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segunda-feira, 19 de março de 2012

Vou ter pela frente um longo período de mentalização. Existe um sonho que eu alimento desde que tenho 16 anos, um sonho que tem sido tudo o que eu realmente quero.

Não me interessa o euro-milhões, sair nas páginas de revista, ou que os livros que já escrevi sejam best-sellers. Tudo isso pode acontecer, não vou dizer que não a nenhuma delas, mas nada me faria mais feliz que ser simplesmente mãe.

Este sonho parece ser tão simples para a maioria das mulheres, muitas vezes nem sequer planeiam, ou querem e no entanto acontece-lhes como um acaso do destino, para outras basta casar e dizer, quero ter um filho e pronto, lá a criança aparece passado um bocado, mas para mim, que desejo tanto ser mãe desde o momento em que a minha prima Mara nasceu, esse sonho tem sido apenas isso mesmo: um sonho.

E infelizmente assim será para sempre. O meu maior sonho, tudo o que eu mais queria na vida, nunca irá acontecer e eu tenho, de uma vez por todas de colocar isso na cabeça. Basta de sofrer cada vez que sei que alguém ficou grávida, basta de sofrer sempre que vejo um anúncio às mães na televisão, ou vejo um filme em que alguém tem um filho no fim e tudo fica feliz. Basta, basta, basta!

A dor que sinto aperta-me o ventre numa contracção absurda, torna-o tão pequeno que o sinto desaparecer da minha anatomia. Faz-me sentir seca e na verdade, não me sinto mulher.

Preciso mentalizar-me que nunca vou ter nenhum ser vivo a chamar-me mãe na vida e seguir em frente. Estou farta de sofrer!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

1955058 - O que pretendes? O que é que queres? – tenta acalmá-la.

- Quero ir-me embora. Deixe-me ir embora, por favor – o dia começava a escurecer.

- Eu não te posso deixar ir. – ele tentava manter-se calmo, mas já tinha perdido toda a paciência que tinha – Dá-me a faca.

- Não se aproxime. – ameaça ela, tomando uma posição de luta com faca. A técnica dela era irrepreensível. Ele aproxima-se, com cuidado, rodeando-a, estudando os seus movimentos. Ela acompanha-o. – Deixe-me ir embora. – Implora mais uma vez.

Ela estava assustada, ele mexia com ela de uma forma que não percebia e aquilo aterrorizava-a. Era suposto ela odiá-lo e desejar a sua morte, mas os seus sentimentos eram exactamente os opostos: ela não lhe queria mal e ela simpatizava com ele. Ele ameaça atacá-la e ela afasta-se assustada. Ele ri-se. Ela era demasiado nova, para ser um adversário à altura. Ele ataca, mas desta vez a sério, ela defende o golpe, sem sequer pestanejar e ameaça, por sua vez, com a faca. Agora é ele quem se afasta num pulo, evitando por um triz, a lâmina afiada da sua própria arma.

Ele aceita o desafio, faz estalar o pescoço e avança. Ambos iniciam uma estranha dança, onde estudam os movimentos um do outro e tentam aproveitar a primeira distracção do adversário, para ganharem vantagem. Ele acerta-lhe, no queixo, com um soco, tentando ganhar de imediato o pulso da mão direita, para fazer uma chave que a desarmasse, mas ela dá um mortal para trás e bate-lhe com os pés, durante a acrobacia. Ela percebe que ele a vai atacar com toda a força e ela sabe que a sua única solução, é usar a faca. Ele é demasiado forte para que ela se atreva sequer a lutar, de igual para igual, com ele. Assim que ele se aproxima, ela baixa-se e, num movimento rotativo, passa a lâmina afiada através das calças e sente a carne ceder a um golpe que ela espera ligeiro, na perna esquerda daquele homem. Ele cai, contorcendo-se com dores, mas ela não se compadece. Com movimentos rápidos e contínuos, ela pega na camisa do seu adversário, veste-a e dirige-se para fora da tenda, mas detém-se quando ouve aquele estalido tão familiar, que uma arma dá, quando fica pronta para disparar. Ela até que gostava daquele som. Ela gostava sempre daquele som quando treinava, só que desta vez, aquilo terminava com a ilusão de sair dali e voltar à sua vida normal.

- Deixe-me ir, por favor. – pede sem sequer se voltar.

- Volta aqui. Chega aqui. – ordena-lhe com a voz trémula e repleta de dor.

Ela engole o choro e cumpre a ordem. Ela não pode fugir de uma bala e tem a certeza que ele tem boa pontaria. Ele não desvia a arma, nem por um instante, enquanto se levanta com grande custo. A sua perna sangra imenso e ela fica com o coração apertado. Não o queria magoar tanto, apenas queria fugir. Ele encosta-lhe a arma gélida à sua têmpora e ela chora. Retira-lhe a faca que ela mantém na mão. Nada mais há a fazer. Ele engole a dor e demora-se a decidir o que vai fazer a seguir. Ele quase desfalece enquanto pensa, mas apoia-se nela. A arma nunca se mexe do lugar.

- Leva-me até a cama e ajuda-me a sentar. – Volta a ordenar.

Ela obedece, a situação dele comove-a, agora que vê o sangue. Ele nem precisa de lhe pedir, pois ela despacha-se a ir buscar uma caixa de primeiros-socorros e trata-lhe da ferida que ela própria lhe abriu. Ela faz um bom trabalho, mas ele continua com dores. Dirige-se ele próprio à caixa e tira uma pequena seringa que contém um líquido branco. Ela supõe que seja morfina. Afasta o olhar quando ele se injecta. Pensa em aproveitar o momento para fugir, mas apenas alguns segundos de indecisão, uns míseros segundos de dúvida, são os suficientes para o ouvir libertar um som seco de alívio e ouvir as suas botas baterem no chão, num ritmo descompassado, pois coxeia na sua direcção. Empurra-a para a cama que lhe pertence e amarra-a. Ele não torna a falar-lhe. Está envergonhado, por ter sido derrotado, ludibriado por aquela criatura tão pequena e frágil. Ela também não diz nenhuma palavra. Não emite um som, uma lamúria.

Descansa por fim, por algumas horas na sua cama. Ele tem que ir jantar com o Claude e sente-se fraco demais para isso. Ele está cabisbaixo, pelo que aconteceu e neste momento, perdeu toda aquela confiança, que tinha ganho quando o vira ao princípio da tarde. Contudo, ao longo das horas que passavam, ele ia readquirindo alguma presença de espírito e começava a pensar que tudo aquilo era natural e que apenas tornava o prémio final, mais apetecido. Tirou o maço de cigarros de um dos muitos bolsos que as suas calças tinham, mas estava vazio. Levantou-se. Já se sentia melhor para o fazer. A perna ainda tremeu por uns instantes, mas dois passos depois, mal se notava que coxeava. Tirou um maço novo de uma das mochilas e logo acendeu mais um daqueles rolinhos brancos, pardalentos e fedorentos. Se ele tinha vícios, fumar era um deles. Olha de soslaio para ela. É mais forte do que ele. Ele bem queria não olhar, ignorá-la, pelos menos até voltar do fogo-de-conselho, mas não resiste. Ela também o observa. Como seria mais fácil, se alguém lhes dissesse, que eles estavam destinados um ao outro. Mas todo o destino é assim mesmo: confuso, obscuro, intrincado, no entanto, já resolvido, atribuído e indissolúvel. Apesar de tudo, os sinais estavam lá, eram claros a todos os bons observadores. A sua parecença física, o acaso das datas, do encontro, das suas histórias, que logo, logo, ambos conhecerão, dos seus gostos, dos seus hábitos, dos seus desejos.

domingo, 29 de novembro de 2009

1948756 Ele tira a camisa. O seu corpo liso e brilhante, quase sem pelos, agrada-lhe. Ele gostava de estar assim, de tronco nu. Era a forma mais confortável para ele. Observa os mapas do outro lado da tenda. Era como se os territórios tivessem sido delineados: a parte esquerda era dela e a direita, dele. Ela pousa a caneca de chá. Mal lhe havia tocado, mas já se sentia melhor. Levantou-se devagar. Aliás, todos os seus gestos eram sempre suaves, femininos, lentos, naturais, o que o surpreendia ainda mais, quando ela lutava com ele. A força que ela tinha e a rapidez dos golpes, eram resultado de muitos anos de treino. Ele não entendia, como tal poderia ser possível. Quando ela chegou ao meio da tenda, ele falou.

- Se eu fosse a ti, não dava nem mais um passo. Não te aproximes de mim. Hoje tenho menos paciência que ontem e estou prestes a explodir.

Ela deteve-se por uns instantes. Ela não tinha certeza porque é que ia ter com ele. Algo lhe dizia que devia reconforta-lo, mas não sabia porquê, não entendia porquê. Ela pensou um pouco, ponderou as suas opções e decidiu por fim avançar. Ele sentiu o seu coração saltar, quando ela passou a linha de separação. A sua respiração ficou mais rápida, a cada passo que ela dava, trazendo consigo, aquele contínuo cheiro a rosas. Ela deteve-se a menos de meio metro dele. Ele não lhe ligou. Ela tentou ler as fotografias por satélite e com alguma dificuldade, reconheceu a costa marítima de Marrocos. Fosse o que fosse, o seu destino era o Norte de África.

- Qual é a vossa missão? – pergunta a meia voz.

Ele vira-se. Ele não pensava na missão. Ele não pensava em nada que não fosse ela. Ela era a sua missão naquele momento e o desejo ardente, da noite anterior, tinha voltado. Ele beija-a, deixando-a praticamente sem ar. Ela sente-se desfalecer. Ele coloca a sua mão direita à volta do seu fino pescoço e apercebe-se como seria fácil tirar-lhe a vida naquele momento. Ele não o quer, mas pensa nisso, em como ele era pouco mais que uma máquina feita para matar. Aperta-o um pouco, enquanto a continua a beijar. Aquilo excita-o. Com a mão livre, arrebenta com os botões da camisa dela e deixa-a descair até aos seus pulsos. Isso prende-lhe mais os movimentos do que ela gostaria, mas ela mal consegue respirar, quanto mais lutar.

Ele afasta-se um pouco. Ele quer vê-la à luz do dia. Ela recupera o fôlego. Ele não entende, porque é que aquela violência com ela lhe dá tanto prazer. Nunca tal lhe havia acontecido. No entanto, ele espera que ela colabore e sente-se bem, quando ela não se mexe e continua parada, imóvel, à frente dele, mesmo agora, quando ele nem sequer a segura. Volta a beijá-la e ela corresponde. Ela liberta-se da camisa que lhe prende os braços e coloca as pequenas mãos à volta do pescoço, daquele estranho. Ele sente-se nas nuvens. Pega-a ao colo e ela abraça-o com as suas compridas e musculadas pernas. Fazem longas trocas de olhares, no intervalo dos intermináveis beijos. Eles não se cansam dos seus olhos. Têm tanto a dizer, tanto a descobrir, tanto a explorar.

Ele não esperava tanto. Ela queria mais, mas começava a entrar num jogo, do qual dificilmente poderia sair a meio e não tinha a certeza absoluta se o queria levar até ao fim. Ela apenas sabia, que gostava daqueles preliminares, daquele namoro, daquela excitação. Ela sabia ainda, que ele quereria ter tudo e que ela, tudo não queria dar. Mesmo assim, decidiu levar as coisas até ao limite do que lhe seria possível aceitar. Se ela o fizesse gostar de si, talvez as coisas pudessem vir a ser diferentes. Talvez assim, ele a viesse a proteger do destino, que ela pensa, que lhe está atribuído. Talvez assim, ela não tenha que morrer. Talvez!

Aquele jogo, que há muito havia passado de mera sedução, prolongou-se por longos minutos. Ele deitou-a na sua cama e despiu-a por completo. Ela estranhamente permitiu. Pena que não seria uma permissão total e quando ele, certo de que ela seria dele naquele momento, se preparava para a possuir, ela rouba-lhe a faca de mato e afasta-se para o meio da tenda. Desta vez, ele não entende mesmo, o que se passou. Será que ele a magoara de alguma forma? Ele teria precipitado o momento? O certo é que começava a ficar farto daquela brincadeira, farto das provocações dela, farto das suas indecisões. Levantou-se impaciente e dirigiu-se até a ela, mantendo uma distância razoável. Ele conhecia as suas aptidões de luta corpo-a-corpo. Sabia de ante-mão, que a venceria, mas não a queria magoar, nem muito menos magoar-se a si próprio.

- Desculpe-me! Não devia ter permitido que isto fosse tão longe. – Justifica-se ela.

- Dá-me a faca. Não te quero magoar. – Pede-lhe em forma de ordem.

- Eu também não o quero magoar. – Ela realmente, não o queria magoar, mas também não queria ficar ali, ela não tinha a certeza do que queria. – Não se aproxime, ou usarei a faca.

 

sexta-feira, 5 de junho de 2009

tristeza01 Como eu gostava de ter superpoderes, um dom especial e secreto que me fosse útil nestas horas. Como eu gostava de te abraçar nos meus braços e aquecer o teu coração com amor. Como eu gostava de te beijar e sugar de ti toda a amargura, angústia e temor. Como eu gostava de te falar e que as minhas palavras, a minha voz te servissem de consolo e remédio para a tua dor.

Como eu gostava de ser capaz de transferir toda a tua tristeza e juntá-la à minha, para que não sofresses nem mais um segundo, nem mais um fôlego. Como eu gostava de poder transformar tudo isso em coragem e esperança!

Como eu gostava! Oh, meus Deus, como gostava! Mas não posso! Não consigo! Não sei como!

Eu falo-te, mas não sirvo de consolo, eu abraço-te mas o teu coração gela com o desgosto, eu beijo-te e sinto a angústia, a revolta e a dor, darem voltas dentro de ti, da mesma forma como se revolvem dentro de mim.

Mana, minha querida e adorada irmã, carne da minha carne, sangue do meu sangue, eu quero devolver-te o bebé, que prematuramente perdeste, o meu sobrinho ou sobrinha, que ainda antes de nascer já era amado. Quero silenciar esse grito mudo que ecoa na tua alma, quero absorver todo esse negro que se pinta dentro de ti e torná-lo só meu. Eu quero mana, eu quero, juro-te que quero… mas não posso, não consigo, não sei como.

Apenas o tempo pode, mana.  Apenas o tempo sabe!

Somente posso chorar contigo, gritar e revoltar-me e, por fim, carpir.

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