Mostrar mensagens com a etiqueta Dúvidas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dúvidas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 5 de dezembro de 2009

Estava no meio de uma enorme multidão, por todo o lado existiam actores vestidos com fatos de esponja que nos remetiam para histórias de encantar, vários enfeites de Natal e neve, muita neve, camadas e camadas de neve. No entanto chovia e isso era muito estranho.

Eu observava as pessoas, parecia procurar alguém no meio da multidão anónima, procurava um olhar, um sinal, algo que me ajudasse a reconhecer alguém que não conhecia, até que senti um olhar fixo em mim. Girei lentamente 360º, procurando a origem do olhar. Encontrei um homem alto, que me fixava, não me recordo do rosto, da cor dos olhos, ou do cabelo, apenas a profundidade do olhar que me fazia arrepiar.

Ele sabia quem eu era, ele já me havia visto antes. Pensei: "Já o achei!" mas ao mesmo tempo que o fiz, senti um calafrio que me fez temer de medo, receei que aquilo não devesse acontecer e decidi tentar fugir, esconder-me. Coloquei-me numa fila, para entrar numa espécie de teatro. Tentava a todo o custo, misturar-me no meio da multidão, tornar-me anónima, apenas mais uma. Mas não fui bem sucedida.

Sinto umas mãos fortes segurarem-me os braços por trás e uma voz profunda que me diz: "Os meus desejos ainda são ordens?!" ao que eu respondo, quase sem vontade própria: "Não conheço outra forma de me entregar!"

Então ele, abre-me o punho que eu tinha cerrado e coloca-me um cartão de plástico na mão e depois de a fechar de novo, de forma a que eu não deixasse cair o objecto quase sem espessura e mantendo-me sempre de costas para ele e sem me permitir virar para o ver, disse: "Tens 5 minutos".

Fecho os olhos e respiro fundo enquanto sinto a presença avassaladora dele partir. Abro os olhos ao mesmo tempo que a mão e reconheço uma chave de um quarto de hotel. Ainda procuro o homem do sobretudo e de olhar intenso, mas ele já ali não está. Procuro o Hotel, encontro-o do outro lado da avenida e dirijo-me até lá.

Entro no lobby, espero o elevador, subo até o andar respectivo, procuro o número do quarto e paro diante da porta. Falta-me a coragem para abrir a porta, ainda levando o braço para colocar o cartão na ranhura, mas este fica estático, sem movimento, inerte no ar. Sinto a presença dele novamente nas minhas costas, uma mão que segura a minha e que a força a tomar a acção que parara a meio. A fechadura solta o som que indica que não está mais trancada e o braço esquerdo dele, bem acima da minha cabeça, empurra a porta para dentro e com o braço direito, segura-me pelo pescoço e força-me a entrar. A porta fecha-se. A voz dele diz.

- Sem preliminares.
- Demasiado sobrevalorizados! - Respondo com voz trémula e insegura!
- Sem artifícios.
- Apenas guiados pelos instintos mais básicos. - Completo.

Ele encosta-me então à parede, como se fosse um polícia que me fosse revistar, retira-me os casacos, os cachecóis e tudo que o separava da minha pele, mantendo-me sempre de costas para ele. Liberta-se ele próprio das suas roupas, agarra-me o pescoço, a sua mão contorna-o quase na totalidade e morde-me junto à junção com o ombro. Eu não grito, eu sufoco a dor física e transformo-a em algo mais, algo muito mais estimulante. Ele possui-me sem mais demoras, sem mais percalços. Fá-lo com uma desenvoltura tal, que parece não ter feito mais nada na vida, se não aquilo. Possui-me com uma violência tal, que quase sinto o meu corpo partir-se nas suas mãos, mas em vez de recear, ou ter medo, ou tentar fugir, eu apenas me entregava mais e mais e a cada gesto, a cada movimento, os nossos corpos tornavam-se apenas um.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

1955058 - O que pretendes? O que é que queres? – tenta acalmá-la.

- Quero ir-me embora. Deixe-me ir embora, por favor – o dia começava a escurecer.

- Eu não te posso deixar ir. – ele tentava manter-se calmo, mas já tinha perdido toda a paciência que tinha – Dá-me a faca.

- Não se aproxime. – ameaça ela, tomando uma posição de luta com faca. A técnica dela era irrepreensível. Ele aproxima-se, com cuidado, rodeando-a, estudando os seus movimentos. Ela acompanha-o. – Deixe-me ir embora. – Implora mais uma vez.

Ela estava assustada, ele mexia com ela de uma forma que não percebia e aquilo aterrorizava-a. Era suposto ela odiá-lo e desejar a sua morte, mas os seus sentimentos eram exactamente os opostos: ela não lhe queria mal e ela simpatizava com ele. Ele ameaça atacá-la e ela afasta-se assustada. Ele ri-se. Ela era demasiado nova, para ser um adversário à altura. Ele ataca, mas desta vez a sério, ela defende o golpe, sem sequer pestanejar e ameaça, por sua vez, com a faca. Agora é ele quem se afasta num pulo, evitando por um triz, a lâmina afiada da sua própria arma.

Ele aceita o desafio, faz estalar o pescoço e avança. Ambos iniciam uma estranha dança, onde estudam os movimentos um do outro e tentam aproveitar a primeira distracção do adversário, para ganharem vantagem. Ele acerta-lhe, no queixo, com um soco, tentando ganhar de imediato o pulso da mão direita, para fazer uma chave que a desarmasse, mas ela dá um mortal para trás e bate-lhe com os pés, durante a acrobacia. Ela percebe que ele a vai atacar com toda a força e ela sabe que a sua única solução, é usar a faca. Ele é demasiado forte para que ela se atreva sequer a lutar, de igual para igual, com ele. Assim que ele se aproxima, ela baixa-se e, num movimento rotativo, passa a lâmina afiada através das calças e sente a carne ceder a um golpe que ela espera ligeiro, na perna esquerda daquele homem. Ele cai, contorcendo-se com dores, mas ela não se compadece. Com movimentos rápidos e contínuos, ela pega na camisa do seu adversário, veste-a e dirige-se para fora da tenda, mas detém-se quando ouve aquele estalido tão familiar, que uma arma dá, quando fica pronta para disparar. Ela até que gostava daquele som. Ela gostava sempre daquele som quando treinava, só que desta vez, aquilo terminava com a ilusão de sair dali e voltar à sua vida normal.

- Deixe-me ir, por favor. – pede sem sequer se voltar.

- Volta aqui. Chega aqui. – ordena-lhe com a voz trémula e repleta de dor.

Ela engole o choro e cumpre a ordem. Ela não pode fugir de uma bala e tem a certeza que ele tem boa pontaria. Ele não desvia a arma, nem por um instante, enquanto se levanta com grande custo. A sua perna sangra imenso e ela fica com o coração apertado. Não o queria magoar tanto, apenas queria fugir. Ele encosta-lhe a arma gélida à sua têmpora e ela chora. Retira-lhe a faca que ela mantém na mão. Nada mais há a fazer. Ele engole a dor e demora-se a decidir o que vai fazer a seguir. Ele quase desfalece enquanto pensa, mas apoia-se nela. A arma nunca se mexe do lugar.

- Leva-me até a cama e ajuda-me a sentar. – Volta a ordenar.

Ela obedece, a situação dele comove-a, agora que vê o sangue. Ele nem precisa de lhe pedir, pois ela despacha-se a ir buscar uma caixa de primeiros-socorros e trata-lhe da ferida que ela própria lhe abriu. Ela faz um bom trabalho, mas ele continua com dores. Dirige-se ele próprio à caixa e tira uma pequena seringa que contém um líquido branco. Ela supõe que seja morfina. Afasta o olhar quando ele se injecta. Pensa em aproveitar o momento para fugir, mas apenas alguns segundos de indecisão, uns míseros segundos de dúvida, são os suficientes para o ouvir libertar um som seco de alívio e ouvir as suas botas baterem no chão, num ritmo descompassado, pois coxeia na sua direcção. Empurra-a para a cama que lhe pertence e amarra-a. Ele não torna a falar-lhe. Está envergonhado, por ter sido derrotado, ludibriado por aquela criatura tão pequena e frágil. Ela também não diz nenhuma palavra. Não emite um som, uma lamúria.

Descansa por fim, por algumas horas na sua cama. Ele tem que ir jantar com o Claude e sente-se fraco demais para isso. Ele está cabisbaixo, pelo que aconteceu e neste momento, perdeu toda aquela confiança, que tinha ganho quando o vira ao princípio da tarde. Contudo, ao longo das horas que passavam, ele ia readquirindo alguma presença de espírito e começava a pensar que tudo aquilo era natural e que apenas tornava o prémio final, mais apetecido. Tirou o maço de cigarros de um dos muitos bolsos que as suas calças tinham, mas estava vazio. Levantou-se. Já se sentia melhor para o fazer. A perna ainda tremeu por uns instantes, mas dois passos depois, mal se notava que coxeava. Tirou um maço novo de uma das mochilas e logo acendeu mais um daqueles rolinhos brancos, pardalentos e fedorentos. Se ele tinha vícios, fumar era um deles. Olha de soslaio para ela. É mais forte do que ele. Ele bem queria não olhar, ignorá-la, pelos menos até voltar do fogo-de-conselho, mas não resiste. Ela também o observa. Como seria mais fácil, se alguém lhes dissesse, que eles estavam destinados um ao outro. Mas todo o destino é assim mesmo: confuso, obscuro, intrincado, no entanto, já resolvido, atribuído e indissolúvel. Apesar de tudo, os sinais estavam lá, eram claros a todos os bons observadores. A sua parecença física, o acaso das datas, do encontro, das suas histórias, que logo, logo, ambos conhecerão, dos seus gostos, dos seus hábitos, dos seus desejos.

domingo, 29 de novembro de 2009

1948756 Ele tira a camisa. O seu corpo liso e brilhante, quase sem pelos, agrada-lhe. Ele gostava de estar assim, de tronco nu. Era a forma mais confortável para ele. Observa os mapas do outro lado da tenda. Era como se os territórios tivessem sido delineados: a parte esquerda era dela e a direita, dele. Ela pousa a caneca de chá. Mal lhe havia tocado, mas já se sentia melhor. Levantou-se devagar. Aliás, todos os seus gestos eram sempre suaves, femininos, lentos, naturais, o que o surpreendia ainda mais, quando ela lutava com ele. A força que ela tinha e a rapidez dos golpes, eram resultado de muitos anos de treino. Ele não entendia, como tal poderia ser possível. Quando ela chegou ao meio da tenda, ele falou.

- Se eu fosse a ti, não dava nem mais um passo. Não te aproximes de mim. Hoje tenho menos paciência que ontem e estou prestes a explodir.

Ela deteve-se por uns instantes. Ela não tinha certeza porque é que ia ter com ele. Algo lhe dizia que devia reconforta-lo, mas não sabia porquê, não entendia porquê. Ela pensou um pouco, ponderou as suas opções e decidiu por fim avançar. Ele sentiu o seu coração saltar, quando ela passou a linha de separação. A sua respiração ficou mais rápida, a cada passo que ela dava, trazendo consigo, aquele contínuo cheiro a rosas. Ela deteve-se a menos de meio metro dele. Ele não lhe ligou. Ela tentou ler as fotografias por satélite e com alguma dificuldade, reconheceu a costa marítima de Marrocos. Fosse o que fosse, o seu destino era o Norte de África.

- Qual é a vossa missão? – pergunta a meia voz.

Ele vira-se. Ele não pensava na missão. Ele não pensava em nada que não fosse ela. Ela era a sua missão naquele momento e o desejo ardente, da noite anterior, tinha voltado. Ele beija-a, deixando-a praticamente sem ar. Ela sente-se desfalecer. Ele coloca a sua mão direita à volta do seu fino pescoço e apercebe-se como seria fácil tirar-lhe a vida naquele momento. Ele não o quer, mas pensa nisso, em como ele era pouco mais que uma máquina feita para matar. Aperta-o um pouco, enquanto a continua a beijar. Aquilo excita-o. Com a mão livre, arrebenta com os botões da camisa dela e deixa-a descair até aos seus pulsos. Isso prende-lhe mais os movimentos do que ela gostaria, mas ela mal consegue respirar, quanto mais lutar.

Ele afasta-se um pouco. Ele quer vê-la à luz do dia. Ela recupera o fôlego. Ele não entende, porque é que aquela violência com ela lhe dá tanto prazer. Nunca tal lhe havia acontecido. No entanto, ele espera que ela colabore e sente-se bem, quando ela não se mexe e continua parada, imóvel, à frente dele, mesmo agora, quando ele nem sequer a segura. Volta a beijá-la e ela corresponde. Ela liberta-se da camisa que lhe prende os braços e coloca as pequenas mãos à volta do pescoço, daquele estranho. Ele sente-se nas nuvens. Pega-a ao colo e ela abraça-o com as suas compridas e musculadas pernas. Fazem longas trocas de olhares, no intervalo dos intermináveis beijos. Eles não se cansam dos seus olhos. Têm tanto a dizer, tanto a descobrir, tanto a explorar.

Ele não esperava tanto. Ela queria mais, mas começava a entrar num jogo, do qual dificilmente poderia sair a meio e não tinha a certeza absoluta se o queria levar até ao fim. Ela apenas sabia, que gostava daqueles preliminares, daquele namoro, daquela excitação. Ela sabia ainda, que ele quereria ter tudo e que ela, tudo não queria dar. Mesmo assim, decidiu levar as coisas até ao limite do que lhe seria possível aceitar. Se ela o fizesse gostar de si, talvez as coisas pudessem vir a ser diferentes. Talvez assim, ele a viesse a proteger do destino, que ela pensa, que lhe está atribuído. Talvez assim, ela não tenha que morrer. Talvez!

Aquele jogo, que há muito havia passado de mera sedução, prolongou-se por longos minutos. Ele deitou-a na sua cama e despiu-a por completo. Ela estranhamente permitiu. Pena que não seria uma permissão total e quando ele, certo de que ela seria dele naquele momento, se preparava para a possuir, ela rouba-lhe a faca de mato e afasta-se para o meio da tenda. Desta vez, ele não entende mesmo, o que se passou. Será que ele a magoara de alguma forma? Ele teria precipitado o momento? O certo é que começava a ficar farto daquela brincadeira, farto das provocações dela, farto das suas indecisões. Levantou-se impaciente e dirigiu-se até a ela, mantendo uma distância razoável. Ele conhecia as suas aptidões de luta corpo-a-corpo. Sabia de ante-mão, que a venceria, mas não a queria magoar, nem muito menos magoar-se a si próprio.

- Desculpe-me! Não devia ter permitido que isto fosse tão longe. – Justifica-se ela.

- Dá-me a faca. Não te quero magoar. – Pede-lhe em forma de ordem.

- Eu também não o quero magoar. – Ela realmente, não o queria magoar, mas também não queria ficar ali, ela não tinha a certeza do que queria. – Não se aproxime, ou usarei a faca.

 

sexta-feira, 26 de junho de 2009

 A maioria dos nossos superiores hierárquicos,  são-nos tão inferiores?

Subscribe to RSS Feed Follow me on Twitter!