sábado, 28 de março de 2009

Ele e Ela - livro O vapor que sai da sua boca carnuda aquece-lhe o pescoço e ele tem que engolir em seco. Move a cabeça e respira fundo, procurando alguma presença de espírito. As suas faces quase se tocam. Inebriam-se com o seu odor. Ele levanta-se, não quer estar em desvantagem perante ela e pergunta de novo: - Permitirias? – ela não sabe o que responder, já tinha dito tudo o que podia dizer. Ela não sabe mentir e a realidade é que ela não sabia, da mesma forma como ela não sabia o que fazer, momentos antes. Era assim que ela era. No entanto, a sua hesitação, que para nós parece-nos clara e lógica, sai-lhe cara. Num ataque, que tinha tanto de impaciência como de medo, ele bate-lhe na face com as costas da mão. Ela não se surpreende, nem sequer fica muito afectada com a agressão. Na verdade, apenas se desequilibra, caindo por terra, o que a ajuda a tomar consciência que ele terá dela o que quiser, se não a bem, a mal.

- Preciso de repetir a pergunta? – volta agora mais calmo. Ela tinha vontade de chorar, mas engole em seco e responde:

- Eu não sei o que responder. Eu não sei o que teria feito, tudo dependeria do que se passasse a seguir.

- Tu sabes muito bem o que se iria passar, tão bem como sabes o que se vai passar aqui. – a sua voz era seca, ríspida, mas ao mesmo tempo melancólica. Ela apercebe-se de que ele não irá aceitar a sua resposta, está na altura de tomar outra atitude. Ela já tinha aprendido, ela sabia o que fazer. Levanta-se do chão, assume uma posição militar perante o ser carcereiro e responde num ímpeto de último suspiro:

- Acho que não iria resistir. – chorou finalmente, mas por dentro, sem lágrimas sem som, apenas ela sabia que estava a chorar, não ele. Ele admirou-se por ela levantar-se do chão com tanta rapidez. Tudo nela o admirava e não compreendia, não fazia sentido, isso desnorteava-o.

- Tu gostas de jogar com as palavras. – pensou um pouco e rodeou-a, observou-a uma vez mais, de alto a baixo, tentando compreender, fosse o que fosse – Mas isso agrada-me. – dispara por fim. – E hoje? Vais resistir-me? – tanto lhe fazia, ele teria o que queria, mas sentiu a necessidade, a curiosidade mórbida de saber, antecipadamente, quais seriam as intenções da sua vítima.

- Claro! – responde segura, ele sorri – Mas espero que não venha a ser necessário. Não quero enfrentá-lo, senhor. – olhou-o nos olhos em modo de súplica e pela primeira vez naquela noite ele foi implacável no seu papel.

- Não esperes. – desabafou. Essa era uma certeza que ele tinha. Ele cumpria ordens e era bom nisso. Tinha chegado onde chegou, porque sempre tinha sido bom em obedecer. Ele afastou-se para poder vê-la ainda melhor. Quanto mais olhava, menos a conhecia. – Tira a camisa. – esta pouco ou nada tapava, pois estava desabotoada, mas mesmo assim, atrapalhava – Quero ver-te melhor.

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2 Ideia(s):

Anónimo disse...

A cada continuaçao que colocas, com mais vontade fico de ler o que vem a seguir.

Não deixes passar tt tempo, entre continuações, por favor.


Ana Aguiar

Iris R. Costa Barroso disse...

Ana,

É muito difícil para mim gerir a introdução do Ele e Ela, aqui no blog. Tenho mesmo estado a pensar em criar um blog separado, apenas para ele, pois não é a única pedir-me isso.

O problema é que tenho sempre tanto para dizer, que acabo por menosprezar o Ele e Ela.

Talvez um dia alguma editora pegue nele e aí poderá lê-lo inteirinho e sozinha com o cheiro de livro novo a acompanhar.

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