- O que pretendes? O que é que queres? – tenta acalmá-la.
- Quero ir-me embora. Deixe-me ir embora, por favor – o dia começava a escurecer.
- Eu não te posso deixar ir. – ele tentava manter-se calmo, mas já tinha perdido toda a paciência que tinha – Dá-me a faca.
- Não se aproxime. – ameaça ela, tomando uma posição de luta com faca. A técnica dela era irrepreensível. Ele aproxima-se, com cuidado, rodeando-a, estudando os seus movimentos. Ela acompanha-o. – Deixe-me ir embora. – Implora mais uma vez.
Ela estava assustada, ele mexia com ela de uma forma que não percebia e aquilo aterrorizava-a. Era suposto ela odiá-lo e desejar a sua morte, mas os seus sentimentos eram exactamente os opostos: ela não lhe queria mal e ela simpatizava com ele. Ele ameaça atacá-la e ela afasta-se assustada. Ele ri-se. Ela era demasiado nova, para ser um adversário à altura. Ele ataca, mas desta vez a sério, ela defende o golpe, sem sequer pestanejar e ameaça, por sua vez, com a faca. Agora é ele quem se afasta num pulo, evitando por um triz, a lâmina afiada da sua própria arma.
Ele aceita o desafio, faz estalar o pescoço e avança. Ambos iniciam uma estranha dança, onde estudam os movimentos um do outro e tentam aproveitar a primeira distracção do adversário, para ganharem vantagem. Ele acerta-lhe, no queixo, com um soco, tentando ganhar de imediato o pulso da mão direita, para fazer uma chave que a desarmasse, mas ela dá um mortal para trás e bate-lhe com os pés, durante a acrobacia. Ela percebe que ele a vai atacar com toda a força e ela sabe que a sua única solução, é usar a faca. Ele é demasiado forte para que ela se atreva sequer a lutar, de igual para igual, com ele. Assim que ele se aproxima, ela baixa-se e, num movimento rotativo, passa a lâmina afiada através das calças e sente a carne ceder a um golpe que ela espera ligeiro, na perna esquerda daquele homem. Ele cai, contorcendo-se com dores, mas ela não se compadece. Com movimentos rápidos e contínuos, ela pega na camisa do seu adversário, veste-a e dirige-se para fora da tenda, mas detém-se quando ouve aquele estalido tão familiar, que uma arma dá, quando fica pronta para disparar. Ela até que gostava daquele som. Ela gostava sempre daquele som quando treinava, só que desta vez, aquilo terminava com a ilusão de sair dali e voltar à sua vida normal.
- Deixe-me ir, por favor. – pede sem sequer se voltar.
- Volta aqui. Chega aqui. – ordena-lhe com a voz trémula e repleta de dor.
Ela engole o choro e cumpre a ordem. Ela não pode fugir de uma bala e tem a certeza que ele tem boa pontaria. Ele não desvia a arma, nem por um instante, enquanto se levanta com grande custo. A sua perna sangra imenso e ela fica com o coração apertado. Não o queria magoar tanto, apenas queria fugir. Ele encosta-lhe a arma gélida à sua têmpora e ela chora. Retira-lhe a faca que ela mantém na mão. Nada mais há a fazer. Ele engole a dor e demora-se a decidir o que vai fazer a seguir. Ele quase desfalece enquanto pensa, mas apoia-se nela. A arma nunca se mexe do lugar.
- Leva-me até a cama e ajuda-me a sentar. – Volta a ordenar.
Ela obedece, a situação dele comove-a, agora que vê o sangue. Ele nem precisa de lhe pedir, pois ela despacha-se a ir buscar uma caixa de primeiros-socorros e trata-lhe da ferida que ela própria lhe abriu. Ela faz um bom trabalho, mas ele continua com dores. Dirige-se ele próprio à caixa e tira uma pequena seringa que contém um líquido branco. Ela supõe que seja morfina. Afasta o olhar quando ele se injecta. Pensa em aproveitar o momento para fugir, mas apenas alguns segundos de indecisão, uns míseros segundos de dúvida, são os suficientes para o ouvir libertar um som seco de alívio e ouvir as suas botas baterem no chão, num ritmo descompassado, pois coxeia na sua direcção. Empurra-a para a cama que lhe pertence e amarra-a. Ele não torna a falar-lhe. Está envergonhado, por ter sido derrotado, ludibriado por aquela criatura tão pequena e frágil. Ela também não diz nenhuma palavra. Não emite um som, uma lamúria.
Descansa por fim, por algumas horas na sua cama. Ele tem que ir jantar com o Claude e sente-se fraco demais para isso. Ele está cabisbaixo, pelo que aconteceu e neste momento, perdeu toda aquela confiança, que tinha ganho quando o vira ao princípio da tarde. Contudo, ao longo das horas que passavam, ele ia readquirindo alguma presença de espírito e começava a pensar que tudo aquilo era natural e que apenas tornava o prémio final, mais apetecido. Tirou o maço de cigarros de um dos muitos bolsos que as suas calças tinham, mas estava vazio. Levantou-se. Já se sentia melhor para o fazer. A perna ainda tremeu por uns instantes, mas dois passos depois, mal se notava que coxeava. Tirou um maço novo de uma das mochilas e logo acendeu mais um daqueles rolinhos brancos, pardalentos e fedorentos. Se ele tinha vícios, fumar era um deles. Olha de soslaio para ela. É mais forte do que ele. Ele bem queria não olhar, ignorá-la, pelos menos até voltar do fogo-de-conselho, mas não resiste. Ela também o observa. Como seria mais fácil, se alguém lhes dissesse, que eles estavam destinados um ao outro. Mas todo o destino é assim mesmo: confuso, obscuro, intrincado, no entanto, já resolvido, atribuído e indissolúvel. Apesar de tudo, os sinais estavam lá, eram claros a todos os bons observadores. A sua parecença física, o acaso das datas, do encontro, das suas histórias, que logo, logo, ambos conhecerão, dos seus gostos, dos seus hábitos, dos seus desejos.
Já foi, já passou, quente e aconchegante como quase todos os Verões, mas… c’est finnit.
Por vezes tenho dificuldade em entender a razão das coisas. Ontem, aconteceu, mais uma vez.
… Que é que podia ser mais?! Para o Natal, é claro!
Não sei se vocês já se deram ao trabalho de reparar, que sempre que problemas e casos que envolvem o nosso Primeiro Ministro, chegam à comunicação social, existe também e em tempo real, um hastear de grandes bandeiras que têm de ser defendidas na Assembleia da Republica?
Hoje fui ao centro de saúde da minha área e fiquei gravemente preocupada, não pelo tempo interminável para ser atendida, não pela falta de profissionalismo dos assistentes administrativos, nem pela total desorganização de horários, por nada disso.
Uma casa, um pouco mais afastada de todas as outras, no meio do campo. Uma enorme janela de parede a parede que dá para um jardim silvestre, onde uma árvore se destaca de todas as outras. Destaca-se porque é grande, mais antiga mais sábia. Ela soube aproveitar tudo aquilo que a terra lhe deu e cresceu saudável, dobrando-se ao vento para não quebrar.
Estava no outro dia a tomar um café com uma amiga, ainda casada e já com dois filhos, quando a inevitável pergunta chegou:
Uma vez, há muitos anos atrás, numa conversa com uma amiga, estava a contar-lhe que estava muito envolvida com alguém. Que me sentia a apaixonar por um rapaz que eu achava que seria o meu futuro marido e pai dos meus filhos. Algo que se veio a concretizar por metade (não podemos ter tudo).
Todos sabemos que o povo português tem uma grande capacidade para a tristeza, para o destino, para a melancolia, enfim, para o Fado.
Nota: caso queiram saber as características científicas deste lindo animal, aqui estão:
Não sei se vocês estão familiarizados com um número que envia mensagens de um tom intimo, sem que tenhamos alguma vez tido conhecimento com a pessoa, ou entidade, e muito menos feito algum tipo de inscrição, para que o nosso nº privado de telemóvel, pudesse ser do conhecimento de tal entidade. Trata-se do nº 4880 e basta que vocês o coloquem no google para vos aparecer uma enxurrada de casos e denuncias. Aqui ficam alguns dos que visitei:


