quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 

A noite caiu e pouca luz ela recebia dentro da tenda fechada. Começou a sentir frio. Tentou ignorar. Imaginou que tudo não passava de um sonho e tentou mesmo dormir um pouco. De nada servia, os seus receios e os barulhos que se faziam sentir na floresta, impediam qualquer relaxamento a uma menina de tão tenra idade, abandonada num ambiente hostil, amordaçada, amarrada e quase despida.

Os soldados foram recebidos cordialmente pelo grupo de escuteiros que já conheciam. Claude fez as honras da casa e foi um anfitrião perfeito. François estudava cada movimento dele, cada gesto, cada gesticulação, cada mudança no seu tom de voz. Durante o jantar ganhou coragem para perguntar:

- E a menina que desapareceu? Já sabem de alguma coisa?

- Parece que a mãe se sentiu mal. Ela tinha ido à vila buscar o pão e telefonou para os pais, ficando a saber da má disposição da mãe. Na altura, voltou para o campo, mas à noite, os remorsos começaram a acumular-se e decidiu, voltar para casa. Saiu e telefonou hoje à tarde a avisar do sucedido.

- Então está tudo bem? – Quis ainda saber, com um prazer mórbido em ouvir tamanho chorrilho de mentiras.

- Está, está tudo bem.

O fogo-de-conselho começou. Os dois soldados estavam divertidíssimos com a atenção que as meninas lhes dedicavam e com as piadas leves dos scatchs levados a conselho. François manteve-se um pouco afastado com o Claude e ambos começaram a conversar sobre inúmeras frivolidades. Ele era um excelente conversador e Claude sentia falta de conversar sobre outros assuntos. Assuntos que não podia conversar com mais ninguém. Dalila era um assunto que Claude podia conversar com um estranho, com alguém, que nunca mais veria e Deus sabia, o quanto ele precisava de desabafar sobre o assunto. François, apercebendo-se disso, convidou-o a afastar-se e entraram na floresta. Sentaram-se na mesma clareira, onde eles tinham raptado o seu anjo de luz e ofereceu-lhe a garrafa que tinha enchido, horas antes. Claude aceitou, prontamente, sem pensar em qualquer consequência. A conversa depressa rumou para o assunto que ambos desejavam.

- As raparigas do vosso agrupamento são muito giras... – brincou o François.

- Giras e perigosas. Se um homem não tem cuidado, é fisgado por elas e quando se apercebe, já está tão apaixonado, que pode dar cabo da vida em três tempos. – Desabafou, bebendo mais um golo daquela pequena garrafa.

- É... é uma idade complicada. Já parecem adultas, comportam-se como adultas e no entanto, amedrontam-se como crianças. Já passei por isso, sei como é. – Bebeu também ele, incentivando o seu rival a beber mais.

- Sabe... – procurou as palavras mais certas – A menina que procurávamos hoje...

- Sim, estou a ouvir. – Disse satisfeito por finalmente falar no assunto que lhe interessava.

- Ela é muito mais que um simples elemento do agrupamento. Ela é muito mais que uma criança normal.

- Você disse que ela tinha treze anos, não foi?

- Sim... mas apenas por medida de segurança, na realidade ela faz quinze anos depois de amanhã.

- Também, não é assim tão mais velha. – Ele estava realmente surpreendido. Depois do que se passara naquela tarde, ele tinha ficado com a impressão errada, de que ela teria, pelo menos, uns dezassete anos. Ela fazia, cada vez, menos sentido. Sentiu-se mal, por estar a cativar uma mulher tão jovem.

- Mas tem uma alma antiquíssima e já viveu mais do que qualquer um de nós suportaria. Eu sei que vocês, militares, vêm coisas que não fazem qualquer sentido, mas ela...ela já as viveu. – Ele falava com um orgulho e com um brilho nos olhos que o irritavam – Viveu e sobreviveu, com notas altíssimas.

- Não me diga que vocês têm alguma coisa...

- É impossível resistir-lhe. Ela é linda, cativante, carinhosa, esperta, inteligente, jovem, cheia de vida. Ela é mais madura que muitas mulheres de vinte e oito anos, com quem saio às vezes, para manter as aparências e para aliviar o stress... se é que me entende? – agora estavam a falar a língua dele.

- Quer dizer que vocês os dois, nunca tiveram relações sexuais? – Claude acenou que não – Nunca? – Insistia François.

- Nunca! Ela é muito sensual, ardente e fogosa, mas sempre que as coisas começam a caminhar para a cópula, ela retrai-se e é sempre uma frustração. – François ri, pois reconhece cada palavra proferida por aquele homem - Não me interprete mal. Ela não é frígida nem nada que se assemelhe, nem sequer é leiga em assuntos sensuais, passamos longas horas num namoro óptimo, mas creio que ela ficou traumatizada quanto à penetração em si. – Bebeu mais um pouco.

- Como assim traumatizada? – Bebeu também, Claude já estava bem alcoolizado e tropeçava nas palavras como se estas fossem obstáculos de uma árdua corrida.

- Como lhe disse, ela é melhor preparada que qualquer outra mulher adulta e madura que conheço...

- Mas como assim? Ela tem apenas catorze anos! É pouco mais que uma criança, nem sequer é uma jovem mulher.

- É que ela já passou muito nesta vida. – Ele quase pode ver uma lágrima saltar dos olhos de Claude, e observa como mal controla a sua mão quando agarra na garrafa, para apagar os pensamentos. O problema, como o é para qualquer tipo de fuga, é que o resultado é geralmente o contrário: quanto mais bebia, mais se recordava, mais queria falar, mais queria explicar.

- O que pode ela ter vivido, que lhe desse assim tanta maturidade, em tão pouco tempo?

- Ela veio do Gabão. Os pais dela eram lá fazendeiros. Tinham uma propriedade enorme, com terrenos de perder de vista e plantavam quase tudo, quanto aquele solo dava. Quando ela tinha apenas onze anos, ou seja, há três anos atrás, durante os motins e as revoltas, um bando de… - gaguejou antes de dizer a palavra, procurando o substantivo, ou o adjectivo correcto, talvez com medo de ofender alguém, ou apenas como resultado do álcool ingerido. - … de negros, liderados por uns quantos mercenários franceses, americanos e alemães, decidiram atacar tudo quanto era propriedade de brancos, roubando tudo quanto era possível: ouro, dinheiro, pratas… - engoliu em seco, olhando para a garrafa, mas sem engolir nenhum líquido desta vez – Levaram tudo que valesse dinheiro no mercado negro. Não havia qualquer luta política, nada, apenas simples ladrões a aproveitarem-se da situação confusa que o país vivia.

- Eu sei! Estive lá nessa altura. Também eu fui destacado para as forças da ONU, para manter a paz.

- Então sabes do que estou a falar. – Arrematou com um suspiro de alívio, por não ter que explicar algo que lhe era difícil de compreender.

- Mas continua, o que lhe aconteceu? – Perguntou ele, cada vez mais intrigado com o caminho que a história levava.

- Bem, como muitos outros desgraçados, a família dela também foi assaltada. O grupo roubou tudo o que tinha para roubar, mesmo perante a grande resistência que o pai dela ofereceu. Depois ataram a mãe dela e a ela a uma das vedações da quinta, obrigaram o pai a ajoelhar-se e a humilhar-se perante as duas mulheres da casa. – Bebeu mais um golo e pensou de novo nas palavras - Despiram-no e obrigaram-no a ver os campos das colheitas e todas as máquinas a arderem… - de novo uma pausa, como se à força de ele ter ouvido, da boca inocente dela, aquele relato, o tivesse feito viver a experiência – Na realidade, viu arder o trabalho de toda uma vida e cortaram-lhe a cabeça depois, com uma simples catana de mato.

- Mataram o pai à frente dela? – Claude acenou que sim – Tinha ela onze anos?!

- Sim, onze anos apenas. – François prostrou-se, assassinarem o nosso pai à frente dos nossos olhos, não é coisa que passe despercebida e sem qualquer mácula. – Mas isso não foi tudo. – Ele acenou para que continuasse e ofereceu a garrafa de novo, depois de dar um longo trago – Em seguida, pegaram na mãe, despiram-na e começaram a bater-lhe. Quando ela já não conseguia levantar-se do chão, tiraram à vez, a ordem pela qual a usariam.

- Santo Deus! – Disparou enojado com a imagem que realizou na sua mente.

- Mas isso foi o erro deles.

- Como assim?

- A Dalila, conseguiu soltar-se das cordas que a atavam e aproveitando-se da distracção dos assaltantes, ela pegou na catana do homem que estava em cima da mãe, o mesmo que matara o pai, e com ela, cortou-lhe a cabeça. Cheia de sangue e assustadíssima pelo que tinha acabado de fazer vira-se para os outros três homens e ameaça-os com a catana. Luta que nem uma louca, movendo-se por todos os lados e lançando aquela pesada arma a tudo o que se mexesse, atingindo quem quer que fosse que se aproximasse dela ou da mãe.

- Minha Nossa Senhora!

- É verdade, meu amigo. Parece mentira e tirado de um filme, mas não é. Foi assim que tudo se passou.

- Mas como é que ela sobreviveu a tudo isso?

- Bem! Os mercenários ao verem que os seus homens estavam a ser feridos por uma simples rapariguinha, acabaram por dar ordens para que as deixassem em paz. Afinal, já tinham o que queriam. Um deles, um americano, chegou mesmo a afirmar, que se uma miúda daquelas era capaz de lutar com tanta força, merecia viver muito mais que qualquer um deles.

- Valha-nos ao menos o peso da consciência de alguns deles. – Afirmou aliviado, como se ele ainda não soubesse que ela tinha sobrevivido. – E depois?

- Bem, aqui é que a história começa a ganhar contornos hollywodescos.

- Bem, eu gosto de um filme de acção. – Claude sorri.

- Um dos outros mercenários… - mais um pouco de veneno pela goela abaixo - … um que se tinha juntado ao grupo há pouco tempo, já estava com grandes problemas de consciência, pelas atitudes que o grupo tomava. – Limpa um pouco de whisky que lhe escorregava pelos cantos dos lábios, com a manga da camisa - Aquela cena toda acabou por lhe dar a certeza de que ele não pertencia ali. – Uma nova pausa, esta um pouco mais prolongada, como se estivesse a preparar um grande final, ou reviravolta. - Passado umas dez horas depois de tudo aquilo ter acontecido, ele abandonou-os e voltou à fazenda, na esperança de poder ajudar aquelas duas mulheres, como forma de remissão de pecados. Quando lá chegou, já a menina tinha começado a cavar um buraco, para enterrar os diversos corpos que estavam mortos por toda a propriedade e já tinha enterrado o pai ao lado da campa dos avós. A mãe estava a dormir, em completo estado de choque, deitada no chão do salão, tapada com um lençol de seda e com uma almofada por baixo da cabeça. – Atira um galho pequeno com que brincava, contra uma pedra. - As forças dela só lhe permitiram fazer aquilo.

- E já tinha sido um esforço hercúleo. – Ele vibrava com cada descrição daquela história. Aqueles eram os acontecimentos que tinham feito da sua amada, aquilo que ele tanto apreciava.

- Pois já. – Bebeu mais um pouco – Consegue agora perceber? Eu não estou a ter um caso com uma criança, eu estou a namorar com uma mulher feita. – François sorriu, conseguia compreender o que ele afirmava, mas tinha dúvidas.

- E o mercenário?

- Bem. O Jack, que hoje é padrasto dela, ao vê-la cavar aquela enorme cova, com uma pá que lhe parecia a ele, maior que ela, compadeceu-se e decidiu ali, naquele momento, que faria tudo, para diminuir a dor daquela família. – Jack, então ela chamava pelo padrasto.

- Então esse mercenário é hoje o pai dela?

- Mas ao princípio não era essa a sua intenção. – Comenta sarcasticamente.

- Como assim?

- Esse americano ajudou-a a queimar os corpos de todos os mortos na fazenda. Ela nunca lhe falou, até porque não conhecia nenhuma palavra em inglês. Ela apenas agradecia desconfiada a sua ajuda. Pediu que a seguisse até a casa e mostrou-lhe a mãe deitada no chão, num estado lastimoso, cheia de cortes na cara e no corpo todo, ensanguentada e desmaiada. – François observava cada movimento de olho, cada contracção muscular, cada pequeno movimento de pele, dos lábios. Percebia quando é que Claude estava enojado, excitado, ou simplesmente indignado. Reparou que coisas que o deixavam apavorado como sangue, o deixavam a ele indiferente. - Ele pegou nela ao colo e levou-a para o quarto. Tratou da mãe dela o melhor que pode, ela esperou por ele, exausta no grande salão, com a espingarda do pai na mão. Quando ele voltou à sala ela apontou-lhe a arma e disparou contra ele, acertando, no entanto, na vitrine esvaziada.

- Rapariga de fibra.

- É, fibra não lhe falta. Ele desarmou-a e disse que estava ali para a ajudar no que fosse necessário, durante o tempo que ela precisasse dos seus serviços, como um simples criado. Felizmente, ele sabia um pouco de francês. – Riram-se.

- E ela?

- Ela aceitou. Desmaiando logo em seguida.

- Coitada, depois de tudo o que passara! – Pensa um pouco em todo aquele cenário e conclui. – Já tinha ouvido em picos de adrenalina, mas o que se passou com ela,passou tudo aquilo que já havia ouvido. Parece que ela tem alma de sobrevivente, de guerreira, que é algo escrito no seu DNA. – Bebe ele um pouco do que ainda havia e deixa Claude continuar.

- Quando ela acordou, ela passou a mãozinha dela pelo rosto dele, como se quisesse dizer-lhe que precisava da protecção dele, para que ele tomasse conta dela. – O mesmo gesto de súplica que ela lhe fizera, recordou-se ele no mesmo instante. – E ele tratou dela, mas por mais que tentasse não conseguia ver nela, um único traço infantil. Depois de tudo o que ele vira aquela criança fazer, ele respeitava-a como uma adulta, como um ser que sabe cuidar de si, totalmente independente. Nos dias que se seguiram, acabaram por se fazer grandes amigos. Tratavam da mãe, (que apenas acordou um mês depois), das colheitas que se salvaram dos fogos, dos animais que sobraram e reconstruíram grande parte da fazenda. Uma noite, ela pediu-lhe que a ensinasse a lutar e ele compreendendo-a perfeitamente, assim o fez.

- Agora entendo... – Descaiu-se.

- Como assim? – Perguntou Claude confuso.

- Agora entendo porque dizes que ela é muito mais que uma criança. – Disfarçou.

- Pois é. O problema foi quando, ao longo dos treinos intensivos, o corpito dela começou a desabrochar e a desenvolver-se precocemente. Aquele ex-soldado, sem acesso a qualquer outra mulher e interagindo diariamente com ela, começou a querer mais, do que aquela relação de amigos.

- E a mãe?

- A mãe ficou muito traumatizada com a morte do marido e durante o ano que se seguiu, nunca se levantou da cama, ou proferiu qualquer palavra. Depois, de uma hora para a outra, levantou-se e preparou o pequeno-almoço para os três, como se o Jack fosse já membro da família.

- Não tinha sido para menos. – Ele envergonhava-se do que os homens eram capazes de fazer, principalmente, ex-soldados, homens treinados fortes e bem formados. Aquilo não fazia qualquer sentido para ele. Como eram eles capazes de tal barbárie?

- Mas antes, o Jack e a Dalila viveram sós, entregues a si mesmo. Treinavam todos os dias depois das tarefas diárias e não era um treino simples, mas sim, um treino capaz de vergar muito homem, tal como ele tinha recebido nos marines. Luta corpo-a-corpo, armas, qualquer tipo de armas, artes marciais, enfim, o serviço militar completo.

- E foi durante o treino que ele tentou ser mais que um amigo?

- E não conseguiu. Não que ela não se sentisse atraída por ele, acho que ainda hoje eles sentem uma forte atracção um pelo outro, basta reparar nos olhares que trocam, mas sempre que estavam a chegar a vias de facto, ela escapava dos seus braços tal qual uma enguia, exactamente o mesmo que ela faz comigo.

- Acho que está relacionado com o que aconteceu com a mãe. – Tentou arranjar uma explicação, para tanta resistência a um acto que surge naturalmente após os preliminares que ela gostava. – E ele não insistiu?

- Ele chegou a usar a violência e a força física, mas sempre que ela se rendia, repetia aquele gesto que tinha feito ainda meio inconsciente, de quando se conheceram e ele perdia toda a coragem para continuar. Ele não queria de forma alguma ser como os outros. Quando a mãe dela acordou para a vida, acabaram por se casar e desde então ele tem sido um pai exemplar para ela.

- Então és um homem de sorte. Ela é uma mulher excepcional. – Os olhos de Claude humedeceram – O que foi? Não te sentes um homem com sorte? Tens uma mulher maravilhosa como namorada e sempre que precisas de algo mais, procuras uma mulher mais velha e com menos complexos.

- Não é assim tão fácil. – Ele sabia que não – Existe uma mulher, com quem eu me encontro com maior regularidade, que engravidou. Eu ainda não contei nada à Dalila, mesmo eu, só soube um dia antes deste acampamento.

- O que pretendes fazer? – Ele ria-se por dentro.

- Acho que terei que casar com ela. A Dalila é especial e eu nunca amarei nenhuma outra mulher como a amo a ela, mas eu vou ser pai e não desgosto da ideia de me casar já. Tenho trinta e três anos e começo a não ter muito tempo para desperdiçar.

- Compreendo-te, meu amigo. - Disse com a confiança de quem nada tem a temer. Ele estava feliz, sabia tudo o que tinha que saber sobre a sua prisioneira, já compreendia tudo o que se passara e sabia também, que o namorado dela, não era rival para ele. – Há quanto tempo voltou ela de África?

- Há seis meses. O padrasto dela achou que se ela não se afastasse muito da vida do campo e fora de portas, ela não esqueceria o treino que ele lhe tinha dado e inscreveu-a nos escuteiros. Uma semana depois, já nós estávamos nos braços um do outro. Era-me impossível resistir-lhe. – Ele conhecia bem aquele sentimento, também a ele era impossível resistir-lhe, como se ela emanasse uma força magnética que atraía os homens até a si, tal como as sereias faziam aos navegadores. – Pena ela só ter catorze anos. Pena. – Acabou por beber o resto do líquido que estava na garrafa e o François teve que o ajudar a equilibrar-se, para que ele voltasse para a tenda.

domingo, 10 de janeiro de 2010

 

abismo (2) Não quero ninguém que morra por mim, ninguém que morra por amor ou por outra razão qualquer por mim provocada. Não quero alguém que se sinta tão subjugado a mim, que seja incapaz de conceber outra forma de estar, não quero!

Quero alguém que esteja comigo, que viva por mim, que queira fazer coisas comigo. Quero alguém que me entrelace nos seus braços, que me proteja apenas com a sua presença, alguém que se arrepie com o toque da minha pele, mas que mantenha todas as suas forças, toda a sua essência. Não quero ninguém que ao meu toque deixe de ser.

Não quero alguém que me diga apenas o que quero ouvir, não quero alguém que me faça irritar pela falta da verdade. Não quero alguém que aparente, quero alguém que seja. Não quero alguém que se esconda, mas alguém que se assuma, que simplesmente exista, sem artifícios, sem jogos, sem camadas. Quero a a idiossincrasia completa.

Não quero alguém que me ame com a mesma intensidade que eu, apenas quero que goste de mim, seja de que forma for. Não quero que todos gostem de mim, nem mesmo as pessoas de quem eu gosto. Não quero que elas sintam a minha falta, da mesma forma que eu sinto, intensamente, a falta delas, se o fizesse estaria a desejar o mal das mesmas e eu não o desejo. Queria poder sentir que em algum momento especial eu fui única, isso seria o suficiente, mesmo sabendo que existe sempre quem ocupe o nosso lugar. Mas pensar que alguém, em algum momento, por mais fugaz que tenha sido, pensou e sentiu assim, já me satisfaz.

Simplesmente não quero! Não quero ser apenas alguém que passa pela vida, sem que ninguém note. Mas também não quero que a minha presença seja tão opressiva, tão poderosa, que ninguém suporte estar perto de mim.

Apenas quero… apenas quero… apenas quero… que tudo tenha um sentido, que tudo tenha um valor real.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

 

David-Boreanaz-agf02O outro soldado veio chamá-lo. Estava na hora. Ele diz que já vai. Troca as calças que está a usar, aquelas estavam rasgadas. Não veste uma camisa, optando por um pulôver azul-escuro com meia gola e fecho no ombro. Ficava-lhe muito bem. Ela sabia que no agrupamento, haveria muitas amigas suas que ficariam a suspirar por ele, naquela noite. Porque seria que ela sentia um misto de ciúme e raiva? Poderia ela estar a apaixonar-se? Seria o amor à primeira vista, uma realidade, na qual ela nunca acreditou? Ambos guardaram os seus pensamentos. O que se passara durante a tarde tinha sido sério, muito sério e os dois, tinham plena consciência disso.

Ele olha-a, está constantemente a olhar para ela, a decorar cada traço, a observar cada movimento da luz no seu rosto, cada partícula de luz que se separa na sua pele, saltando de vergonha de não ser tão perfeita como ela e perdendo-se no ar, para sempre, transformando-se em algo que ela pode usar a seu favor, energia pura. Ela parecia-lhe um anjo de luz, um ser de energia, algo que foi feito para nunca ser maculado. E a ele? A ele, cabia-lhe a tarefa de domar essa energia, de a tornar sua, de a proteger, de fazer tudo, para que ela sofra o menos possível, nestes dias que se aproximam e que ele não pode alterar. Ela evita olhá-lo, não quer de forma alguma irritá-lo ainda mais. Ela está arrependida do seu comportamento. Ela não queria ter sido obrigada a magoá-lo, ela simpatizava com ele. Por outro lado, ela pensava em tudo o que iria acontecer durante aquela noite.

Ele iria estar com o seu namorado, iriam falar dela, concerteza. Ela repara que ele enche uma garrafa de bolso, com wisky e que a guarda em um dos muitos bolsos das calças. Claude sempre fora fraco para a bebida, não seria necessário muito para que lhe dissesse tudo, tudo o que ele quisesse saber. E Claude sabia de tudo sobre a vida dela. Aquele homem, aquele namorado, era o seu grande amigo, um dos poucos que ela guardava. Claude sabia de tudo, porque ela lhe contava tudo. Coisas que nem a mãe, a mãe que ela tanto ama e protege, se recorda, coisas que nem ela, sabe muito bem porque lhe contou, coisas nas quais, até ela tem dificuldade em acreditar que aconteceram, mas que existiram e que ainda a assombram constantemente.

Ele penteia-se mais uma vez, coloca um pouco de after-shave, bebe um pouco da garrafa de whisky, que estava sobre a mesa e concentra-se. Percorre mentalmente, tudo o que precisa fazer, dizer e ouvir. Auto motiva-se para a missão que o aguarda. Os outros voltam a chamá-lo de fora da tenda e ele grita, com aquele timbre de voz que lhe é tão familiar, que já vai. Aproxima-se dela. Senta-se na sua cama, acaricia-lhe a cara e beija-a. Ela também o beija e voltam a olhar-se. Eles olham-se como se nunca mais se fossem ver de novo, como se fizessem amor e estivessem num mundo só seu, num mundo criado, unicamente, para eles.

Ele sai. Ela ouve o restolhar dos seus passos. O som fica cada vez mais distante. Deixa de ouvir. Na tenda não ficou nenhuma luz e lá fora deixaram apenas uma fogueira. Sente medo. Sente muito medo. Está só, amarrada, despida, sem nenhuma forma de defesa contra qualquer perigo que lhe possa surgir.

Ele aproxima-se do acampamento que tanto observou na última semana. Lá espera-lhe o namorado daquela rapariga, daquela vítima de um bem maior, por quem se apaixonou. Lá estão as respostas às suas dúvidas. Quanto mais se aproximava, mais o seu coração acelerava. A verdade é que parecia um adolescente que vai conhecer os pais da sua namorada nova. Mas não era assim. Ele não tinha mais quinze anos e a sua namorada, era sua refém. Eram todos, vítimas de um destino impiedoso, que os unira de uma forma pouco ortodoxa, pode-se mesmo dizer dolorosa, mas que os juntara para sempre.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Nem sei muito bem sobre o que vai ser esta mensagem. Preciso de tirar daqui aquele desabafo tão atiçado que realizei, até porque é Natal e não é data que condiga com este tipo de sentimentos, mesmo quando eles apenas existem, porque sinto demasiado carinho pela pessoa visada.

Assim sendo, e sem muito mais para dizer, porque há alturas assim em que a inspiração segue caminhos que devem ser explorados de outras formas, desejo-vos a todos um Feliz Natal, junto daqueles que vos amam e que vocês amem, cheio de paz e carinho.

Pensem que por vezes, a mera presença de um pessoa que é amada, vale muito mais que uma jóia preciosa, sobretudo quando essa pessoa, nem sempre pode estar presente nos outros dias.

Para aqueles que amamos sem perceber porquê, para aqueles que gostamos e para o resto do Mundo:

Muitas felicidades!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

eu_e

 

 

"Na vida, não nos apresentamos a ninguém que possa confundir-nos e odiamos quem nos confunde." 

(Epiteto)

sábado, 19 de dezembro de 2009

DSCF2583 O mês de Dezembro é uma loucura para mim, uma loucura que me deixa sem tempo para nada, sem tempo para respirar, sem tempo para escrever…. Mas eu gosto! Gosto muito deste “corre-corre” de Dezembro, este “não pára” que antecede o Natal. São a escolha dos presentes, são a escolha das decorações certas para o tema que escolhi, são os jantares com os amigos, são os preparativos para que a minha casa fique apropriada para receber a família, as limpezas, o fazer das camas, por enquanto desocupadas, são as renovações das instalações eléctricas, é o arranjar daquele candeeiro que ficou por arranjar há quase um ano, e a parede que havia ficado riscada e a porta do armário da cozinha que precisava de uma dobradiça nova.

É verdade que este ano, não tive tempo para fazer alguma das coisas a que me tinha predestinado a  realizar, como pintar o tecto da cozinha, pois outros valores necessitaram desses minutos preciosos, mas está quase tudo pronto. Só falta mesmo a minha tia chegar com o meu tio e com DSCF2591os meus primos, que este ano e após uma ausência de dois, finalmente conseguiram vir, o cunhado da minha irmã que também vem cá passar este ano o Natal connosco, falta chegar o dia 19 aonde vamos ter um lanche de trocas de prendas com os meus melhores amigos (o jantar do Sábado passado foi maravilhoso, com os velhos e os novos amigos, mas anseio por este momento nosso, talvez seja nostalgia), falta o dia 23 onde terei uma consoada antecipada com pessoas muito especiais, e depois, finalmente, os preparativos finais para a festa da família (umas das muitas que fazemos, mas a principal). Vai ser o peru, o bacalhau, os bolos, os fritos  e muito, muito amor e carinho.

Estou louca de cansaço, mas sabe bem!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Existem coisas, que não devem ser explicadas, pois se forem, perdem todo o encanto e magia que envolve os sentimentos e pensamentos de quando estamos a viver uma situação, que nos faz sentir bem! Passamos a vida a racionalizar cada um dos passos que damos, cada uma das acções que tomamos, pesamos os prós e os contras, tentamos ver a imagem de todos os ângulos possíveis e tentamos antecipar no futuro, aonde é que nos leva aquilo que vamos fazer. No meio disto tudo, esquecemos-nos, simplesmente, de viver o momento.

Por vezes são coisas bem simples, como uma conversa diária que temos com alguém no comboio, uma troca de mensagens com um parceiro de jogo na internet, um novo projecto que nos ocupa a mente e as mãos. Coisas simples, banais, corriqueiras e no entanto, fazer qualquer uma destas acções, (ou outras, cada um tem as suas certamente), dá-nos prazer, satisfaz algo que falta no nosso dia-a-dia e chegamos mesmo a sentir a falta delas, quando por algum motivo, não as conseguimos concretizar.

Mas mesmo assim, para além de serem coisas simples, quase em significado, temos tendência automática de as querer transformar em algo mais. Realizamos cálculos complexos, colocamos hipóteses, hipotéticas construções futuristas, onde aquilo, que por si só nos satisfaz, se torna em algo muito diferente e de contornos concretos pouco plausíveis.

Acho que neste tema, vou ter mesmo dificuldade e em encontrar as palavras certas para explicar o meu raciocínio, mas resumindo: Se no nosso dia-a-dia, existe algo que nos satisfaz, exactamente porque é apenas aquilo que é e nada mais, não compliquem, não tentem transformá-lo, pois o mais provável, é simplesmente perderem aquilo que já têm.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Estava no meio de uma enorme multidão, por todo o lado existiam actores vestidos com fatos de esponja que nos remetiam para histórias de encantar, vários enfeites de Natal e neve, muita neve, camadas e camadas de neve. No entanto chovia e isso era muito estranho.

Eu observava as pessoas, parecia procurar alguém no meio da multidão anónima, procurava um olhar, um sinal, algo que me ajudasse a reconhecer alguém que não conhecia, até que senti um olhar fixo em mim. Girei lentamente 360º, procurando a origem do olhar. Encontrei um homem alto, que me fixava, não me recordo do rosto, da cor dos olhos, ou do cabelo, apenas a profundidade do olhar que me fazia arrepiar.

Ele sabia quem eu era, ele já me havia visto antes. Pensei: "Já o achei!" mas ao mesmo tempo que o fiz, senti um calafrio que me fez temer de medo, receei que aquilo não devesse acontecer e decidi tentar fugir, esconder-me. Coloquei-me numa fila, para entrar numa espécie de teatro. Tentava a todo o custo, misturar-me no meio da multidão, tornar-me anónima, apenas mais uma. Mas não fui bem sucedida.

Sinto umas mãos fortes segurarem-me os braços por trás e uma voz profunda que me diz: "Os meus desejos ainda são ordens?!" ao que eu respondo, quase sem vontade própria: "Não conheço outra forma de me entregar!"

Então ele, abre-me o punho que eu tinha cerrado e coloca-me um cartão de plástico na mão e depois de a fechar de novo, de forma a que eu não deixasse cair o objecto quase sem espessura e mantendo-me sempre de costas para ele e sem me permitir virar para o ver, disse: "Tens 5 minutos".

Fecho os olhos e respiro fundo enquanto sinto a presença avassaladora dele partir. Abro os olhos ao mesmo tempo que a mão e reconheço uma chave de um quarto de hotel. Ainda procuro o homem do sobretudo e de olhar intenso, mas ele já ali não está. Procuro o Hotel, encontro-o do outro lado da avenida e dirijo-me até lá.

Entro no lobby, espero o elevador, subo até o andar respectivo, procuro o número do quarto e paro diante da porta. Falta-me a coragem para abrir a porta, ainda levando o braço para colocar o cartão na ranhura, mas este fica estático, sem movimento, inerte no ar. Sinto a presença dele novamente nas minhas costas, uma mão que segura a minha e que a força a tomar a acção que parara a meio. A fechadura solta o som que indica que não está mais trancada e o braço esquerdo dele, bem acima da minha cabeça, empurra a porta para dentro e com o braço direito, segura-me pelo pescoço e força-me a entrar. A porta fecha-se. A voz dele diz.

- Sem preliminares.
- Demasiado sobrevalorizados! - Respondo com voz trémula e insegura!
- Sem artifícios.
- Apenas guiados pelos instintos mais básicos. - Completo.

Ele encosta-me então à parede, como se fosse um polícia que me fosse revistar, retira-me os casacos, os cachecóis e tudo que o separava da minha pele, mantendo-me sempre de costas para ele. Liberta-se ele próprio das suas roupas, agarra-me o pescoço, a sua mão contorna-o quase na totalidade e morde-me junto à junção com o ombro. Eu não grito, eu sufoco a dor física e transformo-a em algo mais, algo muito mais estimulante. Ele possui-me sem mais demoras, sem mais percalços. Fá-lo com uma desenvoltura tal, que parece não ter feito mais nada na vida, se não aquilo. Possui-me com uma violência tal, que quase sinto o meu corpo partir-se nas suas mãos, mas em vez de recear, ou ter medo, ou tentar fugir, eu apenas me entregava mais e mais e a cada gesto, a cada movimento, os nossos corpos tornavam-se apenas um.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

1955058 - O que pretendes? O que é que queres? – tenta acalmá-la.

- Quero ir-me embora. Deixe-me ir embora, por favor – o dia começava a escurecer.

- Eu não te posso deixar ir. – ele tentava manter-se calmo, mas já tinha perdido toda a paciência que tinha – Dá-me a faca.

- Não se aproxime. – ameaça ela, tomando uma posição de luta com faca. A técnica dela era irrepreensível. Ele aproxima-se, com cuidado, rodeando-a, estudando os seus movimentos. Ela acompanha-o. – Deixe-me ir embora. – Implora mais uma vez.

Ela estava assustada, ele mexia com ela de uma forma que não percebia e aquilo aterrorizava-a. Era suposto ela odiá-lo e desejar a sua morte, mas os seus sentimentos eram exactamente os opostos: ela não lhe queria mal e ela simpatizava com ele. Ele ameaça atacá-la e ela afasta-se assustada. Ele ri-se. Ela era demasiado nova, para ser um adversário à altura. Ele ataca, mas desta vez a sério, ela defende o golpe, sem sequer pestanejar e ameaça, por sua vez, com a faca. Agora é ele quem se afasta num pulo, evitando por um triz, a lâmina afiada da sua própria arma.

Ele aceita o desafio, faz estalar o pescoço e avança. Ambos iniciam uma estranha dança, onde estudam os movimentos um do outro e tentam aproveitar a primeira distracção do adversário, para ganharem vantagem. Ele acerta-lhe, no queixo, com um soco, tentando ganhar de imediato o pulso da mão direita, para fazer uma chave que a desarmasse, mas ela dá um mortal para trás e bate-lhe com os pés, durante a acrobacia. Ela percebe que ele a vai atacar com toda a força e ela sabe que a sua única solução, é usar a faca. Ele é demasiado forte para que ela se atreva sequer a lutar, de igual para igual, com ele. Assim que ele se aproxima, ela baixa-se e, num movimento rotativo, passa a lâmina afiada através das calças e sente a carne ceder a um golpe que ela espera ligeiro, na perna esquerda daquele homem. Ele cai, contorcendo-se com dores, mas ela não se compadece. Com movimentos rápidos e contínuos, ela pega na camisa do seu adversário, veste-a e dirige-se para fora da tenda, mas detém-se quando ouve aquele estalido tão familiar, que uma arma dá, quando fica pronta para disparar. Ela até que gostava daquele som. Ela gostava sempre daquele som quando treinava, só que desta vez, aquilo terminava com a ilusão de sair dali e voltar à sua vida normal.

- Deixe-me ir, por favor. – pede sem sequer se voltar.

- Volta aqui. Chega aqui. – ordena-lhe com a voz trémula e repleta de dor.

Ela engole o choro e cumpre a ordem. Ela não pode fugir de uma bala e tem a certeza que ele tem boa pontaria. Ele não desvia a arma, nem por um instante, enquanto se levanta com grande custo. A sua perna sangra imenso e ela fica com o coração apertado. Não o queria magoar tanto, apenas queria fugir. Ele encosta-lhe a arma gélida à sua têmpora e ela chora. Retira-lhe a faca que ela mantém na mão. Nada mais há a fazer. Ele engole a dor e demora-se a decidir o que vai fazer a seguir. Ele quase desfalece enquanto pensa, mas apoia-se nela. A arma nunca se mexe do lugar.

- Leva-me até a cama e ajuda-me a sentar. – Volta a ordenar.

Ela obedece, a situação dele comove-a, agora que vê o sangue. Ele nem precisa de lhe pedir, pois ela despacha-se a ir buscar uma caixa de primeiros-socorros e trata-lhe da ferida que ela própria lhe abriu. Ela faz um bom trabalho, mas ele continua com dores. Dirige-se ele próprio à caixa e tira uma pequena seringa que contém um líquido branco. Ela supõe que seja morfina. Afasta o olhar quando ele se injecta. Pensa em aproveitar o momento para fugir, mas apenas alguns segundos de indecisão, uns míseros segundos de dúvida, são os suficientes para o ouvir libertar um som seco de alívio e ouvir as suas botas baterem no chão, num ritmo descompassado, pois coxeia na sua direcção. Empurra-a para a cama que lhe pertence e amarra-a. Ele não torna a falar-lhe. Está envergonhado, por ter sido derrotado, ludibriado por aquela criatura tão pequena e frágil. Ela também não diz nenhuma palavra. Não emite um som, uma lamúria.

Descansa por fim, por algumas horas na sua cama. Ele tem que ir jantar com o Claude e sente-se fraco demais para isso. Ele está cabisbaixo, pelo que aconteceu e neste momento, perdeu toda aquela confiança, que tinha ganho quando o vira ao princípio da tarde. Contudo, ao longo das horas que passavam, ele ia readquirindo alguma presença de espírito e começava a pensar que tudo aquilo era natural e que apenas tornava o prémio final, mais apetecido. Tirou o maço de cigarros de um dos muitos bolsos que as suas calças tinham, mas estava vazio. Levantou-se. Já se sentia melhor para o fazer. A perna ainda tremeu por uns instantes, mas dois passos depois, mal se notava que coxeava. Tirou um maço novo de uma das mochilas e logo acendeu mais um daqueles rolinhos brancos, pardalentos e fedorentos. Se ele tinha vícios, fumar era um deles. Olha de soslaio para ela. É mais forte do que ele. Ele bem queria não olhar, ignorá-la, pelos menos até voltar do fogo-de-conselho, mas não resiste. Ela também o observa. Como seria mais fácil, se alguém lhes dissesse, que eles estavam destinados um ao outro. Mas todo o destino é assim mesmo: confuso, obscuro, intrincado, no entanto, já resolvido, atribuído e indissolúvel. Apesar de tudo, os sinais estavam lá, eram claros a todos os bons observadores. A sua parecença física, o acaso das datas, do encontro, das suas histórias, que logo, logo, ambos conhecerão, dos seus gostos, dos seus hábitos, dos seus desejos.

domingo, 29 de novembro de 2009

1948756 Ele tira a camisa. O seu corpo liso e brilhante, quase sem pelos, agrada-lhe. Ele gostava de estar assim, de tronco nu. Era a forma mais confortável para ele. Observa os mapas do outro lado da tenda. Era como se os territórios tivessem sido delineados: a parte esquerda era dela e a direita, dele. Ela pousa a caneca de chá. Mal lhe havia tocado, mas já se sentia melhor. Levantou-se devagar. Aliás, todos os seus gestos eram sempre suaves, femininos, lentos, naturais, o que o surpreendia ainda mais, quando ela lutava com ele. A força que ela tinha e a rapidez dos golpes, eram resultado de muitos anos de treino. Ele não entendia, como tal poderia ser possível. Quando ela chegou ao meio da tenda, ele falou.

- Se eu fosse a ti, não dava nem mais um passo. Não te aproximes de mim. Hoje tenho menos paciência que ontem e estou prestes a explodir.

Ela deteve-se por uns instantes. Ela não tinha certeza porque é que ia ter com ele. Algo lhe dizia que devia reconforta-lo, mas não sabia porquê, não entendia porquê. Ela pensou um pouco, ponderou as suas opções e decidiu por fim avançar. Ele sentiu o seu coração saltar, quando ela passou a linha de separação. A sua respiração ficou mais rápida, a cada passo que ela dava, trazendo consigo, aquele contínuo cheiro a rosas. Ela deteve-se a menos de meio metro dele. Ele não lhe ligou. Ela tentou ler as fotografias por satélite e com alguma dificuldade, reconheceu a costa marítima de Marrocos. Fosse o que fosse, o seu destino era o Norte de África.

- Qual é a vossa missão? – pergunta a meia voz.

Ele vira-se. Ele não pensava na missão. Ele não pensava em nada que não fosse ela. Ela era a sua missão naquele momento e o desejo ardente, da noite anterior, tinha voltado. Ele beija-a, deixando-a praticamente sem ar. Ela sente-se desfalecer. Ele coloca a sua mão direita à volta do seu fino pescoço e apercebe-se como seria fácil tirar-lhe a vida naquele momento. Ele não o quer, mas pensa nisso, em como ele era pouco mais que uma máquina feita para matar. Aperta-o um pouco, enquanto a continua a beijar. Aquilo excita-o. Com a mão livre, arrebenta com os botões da camisa dela e deixa-a descair até aos seus pulsos. Isso prende-lhe mais os movimentos do que ela gostaria, mas ela mal consegue respirar, quanto mais lutar.

Ele afasta-se um pouco. Ele quer vê-la à luz do dia. Ela recupera o fôlego. Ele não entende, porque é que aquela violência com ela lhe dá tanto prazer. Nunca tal lhe havia acontecido. No entanto, ele espera que ela colabore e sente-se bem, quando ela não se mexe e continua parada, imóvel, à frente dele, mesmo agora, quando ele nem sequer a segura. Volta a beijá-la e ela corresponde. Ela liberta-se da camisa que lhe prende os braços e coloca as pequenas mãos à volta do pescoço, daquele estranho. Ele sente-se nas nuvens. Pega-a ao colo e ela abraça-o com as suas compridas e musculadas pernas. Fazem longas trocas de olhares, no intervalo dos intermináveis beijos. Eles não se cansam dos seus olhos. Têm tanto a dizer, tanto a descobrir, tanto a explorar.

Ele não esperava tanto. Ela queria mais, mas começava a entrar num jogo, do qual dificilmente poderia sair a meio e não tinha a certeza absoluta se o queria levar até ao fim. Ela apenas sabia, que gostava daqueles preliminares, daquele namoro, daquela excitação. Ela sabia ainda, que ele quereria ter tudo e que ela, tudo não queria dar. Mesmo assim, decidiu levar as coisas até ao limite do que lhe seria possível aceitar. Se ela o fizesse gostar de si, talvez as coisas pudessem vir a ser diferentes. Talvez assim, ele a viesse a proteger do destino, que ela pensa, que lhe está atribuído. Talvez assim, ela não tenha que morrer. Talvez!

Aquele jogo, que há muito havia passado de mera sedução, prolongou-se por longos minutos. Ele deitou-a na sua cama e despiu-a por completo. Ela estranhamente permitiu. Pena que não seria uma permissão total e quando ele, certo de que ela seria dele naquele momento, se preparava para a possuir, ela rouba-lhe a faca de mato e afasta-se para o meio da tenda. Desta vez, ele não entende mesmo, o que se passou. Será que ele a magoara de alguma forma? Ele teria precipitado o momento? O certo é que começava a ficar farto daquela brincadeira, farto das provocações dela, farto das suas indecisões. Levantou-se impaciente e dirigiu-se até a ela, mantendo uma distância razoável. Ele conhecia as suas aptidões de luta corpo-a-corpo. Sabia de ante-mão, que a venceria, mas não a queria magoar, nem muito menos magoar-se a si próprio.

- Desculpe-me! Não devia ter permitido que isto fosse tão longe. – Justifica-se ela.

- Dá-me a faca. Não te quero magoar. – Pede-lhe em forma de ordem.

- Eu também não o quero magoar. – Ela realmente, não o queria magoar, mas também não queria ficar ali, ela não tinha a certeza do que queria. – Não se aproxime, ou usarei a faca.

 

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

 

Já foi, já passou, quente e aconchegante como quase todos os Verões, mas…  c’est finnit.

Pensar que podia viver num Verão permanente é algo que acalenta o meu espírito, que fomenta a minha imaginação, que me dá horas de doces delírios, onde imagino uma casa na praia, por-de-sois intermináveis, nascer de dias rápidos e fantásticos, com cores que ainda não foram baptizadas, jantares no pátio à sombra de palmeiras e coqueiros, quartos de hospedes sempre com camas ocupadas, amigos à volta a passarem férias, a irem e a virem, a gozarem comigo os prazeres do calor que um clima tropical pode oferecer. Almoços de peixe grelhado, acabado de ser entregue por um pescador que passa todos os dias às oito da manhã, num pequeno barco a motor bem à frente da minha casa, gritando:

- Tenho peixe fresco, acabado de pescar. A menina vai querer?

Compro o peixe e preparo-o antes de sair para ir trabalhar. Pego na lancha, vou até ao continente, faço o meu trabalho e volto para casa à uma da tarde. Grelho o peixe enquanto a minha visita termina de temperar a salada, almoçamos com calma.

O trabalho?! Esse passa a ser em part-time, três horas por dia que rendem mais que um dia inteiro dos que tenho hoje. Da parte da tarde depois do almoço e da sesta, nado e mergulho um pouco, aproveito o sol e escrevo, escrevo totalmente inspirada, sem preocupações. Paro para uma caipirinha e um lanche, coloca-se música ambiente, existe um ar molhado no ar, a chuva está prestes a cair, cai sempre ao fim da tarde. Recolhemos-nos no pátio, debaixo do telheiro e dançamos um pouco antes do jantar, enquanto a chuva embala os nossos movimentos.

Nunca chove durante muito tempo, mas chove sempre todos os dias. Deixa no ar um cheiro que a água liberta da terra e que nos faz ligar a ela, que nos obriga a reconhecer esse cheiro maternal, que nos obriga a sentir humildes, de nos recordar que somos filhos da terra, que dela viemos e que um dia a ela voltaremos.

Jantamos algo preparado por mim, talvez uma comida tropical com óleo de palma, coco e gengibre, jogamos às cartas, conversamos, bebemos um pouco, dançamos até tarde. Fazemos amor até o sol nascer.

Sim, são estes os pensamentos que me acalentam as noites frias do Inverno. É com eles que eu alimento a minha imaginação e coloco no meu espírito aquela acendalha que alimenta a esperança, a esperança de que um dia, talvez seja possível.

Um dia!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Por vezes tenho dificuldade em entender a razão das coisas. Ontem, aconteceu, mais uma vez.

Ouvi uma música que já devo ter ouvido centenas de vezes, mas ontem, sem haver nenhuma razão aparente, prestei mais atenção à letra e ela bateu tão fundo na minha alma, tão fundo, que simplesmente as lágrimas correram pelo meu rosto, em pleno comboio em direcção a casa, depois de  mais um dia de trabalho.

Depois de ter digitalizado a letra, acabei sem perceber o porquê, sem saber a razão de tal fenómeno. Não existe nada no presente que pudesse ter feito com que eu sentisse algum tipo de nostalgia e sinceramente o passado já esta tão longe, morto e enterrado, que não vejo ligação. Terei eu tido uma crise empática, por algo que possa vir a acontecer?!

Bem, sem ter chegado a uma conclusão deixo-vos aqui a letra da dita música:

Porque foste na vida,

A última esperança.

Encontrar-te me fez…

Criança!

Porque já eras meu,

Sem eu saber sequer.

Porque és o meu homem

E eu, tua mulher!

Porque tu me chegaste,

Sem me dizer que vinhas,

E as tuas mãos foram minhas,

Com calma!

Porque foste em minha alma,

Como um amanhecer.

Porque foste o que tinha,

De ser!

Porque foste na minha alma,

Como um amanhecer.

Porque foste o que tinha,

De ser!

“O que tinha de ser!”, Vinicius de Morais.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

… Que é que podia ser mais?! Para o Natal, é claro!

O frio já se faz sentir; os casacos e cachecóis, são uma realidade incontornável; os miúdos de manhã, quando vão para a escola já parecem uns esquimós; já se testam as luzes; já se ensaiam decorações; o cheiro das castanhas a assar nos carros da rua, já fica perdido na humidade fria do ar e alguns lares já se preparam para a grande festa da família.

Tenho que admitir que este ano foi complicado entrar no espírito, mas desde Sábado que a engrenagem foi iniciada e já estou em Modo Natal. Já comecei a preparar e organizar os jantares com os amigos e a marcar encontros para a escolha do amigo secreto.

Ah! Tu que sabes quem és, obrigada por cederes a casa para o jantar, assim juntamos toda a gente num dia só e poupamos três jantares de engorda em restaurantes, para podermos estar com todos!

No dia 1, o tradicional passeio a Sintra, já está combinado. Quero ver quem vai faltar este ano! No dia 8, montar as decorações, cujo tema é, este ano: Neve na floresta encantada. (aguardem pelas fotos). E depois, só falta mesmo acabar de comprar o que ainda não comprei e fazer os embrulhos

Sim eu sou daquelas loucas que desmancha os embrulhos das lojas e que gasta, por vezes, mais na embalagem do que no presente. A ideia é dar uma lembrança, demonstrar o quanto gosto e me preocupo com as pessoas e não, ficar sem dinheiro na conta.

30 dias para o Natal, a contagem decrescente começou!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Não sei se vocês já se deram ao trabalho de reparar, que sempre que problemas e casos que envolvem o nosso Primeiro Ministro, chegam à comunicação social, existe também e em tempo real, um hastear de grandes bandeiras que têm de ser defendidas na Assembleia da Republica?

Há uns tempos atrás, durante o caso Freeport, foi a bandeira do Aborto, uma prioridade absoluta do governo: fazer, ou não referendo; aprovar ou não a lei. Agora que a corrupção e o desemprego estão à solta, aparece a bandeira do Casamento Gay, assunto prioritário para ser resolvido em início de mandato e à frente de tantos outros assuntos importantes e prioritários para a Nação.

Se virmos a coisa por outro prisma, sempre podemos supor que o Casamento Gay é prioritário, pois permitirá criar um novo nicho de oportunidades de emprego e desenvolvimento do empreendorismo no mercado: Afinal de contas, alguém terá que desenvolver e criar, usos e costumes para a realização das cerimónias. Creio que o Presidente da República, ficaria muito feliz, com tal desenvolvimento!

Até quando os eleitores portugueses, vão continuar a cair em tamanha manobra barata de marketing político? Até quando?!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

 

Hoje fui ao centro de saúde da minha área e fiquei gravemente preocupada, não pelo tempo interminável para ser atendida, não pela falta de profissionalismo dos assistentes administrativos, nem pela total desorganização de horários, por nada disso.

Fiquei preocupada porque em todos os lugares, supermercados e centros comerciais, existem dispensadores de desinfectante para as mãos, de forma a que as pessoas possam diminuir os riscos de propagação da gripe A, tal como dizem os cartazes espalhados por todos os lados, incluindo nos painéis de aviso do dito Centro.

No entanto, fui até ao quarto de banho e nem um sabão macaco, um sabão azul e branco, um vestígio que seja, de alguma coisa para lavar as mãos, que não a água.

Em cima da secretária do segurança, que fica em frente da porta  ao lado da máquina do café, o mesmo lugar onde os promotores farmacêuticos têm por hábito abancar arraiais, está uma folha A4 que diz:

Se pensa que tem gripe A, desinfecte as mãos e coloque a máscara, antes de se dirigir aos balcões.

Obrigado,

Eu por acaso vi a dita folha e por cima dela, um frasquinho de desinfectante e uma caixa com máscaras, mas apenas porque me apeteceu um café durante as quatro horas que ali passei e tive que furar por entre aqueles espécimes todos para conseguir um.

Estamos a brincar, certo?!

domingo, 15 de novembro de 2009

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Sei que é romântico ouvir a chuva cair lá fora enquanto se está dentro de casa, a beber um copo de vinho e a ver a lareira crepitar, abraçado a quem se ama e essas coisas todas, mas a verdade?!

Estou cheia de saudades do Verão!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

 

Uma casa, um pouco mais afastada de todas as outras, no meio do campo. Uma enorme janela de parede a parede que dá para um jardim silvestre, onde uma árvore se destaca de todas as outras. Destaca-se porque é grande, mais antiga mais sábia. Ela soube aproveitar tudo aquilo que a terra lhe deu e cresceu saudável, dobrando-se ao vento para não quebrar.

Está vento, muito vento, na verdade. Dentro do aconchego da casa, sentado de lado num cadeirão, olhando para a magnífica árvore, está ele. Chegou a casa do emprego, mas não está cansado. Há anos que tenta aprender a tocar uma espécie de viola, guitarra, ou cítara, algo que ele encontrou um dia num mercado numa das suas viagens, que lhe disseram ter origem chinesa. Ele faz as cordas vibrar e espera que um dia, os sons que dela saiam façam sentido e sejam harmoniosos. Não tem pressa, é apenas um passatempo, tal como olhar para a árvore, ver como ela resiste ao vento, apenas sendo flexível e forte.

Um dia ele espera vir a ser igual àquela árvore, tão sábio quanto ela, tão honesto, forte e flexível como ela.

Por enquanto contenta-se por poder observá-la, enquanto arranca da guitarra chinesa um sons dissonantes. Quem sabe se não deveriam ser assim?!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DSCF0769… seria não poder dizer o que penso. 

Ficar com ideias presas a matutar, a saltar à corda de saltos altos no sótão da minha cabeça, é uma tortura digna de filme de guerra, ou da Santa Inquisição.

Graças a Deus que inventaram os blogs!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


homens2 Não sei de quem é a autoria deste livro de auto ajuda, mas achei estas passagens tão sensacionais e tão próximas daquilo que me dá prazer, que não pude evitar colocar aqui, algumas das técnicas infalíveis para dar muito prazer a uma mulher:

Técnica nº 1:   Mãos Molhadas

Faça a sua parceira sentar-se numa cadeira confortável na cozinha. Certifique-se de que ela consiga ver muito bem tudo o que faz. Encha o lava-louça com água e adicione algumas gotas de detergente aromatizado para louça.. Segurando uma esponja macia, submerja as mãos na água e sinta a sua pele ser envolvida pelo líquido até que a esponja esteja bem molhada...

Agora, movendo-se devagar e gentilmente, agarre num prato sujo do jantar, coloque-o dentro do lava-louça e esfregue a esponja em toda a superfície. Vá esfregando com movimentos circulares até que o prato esteja limpo.

Passe por água limpa e coloque-o a secar. Repita com toda a louça do jantar, até a sua parceira ficar a gemer de prazer.

Técnica nº 2:  Vibrar pela Sala

É um pouco mais difícil do que a primeira, mas, com algum treino, fará a sua parceira gritar de prazer.
Cuidadosamente, vá buscar o aspirador no sítio onde fica guardado. Seja gentil, demonstre-lhe que sabe o que está a fazer. Ligue-o na tomada, aperte os botões certos na ordem correcta. Vagarosamente, vá movendo para frente e para trás, para frente e para trás... por toda a carpete da sala. Saberá quando deve passar para uma nova área. Vá mudando gradualmente de lugar. Repita quantas vezes forem necessárias, até atingir os resultados pretendidos.

Técnica n° 3: Camisa Molhada

Este joguinho é bem fácil, embora precise de mente rápida e reflexos certeiros. Se for capaz de administrar correctamente a agitação e a vibração do processo, a sua parceira falará da sua performance a todas as amigas.

Precisará apenas de duas pilhas de roupa: uma com as roupas brancas, outra com as coloridas. Encha a máquina de lavar com água e vá derramando gentilmente o detergente dentro do compartimento para o efeito (para deixar a mulher ofegante, use exactamente a quantidade que o fabricante recomenda).

Agora, sensualmente, coloque as roupas brancas na máquina... uma de cada vez.... devagar. Feche a tampa e ligue o "Programa completo". A sua companheira ficará extasiada. No fim da lavagem, retire as roupas da máquina e estenda-as a secar. Repita a operação com as roupas coloridas....

Técnica nº 4: O que sobe, desce

Esta é uma técnica muito rapidinha, para aqueles momentos em que quer surpreendê-la com um toque de satisfação e felicidade. Pode ter certeza, ela não vai resistir. Ao ir à casa de banho, levante a tampa da sanita. Ao terminar, baixe-a novamente. Faça isto todas as vezes. Ela vai precisar de atendimento médico de tanto prazer.

Técnica nº 5: Gratificação Total

Cuidado: colocar em prática esta técnica pode levar a sua companheira a um tal estado de sublimação, que depois será difícil acalmá-la, e pode haver riscos irreversíveis para a saúde da mulher. Esta técnica leva algum tempo para ser aperfeiçoada. Empenhe-se com afinco. Experimente sozinho algumas vezes durante a semana e tente surpreendê-la numa sexta-feira à noite. Funciona melhor quando ela trabalha fora e chega cansada a casa.

Aprenda a fazer uma refeição completa. Seja bom nisso. Quando ela chegar, convença-a a tomar um banho relaxante (de preferência aromático, numa banheira de água morna já previamente preparada por si).
Enquanto ela estiver lá, termine o jantar que já terá adiantado antes dela ter chegado a casa.

Depois que ela ficar relaxada com o banho e saciada com o jantar, execute a Técnica nº 1.

Preste atenção à sua parceira, pois o estado de satisfação será extremamente alto!!!


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

 

ROSA-COSTASEla desabotoa as calças cinzentas com listas pretas que vestia e deixa-as cair, sentindo o suave tecido acariciar a sua pele nua. Sente-o sorrir, se é que isso é possível, e sorri também. Levanta os pés, suavemente, um depois do outro e vê-se livre, com uma displicência controlada, daquela peça de vestuário, empurrando-a para debaixo da cama. Ela nada mais faria, tudo o que se passasse a seguir seria da autoria dele.

Ele sabia que era a sua vez de agir, havia chegado o momento e convinha a si mesmo, não prolongar mais aquele hiato. Levantou o seu braço esquerdo e com a mão desse mesmo lado acaricia o fino pescoço que a sua mão conseguia quase contornar na totalidade. Puxa-a até si e com a mão direita abre os botões da blusa, livra-se dela, ao mesmo tempo que com a échàrpe que ela deixara no chão, acaricia suavemente a pele daquele corpo macio que era seu. Aperta-lhe um pouco mais o pescoço e sente-a estremecer de encontro ao seu corpo. Com o braço direito, o mesmo que ainda mantinha o lenço, levanta-a do chão e atira-a para cima da cama.

Ela sai rapidamente da posição desamparada em que caíra no colchão e senta-se no centro da cama, joelhos juntos e elevados e braços a suportarem o seu peso, atrás das costas. Ela sabe que os contornos do seu corpo nessa posição o deixam louco; os ossos dos seus ombros ficam mais visíveis, ligeiramente virados para a frente, o seu peito ganha contornos mais arredondados por os seus seios ficarem mais próximos um do outro, as suas longas pernas parecem, teimosamente, querer impedi-lo de chegar aonde ele quer. Quase sente a vontade de rir por saber que naquele momento, apesar da disparidade da força física entre os dois, é ela quem comanda cada movimento dele.

Ele sobe de joelhos para a cama, agarra os tornozelos dela e sente as pernas estremecerem ligeiramente ao seu toque. Tenta afastá-las enquanto as puxa para baixo, mas ela resiste-lhe. Ele sorri e não insiste. Acaricia-lhe a pele com a sua mão, sobe delicadamente até ao ventre liso, sobe depois até ao peito, aonde ele sabia que duas coisas poderiam acontecer: ou ela permitiria que ele os libertasse da força da fina renda, deixando-os livres para ele brincar com eles, ou ela teria que usar os seus braços, os mesmos que permitiam que ela tivesse força para lhe resistir, para o impedir.

Ela não iria permitir que fosse assim tão simples e tenta impedi-lo de lhe acariciar o peito. Confiando na sua força abdominal, usa os braços para impedir as mãos dele e ele solta uma gargalhada curta. Ela adorava prolongar este género de jogos, mas ele tinha outras intenções, pelo que, com movimentos rápidos, atou-lhe os pulsos com a échàrpe e esta à cabeceira da cama. Ela ainda se debateu, ele admirava a força dela, sobretudo a forma como ela o virava, levantava e expulsava-o da cama, apenas com as pernas, as costas e a barriga.

Assim que ela sossegou, ele saiu do quarto. Ela antecipava o que iria ele fazer a seguir. Ouve um botão a ser ligado. A porta do frigorífico a abrir e a fechar. Sente-o entrar no quarto, a deitar-se ao lado dela. Ela espera o corpo dele junto do seu a qualquer momento e fecha os olhos.

Ouve um click, uma luz intermitente que se acende no quarto. Ela abre os olhos, repara em primeiro lugar na televisão acesa aonde estava a emitir um jogo de futebol, olha depois para ele que sustém no rosto um sorriso de vitória, na mão esquerda o comando da televisão e na mão direita uma sandes de qualquer coisa. Solta um enorme suspiro de decepção.

- O que foi?! – pergunta-lhe com ar de menino traquina e ela revira-lhe os olhos – Soubeste fazer-me desesperar o dia todo, tenho a certeza que saberás também esperar até ao fim do jogo.

Ela ri-se da sua derrota e vê o jogo com ele.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

 

mulher_deitada (1) Ela enviou uma sms dizendo que estava a descer as escadas, o que geralmente era sinal para ele abrir a porta e com efeito assim foi. Chegada ao prédio a porta estava aberta e ela entrou, mas algo naquela noite lhe avisava que alguma coisa não iria correr como o habitual. Sentia um vazio apertado, se é que isso faz algum sentido, no seu estômago, deixando-a expectante e nervosa. Talvez fosse apenas uma impressão, ou um secreto e involuntário desejo que algo realmente acontecesse. Ela sabia que tinha sido mazinha com ele à hora de almoço: mantivera-se distante e altiva, esquivou-se de todos os seus avanços e recusara todos os seus beijos. Ela sabia que havia cultivado nele um sentimento de vingança e que ele lhe faria pagar caro a brincadeira. Na realidade, ela assim o planeara, mas encontrava-se agora um pouco apreensiva quanto ao que a esperava.

Desceu os dois lances de escada que a conduziam ao apartamento dele, com um nó nas entranhas e parecia experimentar, a ver se era sólido, cada um dos degraus antes de pousar cada um dos seus pés. Nunca fizera aquele percurso de forma tão lenta e tão pouco vigorosa. Viu-se em cima do tapete, pensou que se aquele relacionamento se mantivesse por mais algum tempo, lhe teria que oferecer um novo, aliás teria que lhe decorar a casa, pois isso parecia ser algo, no qual ele não tinha o menor gosto. Definitivamente, seria um trabalho ao qual se teria que entregar no futuro. A porta estava encostada, bastaria ela encostar, ligeiramente, a sua mão, para que a mesma se deslocasse para dentro e ela pudesse entrar. Esticou molemente o braço, abriu a palma da mão e encostou-a contra a madeira a precisar de verniz. Respirou fundo e depois, exercendo uma ligeira pressão, viu a porta comportar-se como previra.

Entrou com o pé direito primeiro, como se aquele gesto supersticioso fosse imperativo naquele momento. Estava tudo escuro e a sua respiração pareceu ficar paralisada. Fechou a porta atrás de si e pensou que se tirasse os sapatos não se denunciaria a quem a esperava no escuro e assim o fez. Silenciosamente alcançou a cozinha e com a pouca luz que entrava por umas brechas mal fechadas dos estores, não conseguiu ver ninguém. Dirigiu-se então à sala, mas ainda no corredor, a ideia de acender a luz pareceu-lhe inteligente. Correu com a palma da mão a parede, procurando o interruptor. O silêncio era aterrador. Sentindo uma saliência plástica no meio do estuque macio, o seu corpo sorriu pensando em vitória, no entanto, no exacto momento em que percebeu que ao movimentar o interruptor, as luzes não acendiam, acabou por sentir uma estranha sensação de orgulho, por ter escolhido alguém que havia sido inteligente o suficiente, para desligar o quadro. O jogo começava a agradar-lhe. Dirigiu-se confiante para a sala e, mais uma vez, não encontrou ninguém.

Aquilo criava alguma adrenalina e ela excitava-se com o inesperado, com o medo, com o perigo. Retornou ao corredor, mas desta ficou com a sensação de que alguém estava lá. Reprimiu o seu sensor aranha, ignorou o arrepio na nuca e avançou em direcção ao quarto. Sabia que ninguém lá estaria pois quem ela procurava encontrava-se por trás dela. Com esse conhecimento ganhou outra coragem e com ela livrou-se da échàrpe que trazia ao pescoço, deixando-a cair no chão à frente da porta por onde tinha entrado há alguns minutos atrás. Despiu o casaco, que teve o mesmo destino que a peça de roupa anterior: o soalho flutuante que cobria o chão. Apenas uma blusa de seda pérola e umas calças de fato separavam-na da nudez.

Questionava-se se ele se aperceberia dos seus gestos na escuridão, se o facto de se estar a despir aumentava nele algum tipo de excitação. Por instantes pareceu-lhe ouvir a sua respiração mas depressa apenas o silêncio pontuado pelo seu próprio coração a bater, voltou.

Encostou-se à porta do quarto, antecipando o que se iria passar. Qual seria o gesto que ele usaria para a abordar, se estaria ainda, ou não vestido?! O seu coração batia descompassadamente. Atreveu-se a entrar. Sabia que ninguém estaria lá, mas mesmo assim ficara com a sensação de que fora necessária uma grande dose de coragem para dar aquele passo. Aproximou-se dos pés da cama e estagnou, qual estátua de mármore num museu, pensando no que deveria fazer a partir dali. Aquela antecipação, aquele compasso de espera, deixavam-na louca. Ele estava a levar aos limites, toda aquela encenação.

Sentiu finalmente um leve movimento, mas tão suave que se diria que de um pequeno gato se tratava. A respiração húmida e quente dele, foi o primeiro contacto. A sua pele voltou a arrepiar-se. Ele mantinha-se a poucos centímetros dela, ela conseguia sentir a sua energia, o poder maciço do seu corpo masculino, mas ele não a tocava. Mantiveram-se assim por alguns segundos, ela fingindo que ignorava a presença dele e ele controlando a sua vontade de simplesmente a abraçar, de lhe tocar, de a ter por inteiro para si.

(Continua…)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

 

Mulher_deitada Adoro a forma como me olhas, mesmo quando te ordeno que não o faças.

Adoro a forma como me tocas, mesmo quando imploro que pares.

Adoro o teu jeito meio ingénuo de ser, mesmo quando parece que gozo contigo.

Adoro que digas que me amas, mesmo que nunca o diga de volta.

Adoro a forma como deixas o meu corpo a tremer, em doces contracções, mesmo depois de eu te ter dito que não queria nada contigo.

Adoro sentir a tua barba por fazer roçar na minha pele despida, sentir o teu rosto no meio das minhas coxas, sentir o quente da tua respiração no meu pescoço, sentir os teus lábios cobrirem o meu corpo com beijos.

É verdade que tudo isto adoro, mas… Mas não te envaideças pois, por natureza, eu adoro adorar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

 

2696299Ele estava-lhe grato pela ajuda que ela tinha prestado, mas preocupava-se com o que estava a acontecer. Teria sido uma coisa mútua? Estariam os dois a passar pelo mesmo fenómeno? Estaria também ela, a apaixonar-se por ele? Algo acontecia, ambos sentiam, mas seria o mesmo para os dois? Ela recompôs-se. Não era só a emoção que a fazia desfalecer, ela já nada comia há alguns dias. O stress que ela tinha vindo a sofrer por parte das pressões de Claude, fizeram-na perder o apetite, quase por completo e agora...bem agora, nem sequer é preciso explicar.

Eles olham-se profundamente. Ela penetra na floresta verdejante que são os olhos dele. Pensa como ele cheira ao que os seus olhos são. Ele cheira a musgo, a rocha, a eucalipto, o mesmo que ela via nos seus olhos. Ele, por sua vez, observa as estrelas brilharem no céu escuro da noite, que são os olhos dela e também ela cheira a rosa em noite de luar. Ambos entram num lugar em que tudo pode acontecer, onde tudo é compreendido e perdoado, mas nenhum deles se sente à vontade com isso. Não agora. É muito cedo para perceberem e acabam por sair de lá, mais depressa do que lá chegaram. Ela desmaia e ele leva-a para a tenda, com a mesma devoção, com que tinha feito na primeira noite, quando a salvou das mãos dos seus companheiros.

Ela acorda com o seu cheiro forte de homem, mas não abre os olhos. Ele, sentado na cama, abraça-a com os seus braços e mantém-na junto de si, como se de um bebé se tratasse. A tarde estava abafada e parecia Verão de novo. Nenhum dos dois consegue explicar o que sente. Ela abre os olhos. Ele nunca vira nada tão brilhante. Os seus lábios tremem, numa vontade incontrolável de se beijarem, mas não o fazem. Ambos estão habituados a controlarem os seus impulsos.

- Porque é que foste ter comigo ontem à noite? – pergunta-lhe baixinho, como convinha ao momento que partilhavam.

- Senti-me culpada. Você tinha um papel a interpretar e não o conseguiu por causa de mim. – ele era lindo e ela teve a plena certeza disso, naquele momento. Ele até podia passar despercebido aos olhos de outras mulheres, mas para ela, ele era tudo o que ela sempre tinha esperado.

- Que idade tens? – ela não se esquece que ainda é prisioneira dele e não lhe responde – Porque é que me ajudaste?

- A minha mãe já sofreu muito e não precisa de sofrer ainda mais. Eu prefiro que ela pense que eu estou com o Claude, do que se angustie pela incerteza do meu paradeiro. – ela pensou um pouco – Pela primeira vez, uma mentira parece-me mais apropriada, que a verdade. Eu não o fiz por si, fi-lo por ela.

Essa era a verdade, ela não o tinha feito por ele, apenas pelo bem estar da mãe, que ela amava acima de tudo na sua vida. Algo se passava entre os dois, mas tudo parecia mais claro e lógico na mente dele, do que na dela. Ele já sabia que a amava, ele ainda não o chamava amor, mas sabia que era algo mais complexo do que nas paixões a que estava habituado. Ela, ainda nada percebia. A única razão para as suas acções era a sobrevivência, a sua sobrevivência.

Ele deitou-a e saiu. Voltou, pouco depois, com uma caneca de chá com açúcar. Ele sabia muito bem o que ela tinha. Ela bebeu em golos pequenos, tal qual uma princesa. Só agora ele se apercebia que ela vinha de uma classe social elevada. Os modos dela, a maneira de andar, a forma como prende o cabelo à cabeça, o tratamento cerimonial e a linguagem cuidada. A casa em Côte D’Azur. Ela era muito diferente dele. Vinham de mundos completamente diferentes.

- Sabes que não tens como escapar, não sabes?

Ele queria que ela se entregasse sem resistência, seria tudo muito mais fácil para ele. Ela acena que sim. Ela tem a consciência que não vai sair dali, começa mesmo a desconfiar, que provavelmente, não faz parte dos planos deles, que ela continue viva depois da missão, seja ela qual for. Mas ela não tem intenções de se subjugar. Ela cumprirá a sua parte naquela farsa, ela sobreviverá e cicatrizará todas as feridas do seu corpo e irá fazer tudo, mesmo tudo, para que a sua alma se mantenha ilesa. Alguém uma vez lhe disse: As feridas do corpo cicatrizam com o tempo, mas as da mente, duram o resto da vida. Ela levava essa máxima à letra e nunca deixava espaço, para se arrepender depois.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

 

Estava no outro dia a tomar um café com uma amiga, ainda casada e já com dois filhos, quando a inevitável pergunta chegou:

 

 

 

- Então e tu?! Quando é que voltas a casar e trazes ao Mundo mais umas almas?! – assunto que eu tentei educadamente ignorar, respondendo:

- E desde quando, para trazer almas a este mundo, preciso de me voltar a casar?

- Ah! Lá estás tu! – despachou incomodada na sua moral fechada e tradicionalista, dando um golo no seu capuccino. – Mas com toda a certeza deve haver um tipo de homem que te encha as medidas, ou não? – encolhi os ombros na esperança de que se nada dissesse, o assunto mudasse para outra coisa qualquer – Tu não me encolhas os ombros, que já te conheço há tempo de mais para me deixar levar por essas tuas manhas. Que é que tu pretendes num Homem?

- Não percebo a tua pergunta, pois não há nada para pretender.

- Tu sabes o que eu quero dizer: Quais são os requisitos da tua lista para que um homem pudesse arrebatar essa pedra que tens no lugar do coração? – aquilo começava a ser o limite que eu iria aceitar daquela conversa, pelo que dividi a minha resposta em três partes:

- Em primeiro luar, se o meu coração fosse uma pedra, eu não estaria aqui a falar contigo, se a ideia era realizar uma metáfora para o facto de não me apaixonar feita uma galinha tonta, erraste o órgão, pois devias ter falado do cérebro; quanto aos requisitos, reduzem-se penas a um. – deixei a questão no ar, pois precisava de me lembrar de um que fosse, de certa forma, inteligente, o que nem sempre é fácil para mim.

- E estás a pensar partilhar?! – lembrei-me de um filme do Harrison Ford e disparei:

- O meu tipo de Homem, seria um, em que numa ilha deserta e apenas com um canivete suíço, fosse capaz de construir um palácio.

- Assim não arranjas nenhum! Estás a pedir de mais de um mísero Homem. – afirmou da sua forma peremptória.

- Amiga, se te consegues contentar com menos, isso é apenas um problema teu, agora eu não me vou contentar com alguém que não consiga, no mínimo, fazer o mesmo que eu.

Escusado será dizer que a conversa mudou automaticamente para as cólicas que a Joaninha tinha tido na noite anterior.

Desculpem todos aqueles que acham que fui má para uma amiga que apenas estava preocupada comigo, mas sinceramente, eu não tenho que me contentar com menos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

“Odeio falar ao telefone!”

SONY DSC Sei que nos dias que correm é quase ridículo fazer tal afirmação, mas é a mais pura das verdades. Se não fosse o facto de serem tão úteis em casos de necessidade, nem teria um, nem fixo nem móvel, simplesmente não teria.

Sempre admirei as pessoas que falam ao telefone durante horas a fio, que conversam sobre tudo e sobre nada, que contam as novidades da vizinhança, que relatam cada segundo do seu dia, incluindo quantas vezes foram à casa de banho, sobre o episodio da telenovela da TVI, na noite anterior, sobre a telenovela da SIC e do filme que viram no Domingo à tarde.

Sempre admirei as pessoas que ficam horas a namorar ao telefone: “Meu amor, isto!”; “Meu amor, aquilo!”; “Beijinho, para aqui”; “Beijinho para lá”; “Amo-te muito, meu amor!” (algo que é, aliás, um pleonasmo) e enquanto isto, estão a comer, a ver televisão; em voz alta com os amigos; no quarto de banho; a limparem o nariz; a jogarem consola.

Não quero com isto dizer que não gosto de falar, antes pelo contrário, adoro uma boa conversa, estar horas com os amigos e falar sobre tudo e mais alguma coisa, mas ao vivo e a cores, em carne e osso, onde podemos ver e sentir a reacção de cada um ao que se está a falar, onde existe movimento corporal, onde os olhos falam tanto, ou mais, que a boca, os lábios e a língua.

Até mesmo algo escrito tem para mim mais valor que um telefonema. ao menos, o acto de escrever implica uma acção em vários actos: primeiro sente-se; depois raciocina-se; codifica-se em linguagem e depois, sem fazer uma segunda coisa simultânea, pois escrever implica concentração, escreve-se, passa-se para o papel, para o pc, ou até mesmo para o odioso “Smal Message Service”.

O Telefone por sua vez deve ser algo a ser usado em caso de urgência, em comunicações curtas e pontuais. Pequenas combinações, para marcações, ou desmarcações, ou para a típica pergunta, talvez a que melhor caracteriza os nossos tempos:

- Aonde é que estás?!

Que é geralmente seguido com o:

-  Deixa estar que já te estou a ver!

Que se segue, por sua vez, com o típico desligar do telemóvel na cara.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

DSCF1672 Adquiri há pouco tempo m micro-portátil que anda comigo para todo o lado, o que, acreditem ou não, diminuiu o peso na minha carteira em meio quilo ou mais, pois deixei de andar com cinco cadernos A4, de um lado para o outro.

Acontece que a bateria dura pouco mais que três horas e volta e meia, quando a inspiração bate, tenho que recorrer aos guardanapos, lenços e papel higiénico.

Parece que não existe mesmo excepção há regra no ditado:

Não há bela sem senão!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Paraíso infernal Tenho tido algum peso na consciência, porque havia começado um outro blog, que deveria conter uma das minhas histórias já terminadas, mas no entanto, tinha-o sob um pseudónimo e isso deixava-me algo inquieta, pois não gosto de coberturas, ou falsas personalidades. Eu sou quem eu sou, e isto é o que eu escrevo: quem gosta lê, quem não gosta não lê.

Finalmente, redecorei o blog e recomecei, capítulo a capitulo a dar a conhecer a viagem fantástica de um grupo de 9 pessoas muito especiais, que vivem as suas dúvidas, sentimentos e paixões, numa situação muito diferente à que estavam habituados. Uma situação limite, que os levará a fazer uma viagem interna, na qual irão conhecer outras personalidades que desconheciam.  Uma história repleta de sentimentos, aventura, perseguições, sexo, amores incompreendidos e uma profunda descoberta de quem somos.

Espero que gostem, ou pelo menos, que não se sintam entediados enquanto lêem esta minha primeira tentativa de livro.

http://oparaisoinfernal.blogspot.com/

sábado, 3 de outubro de 2009

 

Uma vez, há muitos anos atrás, numa conversa com uma amiga, estava a contar-lhe que estava muito envolvida com alguém. Que me sentia a apaixonar  por um rapaz que eu achava que seria o meu futuro marido e pai dos meus filhos. Algo que se veio a concretizar por metade (não podemos ter tudo).

Tratava-se de uma conversa típica de adolescentes, no entanto, ela fez-me uma pergunta que me deixou algo desconcertada:

- Trata-se de amor, ou luxúria?

- Existe diferença?

- Creio que sim.

- E qual é?

- Acho que no amor, o importante é dar, enquanto que num estado de luxúria, queremos sempre tirar, tirar tudo do outro, retirar o máximo proveito de forma egoísta, para proveito próprio. – fiquei a pensar no que ela me disse – O que é que tu sentes: Vontade de dar, ou simplesmente de receber?

- Na verdade, um misto de ambos.

- Como assim?

- Tenho vontade de lhe dar, dar muito amor e carinho, dar compreensão e oferecer a minha amizade incondicional, dar-lhe o meu corpo, oferecer-me por inteiro, entregar nas suas mãos a minha alma.

- Então é amor!

- De certa forma… Mas não posso dizer que seja só isso. Eu quero algo em troca.

- O quê?

- Quero o corpo dele, quero sentir o calor que ele transmite enquanto me abraça, quero sentir continuamente o prazer que faz estremecer o meu corpo, quero sugar dele o último fôlego com os meus lábios. Quero retirar-lhe tudo, enquanto dou tudo de troca. – ela desatou a rir. – O que foi?

- Tu queres é ir parar ao Inferno. Estás possuída!

Não me perguntem porque me recordei disto agora, mas estava a pensar na minha adolescência e a ver umas fotografias de quando tinha 15 anos, quando esta conversa saltou da caixa de recordações que se encontra algures no meu cérebro. Há coisas assim!

domingo, 27 de setembro de 2009

Todos sabemos que o povo português tem uma grande capacidade para a tristeza, para o destino, para a melancolia, enfim, para o Fado.

E todos sabemos que no fado, a dor e o espírito de sacrifício é glorificada,  e a forma heróica em como se suporta   as punições e as contradições da vida, são caminhos seguros para a santificação. Os que amam quem lhes bate, são considerados santos, pessoas de grande valor.

Cheguei à conclusão, que é impossível fugirmos desse código inscrito no nosso DNA e apenas isso explica o facto de os portugueses terem voltado a votar em alguém tão execrável, incompetente, autista e detestável, como o ainda e novamente primeiro ministro.

Existe um enorme lugar no céu, para todos os santos que existem em Portugal.

sábado, 26 de setembro de 2009

 image001

…ninguém gostou da nova decoração da minha casa, pois nem sequer um comentáriozinho, sobre o assunto…

Já havia reparado o quão parcos andavam nessa área, mas não comentar a mudança de visual, que tanto trabalho me deu, é quase ofensivo!

Amuei…

quinta-feira, 24 de setembro de 2009


Threesome_With_2_MenEstive recentemente a ler um livro de antropologia, que focava, essencialmente, o tema do casamento e as suas variantes, tradições e usos, tanto ao longo do tempo, como  nos diversos países.

É lógico, que na maioria do planeta, as tradições têm tido uma tendência para obedecer às restrições criadas pela Aldeia Global e o ritual do casamento está a tornar-se muito semelhante em quase todas as culturas.

No entanto, existe uma tribo na Nigéria, os Wadabee, que têm certos preceitos sociais, quanto à corte e escolha de noivas, para além de certos hábitos que acho muito interessantes   para todas as mulheres que têm alguma dificuldade em escolher um, entre vários pretendentes. Mas já me estou a adiantar de novo.

Reza então o antropólogo, que os rapazes dessa tribo, usam uns amuletos especiais,

não perde muito tempo na descrição dos mesmos e eu vou perder menos ainda…

que têm como objectivo, atrair a atenção das suas primas e amigas.

é enfatizado ao longo de toda a descrição o facto de haver primas e primos à mistura, pelo que subentendi, que a sociedade é tão fechada, que todos os jovens acabam, de uma forma ou de outra, por ser parentes!

Mas o melhor está para vir. Descreve o mesmo senhor, que é comum, existirem dois primos, ou amigos chegados, que pretendam atrair a atenção da mesma jovem, pelo que nesse caso e na falta de mais pretendentes, cabe à mulher escolher o que acha mais apropriado para seu futuro marido.

até aqui, nada de muito diferente da nossa sociedade ocidental!


No entanto, o pretendente preterido, segundo ditam as regras de boa convivência e educação daquela sociedade, deve ser convidado, por ambos os nubentes, a ser o padrinho do casamento.

seria tudo muito normal, se ficasse por aqui, mas não!

Para além de padrinho, ditam os costumes, que o casal deve utilizar de todos os recursos, para o manter como o melhor amigo, convidá-lo a frequentar a casa e até a sua cama. Tudo isto como forma diplomática de evitar que o primo/amigo preterido não deseje má sorte ao casal, atraindo dessa forma, má sorte a toda a tribo. Este arranjo temporário, deverá terminar, quando esse jovem se interessar por outra mulher e com ela casar.

Realmente, andamos nós na Europa a matar golfinhos como ritual de passagem, como se fossemos seres muito evoluídos, quando existem sociedades perdidas pela África interior, que nos ultrapassaram à velocidade da luz…

Apenas uma coisinha para pensarem durante o fim de semana.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

 

1838259 … Quando estava a fazer a minha caminhada do Rossio aos Anjos, na direcção do suplício que, bem ou mal, vai pagando as contas, um rapaz atira um piropo, que para mim era, totalmente, novo e que por instantes pensei mesmo ser um insulto:

- Estás bala, hoje!

Eu ouvi, mas não processei com a rapidez necessária, até que três passos mais à frente, (não sei quantos passos foram, mas três pareceram-me mais literários), dei-me conta do substantivo, que ele utilizou como qualificativo, para com a minha pessoa. Parei a marcha apressada e voltei atrás, retirei os auscultadores do mp3 dos meus ouvidos e reparei no aspecto assustado do rapaz, por eu me estar a dirigir a ele. Com toda a certeza, não deve ser habitual, as raparigas a quem ele solta piropos, voltarem atrás para falarem com ele, mas hei! Eu não sou uma rapariga qualquer! As suas faces roborizaram um pouco, quando eu finalmente, acabo por lhe perguntar:

- Bom dia!

- Bom dia! – sorri.

- O que quer dizer “bala”?! – despacho curiosa

- Quer dizer que podes matar um homem, mesmo só de raspão… – responde pouco convicto e eu:

-Ah, OK! Então acho que tenho que dizer obrigada, não é?! – ele sorri tímido, algo que contrasta com a desenvoltura com que havia soltado o exótico elogio segundos antes. -  Tem um bom dia, então! 

Ele desmancha-se a rir, talvez por nervosismo, ou então pelo facto insólito que teria para contar aos amigos e eu retomo o meu passo apressado para o escritório, com os auscultadores de novo nos ouvidos e com um sorriso de orelha a orelha. Sim porque não há nada melhor para fazer uma mulher sorrir, do que a comparar a uma Serial Killer.

Boa Semana!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

 

segredoO tempo passou e fizeram de novo a chamada. O namorado atendeu-a. Ela gostava da voz daquele amigo, que era mais do que isso.

- Claude?!

- Sim!

- Sou eu, Dalila. – começou a chorar, tudo começava a ser demais para ela e ela não sabia mentir.

- Estás bem?

- Estou.

- Porque é que fugiste? – ela não podia começar diálogos, se o fizesse, era provável que dissesse mais do que devia.

- Ouve-me bem. Sinto muito pela preocupação que eu te devo ter causado, mas eu estou bem, apenas precisava de estar sozinha depois do que se passou ontem à noite. – houve um pequeno silêncio. Ele não se recordava.

- O que é que se passou ontem à noite? É que a única coisa que me lembro foi de acordar com uma enorme dor de cabeça.

- Eu bati-te. Eu não estou preparada para isto. Eu preciso de pensar. – gagueja – Arranja uma desculpa por mim. Falamos melhor quando voltares. – ela sente uma tensão do outro lado da linha, ela sente que Claude sofre.

- Fica bem. Pensa em tudo o que tens a pensar. Falamos depois. Tudo se vai resolver. Tenho a certeza. – um silêncio antes da despedida, falta dizer mais alguma coisa, mas nenhum dos dois tem a certeza se será apropriado – Eu amo-te. Tu sabes disso, não sabes? – ela desata a chorar e acena que sim, ele ordena-lhe para que termine a ligação.

- Eu sei! Eu também... – mas ela mentia, ela nunca o amara, apenas gostava dele, nada mais. Nem mesmo se poderia chamar paixão àquilo que tinham, era muito menos que isso. Ela apenas gostava da atenção que Claude lhe dedicava.

- Adeus! – despede-se Claude. Ele faz-lhe novamente sinal para terminar com o telefonema, contudo, antes de lhe obedecer, ela surpreende o seu carcereiro, quando elimina um problema com o qual ele não contara

– Eu vou ficar uns dias na tua casa de férias em Côte d’Azur. Eu tenho as chaves, faz-me apenas dois favores.

- Sim! Aquilo que quiseres!

- Telefona aos meus pais e diz-lhes que convidaste algum pessoal para terminar as férias na tua casa e que querias muito que eu fosse. Eu não quero que eles se preocupem comigo. Eu depois telefono-lhes.

- E o segundo favor?

- Não apareças por lá, nos próximos dias. Quando eu estiver pronta eu telefono-te. – de novo o silêncio. Ele olhava-a espantado. Porque o ajudaria ela, naquele momento?

- Tudo o que quiseres! Eu amo-te, faça eu as besteiras que fizer, eu quero que saibas que eu amo-te. – ela engole o choro. Ele faz-lhe de novo sinal para acabar com a conversa.

- Tenho que ir. Faz o telefonema para os meus pais agora. Eu telefono-lhes ao final do dia.

- Considera feito. – de novo o silêncio, a necessidade de não terminar de falar, de fazer prolongar os momentos em que partilham o mesmo ar, em que estão em sintonia. – Telefona-me.

- Eu telefono-te. - Desligou e ele amparou-a, antes que caísse. Mentir era tudo, o que ela não sabia fazer, mas fê-lo na perfeição.

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