Ela desabotoa as calças cinzentas com listas pretas que vestia e deixa-as cair, sentindo o suave tecido acariciar a sua pele nua. Sente-o sorrir, se é que isso é possível, e sorri também. Levanta os pés, suavemente, um depois do outro e vê-se livre, com uma displicência controlada, daquela peça de vestuário, empurrando-a para debaixo da cama. Ela nada mais faria, tudo o que se passasse a seguir seria da autoria dele.
Ele sabia que era a sua vez de agir, havia chegado o momento e convinha a si mesmo, não prolongar mais aquele hiato. Levantou o seu braço esquerdo e com a mão desse mesmo lado acaricia o fino pescoço que a sua mão conseguia quase contornar na totalidade. Puxa-a até si e com a mão direita abre os botões da blusa, livra-se dela, ao mesmo tempo que com a échàrpe que ela deixara no chão, acaricia suavemente a pele daquele corpo macio que era seu. Aperta-lhe um pouco mais o pescoço e sente-a estremecer de encontro ao seu corpo. Com o braço direito, o mesmo que ainda mantinha o lenço, levanta-a do chão e atira-a para cima da cama.
Ela sai rapidamente da posição desamparada em que caíra no colchão e senta-se no centro da cama, joelhos juntos e elevados e braços a suportarem o seu peso, atrás das costas. Ela sabe que os contornos do seu corpo nessa posição o deixam louco; os ossos dos seus ombros ficam mais visíveis, ligeiramente virados para a frente, o seu peito ganha contornos mais arredondados por os seus seios ficarem mais próximos um do outro, as suas longas pernas parecem, teimosamente, querer impedi-lo de chegar aonde ele quer. Quase sente a vontade de rir por saber que naquele momento, apesar da disparidade da força física entre os dois, é ela quem comanda cada movimento dele.
Ele sobe de joelhos para a cama, agarra os tornozelos dela e sente as pernas estremecerem ligeiramente ao seu toque. Tenta afastá-las enquanto as puxa para baixo, mas ela resiste-lhe. Ele sorri e não insiste. Acaricia-lhe a pele com a sua mão, sobe delicadamente até ao ventre liso, sobe depois até ao peito, aonde ele sabia que duas coisas poderiam acontecer: ou ela permitiria que ele os libertasse da força da fina renda, deixando-os livres para ele brincar com eles, ou ela teria que usar os seus braços, os mesmos que permitiam que ela tivesse força para lhe resistir, para o impedir.
Ela não iria permitir que fosse assim tão simples e tenta impedi-lo de lhe acariciar o peito. Confiando na sua força abdominal, usa os braços para impedir as mãos dele e ele solta uma gargalhada curta. Ela adorava prolongar este género de jogos, mas ele tinha outras intenções, pelo que, com movimentos rápidos, atou-lhe os pulsos com a échàrpe e esta à cabeceira da cama. Ela ainda se debateu, ele admirava a força dela, sobretudo a forma como ela o virava, levantava e expulsava-o da cama, apenas com as pernas, as costas e a barriga.
Assim que ela sossegou, ele saiu do quarto. Ela antecipava o que iria ele fazer a seguir. Ouve um botão a ser ligado. A porta do frigorífico a abrir e a fechar. Sente-o entrar no quarto, a deitar-se ao lado dela. Ela espera o corpo dele junto do seu a qualquer momento e fecha os olhos.
Ouve um click, uma luz intermitente que se acende no quarto. Ela abre os olhos, repara em primeiro lugar na televisão acesa aonde estava a emitir um jogo de futebol, olha depois para ele que sustém no rosto um sorriso de vitória, na mão esquerda o comando da televisão e na mão direita uma sandes de qualquer coisa. Solta um enorme suspiro de decepção.
- O que foi?! – pergunta-lhe com ar de menino traquina e ela revira-lhe os olhos – Soubeste fazer-me desesperar o dia todo, tenho a certeza que saberás também esperar até ao fim do jogo.
Ela ri-se da sua derrota e vê o jogo com ele.
Estava no outro dia a tomar um café com uma amiga, ainda casada e já com dois filhos, quando a inevitável pergunta chegou:
Uma vez, há muitos anos atrás, numa conversa com uma amiga, estava a contar-lhe que estava muito envolvida com alguém. Que me sentia a apaixonar por um rapaz que eu achava que seria o meu futuro marido e pai dos meus filhos. Algo que se veio a concretizar por metade (não podemos ter tudo).
Todos sabemos que o povo português tem uma grande capacidade para a tristeza, para o destino, para a melancolia, enfim, para o Fado.
Nota: caso queiram saber as características científicas deste lindo animal, aqui estão:
Não sei se vocês estão familiarizados com um número que envia mensagens de um tom intimo, sem que tenhamos alguma vez tido conhecimento com a pessoa, ou entidade, e muito menos feito algum tipo de inscrição, para que o nosso nº privado de telemóvel, pudesse ser do conhecimento de tal entidade. Trata-se do nº 4880 e basta que vocês o coloquem no google para vos aparecer uma enxurrada de casos e denuncias. Aqui ficam alguns dos que visitei:
o tentar cumprir com a minha promessa de ter mais tempo para mim e para as coisas que me fazem sentir bem, hoje tentei durante a viagem de comboio, arranjar tempo para ler alguns blogs que sigo e que me seguem. No Blog do
Vocês sabem como todos nós tentamos encaixar as coisas e as pessoas em pequenas caixinhas e rotulá-las, de forma a podermos arrumá-las nas prateleiras e retirá-las quando nos é mais conveniente?
Não sei se por acaso alguma vez aqui comentei, que não gosto nem só um pouco de Francês, mas existe nesta língua, uma palavra, que me diverte e que uso com alguma frequência, porque ela significa muito mais do que a sua tradução literal e na realidade pode descrever tudo aquilo que por vezes admiramos em determinadas pessoas, mas que não sabemos o que é exactamente.
… Daqui a 30 dias eu fosse ficar rica?!
Lisboa, 19 de Outubro de 1929 – Lisboa, 8 de Agosto de 2009
Antes de mais, desculpem ter ficado tanto tempo sem actualizar o blog, mas a verdade é que férias e computador, por mais portátil que seja, não combinam. Contudo estou de volta e com o meu retorno ao dia-a-dia pavoroso, voltaram, as pequenas pérolas que fazem dos meus dias, algo melhor.



