O outro soldado veio chamá-lo. Estava na hora. Ele diz que já vai. Troca as calças que está a usar, aquelas estavam rasgadas. Não veste uma camisa, optando por um pulôver azul-escuro com meia gola e fecho no ombro. Ficava-lhe muito bem. Ela sabia que no agrupamento, haveria muitas amigas suas que ficariam a suspirar por ele, naquela noite. Porque seria que ela sentia um misto de ciúme e raiva? Poderia ela estar a apaixonar-se? Seria o amor à primeira vista, uma realidade, na qual ela nunca acreditou? Ambos guardaram os seus pensamentos. O que se passara durante a tarde tinha sido sério, muito sério e os dois, tinham plena consciência disso.
Ele olha-a, está constantemente a olhar para ela, a decorar cada traço, a observar cada movimento da luz no seu rosto, cada partícula de luz que se separa na sua pele, saltando de vergonha de não ser tão perfeita como ela e perdendo-se no ar, para sempre, transformando-se em algo que ela pode usar a seu favor, energia pura. Ela parecia-lhe um anjo de luz, um ser de energia, algo que foi feito para nunca ser maculado. E a ele? A ele, cabia-lhe a tarefa de domar essa energia, de a tornar sua, de a proteger, de fazer tudo, para que ela sofra o menos possível, nestes dias que se aproximam e que ele não pode alterar. Ela evita olhá-lo, não quer de forma alguma irritá-lo ainda mais. Ela está arrependida do seu comportamento. Ela não queria ter sido obrigada a magoá-lo, ela simpatizava com ele. Por outro lado, ela pensava em tudo o que iria acontecer durante aquela noite.
Ele iria estar com o seu namorado, iriam falar dela, concerteza. Ela repara que ele enche uma garrafa de bolso, com wisky e que a guarda em um dos muitos bolsos das calças. Claude sempre fora fraco para a bebida, não seria necessário muito para que lhe dissesse tudo, tudo o que ele quisesse saber. E Claude sabia de tudo sobre a vida dela. Aquele homem, aquele namorado, era o seu grande amigo, um dos poucos que ela guardava. Claude sabia de tudo, porque ela lhe contava tudo. Coisas que nem a mãe, a mãe que ela tanto ama e protege, se recorda, coisas que nem ela, sabe muito bem porque lhe contou, coisas nas quais, até ela tem dificuldade em acreditar que aconteceram, mas que existiram e que ainda a assombram constantemente.
Ele penteia-se mais uma vez, coloca um pouco de after-shave, bebe um pouco da garrafa de whisky, que estava sobre a mesa e concentra-se. Percorre mentalmente, tudo o que precisa fazer, dizer e ouvir. Auto motiva-se para a missão que o aguarda. Os outros voltam a chamá-lo de fora da tenda e ele grita, com aquele timbre de voz que lhe é tão familiar, que já vai. Aproxima-se dela. Senta-se na sua cama, acaricia-lhe a cara e beija-a. Ela também o beija e voltam a olhar-se. Eles olham-se como se nunca mais se fossem ver de novo, como se fizessem amor e estivessem num mundo só seu, num mundo criado, unicamente, para eles.
Ele sai. Ela ouve o restolhar dos seus passos. O som fica cada vez mais distante. Deixa de ouvir. Na tenda não ficou nenhuma luz e lá fora deixaram apenas uma fogueira. Sente medo. Sente muito medo. Está só, amarrada, despida, sem nenhuma forma de defesa contra qualquer perigo que lhe possa surgir.
Ele aproxima-se do acampamento que tanto observou na última semana. Lá espera-lhe o namorado daquela rapariga, daquela vítima de um bem maior, por quem se apaixonou. Lá estão as respostas às suas dúvidas. Quanto mais se aproximava, mais o seu coração acelerava. A verdade é que parecia um adolescente que vai conhecer os pais da sua namorada nova. Mas não era assim. Ele não tinha mais quinze anos e a sua namorada, era sua refém. Eram todos, vítimas de um destino impiedoso, que os unira de uma forma pouco ortodoxa, pode-se mesmo dizer dolorosa, mas que os juntara para sempre.
Nem sei muito bem sobre o que vai ser esta mensagem. Preciso de tirar daqui aquele desabafo tão atiçado que realizei, até porque é Natal e não é data que condiga com este tipo de sentimentos, mesmo quando eles apenas existem, porque sinto demasiado carinho pela pessoa visada.
Existem coisas, que não devem ser explicadas, pois se forem, perdem todo o encanto e magia que envolve os sentimentos e pensamentos de quando estamos a viver uma situação, que nos faz sentir bem! Passamos a vida a racionalizar cada um dos passos que damos, cada uma das acções que tomamos, pesamos os prós e os contras, tentamos ver a imagem de todos os ângulos possíveis e tentamos antecipar no futuro, aonde é que nos leva aquilo que vamos fazer. No meio disto tudo, esquecemos-nos, simplesmente, de viver o momento.
Estava no meio de uma enorme multidão, por todo o lado existiam actores vestidos com fatos de esponja que nos remetiam para histórias de encantar, vários enfeites de Natal e neve, muita neve, camadas e camadas de neve. No entanto chovia e isso era muito estranho.
Já foi, já passou, quente e aconchegante como quase todos os Verões, mas… c’est finnit.
Por vezes tenho dificuldade em entender a razão das coisas. Ontem, aconteceu, mais uma vez.
… Que é que podia ser mais?! Para o Natal, é claro!
Não sei se vocês já se deram ao trabalho de reparar, que sempre que problemas e casos que envolvem o nosso Primeiro Ministro, chegam à comunicação social, existe também e em tempo real, um hastear de grandes bandeiras que têm de ser defendidas na Assembleia da Republica?
Hoje fui ao centro de saúde da minha área e fiquei gravemente preocupada, não pelo tempo interminável para ser atendida, não pela falta de profissionalismo dos assistentes administrativos, nem pela total desorganização de horários, por nada disso.
Uma casa, um pouco mais afastada de todas as outras, no meio do campo. Uma enorme janela de parede a parede que dá para um jardim silvestre, onde uma árvore se destaca de todas as outras. Destaca-se porque é grande, mais antiga mais sábia. Ela soube aproveitar tudo aquilo que a terra lhe deu e cresceu saudável, dobrando-se ao vento para não quebrar.
Estava no outro dia a tomar um café com uma amiga, ainda casada e já com dois filhos, quando a inevitável pergunta chegou:
Uma vez, há muitos anos atrás, numa conversa com uma amiga, estava a contar-lhe que estava muito envolvida com alguém. Que me sentia a apaixonar por um rapaz que eu achava que seria o meu futuro marido e pai dos meus filhos. Algo que se veio a concretizar por metade (não podemos ter tudo).
Todos sabemos que o povo português tem uma grande capacidade para a tristeza, para o destino, para a melancolia, enfim, para o Fado.
Nota: caso queiram saber as características científicas deste lindo animal, aqui estão:


