quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ontem fui totalmente surpreendida, pela mensagem mais insólita que ouvi em toda a minha vida, principalmente por ter vindo de um auto falante num espaço público.
Estava eu, ao fim de um longo e estupidificante dia de trabalho, à espera de um comboio mágico que me levasse dali embora, para um local onde os patrões sabem o que dizem, cumprem com promessas e obrigações, aceitam os nossos pedidos de férias como algo que é devido e justo e que irá aumentar a produtividade do colaborador, exactamente da mesma forma, que nós trabalhamos mais 21 horas extraordinárias, nas últimas três semanas, sem sequer perguntar se por acaso iriam ser pagas. Mas voltemos à voz. Estava eu assim, à espera, quando no auto falante, uma voz diz: "Cuidado com os carteiristas nesta estação!
"Cuidado com os carteiristas nesta estação!" - Oiço de novo, passado algum tempo, como confirmação da primeira vez. Não pude deixar de soltar uma gargalhada sonora, que saiu como alívio, depois de tudo o que passara durante o dia.
Depressa me recompus dos olhares de esguelha e comecei a pensar: É essa a solução para todos os problemas: uma voz de consciência, contínua e omnipresente, que nos alerta para todos os males. Estamos distraídos a olhar para o ecran plasma que passa um videoclip numa estação de metro e alguém nos avisa: "Cuidado com os carteiristas nesta estação!" Acordamos, ficamos alertados e se por acaso um carteirista nos assaltar (porque os amigos do alheio vivem dos rendimentos), a culpa é nossa, porque não tivemos aptidão para evitar o roubo, apesar de termos sido alertados para a possibilidade. A culpa não é da falta de segurança, de policiamento e muito menos da conjuntura económico-social, que cria os carteirista. A culpa é nossa.
Vamos a uma entrevista de emprego e tudo nos parece maravilhoso e estamos distraídos com a areia que nos lançam nos olhos e uma voz diz: "Cuidado com os aldrabões!" E pronto, já não nos podemos queixar dos patrões, só nos podemos queixar de nós, apenas de nós que aceitámos o emprego ainda assim.
Agora apliquemos isto a outras situações no mundo, no quotidiano, pela vida fora e teríamos um mundo, praticamente igual ao que temos hoje, mas onde cada um de nós, era responsável por cada coisa que acontece. Apenas nós e mais ninguém.

4 Ideia(s):

iRrAcIOnAl disse...

Ola,
Sabes uma coisa que já diziam os antigos "quem te avisa teu amigo é". Se teassaltassem, podiam depois dizer, não temos nada a ver com isso, foi avisada! Gostei de te ler e dos teus pontos de vista!
Bjos

Woody disse...

Tive uma reacção semelhante quando num metro, já não me lembro bem onde, li pela primeira vez o aviso: "Beware of pickpockets", primeiro porque não sabia que carteirista em inglês é pickpocket (uma palavra muito engraçada) e depois porque me fez lembrar aqueles sinais nos portões de algumas vivendas: "cuidado com o cão". É claro que o conceito de uma voz que nos vai alertando para os seus perigos tem o seu quê de divino/maternal...

Iris R. Costa Barroso disse...

Olá irracional,

Obrigada, antes de mais, por ter gostado. Espero que volte muitas vezes mais.

E os antigos sabem-no, sabem melhor que nós. É por isso que eu gosto tanto de ditados.

Bjs

Iris R. Costa Barroso disse...

É sem dúvida, uma palavra engraçada.

Tive o primeiro contacto com ela, ainda muita nova, numa festa de Sto. António em Lisboa e não parei de rir. Ri à gargalhada durante um tempo que me pareceu infinito e o suficiente para me provocar um ataque de soluços que demorou horas e que fez todos os outros rirem, por sua vez.

Mas o que eu não dava para ter uma voz dessas!

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