quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vocês sabem como todos nós tentamos encaixar as coisas e as pessoas em pequenas caixinhas e rotulá-las, de forma a podermos arrumá-las nas prateleiras e retirá-las quando nos é mais conveniente?

Eu também o faço, mas no outro dia, ao falar através do chat do Facebook com um amigo, sofri uma epifania e achei absurdo tal comportamento. Ele fazia-me perguntas absurdas, seguindo a linha dos teste de personalidade, de forma a tentar perceber-me melhor. Achei divertido, a sério e não me esquivei a nenhuma pergunta, respondendo a tudo com a maior sinceridade, mas ele ia ficando cada vez mais confuso e foi criando opiniões e conceitos diferentes acerca de mim, que depressa se via obrigado a alterá-los, porque na realidade, eu não me encaixo em nenhuma caixinha. Nenhum de nós encaixa. Todos temos demasiadas camadas, demasiadas facetas, para que sejamos catalogados com mais de 70% de segurança, numa só. O resultado é que passamos a vida a ser aquilo que não somos. As pessoas olham para o que escrevo e acham que eu sou uma pessoa cautelosa, que programa tudo ao mínimo detalhe, que gosta de rotinas, quando na realidade, apesar de eu apreciar todas essas características, elas não me pertencem. Até gostaria de ser possuidora de algumas, mas não sou. Eu até posso planear com antecedência, mas sempre que o faço, as coisas não correm como defini e não existe nada que me dê maior prazer do que sair da rotina e dizer o que me vai na cabeça, sem pensar nas consequências.

Mas isto são apenas pormenores de personalidade, mas e quando é mais do que isso?

Hoje conheci um Chinês, que não o é. Existe um restaurante buffet chinês com sushi, onde comecei a ir almoçar e um dos empregados, sempre falou comigo num português impecável. Sempre achei estranho e hoje, tive oportunidade de lhe perguntar onde havia ele aprendido a falar português tão bem. Ele riu-se e disse-me: «Nem sequer sei dizer duas frases em mandarim.»

Achei estranhíssimo, mas ele ao aperceber-se disso, decidiu contar o que se passava:

« - Os meus pais fugiram da China nos anos 30, quando o Japão invadiu o nosso país. Eu não devia ter 5 anos quando cheguei a Macau e daí viemos para Portugal. Não havia chineses em Portugal na altura e os meus pais acharam que apenas deveríamos aprender português, pois com o comunismo na China e com a invasão japonesa, voltar não era opção.  Apenas os meus pais falavam mandarim, todos os meus amigos eram portugueses, os meus vizinhos eram portugueses, estudava na escola portuguesa e o meu pai morreu quando tinha 10 anos. Nunca cheguei a aprender a falar mandarim. Casei-me com uma portuguesa e tenho uma família tradicional portuguesa, com todos os vossos costumes e hábitos, até sou católico. De chinês apenas tenho a minha cara.»

Percebem o meu ponto de vista?

6 Ideia(s):

Jorge Freitas Soares disse...

Olá

Sim, percebi.... mas acho que estás a confundir duas coisas, aquilo que os outros acham que és, e isso é verdade que depende da caixinha em que cada um te encaixa e aquilo que verdadeiramente és... essa é a tua caixa, e nem tu consegues de lá sair.

A maneira como nos relacionamos com as pessoas depende da caixa em que as inserimos, À medida que vamos descobrindo mais coisas vamos trocando as pessoas de caixa, por vezes para uma mais perto, outras vezes para uma mais longe.. mas é inevitável, nunca conhecemos ninguém completamente e dificilmente vemos a mesma pessoa as mesma forma ao longo do tempo, há medida que vamos colocando detalhes, vamos catalogando.. é assim que funciona.

Beijinho
Jorge

Iris R. Costa Barroso disse...

Jorge,

Dizer que aquilo que realmente somos é uma caixa,parece-me um pouco claustrofóbico. Concordo com todo o processo que descreves, pois representa exactamente aquilo que fazia, menos nesse 1º ponto.

Quero acreditar que todos somos capazes de sair da caixa e ser diferentes, de nos modificamos, de nos adaptarmos. Se nunca podermos sair da caixa, nunca poderemos evoluir.

Sabes... o problema é que eu adoro pensar fora da caixa.

Um beijo,

Jorge Freitas Soares disse...

Hum.. agora que reli o que escrevi... pois... não era bem isso.. mas pronto... era mais ou menos

Vulgar disse...

A língua e a cultura são uma espécie de software, qualquer uma funcina em qualquer tipo de hardware.
As interacções são múltiplas e dinâmicas, as combinações infinitas, não há catalogo que resista, qualquer tentativa de catalogar é retrospectiva portanto desactualizada.

ah e as tuas caixas são como as matrioskas... pensamos fora de uma mas estamos sempre dentro de outra.
um beijo.

Iris R. Costa Barroso disse...

Vulgar,

Gostei da ideia da Matrioska... vou ter que pensar um pouco sobre ela, não é uma metáfora simples.

Beijo,

Iris R. Costa Barroso disse...

Jorge,

Totalmente compreendido.

Beijo

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