sábado, 12 de setembro de 2009

51713 - Quem lhe disse isso? Como é que pode saber disso, quando observa um grupo de miúdos a metros de distância, através de uns binóculos? – ele aproximou-se de novo. Senta-se na cama e beija-a. – A verdade é que você tirou à sorte e nem sequer, tem a certeza de que acertou, pois não?

- Que idade tens tu? Quantos anos tens? – ela abandonou o seu olhar e abanou a cabeça.

- Quando é que eu vou saber da missão e do que preciso fazer?

- A seu tempo. – disparou – Logo, logo, eu irei saber tudo sobre ti, mas agora é tempo de fazeres um telefonema. – soltou-a das cordas que a aprisionavam e levantou-se. Ela deixou-se ficar. – Queres um convite por escrito? - ironizou.

Ela acaba por se levantar contrafeita. Ele queria tanto que ela fosse mais cooperativa. Talvez se ela lhe tivesse mais respeito? Não, essa não era a solução. A solução era ela temê-lo. Agarra-a pelo braço com força e puxa-a até ele. De novo aquele cheiro que ambos gostavam e que ambos temiam. Ele sentia a respiração rápida dela, bem sobre o seu ombro direito. Era aí que ficava a sua boca, quando ambos estavam de pé. Afinal ela não era assim tão baixa. Talvez passasse do metro e setenta. O seu corpo era tão delgado. Ele amava-a, disso ele já não tinha dúvidas. Se era resultado de uma solidão de vinte e cinco anos, ele não sabia. O que ele sabia, era que ela teria que ser sua. Sua durante o rapto, sua durante a missão, sua depois da missão, sua para o resto da sua vida. Ele não a deixaria escapar. Nunca mais ela se veria livre dele, mas isso, era apenas do seu conhecimento. Ela nada sabia, ainda.

- Tu nunca mais me irás desobedecer! Nunca mais. – o braço começava a doer-lhe, mas ela não queria vergar-se sobre o seu jugo.

- Então prova-me que eu tenho que te obedecer. – ele não se conteve, aquilo era insubordinação, pura e crua. Ele não podia aceitar e bateu-lhe. Ela não cai por terra, ao contrário do que ele pretendia, mas sangrou do lábio inferior. Do mal, o menos. Ela sabia aguentar uma tareia. Ele tinha a certeza do treino militar, mas não compreendia.

- A não ser que queiras que isto continue, começa a obedecer-me. – ela ia argumentar, mas ele, mais uma vez, não deixa. – E sem argumentações, sem mas, nem porquês, apenas obedece. – ela fecha os olhos, engole em seco e deixa-se levar para fora da tenda – O telefone. Tragam-me o telefone. – o soldado mais velho, atira-lhe um telemóvel avançadíssimo. Estamos na era em que os telemóveis pesavam quinze quilos e andavam nos carros, mas o deles, não pesava mais do que cem gramas e era pouco maior que uma mão. – Qual é o número?

- Que número? – acaba por perguntar.

- O número para o qual os pais vos podem contactar. Vocês deviam ter algum tipo de contacto com o mundo exterior. Qual é o número? – ela abre o bolso da camisa e retira um número de telefone.

- É o número dele?

- Poucos de nós se podem dar ao luxo de ter um telefone portátil. – ele continua à espera da resposta certa - É de um telefone fixo, de uma mercearia que fica na vila. O filho do merceeiro virá até aqui e dir-lhes-á que alguém quer falar com eles. O contacto final é feito meia hora depois.

- Então faz agora o telefonema e pede para chamarem o teu amorzinho. – ela assim o fez.

- Que quer que eu lhe diga? – ela deixou de o olhar nos olhos. Ele não suportava isso. – Que quer que eu lhe diga? – perguntou de novo.

- Vais dizer-lhe que o que se passou ontem à noite foi demais para ti, que precisas de pensar e que não podias continuar a vê-lo, que precisas de ficar sozinha. Pede-lhe para que arranje uma desculpa por ti. – fazia sentido, ele sabia o que fazia – Não quero códigos. Não quero uma única palavra com duplo sentido. Se eles continuarem com a busca, quando ele voltar da vila, eu matá-lo-ei pessoalmente, esta noite. Compreendes? – ela acena que sim. Parecia que começava a perceber o seu papel.

- Não será necessário. – foi a resposta audível e correcta.

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2 Ideia(s):

O Profeta disse...

Troquei as voltas a um Golfinho feliz
Afagei a cria de uma Baleia azul
Confundi uma nuvem com ilha encantada
Perdi-me na rota entre o Norte e o Sul

Aprisionei o olhar de uma gaivota
Enchi a alma com penas de imensa leveza
Enchi o coração de doce maresia
Adormeci nos braços da incerteza

Vem viajar comigo no meu barco de papel


Bom domingo

Doce beijo

Iris R. Costa Barroso disse...

Profeta...

Bons augúrios são sempre bem-vindos ao meu espaço.

Obrigada, ainda por cima com golfinhos e tudo!


Bem vindo!

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