sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Antes de mais, desculpem ter ficado tanto tempo sem actualizar o blog, mas a verdade é que férias e computador, por mais portátil que seja, não combinam. Contudo estou de volta e com o meu retorno ao dia-a-dia pavoroso, voltaram, as pequenas pérolas que fazem dos meus dias, algo melhor.

Hoje tive que apanhar um autocarro, algo que simplesmente odeio, não suporto. Se de comboio eu sinto alguma liberdade e calma, posso ler e escrever, dormitar e sonhar, de autocarro, apenas perco tempo. Fico enjoada, não consigo ler e muito menos escrever e passo todo o tempo a pensar quando é que o estupor do condutor, não se vai espetar numa curva.

Estava eu nesse sacrifício, quando um senhor, com mais de 60 anos, se sentou ao meu lado. Cumprimentou-me, algo que achei educado, acho sempre que se deve dizer bom-dia, boa-tarde, boa-noite, é um bonito hábito que nos temos vindo a esquecer. Mesmo quando não conhecemos as pessoas, pois se elas se cruzaram no nosso caminho nesse dia, e depois de nos terem que ter visto, acho que é o mínimo que devemos fazer para melhorar o seu dia, desejar “Bom-alguma-coisa”. No entanto não ficou por aí e isso, já acho mal. Eu gosto de pensar e odeio que estraguem o meu raciocínio, mas o Sr. precisava de falar e na falta de se dirigir a um padre na confissão, eis que eu surgi, como um elemento salvador da sua alma e pensamentos torturados. (A igreja católica tem que fazer algo sobre isto, antigamente as pessoas não iam aos psicólogos, iam ter com um padre, eram de graça, poupavam ouvidos alheios, ninguém ficava a saber e eram igualmente desculpados e perdoados por qualquer acto que tivessem cometido e acima de tudo, não me chateavam). Mas estou a desviar-me das pérolas.

O Senhor, depois de ter contado uns quantos segredos sobre a mulher coscuvilheira que tinha feito uns amigos “Testemunha daquele gajo, o Jeová” e que lhe estavam a dar a volta à cabeça, ao ponto de ele quase ter querido bater-lhe na noite passada, confissão que foi seguida por uma frase minha, muito perspicaz e talvez a única que proferi:

“A violência é um poço sem fundo, do qual se faz bungee jumping, mas cujo elástico nunca permite voltar para cima, porque se parte!”

Acham que ele percebeu alguma coisa? ! O certo é que ele disse que eu tinha toda a razão e continuou, mudando de assunto, para uma sequência de pérolas que eu vou agora transcrever e acreditem que o contexto fez tanto sentido, quanto o que eu agora vou atribuir: Nenhum. E vou sublinhar as palavras que foram destorcidas ao longo do seu fluente discurso.

- E já viu a Gripe A? Começa a ser probremático. É um micróbrio, complicado de se evitar.

- É que as pessoas esqueceram-se do que é a hipiene.

- Nós tínhamos bácoros, ovelhas e cabras em casa, mas tínhamos as orelhas e as unhas sempre limpas e não tínhamos cá esses luxos como os putos de agora têm, como essas coisas que se usa nos ouvidos: os cordonetes.

- Mas basta ver nos supermercados. Deixam entrar todo o tipo de pessoas. Como é que a fruta pode ser segura, se drógados, pretos e ciganos, entram e mexem nelas. (Acreditem que se não fosse pelo facto de eu estar internamente a rir-me com a ironia de alguém que comete tantos erros de vocabulário pronunciar a palavra drogado, como os tios de Cascais, eu ter-me-ia levantado e ido embora naquele momento.)

- Se não vão comprar não podem entrar. Se os empregados têm que usar tocas e luvas, porque é que deixam entrar os piolhentos daqueles pretos e brancos drógados que usam aqueles cabelos cheios de m**** que não prenteiam?!

- É por isso que os micróbrios da Gripe A, não morrem.

- E os disvorcios?! (esta fez-me mesmo rir, pois alguém que fez parte das minhas férias também diz divorcio assim) Já ninguém fica casado! É tudo disvorciado e ninguém tem vergonha. Não acha?!

- Antigamente é que era, os miúdos brincavam na rua e nunca riscavam um carro ou roubavam um autromóvel. (talvez porque não houvesse muitos para roubar, mas roubavam outras coisas, o roubo não é uma invenção deste século)

Bem, acreditem que houve muito mais, até os trinta minutos da minha viagem tivessem terminado e felizmente pudesse sair do autocarro.

Digam lá se não foi uma excelente maneira de começar o dia?! Mas o mais engraçado é que se este senhor entrasse para o programa Novas oportunidades e tivesse passado aquelas pérolas para o papel, teria direito ao 12º ano.

8 Ideia(s):

entremares disse...

Ai, ai, ai... por onde começar?

1. Bemvinda de férias.
2. Que pena que já se acabaram.
3. Que maravilhosa companhia de viagem
4. Que óptimo tema para uma história

Tenho a impressão de que conseguiste reunir numa só personagem um bom meio kilo de estereotipos... qual deles o pior, mas enfim...

Fez-me lembrar um tempo em que eu tinha que fazer diáriamente a viagem Lisboa-Torres Vedras... e às quintas feiras, ao passarmos pela Malveira ( feira semanal ) entravam também muitos vendedores, ciganos, etc. etc... acompanhados por galinhas, perús, patos... milhões deles.

E era ver os passageiros a desviar-se, as galinhas a saltar, os perús a gritar... enfim, só visto...

Eu sei que não é bem a mesma coisa, mas têm um ponto em comum; nos dois casos... deviámos torcer-lhes o pescoço, e pronto.

Beijos.
Rolando

Humildevaidade disse...

Mais, mais, mais por favor... D-E-L-I-C-I-O-S-O...!!!

Kruzes Kanhoto disse...

Por mais pontapés na gramática que dê o senhor está cheio de razão.

Devir disse...

Situações hilariantes
com certeza, de lado a lado
imagine aquele 'sujeito'
ao contar para seus sujeitos
amigos e familiares ou
talvez também para estranhos

Com bem maior probalidade
suas 6 décadas vai imperar
e o seu contar sem mais oras
preocupações oscilantes bolas
fará a farra do dia, sem bois
aos iniciantes e os já cansados

Crianças não se contentam nunca
não existe agrado que as convém
querem mais, e dizem!, + é pouco

Já aos envelhecidos nada, nada!!!
E ficam mais! nervosos, rabugentos
diante até de pequeninos presentes

Iris R. Costa Barroso disse...

Entremares,

1. Obrigada.
2. Não tens mais pena que eu, que estive tão bem! Mas obrigada pela solidariedade.
3 e 4. Acho que ambos dariam um excelente tema para um conto.

E é verdade apetece mesmo torcer o pescoço a pessoas deste tipo. Não pelos pontapés na gramática, mas sim por sentenciarem, sem perceberem do que estão a dizer. Por criarem ódios e falsos preconceitos, por serem intolerantes.

Na verdade muita gente deve ter vontade de torcer o meu pescoço, quando lê algumas coisas que escrevo: Eu também tenho pouca tolerância para a ignorância e muito mais para aqueles que são ignorantes e que acham que têm razão e que não admitem quando percebem que estão errados. Mas isto já sou eu a falar de uma certa pessoas com quem tenho que trabalhar. Desculpa.

Obrigada e concordo plenamente contigo.

Bom fim de semana

Iris R. Costa Barroso disse...

Humildevaidade,

Gostava muito de ter mais, mas secou a fonte. Estes encontros são como as gostas de água no corpo no Verão: um pouco de sol e desaparecem.

Um bom fim-de-semana.

Iris R. Costa Barroso disse...

Kruzes,

Não está não!

A fruta lava-se, as pessoas divorciam-se porque fizeram más escolhas e as pessoas que menos aparentam, são as que transmitem mais doenças.

Bom fim de semana!

Iris R. Costa Barroso disse...

Devir,

Nada tenho contra a idade do senhor ou dos pontapés na gramática, pois também os dou e acho que a idade imprime uma sensualidade de sabedoria que deve ser partilhada.

O que me aborreceu, foi o tom intolerante, sentencioso e prepotente com que ele o fez.

Um bom fim de semana.

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