quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Recentemente fui apelidada de racista, não directamente como agora escrevo, mas num texto subentendido, ao dizerem que aonde eu havia referido "pessoas de cor" estava a usar um eufemismo que demonstrava, não só a minha propensão para o racismo como a de todos os Portugueses e Mundo que não é "de cor", mesmo que esse racismo fosse escamoteado.

Não podia, como é óbvio, essa bloguista e autora, estar mais longe da verdade. Primeiro porque nunca fiz distinção entre as pessoas de cor e pessoas ditas brancas e em segundo, porque é culturalmente e socialmente aceite como a expressão correcta.

Trato-as assim porque neste texto e no que fui acusada, tornava-se imperativo diferenciar e as palavras "Negro" e "Preto", não só não correspondem a uma verdade física, biológica, ou fisiológica (pois ninguém é negro ou preto), mas também porque são termos que foram amplamente usados para depreciar e menosprezar as pessoas que têm um tom de pele mais escuro, mais próximo do chocolate e mais longe da minha cor lívida e sem graça de anúncio à Neoblanc. 

Não que o que é aceite socialmente a mim me faça alguma diferença!

Por exemplo, a mesma pessoa que me acusou de tal mentira, acha o máximo o novo acordo ortográfico e faz publicidade do mesmo, o que no meu caso, nunca virá a ser aceite, mesmo quando for obrigatório. Irei remar contra a maré, pois o português, que ela chama como europeu (para mim, é apenas Português e o original, pois não conheço outro país europeu que o fale), é a minha língua. Nada tenho contra a introdução de novas palavras, acho gratificante quando uma língua (porque é um organismo vivo) cresce e evolui e aumenta a sua expressividade, mas não concordo com a sua perda de identidade apenas porque os outros países que adoptaram a nossa a língua a decidiram deturpar. Irei escrever todas as consoantes mudas, continuarei a pronunciar os "C's" de FACTO, de ACTOR, de ACTO e de ACÇÃO (sim porque a maioria dos portugueses os pronuncia, mesmo que seja de uma forma dissimulada). Mas não me quero perder neste assunto, pois por mim, farmácia ainda se devia escrever com PH e já não é do meu tempo.

Mas sim, porque da mesma forma como adjectivamos as pessoas de gordo, alto e magro, feio e bonito, bom e mau, esperto, inteligente, ou seja lá qual for o adjectivo, quando precisamos de distinguir as pessoas (e neste caso estávamos a falar de África, a mesma África onde eu nasci e vivi os meus primeiros anos de vida e que dos quais morro de saudades diariamente), também aqui era necessário, para que a conversa pudesse fluir e fazer sentido.

Todos somos diferentes, mas devemos ter perante o mundo e a sociedade, os mesmo direitos, as mesmas oportunidades. Isto é o que eu penso! E não é só numa questão entre "brancos" e "pretos", "amarelos" e "vermelhos" mas sim perante tudo, perante a economia, o sexo e a idade.

A discriminação existe, é um facto incontornável, mas também existe no fundo das pessoas a capacidade de entender o quão absurda é, de o reconhecerem, de o admitirem.

Não sou uma pessoa pessimista por natureza. Para mim um copo meio vazio, é um copo que está a caminho de ficar cheio (se o cheio for o positivo da equação, é claro) e sinceramente não tenho paciência para pessoas que num posicionamento totalmente ultrapassado de  "beatnik", se acham superiores aos outros porque apenas eles sabem o que é sofrer, apenas eles viveram maus tempos, apenas eles são rebeldes sem justa causa (ou com uma causa que apenas a eles diz respeito).

Não é com mágoa que se avança, mas sim com esperança e atitude positiva. Não é com amarguramento e ofensas generalistas que os problemas se resolvem, mas sim com actos e acções. Colocar o oposto do que nos é querido, num saco conjunto como sendo lixo, apenas mostra que sofremos do mesmo mal daqueles que odiamos.

Ninguém é dono da razão, por isso, mesmo no vosso sofrimento, mágoa e despeito ressabiado e vomitado (quem sabe o que é o movimento "beatnik", vai perceber porque utilizei tal expressão), não se achem superiores aos outros, pois quanto muito, vocês viram tanto quanto os outros, viveram tanto quanto os outros, sofreram tanto quanto os outros, recordam tanto como os outros e sabem e apercebem-se tanto quanto os outros. O que muda é o vosso posicionamento e a forma de o encarar.

Também eu tenho o direito de me refugiar nas minhas vivências e de ser mais do que aparento, ou escrevo. Também eu tenho o direito de falar e expressar a minha vontade, pensamento e o meu sentir e também eu tenho o direito de adjectivar um sujeito, com o que é politicamente correcto, sem que com isso tenha de ser apelidada de racista, simplesmente, porque não o sou. Os meus amigos que o confirmem, porque o meu corpo confirma-me todos os dias o que eu sofri por ser como sou, mas é mudo para o Mundo.

Vivi num país em guerra, ouvi gente a ser fuzilada e fugi de tiros nas ruas, escondendo-me atrás de carros e correndo para o prédio onde morava (7 andares sem elevador, pois este havia sido transformado num depósito de lixo), porque ficava já ao virar da esquina. Ajudei a minha mãe a fazer pão e massa para pão para mais de 2 meses, simplesmente porque naquele dia se tinha conseguido farinha, e não se sabia quando é que voltaria a haver e então tinha de se congelar e aproveitar ao máximo o que se arranjava.

A minha mãe fantasiava muito, tentava moldar, toldar as nossas recordações como sendo meras aventuras que teríamos para contar mais tarde. E eram, de certa forma eram. Mas eram mais do que isso, eram uma realidade dura, cruel e feia, onde o pior do ser humano mostrava as suas cores. Os meus pais não abandonaram Angola depois da Independência e eu nasci lá e vivi lá, pós era colonialista e conheci em primeira mão, o que ela era antes e no que se veio a tornar depois, com os meus olhos, com a minha pele, com os meus ouvidos, com a minha boca, com o meu nariz.

Eu gosto de olhar para as coisas e ver nelas a perfeição que a realidade tem tendência em esconder. Mas eu sei que ela está lá e que eu posso pelo menos tentar, com que os outros vejam o mesmo que eu, pois o que se vê, já está à vista de todos e é meramente a constatação de um facto e nada de novo trás.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Li num blog que sigo, que o autor achou muito estranho, no fim do último filme do Harry Potter, os espectadores baterem palmas e que isso devia ser algo só dos Tugas.

Eu não acho isso nada estranho! Nos Estados Unidos acontece com muita frequência, mas a primeira vez que me aconteceu a mim, era ainda adolescente (talvez mais nova) e fui ver o Rocky, aquele em que ele luta contra o Russo e no final, todo roto e mais morto que vivo, ganha. Aí, não só bateram palmas como se levantaram das cadeiras e apesar do tempo passado toldar e turvar as recordações, arrisco-me a afirmar que deram mesmo alguns pulos de contentamento e de alívio.

Eu pessoalmente, sou da opinião que as pessoas devem fugir às convenções e se algo as empolga, as faz vibrar, devem fazer esse sentimento passar para o exterior, e se no meio desse entusiasmo, o que sai são palmas, estas são mais do que bem vindas.

Ainda bem, que os Tugas não são Robots e que sabem exteriorizar as suas emoções. Talvez por isso, não tenhamos cenas tristes como as que se passam nos outros países, talvez por isso cenas que passam diariamente nos telejornais que nos chegam do Egipto, da Grécia, de Inglaterra, não passe nos outros países, sobre o nosso.

E isto apenas vem provar que quem acha que os portugueses são um povo enfadonho, que não têm emoção e que não recebem o Mundo com os braços abertos e que é preciso ir buscar o exemplo de gosto pela vida, do outro lado do oceano, estão erradas, redondamente enganadas.

Nota:
Gosto muito do blog ao qual faço link, adoro os desabafos e as memórias, respeito as opiniões e amo os temas abordados e a forma como é escrito. Apenas não concordo com algumas coisas que são ditas, assim como com toda a certeza os outros também não concordam com muita coisa que digo. Concluíndo, eu não faço uma crítica ao blog, nem muito menos à autora, mas sim à opinião (que não é única e, por isso mesmo, serviu de exemplo) que foi exposta naquela mensagem em particular. Sou uma ávida leitora do blog visado e continuarei a ser.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011


Hoje li uma rábula que me colocou a pensar. Apesar do meu sentido negro de humor, ter dito logo, quem não tem olhos não chora, eu acho que neste caso o homem teria direito, mesmo sem glóbulos, chorar lágrimas de sangue.

Mas chega de conversa, aqui fica a rábula e retirem vocês as vossas ilacções. Eu arrepiei-me.

Havia uma rapariga que se odiava por ser cega!


Um dia, ela disse ao namorado que se pudesse ver o mundo casava com ele.

Num dia de sorte, alguém lhe doou um par de olhos.

O namorado pergunta: agora que vês, casas comigo?

Ela, chocada porque viu que ele era cego, disse: desculpa mas eu não posso casar contigo, porque és cego!

O namorado afastou-se em lágrimas e apenas lhe respondeu: "CUIDA BEM DOS MEUS OLHOS!"

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Não quis saber! Ontem quando eu e o Fi chegámos a casa pusemos as mãos à obra e começámos a montar a mesa e as cadeiras que eu tinha comprado para a varanda.

Eu não sei se isto acontece com vocês, mas assim que eu começo a fazer qualquer coisa que merece a minha atenção, o meu telemóvel, que até é um aparelho com pouco uso e que espaçadamente o oiço tocar, começa sempre a vibrar e a produzir um som que tem como efeito chamar-me a atenção para uma chamada.

Também ontem foi assim! Andava eu e o Fi à volta de um parafuso teimoso que não queria por nada entrar e atarrachar na porquinha que lhe estava destinado e tive de atender uma chamada que merecia toda a minha atenção, pois desde que me mudei para o Norte, as chamadas com o meu melhor amigo, tornaram-se cada vez mais raras e espaçadas no tempo.

Então enquanto falava com o meu melhor amigo sobre as novidades e coscuvilhices, continuava a ajudar o meu marido a montar a mesa teimosa. A meio da chamada a mesa lá ficou de pé, linda com as duas cadeiras, tal como havia imaginado, na minha varanda da sala. A chamada terminou e a vontade de fazer qualquer coisa para a inaugurar era grande de mais.

Coloquei uma vela de citronela no meio, o Fi abriu uma garrafa de vinho verde que estava geladinha no frigorífico (parece que lemos sempre o pensamento um do outro, não foi preciso dizer nada), os copos foram fazer companhia à vela enquanto aquecia uns restos que tinha no frigorífico e que precisavam ser comidos, antes de os ter de deitar fora.

Vesti um casaco de malha e lá fomos nós jantar à luz da vela num fim de dia de Verão tristonho e encoberto, com um vento fresco de calor esquisito, na mesa nova, comprada de propósito para aquela varandinha aconchegada da minha casa.

O jantar foram restos, mas estavam deliciosos, o vinho estava a estalar e a conversa, foi como sempre, muito boa!

Mesa inaugurada, com frio e tudo!

terça-feira, 2 de agosto de 2011


Comprei eu, toda pimpona, um conjunto lindo de uma mesa e duas cadeiras, no Continente, a um preço fantástico de promoção, para que o tempo não me permita agora estreá-lo.

Irá ficar tão bem na minha varanda para uns jantares de Verão à luz da vela e não pára de chover e fazer frio.

VERÃO, importas-te de aparecer de uma vez por todas? Quero noites abafadas em que tenho de ligar ventoinhas, noites quentes para jantar na varanda, noites em que o calor é tanto que apetece fazer mil e uma coisas que não dormir.

Quero ter Verão!

Há 19 anos atrás recebia um telefonema do meu avô (que Deus o tenha) a dizer-me que a minha tia já estava no Hospital para ter um rebento cabeludo e pequenino, de nome Mara, que viria a ser a minha primoca/filhota linda.

Tinha ela poucos meses de idade, e já eu tomava conta dela e andava com ela, toda feliz e contente, sonhando que ela era minha, só minha e de mais ninguém. Eram fim-de-semana inteiros com a prima, férias em Espanha, férias no Algarve, férias, sempre férias, porque na altura ainda estudava e andava com ela para todo o lado. (Coitada da minha Tia!)

Até para a Universidade ela vinha comigo! O importante é que ela era minha, era linda e toda a gente me invejava.

Isto foi há 19 anos atrás. Estive com ela na primeira saída à noite, estive com ela no primeiro flute de champanhe, recebi o telefonema dela, no primeiro namorado e conheci todos os que se seguiram. Eu era mais do que uma prima, era uma segunda mamã e eu adorava.

Hoje, está ela a caminho do segundo ano da Universidade, grande, maior e vacinada, continua linda como sempre foi e já tem 19 anos.

Parabéns linda, que vivas muitos e muitos anos e que eu esteja cá para te acompanhar nas noitadas, nos copos e também no momentos maus.

sexta-feira, 29 de julho de 2011


Não sei se é por ser 6ª Feira, mas o dia hoje não passsa! Estou cheia de trabalho e mesmo assim, dou por mim a espreitar as horas de 5 em 5 minutos e o relógio teima em apenas andar de 5 em 5 minutos.

Grrr!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Desta vez não tenho saudades de uma pessoa, nem de um momento especial, mas sim tenho saudades de algo que fazia muito.

Eu bem sei que nem todos tiveram este tipo de experiência, mas eu vivi grande parte da minha infância, adolescência e juventude, num país diferente do meu pai e numa altura em que o e-mail, telemóveis e muito menos SMS (como eu odeio estas 3 letras), não existiam.

Recordo-me que para falar pessoalmente com o meu pai em Angola, era preciso marcar com antecedência uma chamada que mais tarde era retornada com hora marcada. Resumindo, a comunicação era lenta, dispendiosa e levava o seu tempo. Tal como as cartas que eu acabava por escrever ao meu pai.

A carta surgia como o meio de comunicação mais fácil e completo de falar com ele, de lhe contar as novidades e de lhe pedir favores. Sempre tive maior facilidade em expressar-me por escrito do que por telefone. Não que tenha dificuldades na expressão oral, não confundam, porque não tenho, mas odeio falar com uma pessoa quando não estou a ver os seus gestos, o seu olhar, a sua expressão física. Compreendo que me digam que nas cartas também não, mas as cartas têm algo que o telefone não tem, a impressão escrita.

Cada pessoa tem uma forma própria de se expressar, a sua letra altera quando está doente, triste, ou quer esconder alguma coisa. As palavras que utiliza são diferentes, o contexto e as figuras de estilo também são diferentes de estado para estado de espírito. E é disso que eu tenho saudades. Tenho saudades de ver a letra do meu pai e de tentar descobrir, como se de um quebra-cabeças se tratasse, o que estava por trás de cada uma daquelas palavras que ele imprimia com o seu próprio punho nas folhas cuidadosamente escolhidas para me enviar via aérea.

Sim, porque para além da letra e de tudo o mais que já foi enumerado em cima, ainda havia a linguagem dos detalhes. A folha escolhida para a carta, a caneta e a cor da tinta, o envelope, se vinha ou não perfumada, ou brindada com uma flor seca, ou outro presente que ele me quisesse dar.

Tenho saudades dos rascunhos que escrevia para lhe responder, num exercício que tinha como objectivo, tentar não me esquecer de nada que fosse importante, e era sempre tanta coisa, que por vezes as cartas tinham mais de 4 folhas A4 escritas de frente e de costas.

Pronto, tenho saudades e hoje deu-me para isto… Tenho saudades também de ti, pai!

Que Deus te guarde.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O que fazer quando um pensamento se instala na nossa mente e, independentemente, de todas as técnicas de concentração utilizadas, o pensamento teima em recorrer, uma e outra vez e mais uma vez em cada 5 segundos?!

E se esse pensamento for a visualização gráfica de um desejo absurdo, irracional e impróprio para o local de trabalho?

Só vos digo que é muito complicado gerir os movimentos, as acções e palavras, tornando todo o processo muito cansativo.

Desde que recomecei a trabalhar, este foi o dia que mais me cansou. Estou exausta!

Xô pensamento, xô!

Volta apenas quando eu estiver em condições de te materializar... já falta pouco.

Xô, por favor, xô!

quinta-feira, 21 de julho de 2011


Hoje apanhei mais uma...bendito programa da manhã!

A partir do acordo ortográfico a palavra RECTIFICAR, ficou obrigatoriamente, uma palavra acentuada numa única sílaba, pois o correcto é agora escrever RETIFICAR.

Agora venham-me dizer que se lê da mesma forma!

RÉ - TI - FI - CAR (forma correcta de pronunciar a palavra RECTIFICAR, apesar de eu por defeito semi-pronunciar o C, supostamente mudo), é muito diferente de RE - TI - FI - CAR (aonde se abre a vogal da sílaba CAR, fechando obrigatoriamente a sílaba RE).

Agora tenho que ir RECTIFICAR todos os RETIFICADOS que fiz até hoje, para além de ainda começar a mentalizar-me que o EGIPTO, com o andar da carruagem vai ser REBAPTIZADO (desculpem o P mudo, mas sem ele eu pronuncio a palavra de forma diferente da CORRECTA) de EGITO e quem sabe a partir de HOJE, não passo a escrever OJE e HENRIQUE E HELIO, passam a ENRIQUE e ÉLIO.

Mas claro, tudo porque as coisas devem ser simplificadas e convenhamos, desta forma, sendo muito importante nos tempos que correm, poupa-se tinta, tempo e papel.

Enfim!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Eu até nasci em climas tropicais, mas quis o acaso do destino que eu nascesse do lado direito do Oceano Atlântico.

Porque vos contei eu isto?!

Bem... Hoje de manhã, enquanto fazia a minha leitura matinal dos jornais, estava a dar na televisão uma rubrica que se chama "Em bom português!", ou algo que o valha. E lá perguntava a repórter, toda contente da vida a fazer o trabalho para o qual é paga, aos incautos que passavam pelas ruas, como é que, segundo o novo acordo ortográfico, se escreve correctamente:

Incorrecto, ou Incorreto

É claro que depois do crime que foi o acordo ortográfico, o correcto é; incorreto.

Mas aqui é que está o problema e o porquê da minha introdução deste texto: eu não sou brasileira e não tenho por isso aquela pronuncia macia de vogais abertas. Eu não abro as vogais por natureza e a verdade, é que se incorrecto se escrever incorreto, para mim não se lê correctamente, porque sem um acento e sem a consoante muda para abrir a vogal, eu irei, incorrectamente, pronunciar a palavra Incorrêto.

É um crime, correcto?!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

 

 

Pois é! Desta vez apanhei um susto grande, não tanto pelo facto de ter estado doente, pois já estive doente muitas vezes, mas nunca estive doente assim.

Assim como?! -  Devem estar vocês a perguntar.

Doente sem me poder mexer de forma alguma.

Não era o facto de ter de ficar deitada, na caminha, cházinhos quentes e 3 dias depois estar boa, era não me mexer, ao ponto do respirar doer até trazer lágrimas aos olhos. Deitar?! Só numa única posição, entupida de analgésicos de todos os tipos, antibiótico e para completar um anti-inflamatório.

A única posição minimamente confortável, era deitada de barriga para o céu, no chão, ou sentada direita no sofá e mesmo assim, respirar doía. Percebem o que quero dizer?!

Claro que não percebem, se eu não o tivesse vivido, também não ia perceber.

Mas o que raios tive eu?! Pois bem! Começou com uma pequena dor nas costas que ignorei. Pensei comigo mesmo que teria dormido torta e que tinha que passar a estar mais direita no sofá, mas depois dessa pequena dor, respirar fundo começou a doer. Como eu não sou de ficar quieta, ainda ajudei a transportar o móvel da sala que finalmente veio para cá para casa, 3 andares porque os elevadores não funcionam (outra coisa que tenho de contar),  e toca de fazer a limpeza geral do lar, porque eu odeio desarrumação.

Nessa noite, o respirar já era quase insuportável, dormir nem ver, e vai de passar uma pomadinha nas costas para ver se aquilo passava.

Foi um jeito!

Dizia eu a quem me via contorcer de dores. Mas foi um jeito que num belo Sábado há 15 dias atrás, na festa de aniversário da Evinha (a minha nova sobrinha - sobrinha do meu maridão), eu mal consegui comer, quanto mais conhecer o resto das pessoas e onde sorrir era um esforço hercúleo.

Quando quase todos se tinham ido embora e depois de ajudar a cunhada do Filipe, (o meu mais que tudo....tenho tanto para contar!) que estava na altura na eminência de ter a minha afilhada a qualquer momento, a arrumar a cozinha, as lágrimas vieram-me aos olhos e pedi ao Fi que me levasse ao hospital que não aguentava mais.

No Hospital drogaram-me com mil coisas para me tirar as dores e foi aí que recebi como receita, descanso absoluto, um anti-inflamatório, três analgésicos que me obrigavam a estar a tomar medicamentos de 2 em duas horas e saquinho de água quente na ruptura dos músculos intra-costais, que fiz sem saber como!

Mas isso foi Sol de pouca dura. Mais uma noite sem dormir. Descanso no Domingo e na Segunda-Feira toca de ir trabalhar. E quem conseguia trabalhar? Olhar para o pc doía, respirar doía, falar doía, tudo doía. Ao ver a minha cara  e ao aperceber-se do meu esforço, a minha colega aconselhou-me:

Se vires que continuas assim depois do almoço não voltes!

E não voltei. Almocei com o marido, mas a caminho do emprego, mal conseguia segurar no volante. Toca a dar meia volta e vai para casa, deitar no chão a olhar para o tecto, porque virar não conseguia, respirar doía.

Nessa madrugada, acabei por gritar pois não conseguia mais engolir os gritos de dor que se dissipavam pelo corpo. O Fi ajuda-me a vestir, a calçar a pentear a lavar os dentes e vai comigo para o Hospital. No Hospital dizem-me que ouviram no meio da auscultação da minha respiração (acto que fazia de forma cada vez mais espaçada, pois doía), algo que não gostaram, por isso toca a drogar-me de novo para DIMINUIR as dores, chamam ambulância e vou de toque para o Hospital da Feira para poder fazer um Raio-X, que àquela hora, não se pode fazer no Hospital de S. João da Madeira.

No Raio-X, lá mostra uma inflamação nos brônquios, já bastante alastrada, para além da inflamação dos músculos que anda hoje não faço ideia de como a fiz.

Conclusão Mais de uma semana em casa, sem dormir, sem me mexer e quase não ficava boa, para ir ao baptizado do meu sobrinho lindo no Domingo dia 10.

Hoje ainda não estou perfeita e respirar fundo ainda dói como tudo, mas pelo menos já estou a trabalhar, fui ao baptizado, a minha sobrinha mais novinha e afilhada já nasceu e é linda e já consigo respirar sem chorar.

Continuo a questionar-me é como é que raios eu fiquei doente assim?!

quarta-feira, 6 de julho de 2011


Não foi há muito tempo que eu escrevi aqui algo sobre o Pseudo-Nacionalismo Português e o Oposto, que são os que acham que em política o Nacionalismo é um perigo e podem relembrar-se disso aqui

As pessoas disseram que eu era louca e que reduzia tudo a uma caixinha embrulhada perfeitamente ao estilo Marta Stewart, com etiqueta e cartão de visita incluído.

Mas heis que começa o verão e começam os anuncios das cervejas todas e heis que voltam os simbolos nacionalistas do nosso grande país, associados, àquilo que vocês sabem que eu sei e que eu sei que vocês sabem.



Agora digam lá que é má vontade minha?!

Viva os comícios Americanos, com hinos cantados no início, meio fim e sempre que alguém espirra, bandeiras penduradas nos jardins, apenas porque têm orgulho nela e por favor, parem e criticar o uso do nacionalismo.

O que é nosso é bom  e deve ser usado, sempre que a ocasião merece, seja ela qual for.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sabem quando parece (mesmo quando não se acredita) que nos lançaram um mau olhado?!

Alguém o deve ter feito...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

LOL

Quis inventar um título que fosse bombástico, mas a verdade é que nada me ocorria, pois o riso e a vontade de rir (que são duas coisas diferentes), impedem-me de me concentrar a esse ponto.

Hoje quando cheguei ao correio tinha um papel amarelo dobrado em dois onde se destacava a palavra AVISO.
Peguei no dito papel e comecei, atentamente a ler:

AVISO

Pede-se o favor de terem mais cuidado com os ruídos íntimos, tanto da cama como os barulhos pessoais.

Devido a ser um prédio em que facilmente se ouve o barulho entre as casas, agradece-se a atenção ao conversar em horário de silêncio, pois ouve-se nos vizinhos as conversas.

Obrigada pela atenção.

Ora aqui começou a tal vontade de rir de que já falei no início, pois estes dois pequenos parágrafos, foram escritos a computador e ocupavam, no seu tamanho garrafal, toda uma página A4.

No entanto, uma resposta para esta senhora, saltou de imediato da minha mente para a ponta da minha caneta.

Cara Vizinha

Sem qualuqer necessidade de tentar que esta misiva envele num ardilo de tentativa de parecer um Aviso Oficial, aqui lhe escrevo com a minha letra pessoal e totalmente disposta a dar-lhe a resposta que merece.

Num prédio onde às 6 da manhã se ouvem os motores dos autocarros da rodoviária em tom alto e incomodativo (servindo o mesmo como um despertador diário), num prédio onde os vizinhos se escondem para não terem de dar os "Bons Dias", num prédio onde as portas das escadas fazem um barulho ensurdecedor a toda a hora, 24 horas por dia, num prédio onde não se tem elevadores por falta de cumprimento de contratos passados, com toda a certeza que não será a convivência normal de um casal com mais de trinta anos e sem filhos, que a irá, realmente, incomodar. A não ser, é claro, que a senhora sofra de algum tipo de trauma por ausência de vida pessoal, tão grave, que a vida dos outros, que se passa no interior dos seus lares, no recato que esse cubo de 6 paredes lhes dá, ganhe importância tão relevante.

Não fazemos barulho fora de horas, não subimos nem descemos escadas como um bando de potros selvagens, não falamos alto com regularidade, não fazemos obras, arrastamos móveis, ou pregamos pregos fora de horas. Assim sendo, todos e qualquer ruído que possamos, inadvertidamente, causar, são de ordem privada e, certamente, não são assim tão recorrentes que possam, realmente, causar transtorno tão grande que levem à escrita de AVISOS.

Os vizinhos, por uma questão de cortesia e educação, não "avisam", mas sim falam e pedem e este tipo de atitude apenas a deixam com um valor diminuido e fazem do seu AVISO, motivo de chacota.

Agora que o seu AVISO já teve resposta, mais que merecedora, termino.

Sem outro assunto e certa de que este ficou difinitivamente encerrado (até porque acredito que a senhora tenha mais o que fazer), subscrevo-me com a mais elevada consideração.

Atentamente,

Da sua vizinha avisada.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Existem algumas coisas que me fazem confusão e vocês, apesar de já não saberem de mim há mais de um ano, sabem isso melhor que muitos outros.

Todos sabemos que houve eleições, o povo mostrou a sua vontade e o acto democrático foi concretizado, culminando com um vencedor e um novo Primeiro Ministro eleito. Este, tal como todos os outros líderes dos diversos partidos que foram a votos no passado Domingo, também fez uma declaração ao país e no fim desta, (pasmem-se agora), cantou o hino nacional.

A verdade é que eu não vi nada de errado neste acto, mas talvez tenha sido só eu, pois ao longo da semana não pararam de fazer comentários, dizendo que, definitivamente, Portugal estava perdido e que estaríamos entregues a uma nova forma de fascismo camuflado e que a democracia estava em perigo eminente.

(Que vontade de bater em alguém!)

Ora eu, que sou parva e admito, ao ler e ouvir esses comentários, comecei logo a pensar no porquê da coisa, (tenho que admitir que são comentários tão justos como qualquer outro, como o que eu agora também faço).

Comecei a relembrar todos os momentos em que o Hino Nacional é cantado aos berros e desafinado e como todos acham lindo e espectacular e tentei perceber as diferenças contextuais dos dois actos e cheguei a uma conclusão:

Os Portugueses apenas têm orgulho no seu hino e acham normal um grupo de pessoas estender bandeiras portuguesas e cantar aos berros a Portuguesa, se já tiverem bebido muita cerveja, estiverem de calções e t-shirts e se houver na televisão um grupo de jogadores de futebol a fingirem que sabem a letra deste nosso símbolo de orgulho português.

Ou seja, se os portugueses estiverem sentados num estádio de futebol, ou em casa à frente da televisão, rodeados de aperitivos e cervejolas, o hino português é lindo e faz todo o sentido, mas se for cantado como símbolo de um grupo de pessoas que têm orgulho na sua cidadania e têm vontade e orgulho em lutar para fazer de um país falido um país digno do orgulho de todos, são fascistas e inimigos do povo.

Eu sei que sou estúpida e não entendo. Há certas coisas que não consigo mesmo compreender.

domingo, 11 de abril de 2010

ist_000000135856 Como pudemos nós sentir saudades , ou sentir a falta de algo que nunca se teve na realidade?

Como podemos nós encontrar razões que sejam, minimamente perceptíveis e lógicas, que justifique passar o dia inteiro a sonhar com algo que nos surge tão real, sem que no entanto se tenha alguma vez passado.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

 

DSCF1187 

Há muito tempo que não conto nada sobre ti. Creio que desde a minha resolução de ano novo, que isso se tornou um pouco complicado.

Complicado porque é muito difícil viver e respirar a tua presença, sabendo que vou ter de deixar de ser uma presença constante e imutável na tua vida, no teu dia-a-dia. E eu sofro, sofro muito com isso, mas é algo que tem de ser.

Lamento muito meu amor, filha do meu coração, mas a tia precisa de sair para puder ser algo que, realmente, possas admirar.

Amar-te-hei para todo o sempre.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

 

amor.jpg_2 Eu só conheço uma forma de amar e essa é a mais simples e a mais desinteressantes de todas: a da entrega total. Quando se ama temos obrigação de ser tudo, de sermos por inteiro aquilo que o outro precisa de nós.

É impossível para mim, pensar em amar por metade, por um terço, ou por qualquer outra fracção matemática da matéria. Sim porque o amor é massa, é algo palpável, algo que se sente, algo se dá e recebe e logo, deveria estar sobre as regras da física por todos conhecidas. Mas não está. E não está porque ele não respeita essas divisões materiais. O amor em vez de ser uma massa que diminuiu durante uma divisão, é uma massa que vai aumentando, que se vai multiplicando e expoenciando. Quantos mais divisores tivermos nesta fracção, mais dividendos se vão encontrando.

O amor acumula, damos 100% a todos os que precisam, a todos os que amamos, porque é impossível, amar por bocados e é impossível não poder amar mais.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Lovers

- Acho que já te desejava, mesmo antes de sentir qualquer desejo.

- Mas eu sou tua escrava pela violência do amor, apesar ser livre pela graça do meu berço.

- Então eu serei teu mestre e teu servo.

- Ambos devemos obediência a nós, como casal, como organismo vivo e autónomo e nada mais.

- Isso é um compromisso com o qual me sinto confortável!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

 

amantes_cama Ela estava a chorar. Não caíam lágrimas, porém ele conseguia vê-las, via-as inundarem o peito da sua amada, a encherem o seu pulmão, a asfixiarem-na de mansinho, a darem um nó na sua garganta, a taparem os seus ouvidos, a matarem-na.

Teve vontade de a beijar, de sorver cada gota daquele líquido límpido e salgado que tanto a angustiava. Teve vontade de a abraçar, de a abraçar com tanta força que a tornaria parte de si, um único ser indivisível, para sempre juntos, para sempre, eternamente, um.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

 

 

ist_000000411766Quarta-Feira, 27 de Janeiro de 2010.

O dia de hoje é um dia que terei que relembrar para sempre. Será o dia em que cortarei por completo todos os cordões umbilicais que me prendem a uma falsa segurança uterina, que me castra e aprisiona.

Hoje é o dia em que renasci, o dia em que me vou reinventar.

sábado, 23 de janeiro de 2010

 

2499051 …E porque hoje estou com vontade de reler poemas, aqui fica um dos meus favoritos, de todos os tempos.

Estrela da Tarde – José Carlos Ary dos Santos

Era a tarde mais longa de todas as tardes 
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos nocturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

 

LouvorSupersonicoNão faço ideia se a historia, é ou não verdadeira, ou se a imagem apresentada corresponde à verdade sem manipulação, mas que seria um caso digno de tablóide, seria.

Quem me dera ter umas cunhas assim!

 

 

 

 

Vejam a história aqui:

http://joaobarbeita.blogspot.com/2010/01/como-arranjar-curriculo.html

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 

A noite caiu e pouca luz ela recebia dentro da tenda fechada. Começou a sentir frio. Tentou ignorar. Imaginou que tudo não passava de um sonho e tentou mesmo dormir um pouco. De nada servia, os seus receios e os barulhos que se faziam sentir na floresta, impediam qualquer relaxamento a uma menina de tão tenra idade, abandonada num ambiente hostil, amordaçada, amarrada e quase despida.

Os soldados foram recebidos cordialmente pelo grupo de escuteiros que já conheciam. Claude fez as honras da casa e foi um anfitrião perfeito. François estudava cada movimento dele, cada gesto, cada gesticulação, cada mudança no seu tom de voz. Durante o jantar ganhou coragem para perguntar:

- E a menina que desapareceu? Já sabem de alguma coisa?

- Parece que a mãe se sentiu mal. Ela tinha ido à vila buscar o pão e telefonou para os pais, ficando a saber da má disposição da mãe. Na altura, voltou para o campo, mas à noite, os remorsos começaram a acumular-se e decidiu, voltar para casa. Saiu e telefonou hoje à tarde a avisar do sucedido.

- Então está tudo bem? – Quis ainda saber, com um prazer mórbido em ouvir tamanho chorrilho de mentiras.

- Está, está tudo bem.

O fogo-de-conselho começou. Os dois soldados estavam divertidíssimos com a atenção que as meninas lhes dedicavam e com as piadas leves dos scatchs levados a conselho. François manteve-se um pouco afastado com o Claude e ambos começaram a conversar sobre inúmeras frivolidades. Ele era um excelente conversador e Claude sentia falta de conversar sobre outros assuntos. Assuntos que não podia conversar com mais ninguém. Dalila era um assunto que Claude podia conversar com um estranho, com alguém, que nunca mais veria e Deus sabia, o quanto ele precisava de desabafar sobre o assunto. François, apercebendo-se disso, convidou-o a afastar-se e entraram na floresta. Sentaram-se na mesma clareira, onde eles tinham raptado o seu anjo de luz e ofereceu-lhe a garrafa que tinha enchido, horas antes. Claude aceitou, prontamente, sem pensar em qualquer consequência. A conversa depressa rumou para o assunto que ambos desejavam.

- As raparigas do vosso agrupamento são muito giras... – brincou o François.

- Giras e perigosas. Se um homem não tem cuidado, é fisgado por elas e quando se apercebe, já está tão apaixonado, que pode dar cabo da vida em três tempos. – Desabafou, bebendo mais um golo daquela pequena garrafa.

- É... é uma idade complicada. Já parecem adultas, comportam-se como adultas e no entanto, amedrontam-se como crianças. Já passei por isso, sei como é. – Bebeu também ele, incentivando o seu rival a beber mais.

- Sabe... – procurou as palavras mais certas – A menina que procurávamos hoje...

- Sim, estou a ouvir. – Disse satisfeito por finalmente falar no assunto que lhe interessava.

- Ela é muito mais que um simples elemento do agrupamento. Ela é muito mais que uma criança normal.

- Você disse que ela tinha treze anos, não foi?

- Sim... mas apenas por medida de segurança, na realidade ela faz quinze anos depois de amanhã.

- Também, não é assim tão mais velha. – Ele estava realmente surpreendido. Depois do que se passara naquela tarde, ele tinha ficado com a impressão errada, de que ela teria, pelo menos, uns dezassete anos. Ela fazia, cada vez, menos sentido. Sentiu-se mal, por estar a cativar uma mulher tão jovem.

- Mas tem uma alma antiquíssima e já viveu mais do que qualquer um de nós suportaria. Eu sei que vocês, militares, vêm coisas que não fazem qualquer sentido, mas ela...ela já as viveu. – Ele falava com um orgulho e com um brilho nos olhos que o irritavam – Viveu e sobreviveu, com notas altíssimas.

- Não me diga que vocês têm alguma coisa...

- É impossível resistir-lhe. Ela é linda, cativante, carinhosa, esperta, inteligente, jovem, cheia de vida. Ela é mais madura que muitas mulheres de vinte e oito anos, com quem saio às vezes, para manter as aparências e para aliviar o stress... se é que me entende? – agora estavam a falar a língua dele.

- Quer dizer que vocês os dois, nunca tiveram relações sexuais? – Claude acenou que não – Nunca? – Insistia François.

- Nunca! Ela é muito sensual, ardente e fogosa, mas sempre que as coisas começam a caminhar para a cópula, ela retrai-se e é sempre uma frustração. – François ri, pois reconhece cada palavra proferida por aquele homem - Não me interprete mal. Ela não é frígida nem nada que se assemelhe, nem sequer é leiga em assuntos sensuais, passamos longas horas num namoro óptimo, mas creio que ela ficou traumatizada quanto à penetração em si. – Bebeu mais um pouco.

- Como assim traumatizada? – Bebeu também, Claude já estava bem alcoolizado e tropeçava nas palavras como se estas fossem obstáculos de uma árdua corrida.

- Como lhe disse, ela é melhor preparada que qualquer outra mulher adulta e madura que conheço...

- Mas como assim? Ela tem apenas catorze anos! É pouco mais que uma criança, nem sequer é uma jovem mulher.

- É que ela já passou muito nesta vida. – Ele quase pode ver uma lágrima saltar dos olhos de Claude, e observa como mal controla a sua mão quando agarra na garrafa, para apagar os pensamentos. O problema, como o é para qualquer tipo de fuga, é que o resultado é geralmente o contrário: quanto mais bebia, mais se recordava, mais queria falar, mais queria explicar.

- O que pode ela ter vivido, que lhe desse assim tanta maturidade, em tão pouco tempo?

- Ela veio do Gabão. Os pais dela eram lá fazendeiros. Tinham uma propriedade enorme, com terrenos de perder de vista e plantavam quase tudo, quanto aquele solo dava. Quando ela tinha apenas onze anos, ou seja, há três anos atrás, durante os motins e as revoltas, um bando de… - gaguejou antes de dizer a palavra, procurando o substantivo, ou o adjectivo correcto, talvez com medo de ofender alguém, ou apenas como resultado do álcool ingerido. - … de negros, liderados por uns quantos mercenários franceses, americanos e alemães, decidiram atacar tudo quanto era propriedade de brancos, roubando tudo quanto era possível: ouro, dinheiro, pratas… - engoliu em seco, olhando para a garrafa, mas sem engolir nenhum líquido desta vez – Levaram tudo que valesse dinheiro no mercado negro. Não havia qualquer luta política, nada, apenas simples ladrões a aproveitarem-se da situação confusa que o país vivia.

- Eu sei! Estive lá nessa altura. Também eu fui destacado para as forças da ONU, para manter a paz.

- Então sabes do que estou a falar. – Arrematou com um suspiro de alívio, por não ter que explicar algo que lhe era difícil de compreender.

- Mas continua, o que lhe aconteceu? – Perguntou ele, cada vez mais intrigado com o caminho que a história levava.

- Bem, como muitos outros desgraçados, a família dela também foi assaltada. O grupo roubou tudo o que tinha para roubar, mesmo perante a grande resistência que o pai dela ofereceu. Depois ataram a mãe dela e a ela a uma das vedações da quinta, obrigaram o pai a ajoelhar-se e a humilhar-se perante as duas mulheres da casa. – Bebeu mais um golo e pensou de novo nas palavras - Despiram-no e obrigaram-no a ver os campos das colheitas e todas as máquinas a arderem… - de novo uma pausa, como se à força de ele ter ouvido, da boca inocente dela, aquele relato, o tivesse feito viver a experiência – Na realidade, viu arder o trabalho de toda uma vida e cortaram-lhe a cabeça depois, com uma simples catana de mato.

- Mataram o pai à frente dela? – Claude acenou que sim – Tinha ela onze anos?!

- Sim, onze anos apenas. – François prostrou-se, assassinarem o nosso pai à frente dos nossos olhos, não é coisa que passe despercebida e sem qualquer mácula. – Mas isso não foi tudo. – Ele acenou para que continuasse e ofereceu a garrafa de novo, depois de dar um longo trago – Em seguida, pegaram na mãe, despiram-na e começaram a bater-lhe. Quando ela já não conseguia levantar-se do chão, tiraram à vez, a ordem pela qual a usariam.

- Santo Deus! – Disparou enojado com a imagem que realizou na sua mente.

- Mas isso foi o erro deles.

- Como assim?

- A Dalila, conseguiu soltar-se das cordas que a atavam e aproveitando-se da distracção dos assaltantes, ela pegou na catana do homem que estava em cima da mãe, o mesmo que matara o pai, e com ela, cortou-lhe a cabeça. Cheia de sangue e assustadíssima pelo que tinha acabado de fazer vira-se para os outros três homens e ameaça-os com a catana. Luta que nem uma louca, movendo-se por todos os lados e lançando aquela pesada arma a tudo o que se mexesse, atingindo quem quer que fosse que se aproximasse dela ou da mãe.

- Minha Nossa Senhora!

- É verdade, meu amigo. Parece mentira e tirado de um filme, mas não é. Foi assim que tudo se passou.

- Mas como é que ela sobreviveu a tudo isso?

- Bem! Os mercenários ao verem que os seus homens estavam a ser feridos por uma simples rapariguinha, acabaram por dar ordens para que as deixassem em paz. Afinal, já tinham o que queriam. Um deles, um americano, chegou mesmo a afirmar, que se uma miúda daquelas era capaz de lutar com tanta força, merecia viver muito mais que qualquer um deles.

- Valha-nos ao menos o peso da consciência de alguns deles. – Afirmou aliviado, como se ele ainda não soubesse que ela tinha sobrevivido. – E depois?

- Bem, aqui é que a história começa a ganhar contornos hollywodescos.

- Bem, eu gosto de um filme de acção. – Claude sorri.

- Um dos outros mercenários… - mais um pouco de veneno pela goela abaixo - … um que se tinha juntado ao grupo há pouco tempo, já estava com grandes problemas de consciência, pelas atitudes que o grupo tomava. – Limpa um pouco de whisky que lhe escorregava pelos cantos dos lábios, com a manga da camisa - Aquela cena toda acabou por lhe dar a certeza de que ele não pertencia ali. – Uma nova pausa, esta um pouco mais prolongada, como se estivesse a preparar um grande final, ou reviravolta. - Passado umas dez horas depois de tudo aquilo ter acontecido, ele abandonou-os e voltou à fazenda, na esperança de poder ajudar aquelas duas mulheres, como forma de remissão de pecados. Quando lá chegou, já a menina tinha começado a cavar um buraco, para enterrar os diversos corpos que estavam mortos por toda a propriedade e já tinha enterrado o pai ao lado da campa dos avós. A mãe estava a dormir, em completo estado de choque, deitada no chão do salão, tapada com um lençol de seda e com uma almofada por baixo da cabeça. – Atira um galho pequeno com que brincava, contra uma pedra. - As forças dela só lhe permitiram fazer aquilo.

- E já tinha sido um esforço hercúleo. – Ele vibrava com cada descrição daquela história. Aqueles eram os acontecimentos que tinham feito da sua amada, aquilo que ele tanto apreciava.

- Pois já. – Bebeu mais um pouco – Consegue agora perceber? Eu não estou a ter um caso com uma criança, eu estou a namorar com uma mulher feita. – François sorriu, conseguia compreender o que ele afirmava, mas tinha dúvidas.

- E o mercenário?

- Bem. O Jack, que hoje é padrasto dela, ao vê-la cavar aquela enorme cova, com uma pá que lhe parecia a ele, maior que ela, compadeceu-se e decidiu ali, naquele momento, que faria tudo, para diminuir a dor daquela família. – Jack, então ela chamava pelo padrasto.

- Então esse mercenário é hoje o pai dela?

- Mas ao princípio não era essa a sua intenção. – Comenta sarcasticamente.

- Como assim?

- Esse americano ajudou-a a queimar os corpos de todos os mortos na fazenda. Ela nunca lhe falou, até porque não conhecia nenhuma palavra em inglês. Ela apenas agradecia desconfiada a sua ajuda. Pediu que a seguisse até a casa e mostrou-lhe a mãe deitada no chão, num estado lastimoso, cheia de cortes na cara e no corpo todo, ensanguentada e desmaiada. – François observava cada movimento de olho, cada contracção muscular, cada pequeno movimento de pele, dos lábios. Percebia quando é que Claude estava enojado, excitado, ou simplesmente indignado. Reparou que coisas que o deixavam apavorado como sangue, o deixavam a ele indiferente. - Ele pegou nela ao colo e levou-a para o quarto. Tratou da mãe dela o melhor que pode, ela esperou por ele, exausta no grande salão, com a espingarda do pai na mão. Quando ele voltou à sala ela apontou-lhe a arma e disparou contra ele, acertando, no entanto, na vitrine esvaziada.

- Rapariga de fibra.

- É, fibra não lhe falta. Ele desarmou-a e disse que estava ali para a ajudar no que fosse necessário, durante o tempo que ela precisasse dos seus serviços, como um simples criado. Felizmente, ele sabia um pouco de francês. – Riram-se.

- E ela?

- Ela aceitou. Desmaiando logo em seguida.

- Coitada, depois de tudo o que passara! – Pensa um pouco em todo aquele cenário e conclui. – Já tinha ouvido em picos de adrenalina, mas o que se passou com ela,passou tudo aquilo que já havia ouvido. Parece que ela tem alma de sobrevivente, de guerreira, que é algo escrito no seu DNA. – Bebe ele um pouco do que ainda havia e deixa Claude continuar.

- Quando ela acordou, ela passou a mãozinha dela pelo rosto dele, como se quisesse dizer-lhe que precisava da protecção dele, para que ele tomasse conta dela. – O mesmo gesto de súplica que ela lhe fizera, recordou-se ele no mesmo instante. – E ele tratou dela, mas por mais que tentasse não conseguia ver nela, um único traço infantil. Depois de tudo o que ele vira aquela criança fazer, ele respeitava-a como uma adulta, como um ser que sabe cuidar de si, totalmente independente. Nos dias que se seguiram, acabaram por se fazer grandes amigos. Tratavam da mãe, (que apenas acordou um mês depois), das colheitas que se salvaram dos fogos, dos animais que sobraram e reconstruíram grande parte da fazenda. Uma noite, ela pediu-lhe que a ensinasse a lutar e ele compreendendo-a perfeitamente, assim o fez.

- Agora entendo... – Descaiu-se.

- Como assim? – Perguntou Claude confuso.

- Agora entendo porque dizes que ela é muito mais que uma criança. – Disfarçou.

- Pois é. O problema foi quando, ao longo dos treinos intensivos, o corpito dela começou a desabrochar e a desenvolver-se precocemente. Aquele ex-soldado, sem acesso a qualquer outra mulher e interagindo diariamente com ela, começou a querer mais, do que aquela relação de amigos.

- E a mãe?

- A mãe ficou muito traumatizada com a morte do marido e durante o ano que se seguiu, nunca se levantou da cama, ou proferiu qualquer palavra. Depois, de uma hora para a outra, levantou-se e preparou o pequeno-almoço para os três, como se o Jack fosse já membro da família.

- Não tinha sido para menos. – Ele envergonhava-se do que os homens eram capazes de fazer, principalmente, ex-soldados, homens treinados fortes e bem formados. Aquilo não fazia qualquer sentido para ele. Como eram eles capazes de tal barbárie?

- Mas antes, o Jack e a Dalila viveram sós, entregues a si mesmo. Treinavam todos os dias depois das tarefas diárias e não era um treino simples, mas sim, um treino capaz de vergar muito homem, tal como ele tinha recebido nos marines. Luta corpo-a-corpo, armas, qualquer tipo de armas, artes marciais, enfim, o serviço militar completo.

- E foi durante o treino que ele tentou ser mais que um amigo?

- E não conseguiu. Não que ela não se sentisse atraída por ele, acho que ainda hoje eles sentem uma forte atracção um pelo outro, basta reparar nos olhares que trocam, mas sempre que estavam a chegar a vias de facto, ela escapava dos seus braços tal qual uma enguia, exactamente o mesmo que ela faz comigo.

- Acho que está relacionado com o que aconteceu com a mãe. – Tentou arranjar uma explicação, para tanta resistência a um acto que surge naturalmente após os preliminares que ela gostava. – E ele não insistiu?

- Ele chegou a usar a violência e a força física, mas sempre que ela se rendia, repetia aquele gesto que tinha feito ainda meio inconsciente, de quando se conheceram e ele perdia toda a coragem para continuar. Ele não queria de forma alguma ser como os outros. Quando a mãe dela acordou para a vida, acabaram por se casar e desde então ele tem sido um pai exemplar para ela.

- Então és um homem de sorte. Ela é uma mulher excepcional. – Os olhos de Claude humedeceram – O que foi? Não te sentes um homem com sorte? Tens uma mulher maravilhosa como namorada e sempre que precisas de algo mais, procuras uma mulher mais velha e com menos complexos.

- Não é assim tão fácil. – Ele sabia que não – Existe uma mulher, com quem eu me encontro com maior regularidade, que engravidou. Eu ainda não contei nada à Dalila, mesmo eu, só soube um dia antes deste acampamento.

- O que pretendes fazer? – Ele ria-se por dentro.

- Acho que terei que casar com ela. A Dalila é especial e eu nunca amarei nenhuma outra mulher como a amo a ela, mas eu vou ser pai e não desgosto da ideia de me casar já. Tenho trinta e três anos e começo a não ter muito tempo para desperdiçar.

- Compreendo-te, meu amigo. - Disse com a confiança de quem nada tem a temer. Ele estava feliz, sabia tudo o que tinha que saber sobre a sua prisioneira, já compreendia tudo o que se passara e sabia também, que o namorado dela, não era rival para ele. – Há quanto tempo voltou ela de África?

- Há seis meses. O padrasto dela achou que se ela não se afastasse muito da vida do campo e fora de portas, ela não esqueceria o treino que ele lhe tinha dado e inscreveu-a nos escuteiros. Uma semana depois, já nós estávamos nos braços um do outro. Era-me impossível resistir-lhe. – Ele conhecia bem aquele sentimento, também a ele era impossível resistir-lhe, como se ela emanasse uma força magnética que atraía os homens até a si, tal como as sereias faziam aos navegadores. – Pena ela só ter catorze anos. Pena. – Acabou por beber o resto do líquido que estava na garrafa e o François teve que o ajudar a equilibrar-se, para que ele voltasse para a tenda.

domingo, 10 de janeiro de 2010

 

abismo (2) Não quero ninguém que morra por mim, ninguém que morra por amor ou por outra razão qualquer por mim provocada. Não quero alguém que se sinta tão subjugado a mim, que seja incapaz de conceber outra forma de estar, não quero!

Quero alguém que esteja comigo, que viva por mim, que queira fazer coisas comigo. Quero alguém que me entrelace nos seus braços, que me proteja apenas com a sua presença, alguém que se arrepie com o toque da minha pele, mas que mantenha todas as suas forças, toda a sua essência. Não quero ninguém que ao meu toque deixe de ser.

Não quero alguém que me diga apenas o que quero ouvir, não quero alguém que me faça irritar pela falta da verdade. Não quero alguém que aparente, quero alguém que seja. Não quero alguém que se esconda, mas alguém que se assuma, que simplesmente exista, sem artifícios, sem jogos, sem camadas. Quero a a idiossincrasia completa.

Não quero alguém que me ame com a mesma intensidade que eu, apenas quero que goste de mim, seja de que forma for. Não quero que todos gostem de mim, nem mesmo as pessoas de quem eu gosto. Não quero que elas sintam a minha falta, da mesma forma que eu sinto, intensamente, a falta delas, se o fizesse estaria a desejar o mal das mesmas e eu não o desejo. Queria poder sentir que em algum momento especial eu fui única, isso seria o suficiente, mesmo sabendo que existe sempre quem ocupe o nosso lugar. Mas pensar que alguém, em algum momento, por mais fugaz que tenha sido, pensou e sentiu assim, já me satisfaz.

Simplesmente não quero! Não quero ser apenas alguém que passa pela vida, sem que ninguém note. Mas também não quero que a minha presença seja tão opressiva, tão poderosa, que ninguém suporte estar perto de mim.

Apenas quero… apenas quero… apenas quero… que tudo tenha um sentido, que tudo tenha um valor real.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

 

David-Boreanaz-agf02O outro soldado veio chamá-lo. Estava na hora. Ele diz que já vai. Troca as calças que está a usar, aquelas estavam rasgadas. Não veste uma camisa, optando por um pulôver azul-escuro com meia gola e fecho no ombro. Ficava-lhe muito bem. Ela sabia que no agrupamento, haveria muitas amigas suas que ficariam a suspirar por ele, naquela noite. Porque seria que ela sentia um misto de ciúme e raiva? Poderia ela estar a apaixonar-se? Seria o amor à primeira vista, uma realidade, na qual ela nunca acreditou? Ambos guardaram os seus pensamentos. O que se passara durante a tarde tinha sido sério, muito sério e os dois, tinham plena consciência disso.

Ele olha-a, está constantemente a olhar para ela, a decorar cada traço, a observar cada movimento da luz no seu rosto, cada partícula de luz que se separa na sua pele, saltando de vergonha de não ser tão perfeita como ela e perdendo-se no ar, para sempre, transformando-se em algo que ela pode usar a seu favor, energia pura. Ela parecia-lhe um anjo de luz, um ser de energia, algo que foi feito para nunca ser maculado. E a ele? A ele, cabia-lhe a tarefa de domar essa energia, de a tornar sua, de a proteger, de fazer tudo, para que ela sofra o menos possível, nestes dias que se aproximam e que ele não pode alterar. Ela evita olhá-lo, não quer de forma alguma irritá-lo ainda mais. Ela está arrependida do seu comportamento. Ela não queria ter sido obrigada a magoá-lo, ela simpatizava com ele. Por outro lado, ela pensava em tudo o que iria acontecer durante aquela noite.

Ele iria estar com o seu namorado, iriam falar dela, concerteza. Ela repara que ele enche uma garrafa de bolso, com wisky e que a guarda em um dos muitos bolsos das calças. Claude sempre fora fraco para a bebida, não seria necessário muito para que lhe dissesse tudo, tudo o que ele quisesse saber. E Claude sabia de tudo sobre a vida dela. Aquele homem, aquele namorado, era o seu grande amigo, um dos poucos que ela guardava. Claude sabia de tudo, porque ela lhe contava tudo. Coisas que nem a mãe, a mãe que ela tanto ama e protege, se recorda, coisas que nem ela, sabe muito bem porque lhe contou, coisas nas quais, até ela tem dificuldade em acreditar que aconteceram, mas que existiram e que ainda a assombram constantemente.

Ele penteia-se mais uma vez, coloca um pouco de after-shave, bebe um pouco da garrafa de whisky, que estava sobre a mesa e concentra-se. Percorre mentalmente, tudo o que precisa fazer, dizer e ouvir. Auto motiva-se para a missão que o aguarda. Os outros voltam a chamá-lo de fora da tenda e ele grita, com aquele timbre de voz que lhe é tão familiar, que já vai. Aproxima-se dela. Senta-se na sua cama, acaricia-lhe a cara e beija-a. Ela também o beija e voltam a olhar-se. Eles olham-se como se nunca mais se fossem ver de novo, como se fizessem amor e estivessem num mundo só seu, num mundo criado, unicamente, para eles.

Ele sai. Ela ouve o restolhar dos seus passos. O som fica cada vez mais distante. Deixa de ouvir. Na tenda não ficou nenhuma luz e lá fora deixaram apenas uma fogueira. Sente medo. Sente muito medo. Está só, amarrada, despida, sem nenhuma forma de defesa contra qualquer perigo que lhe possa surgir.

Ele aproxima-se do acampamento que tanto observou na última semana. Lá espera-lhe o namorado daquela rapariga, daquela vítima de um bem maior, por quem se apaixonou. Lá estão as respostas às suas dúvidas. Quanto mais se aproximava, mais o seu coração acelerava. A verdade é que parecia um adolescente que vai conhecer os pais da sua namorada nova. Mas não era assim. Ele não tinha mais quinze anos e a sua namorada, era sua refém. Eram todos, vítimas de um destino impiedoso, que os unira de uma forma pouco ortodoxa, pode-se mesmo dizer dolorosa, mas que os juntara para sempre.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Nem sei muito bem sobre o que vai ser esta mensagem. Preciso de tirar daqui aquele desabafo tão atiçado que realizei, até porque é Natal e não é data que condiga com este tipo de sentimentos, mesmo quando eles apenas existem, porque sinto demasiado carinho pela pessoa visada.

Assim sendo, e sem muito mais para dizer, porque há alturas assim em que a inspiração segue caminhos que devem ser explorados de outras formas, desejo-vos a todos um Feliz Natal, junto daqueles que vos amam e que vocês amem, cheio de paz e carinho.

Pensem que por vezes, a mera presença de um pessoa que é amada, vale muito mais que uma jóia preciosa, sobretudo quando essa pessoa, nem sempre pode estar presente nos outros dias.

Para aqueles que amamos sem perceber porquê, para aqueles que gostamos e para o resto do Mundo:

Muitas felicidades!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

eu_e

 

 

"Na vida, não nos apresentamos a ninguém que possa confundir-nos e odiamos quem nos confunde." 

(Epiteto)

sábado, 19 de dezembro de 2009

DSCF2583 O mês de Dezembro é uma loucura para mim, uma loucura que me deixa sem tempo para nada, sem tempo para respirar, sem tempo para escrever…. Mas eu gosto! Gosto muito deste “corre-corre” de Dezembro, este “não pára” que antecede o Natal. São a escolha dos presentes, são a escolha das decorações certas para o tema que escolhi, são os jantares com os amigos, são os preparativos para que a minha casa fique apropriada para receber a família, as limpezas, o fazer das camas, por enquanto desocupadas, são as renovações das instalações eléctricas, é o arranjar daquele candeeiro que ficou por arranjar há quase um ano, e a parede que havia ficado riscada e a porta do armário da cozinha que precisava de uma dobradiça nova.

É verdade que este ano, não tive tempo para fazer alguma das coisas a que me tinha predestinado a  realizar, como pintar o tecto da cozinha, pois outros valores necessitaram desses minutos preciosos, mas está quase tudo pronto. Só falta mesmo a minha tia chegar com o meu tio e com DSCF2591os meus primos, que este ano e após uma ausência de dois, finalmente conseguiram vir, o cunhado da minha irmã que também vem cá passar este ano o Natal connosco, falta chegar o dia 19 aonde vamos ter um lanche de trocas de prendas com os meus melhores amigos (o jantar do Sábado passado foi maravilhoso, com os velhos e os novos amigos, mas anseio por este momento nosso, talvez seja nostalgia), falta o dia 23 onde terei uma consoada antecipada com pessoas muito especiais, e depois, finalmente, os preparativos finais para a festa da família (umas das muitas que fazemos, mas a principal). Vai ser o peru, o bacalhau, os bolos, os fritos  e muito, muito amor e carinho.

Estou louca de cansaço, mas sabe bem!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Existem coisas, que não devem ser explicadas, pois se forem, perdem todo o encanto e magia que envolve os sentimentos e pensamentos de quando estamos a viver uma situação, que nos faz sentir bem! Passamos a vida a racionalizar cada um dos passos que damos, cada uma das acções que tomamos, pesamos os prós e os contras, tentamos ver a imagem de todos os ângulos possíveis e tentamos antecipar no futuro, aonde é que nos leva aquilo que vamos fazer. No meio disto tudo, esquecemos-nos, simplesmente, de viver o momento.

Por vezes são coisas bem simples, como uma conversa diária que temos com alguém no comboio, uma troca de mensagens com um parceiro de jogo na internet, um novo projecto que nos ocupa a mente e as mãos. Coisas simples, banais, corriqueiras e no entanto, fazer qualquer uma destas acções, (ou outras, cada um tem as suas certamente), dá-nos prazer, satisfaz algo que falta no nosso dia-a-dia e chegamos mesmo a sentir a falta delas, quando por algum motivo, não as conseguimos concretizar.

Mas mesmo assim, para além de serem coisas simples, quase em significado, temos tendência automática de as querer transformar em algo mais. Realizamos cálculos complexos, colocamos hipóteses, hipotéticas construções futuristas, onde aquilo, que por si só nos satisfaz, se torna em algo muito diferente e de contornos concretos pouco plausíveis.

Acho que neste tema, vou ter mesmo dificuldade e em encontrar as palavras certas para explicar o meu raciocínio, mas resumindo: Se no nosso dia-a-dia, existe algo que nos satisfaz, exactamente porque é apenas aquilo que é e nada mais, não compliquem, não tentem transformá-lo, pois o mais provável, é simplesmente perderem aquilo que já têm.

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