as intenções da sua vítima.

- Claro! – responde segura, ele sorri – Mas espero que não venha a ser necessário. Não quero enfrentá-lo, senhor. – olhou-o nos olhos em modo de súplica e pela primeira vez naquela noite ele foi implacável no seu papel.

- Não esperes. – desabafou. Essa era uma certeza que ele tinha. Ele cumpria ordens e era bom nisso. Tinha chegado onde chegou, porque sempre tinha sido bom em obedecer. Ele afastou-se para poder vê-la ainda melhor. Quanto mais olhava, menos a conhecia. – Tira a camisa. – esta pouco ou nada tapava, pois estava desabotoada, mas mesmo assim, atrapalhava – Quero ver-te melhor.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ao ler um outro parceiro “bloguista” lembrei-me desta mensagem que há muito queria aqui colocar.

Vivemos numa sociedade onde todos pensamos que a comunicação é algo perfeitamente ao alcance de todos. Num mesmo minuto, posso estar a escrever aqui, no meu blog, comunicar com familiares por telefone, a trocar mensagens no msn, com amigos e, no entanto, estou só.

A minha sobrinha apenas com sete anos recebeu um Magalhães e já faz tudo sozinha. E quando digo sozinha, digo só, porque acho que com a tecnologia de hoje, os miúdos estão cada vez mais a só, todos nós estamos mais sós... estamos desesperadamente sós. Os miúdos já não brincam nas ruas, não pulam ao elástico, não jogam à “sirumba”, às escondidas, ao mata, não podem sair à rua para irem ter com tos amigos, não podem simplesmente fazer corridas de bicicleta.

Iludimos-nos que vivemos numa sociedade de comunicação e esquecemos simplesmente que essa comunicação é virtual, um conjunto de monólogos que se tentam fazer ouvir, porque não existe algo básico e primordial, o contacto humano, o toque...

terça-feira, 24 de março de 2009

A ideia fixa-se na sua mente e torna-se quase impossível deixar de pensar naquilo.

E se acontecesse?! Que mal lhe poderia acontecer? O que mudaria na sua vida se ela caísse em tentação e se deixasse guiar pelos seus impulsos?

sexta-feira, 20 de março de 2009

 

Era dia 20 de Março de 2009. Um cheiro doce pairava no ar, como se as flores quisessem tornar-se visíveis, mesmo na escuridão.

Nessa mesma noite, onde uma brisa suave soprava em todas as direcções, como se até o vento não quisesse que os cheiros se dissipassem, andava pela floresta um outro ser. Devido à pouca luz, era impossível decifrar se se tratava de um ser vivo, ou algo etéreo, não corpóreo. Vestia algo branco, de tecido leve, que surgia quase azul devido à luz da lua crescente. Os seus pés alvos por há muito tempo não serem beijados pelo sol, pisavam a caruma enquanto rodopiavam no meio das árvores e os cabelos, longos e escuros, desenhavam no ar espirais perfeitas. A sua pele, sim suponhamos que era pele, tinha o tom do alabastro e tremia do frio da noite alta. Ela esperava algo, aguardava por algo, rodopiava e olhava, inspirava e olhava. Dançava ao som do vento e esperava. Gradualmente, num crescendo frenesim, aumentou a frequência dos movimentos: rodopiava mais depressa, saltava mais alto, dançava freneticamente ao som do coração que batia, cada vez mais depressa, devido à antecipação. Rodou e girou, saltou e pulou, dançou e abraçou o ar que a rodeava com tanta intensidade que acabou por cair exausta.

A caruma húmida do orvalho da noite, molhou as suas finas vestes. Sentada no chão, as suas mãos formaram uma concha e agarram algumas folhas, relva e trevos e num gesto de bailarina, lançou esse pequeno tesouro ao ar. Observou embevecida os círculos que o vento desenhava com aqueles elementos. Na sua face um sorriso começou a forma-se e deixou-se cair  sem resistência para trás, no tapete macio do bosque, ficando a olhar para as poucas estrelas que ainda estavam no céu. Respirou fundo, a alça do vestido descaiu mostrando um pouco mais do seu seio suave. Não se importou, pois ninguém a observava enquanto esperava. Ela continuava a esperar que algo muito importante aparecesse.

Já quase não se via a lua, o ar começava a aquecer e a noite deu lugar a um lusco-fusco confuso. Um pássaro matutino piou e ela soube então, sentiu dentro de si, que já chegara e, nesse mesmo instante, nesse mesmo segundo em que respirou de novo, sorriu e disse numa voz cristalina:

“Bem Vindo Sr. Equinócio! Vá descansado, que eu cuido da Primavera.”

quarta-feira, 18 de março de 2009

São engraçados os sonhos, não são?! Eles aparecem mesmo quando não os pedimos, surgem através de um estímulo incontrolável, contra a nossa vontade, do vazio, do nada e, imediatamente, ficamos para sempre com eles na consciência, presos na nossa pele, no nosso respirar.

É assim que acontece comigo, foi assim que aconteceu comigo, quando ao 16 anos a minha tia disse que estava grávida. Desde esse estímulo que o meu sonho principal foi ser mãe, ter na minha vida, alguém que poderia amar incondicionalmente e ser retribuída, ter dentro de mim, uma outra vida por quem seria inteiramente responsável e que sem a qual, dificilmente, continuaria a viver.

A minha prima nasceu, passado uns oito anos nasceu a minha sobrinha e passado oito anos, nascerá outra criança do ventre da minha irmã e eu… eu continuo a olhar para o meu sonho e vejo-o cada vez mais destorcido, desfocado, inalcançável, surrealista como num quadro de Picasso, apenas porque investi demasiado tempo, naquilo que nunca investiu tempo em mim…

 

segunda-feira, 16 de março de 2009

 

Vou ser tia pela segunda vez e não podia ter ficado mais feliz do que quando li a mensagem que a minha irmã enviou ao meio da manhã.

“Parabéns, titi!”, era como acabava e a felicidade foi tanta, que apesar de nada ter dito, todos à minha volta se aperceberam da minha mudança de espírito e, automaticamente, esboçaram sorrisos.

“Parabéns, titi!, fez-me esquecer o facto de que na mesma mensagem a minha irmã comunicava que tinha comprado o presente que eu estava a planear oferecer à minha mãe.

“Parabéns, titi!”, fez-me esquecer a minha mãe, sim porque é o aniversário dela, apesar de termos passado o fim de semana a festejá-lo.

Parabéns, titi!”, fez-me esquecer o aborrecimento do meu trabalho.

“Parabéns, titi”, fez-me esquecer, por instantes, que eu quero muito ouvir e ler: Parabéns, mamã!

sexta-feira, 13 de março de 2009


Ala dos Namorados: Loucos de Lisboa Música: João Gil Letra: João Monge
Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava a bica, ao melhor dos seus ouvintes
As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao sorrir agradecia









[Refrão]
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar












Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal
Compramos a entrada p’ra sessão
P’ra ver tal personagem no ecrã
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã








[refrão]







Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia
E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.





[refrão]

terça-feira, 10 de março de 2009

E porque alguém num comentário, fez-me recordar este poema, achei por bem aqui colocá-lo.

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
de Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 9 de março de 2009

Não sou grande apreciadora de "Demonstrações Públicas de Carinho", apesar de achar algumas deliciosas. Mas quando essas demonstrações de carinho começam a parecer o canal XXL num Sábado de madrugada, deixam-me incomodada e começo logo a pensar em como a Liberdade dos Outros acaba, quando a minha devia Começar.
Até que estava a ser uma boa manhã, cheguei cedo a Lisboa, tinha tempo para ler e-mails e escrever alguma coisa enquanto tomava o meu capuccino no Jeronymo do Rossio com o meu pão de sementes com queijo, antes de entrar no meu pavoroso emprego.
Sim, estava tudo a correr bem, até que na mesa ao lado duas raparigas, que pelo aspecto ainda são adolescentes, se agarraram uma à outra, numa troca de beijos e mãos, pernas para cima e para baixo, línguas rosadas e outras coisas...
E pronto, assim se estragou o meu pequeno almoço, a vontade de escrever a mensagem que queria e apareceu a necessidade deste desabafo. É que para além de serem "Demonstrações Públicas de Carinho" muito explícitas, eram duas mulheres, algo que me deixa ainda mais desconfortável e arrepiada.

Não gosto e ponto, mesmo que sejam a seguir ao Dia da Mulher.

domingo, 8 de março de 2009

Por vezes eu apenas acordo assim, melancólica com pensamentos pesados, um pouco mais escuros do que os habituais. Geralmente. Acordo num dum dia de chuva, mas hoje nem isso, apenas na minha alma chove.

Já me perguntei o porquê desta negritude, o porquê deste “Blues” arritmado, que aparece sem compasso, despido de “Beat” e a resposta surge sempre tímida, emitida por um moribundo sussurro e, implacavelmente, sem sentido.

São dias em que a morte surge como pensamento central, não como um desejo, longe disso, mas mais como um problema que deve ser resolvido, percebido, dissecado. Pequenas coisas, quase nada, coisas em que ninguém pensa, acho eu. Como por exemplo, quero uma campa e um caixão?! Algo onde mais tarde alguém poderá ler quando é que eu nasci, quando morri e quem é que vai sentir saudades de mim, ou se quero ser cremada e que lancem as minhas cinzas no ar, onde simplesmente o meu corpo volta rapidamente para a terra que lhe deu forma, sem passar por todo o processo de degradação e decomposição que me parece tão pouco glamoroso, sujo. Coisas como se devo deixar os meus últimos desejos escritos, deixar destinado aos meus amigos os meus parcos bens, ou se simplesmente devo confiar no seu bom-senso.

Sei que não são pensamentos normais, mas que me atingem como flechas nestas manhãs e que me acompanham ao longo de todo o dia, mas que felizmente terminam quando me deito, sem ter chegado a nenhuma solução, simplesmente porque não imagino a vida de quem me rodeia sem mim e tomo a decisão de continuar a fazer todos os possíveis por me tornar imortal.

quarta-feira, 4 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

-Como te chamas? – ela pensa antes de responder, mas chega à conclusão que ao dar um nome a si própria, estará a criar para si, uma personalidade, deixando de ser apenas um objecto vivo.
-Dalila. – diz sem rodeios e com a verdade. Ele não pode deixar de soltar um riso miúdo.
-Mulher traidora. Isso é bom, fica-te bem esse nome. – “Será ele o Sansão?”, pensa Dalila sem na realidade querer pensar. Não dizem mais nada de imediato. Ele traga de novo o seu cigarro e aumenta a ansiedade daquela criança.


– Que idade tens?
-Não lhe posso responder a isso. Sabe melhor do que eu que não lhe posso responder a isso!
-Como assim, não me podes responder?! – pergunta admirado com a segurança que a rapariga apresentava. – Quantos anos tens? – grita-lhe. Ela estremece, mas não responde, apenas esconde o olhar. Ela sabe que qualquer outra informação acerca dela, só lhe dará ainda mais desvantagem. Quanto menos ele souber dela, melhor, é um trunfo que ela guarda.

Ele perde a pouca paciência que tem. Levanta-se e pontapeia qualquer coisa metálica, que estava no chão. Ela fecha os olhos e aguarda o pior. Ele ainda não viu a cor dos seus olhos, a luz é pouca. Pega numa cadeira de campismo que estava encostada à mesa e senta-se entre as duas camas, bem no centro da tenda. Acende um novo cigarro e pousa os seus enormes braços nas costas da cadeira.


Ela abre os olhos de novo e olha-o sem receio. Apercebe-se que talvez, ele tenha olhos verdes, mas é-lhe impossível ter a certeza. Ele apercebe-se perfeitamente dos seus olhos azuis, brilhantes como duas safiras. Ela fica com a sensação de que ele está menos à vontade naquele papel, do que ela. Decide tomar a liderança, com calma.


- Onde é que eu estou? – pergunta com uma confiança controlada.
- Não te recordas de nada? – pergunta desconfiado, ao que ela acena que não. Ela, agora, olha-o sempre de frente, como se o testasse. A ele, não lhe agrada essa provocação. Ele precisa que ela tenha medo dele e não, que o enfrente com tanta insolência. – Não te recordas dos meus companheiros lá fora? Do que eles te fizeram? Não te recordas com quem estavas antes de vires parar aqui? – se ela se recordasse, o trabalho dele seria mais simples, ela teria medo dele de novo.


Ela cai na sua armadilha, mal desconfia, que seria melhor para ela desconhecer o que se passou, continuar, momentaneamente amnésica. Tenta recordar-se das horas anteriores, fecha os olhos e esforça-se. Recorda-se de algumas coisas, mas uma, sobretudo uma imagem, aperta-lhe o coração.


- O que é que lhe fizeram? – diz subitamente assustada.
- Não lhe fizemos nada que tu não lhe irias fazer em pouco tempo. Tu és uma gata arisca. – responde-lhe divertido.
- Eu não iria fazer nada. Estávamos a falar. Eu estava a convencê-lo a... – detém-se, não deve continuar. - Estavas a tentar convencê-lo que ainda não tinha chegado o momento certo, não era? – a resposta foi o silêncio. Ele aceita-o como um sim.
– Diz-me uma coisa, se nós não tivéssemos aparecido, tu irias permitir que ele insistisse ou tentasse algo , mesmo contra a tua vontade?
- Eu não vou responder a isso! Nada tem com a minha vida, não lhe devo esse tipo de explicações. – ele impacienta-se, aquela criança deveria ser mais cooperativa.
- Responde de uma vez. Estás a fazer-me perder tempo e paciência, duas coisas que eu não tenho em abundância. Podes estar certa que não vais gostar quando isso acontecer. – gritou-lhe. A cada grito que dava, o corpinho dela estremecia e isso, dava-lhe confiança.
- Eu não sei como responder a isso! – era sincera, ela era sempre sincera. Uma coisa ela aprendera, não existia mentira mais credível, do que a verdade pura e crua.
- Não sabes ou não queres saber? – ele levanta-se e aproxima-se dela. Ela encolhe-se o quanto pode, mas não desvia o seu olhar – Eu vou voltar a perguntar. – avisa com voz grave e ponderada – E tu vais responder. – ordena, ao que ela acena que sim – Tu ias permitir que ele fizesse o que queria, ou irias impedi-lo? - Sei que não vai acreditar em mim. – ele tenta não perder a compostura pelo que torna a sentar-se na cadeira de novo.

Ela levanta-se por sua vez, e avança até ele, com uma suavidade de Madona Barroca, como se quisesse que ele percebesse que ela nada tinha a recear com a sua resposta e, com uma voz suave, feminina e intrigante, responde-lhe ao ouvido, com uma confiança quase assustadora:

- Não sei.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Numa das melhores cerimónias dos últimos tempos, só houve uma coisa que me irritou solenemente: que os interesses politico-económicos se tenham tornado mais importantes que o cinema.

No entanto, Hugh Jackman não podia ter sido melhor. Ele é homem para cantar, dançar, tem músculos para dar e vender, um sotaque Australiano que nos leva, sempre, o pensamento para homens de barba rija e muito calor, ou seja, o perfil do Homem que encheria os meus requisitos e para além de tudo, fez renascer a entrega de prémios que mais gosto.

Por falar em Hugh Jackman, até a banda sonora de "Austrália" era melhor que a do Slumdog Millionaire. É claro que é só a minha opinião e esta conta o que conta.

Bons filmes...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Não sei se seria só de mim, mas acho que seria uma óptima forma de começar um fim de semana prolongado. Pequeno almoço na cama, duche em conjunto, um passeio por Sintra, almoço na Ericeira e ao fim da tarde, depois de um pôr-de-sol, na baía de Cascais, voltar para casa e terminar como tudo começou.
Uma rapariga, sempre pode sonhar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Cenário: Chamada de Madrugada, mulher na cama a tentar dormir, homem do outro lado do telefone e do Oceano Atlântico H - Porque é que quando as coisas estão a correr mal, de um momento para o outro, acontece algo, surge uma corrente de ar quente, um balão de oxigénio e as coisas começam a recompor-se, a voltar ao normal?! M- Porque depois da tempestade vem a bonança? H - Odeio frases feitas... M - Deus escreve certo por linhas tortas. - provoca, soltando um riso que fica dentro de si. H- Então essa, é a que eu mais odeio! M - Como é que se pode odiar uma frase? - diverte-se H - Deus criou o Mundo, o Universo e sei lá mais o quê, pois é todo poderoso, mas não foi capaz de ter feito só linhas direitas? - ela ri-se - Se só tivesse feito linhas direitas, não precisava de corrigir a escrita. M -Se assim fosse os homens não existiriam e eu poderia estar agora a dormir.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Finalmente lançaram-me um desafio da blogosfera. Já havia ouvido falar deles, mas para mim eram um mistério até que o woody lançou-me um. Estarei para sempre em dívida. Obrigada.
O desafio consiste em: pegar no livro que está mais perto; abrir na página 161 e encontrar a 5ª frase mais completa, transcrevendo-a. Esta da 5ª frase mais completa é que me confundiu, pois não entendi o que queria dizer a 5ª frase mais completa. Seria simplesmente 5ª frase, ou depois de 4 frases, a que se seguisse mais completa, ou após 4 frases completas a 5ª que se seguisse? Como não cheguei a conclusão nenhuma, optei pela frase mais completa que se aproximasse da 5ª.
Os livros que estão mais próximos de mim são dois que estão na minha carteira (não imaginam o tamanho dela, mas nada se compara ao peso, garanto). Um deles é da Marguerite Duras, Os Insolentes, pag. 161, 5ª frase mais completa: "O fantasma da mãe tocou-a ao de leve, era tão suave quando o recordava, bom como o Verão que se aproxima, o Verão em que se pensa quando ainda é Inverno." Ou então, o segundo na carteira, Ele e Ela, de Iris Barroso, ainda por concluir (um livro por concluir, já é um livro?), pag. 161 do manuscrito, 5ª frase mais completa: "Queriam esquecer, ignorar, fazer de conta que não se viam, mas era impossível: o desejo que acordou assim que sentiram a presença um do outro, foi tão forte, que se transformou numa dor física que fazia latejar as entranhas, que lhes roubava o ar, que os fazia gritar num silêncio oco." Pronto, desafio respondido, espero que me tenha saído bem! Venham mais.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ela pode ouvir a chuva cair, suavemente, sobre a tenda. É uma chuva miudinha, macia, quase um acompanhamento ao crepitar das chamas da fogueira, que arde fora daquele tecto. Ela gosta da mistura de cheiros que todo aquele cenário proporciona. É algo mais forte do que ela, algo que estimula uma parte do seu cérebro, que ela não controla. Ela gosta quando isso acontece. Ela gosta de perder o controlo. São poucas as coisas que ela não controla e é sempre uma agradável surpresa, quando ela descobre uma. É um desafio e, ela gosta de desafios. Ele, no entanto, conhece bem essa parte do cérebro, conhece como trabalha, sabe quais são os efeitos dessa sensação. Ele sabe tudo sobre a libido, sobre o impulso sexual. Sabe que não o controla por completo, mas há anos que lida com ele e sabe até onde pode ir.

Abre a camisa, que lhe havia dado há instantes. Camisa que ainda guarda o seu forte cheiro. Tira-a devagar, botão por botão, como se a redescoberta daquele corpo que ele já tocara, fosse uma oportunidade única, que não devia ser desperdiçada com precipitações. Ele toca finalmente nos seus redondos seios, sente-os firmes, um pouco entumecidos. Sorri, perante a excitação da sua prisioneira. Ela ainda não decidiu o que irá fazer, tudo dependerá do que se vai passar a seguir. São sempre decisões de instantes. O cérebro, sobretudo o seu inconsciente é que decide, o que o corpo fará a seguir. Ela sabe-o bem. Todos denominamos essas fracções de segundos, em que tomamos essas decisões importantes, de intuição, instinto, mas ela não. Ela sabe que o seu corpo sabe o que é melhor para ela. Ela é apenas mais um animal da terra e, como todos os animais, ela tem que sobreviver e sabe, que a mãe natureza lhe deu tudo o que ela precisa para tal. Sim, ela sabe que na altura certa, o seu corpo saberá o que fazer, para que ela sobreviva, da melhor maneira possível. Não lhe cabe a ela pensar nas alternativas, ela não quer interferir com a sabedoria que já lhe foi passada ao longo de tantas gerações. Ele ajoelha-se, é grande demais para aquele pequeno corpo. Ele pretende beijar-lhe o ventre, os seios, mas de pé é quase impossível. Contudo, quando aproxima os seus lábios à pele suave daquele anjo, ela foge, refugiando-se na cama, onde já tinha estado. Ele ri-se, levanta-se e acende um novo cigarro. Ela procura os seus olhos em tom de desafio, desafio esse que ele aceita. Sentando-se na outra cama.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Facto: Quase todas as mulheres afirmam gostar de homens românticos.
Realidade:
Um casal está naquela fase do dizer adeus, sem que nenhum dos dois tenha vontade de abandonar o outro.
M- Bem que podias acompanhar-me ao carro... - dá-lhe um beijo e pisca os olhos como as meninas pequenas quando querem muito, alguma coisa, num gesto, puramente, instintivo. - Sempre eram mais uns segundos, uns minutos que estávamos juntos.
H- O que são dois minutos para quem quer passar toda a eternidade contigo! - diz satisfeito por ter dito algo tão profundo e romântico, por se ter saído tão bem, mas ela, num reflexo automático de auto defesa, ri-se cínica, numa gargalhada sonora:
M- Dizes isso por pensares que é o que quero ouvir e pensas que assim te safas!
Conclusão: As mulheres querem homens românticos mas não acreditam que eles estejam a ser genuínos quando o são.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

 
Com os Óscars à porta, tento sempre ver todos os filmes que estão nomeados, pelo que, este fim de semana, fui ver o Revolutionary Road e apesar da beleza visual do filme e de pequenos grande pormenores de realização, o que eu mais gostei este filme, foi o que eu aprendi sobre a América do após II Grande Guerra:
1 - Os filhos desapareciam sempre que assim era conveniente.
2 - Os loucos parecem-se com pessoas "normais" e as pessoas "normais", parecem sempre loucas.
3 - Na década de 50 e 60, os homens americanos sofriam todos do grave problema de Ejaculação Precoce, pelo menos os que viviam (segundo a amostra) na Revolutionary Road.
Agora um pouco mais a sério, o filme está muito bem realizado, mas percebo a não nomeação do Leonardo para melhor actor e não entendo o Globo de Ouro da Kate Winslet, apesar da sua excelente performance. Mas enfim, gostos são gostos e cada macaco tem o seu. Não deixo no entanto de sugerir que o vejam, pois consegui rir à gargalhada durante um drama doméstico, o que normalmente costuma ter o efeito inverso em mim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cenário: Grupo de três amigos, depois de um jantar em casa, duas horas de risco, duas horas de um DVD, duas garrafas de vinho tinto, vodka e água tónica.
1 - Adorava ser um gato.
2 - Um gato para quê?
3 - Ela quer ser a catwoman... - risos.
1 - Porque adorava deitar-me ao sol todo o dia, à noite receber festinhas do dono e ronronar no seu colo enquanto vê um pouco de televisão.
3 - Sempre podes casar com alguém que te sustente. - Serve-se de mais vodka.
2 - Só um homem para dizer algo tão absurdo.
1 - Sim, só um homem. - indigna-se por não ter sido entendida.
3 - Não percebo tanata indignação. Não disse nada de novo.
2 - Não tem nada de novo, mas é ofensivo para uma mulher moderna, para além de que não foi nada disso que ela quiz dizer.
1 - Pois não!
3 - Ilucidem-me...
1 - É mais do que a ausência de um trabalho, emprego, de obrigação. Tem mais a haver com a liberdade, com a ligeireza com que os gatos passam por este mundo: a sua memória curta; o seu corpo ligeiro; os seus afectos convenientes; a independência é total.
2 - Até que ponto se pode considerar independência, se nunca tiver havido nada de que se dependesse?
3 - A mais não seja, é-se dependente do facto de se ser independente.
2 - Isso é o vodka a falar. - o 3 e a 1 riem-se. - E um gato doméstico apenas é independente, porque depende do dono para tudo o que podia comprometer a sua independência.
3 - Na realidade é como continuar criança eternamente.
2 - Mas uma criança recorda e todo o ser humano é dependente das suas memórias. Eu não entendo o conceito de se ser independente.
1 - E eu só quis, por alguns minutos e sobre a influência do sono, ser um gato.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ela avança num passo lento e controlado. Dir-se-ia uma gata pronta a atacar. Mal deixa marcas dos seus pés descalços, na terra molhada. Ela aproxima-se daquele homem que não conhece. Sente nos seus pés, a humidade da terra e sente frio. Um odor particular intensifica-se, mas não o consegue distinguir. Uma nuvem pesada, forma-se a cada exalação do soldado. Ela está agora perto o suficiente dele. Engole em seco, finalmente apercebe-se que tem sede e que os seus lábios estão secos. Humedece-os, ligeiramente com a língua e diz com uma voz quase inaudível: “Aqui estou!” Até para ela lhe pareceu fraca demais, tanto que se prontificava a repetir, quando ele afirma com uma voz dura e seca:
- “A partir de agora, sempre que eu der uma ordem, tu obedeces, sem sequer pensar. Compreendes?” - Ela acena que sim, mas ele de costas espera uma resposta audível. - “Compreendes?” - Grita de novo e, desta feita, ela responde com um sonoro
- “Se eu achar que devo.” - e ao terminar de falar, fecha os olhos, aguardando uma reacção violenta ao seu desafio. Ela conhece-o bem. Pareceria a qualquer um, que ela já tinha estado perante tal situação e tal como previra, ele vira-se com a intenção de lhe bater, mas ao aperceber-se tão previsível, sorri e diz apenas: -De onde saiu essa coragem toda? – ela apenas treme, mas agora de frio. Não lhe responde. Na verdade, não saberia o que lhe responder, nem ela mesmo sabe.
Estão tão perto um do outro, que conseguem sentir o calor emanado pelo corpo de ambos e, inconscientemente, gostam os dois, dessa aproximação. A disparidade de estaturas é absurda. Ela parece-lhe mais nova agora que está de pé, perto de si. Mas é imponente no seu metro e sessenta e picos, talvez mais. Até que não é baixa para uma mulher, ou menina. Ele toca no cabelo que lhe tapa parte do rosto e afasta-o para trás. Acaricia-lhe de novo a face, o pescoço. Desta vez ela pode senti-lo. A respiração dela acelera um pouco, apesar do seu controlo. Ele apercebe-se, sente-se bem e continua a sua exploração. A sua vontade era tocar-lhe por inteiro, de uma vez só, mas contém-se, mais uma vez, contém-se.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Cenário: A Caminho do comboio para vermos o Bolt.
- Tia!
- Diz amor. - continuamos a andar.
- As fadas existem? - olha para mim para tentar ver se vou inventar, porque ela às vezes já percebe.
- Claro que existem! - despacho, sabendo como é importante manter a imaginação activa, numa criança e porque aos sete anos é cedo de mais para perder a inocência, tem que ser cedo de mais.
- E todas as coisas fantásticas dos filmes e das histórias que me contas?
- Essas coisas podem não ser verdadeiras da forma como são contadas, mas existem.
- Porque é que nunca vi nenhuma dessas coisas?
- Porque vivemos em dimensões diferentes.
- Dimensões?
- Sim... - tento procurar uma explicação - Universos paralelos.
- Não entendo muito bem, tia? - franze o nariz. Como eu adoro aquelas ruguinhas que se formam em cima do nariz, quase na testa, quando ela o franze.
- Estás a ver aquela história que a tia te explicou sobre as rádios?! - ela tenta recordar-se - ...que o som de todas as rádios andam no ar ao mesmo tempo, apesar de não as ouvires nem as veres?! - ela acena que sim, mas pouco convencida - Nós só ouvimos as rádios, quando ligamos um rádio e colocamos numa frequência, certo? Percebeste isso? - Ela acena que sim - Os Universos e as dimensões são, mais ou menos, a mesma coisa. - torce o nariz - Todos vivemos no mesmo Mundo, no mesmo planeta, apenas temos frequências diferentes.
- Mas se nunca os vimos como é que sabemos que existem? - Já não é tão simples explicar as coisas.
- Porque às vezes, em determinadas situações, um tipo de energia faz com que nós possamos ver-nos uns aos outros.
- Quando?
- Por exemplo: quando caiem os dentes das crianças e elas colocam-nos debaixo da almofada...
- A fada dos dentes sente a energia e vem ao nosso mundo, tira o dente e põe uma moeda. - interrompe contente por ter compreendido alguma coisa, da minha maluquice.
- Exacto.
- E o mesmo com o Pai Natal, quando é Natal, certo?
- Certo! - Boa! Já expliquei mais uma que devia estar engatilhada.
- E o Coelho da Páscoa?
- Também.
- A fada dos sonhos, que me tirou a chucha?
- Também.
- E os monstros, tia? Os trolls e os vampiros e essas coisas?
- Esses têm mais poder que as coisas boas e andam entre os dois mundos com muita facilidade. Mascaram-se de humanos e estão sempre prontos a fazer maldades.
- A sério, tia?! - criar algum medo sempre fez parte da educação das crianças, porque não?!
- A sério! Por isso é que tens que ter muito cuidados a falar com estranhos, pois nunca se sabe se essa pessoa não é um desses monstros, mascarado.
- Ah! Está bem, tia. Vou ter cuidado, prometo.
- Agora vamos andar mais depressa ou perdemos o comboio.
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