Estava no meio de uma enorme multidão, por todo o lado existiam actores vestidos com fatos de esponja que nos remetiam para histórias de encantar, vários enfeites de Natal e neve, muita neve, camadas e camadas de neve. No entanto chovia e isso era muito estranho.
Eu observava as pessoas, parecia procurar alguém no meio da multidão anónima, procurava um olhar, um sinal, algo que me ajudasse a reconhecer alguém que não conhecia, até que senti um olhar fixo em mim. Girei lentamente 360º, procurando a origem do olhar. Encontrei um homem alto, que me fixava, não me recordo do rosto, da cor dos olhos, ou do cabelo, apenas a profundidade do olhar que me fazia arrepiar.
Ele sabia quem eu era, ele já me havia visto antes. Pensei: "Já o achei!" mas ao mesmo tempo que o fiz, senti um calafrio que me fez temer de medo, receei que aquilo não devesse acontecer e decidi tentar fugir, esconder-me. Coloquei-me numa fila, para entrar numa espécie de teatro. Tentava a todo o custo, misturar-me no meio da multidão, tornar-me anónima, apenas mais uma. Mas não fui bem sucedida.
Sinto umas mãos fortes segurarem-me os braços por trás e uma voz profunda que me diz: "Os meus desejos ainda são ordens?!" ao que eu respondo, quase sem vontade própria: "Não conheço outra forma de me entregar!"
Então ele, abre-me o punho que eu tinha cerrado e coloca-me um cartão de plástico na mão e depois de a fechar de novo, de forma a que eu não deixasse cair o objecto quase sem espessura e mantendo-me sempre de costas para ele e sem me permitir virar para o ver, disse: "Tens 5 minutos".
Fecho os olhos e respiro fundo enquanto sinto a presença avassaladora dele partir. Abro os olhos ao mesmo tempo que a mão e reconheço uma chave de um quarto de hotel. Ainda procuro o homem do sobretudo e de olhar intenso, mas ele já ali não está. Procuro o Hotel, encontro-o do outro lado da avenida e dirijo-me até lá.
Entro no lobby, espero o elevador, subo até o andar respectivo, procuro o número do quarto e paro diante da porta. Falta-me a coragem para abrir a porta, ainda levando o braço para colocar o cartão na ranhura, mas este fica estático, sem movimento, inerte no ar. Sinto a presença dele novamente nas minhas costas, uma mão que segura a minha e que a força a tomar a acção que parara a meio. A fechadura solta o som que indica que não está mais trancada e o braço esquerdo dele, bem acima da minha cabeça, empurra a porta para dentro e com o braço direito, segura-me pelo pescoço e força-me a entrar. A porta fecha-se. A voz dele diz.
- Sem preliminares.
- Demasiado sobrevalorizados! - Respondo com voz trémula e insegura!
- Sem artifícios.
- Apenas guiados pelos instintos mais básicos. - Completo.
Ele encosta-me então à parede, como se fosse um polícia que me fosse revistar, retira-me os casacos, os cachecóis e tudo que o separava da minha pele, mantendo-me sempre de costas para ele. Liberta-se ele próprio das suas roupas, agarra-me o pescoço, a sua mão contorna-o quase na totalidade e morde-me junto à junção com o ombro. Eu não grito, eu sufoco a dor física e transformo-a em algo mais, algo muito mais estimulante. Ele possui-me sem mais demoras, sem mais percalços. Fá-lo com uma desenvoltura tal, que parece não ter feito mais nada na vida, se não aquilo. Possui-me com uma violência tal, que quase sinto o meu corpo partir-se nas suas mãos, mas em vez de recear, ou ter medo, ou tentar fugir, eu apenas me entregava mais e mais e a cada gesto, a cada movimento, os nossos corpos tornavam-se apenas um.
Já foi, já passou, quente e aconchegante como quase todos os Verões, mas… c’est finnit.
Por vezes tenho dificuldade em entender a razão das coisas. Ontem, aconteceu, mais uma vez.
… Que é que podia ser mais?! Para o Natal, é claro!
Não sei se vocês já se deram ao trabalho de reparar, que sempre que problemas e casos que envolvem o nosso Primeiro Ministro, chegam à comunicação social, existe também e em tempo real, um hastear de grandes bandeiras que têm de ser defendidas na Assembleia da Republica?
Hoje fui ao centro de saúde da minha área e fiquei gravemente preocupada, não pelo tempo interminável para ser atendida, não pela falta de profissionalismo dos assistentes administrativos, nem pela total desorganização de horários, por nada disso.
Uma casa, um pouco mais afastada de todas as outras, no meio do campo. Uma enorme janela de parede a parede que dá para um jardim silvestre, onde uma árvore se destaca de todas as outras. Destaca-se porque é grande, mais antiga mais sábia. Ela soube aproveitar tudo aquilo que a terra lhe deu e cresceu saudável, dobrando-se ao vento para não quebrar.
Estava no outro dia a tomar um café com uma amiga, ainda casada e já com dois filhos, quando a inevitável pergunta chegou:
Uma vez, há muitos anos atrás, numa conversa com uma amiga, estava a contar-lhe que estava muito envolvida com alguém. Que me sentia a apaixonar por um rapaz que eu achava que seria o meu futuro marido e pai dos meus filhos. Algo que se veio a concretizar por metade (não podemos ter tudo).
Todos sabemos que o povo português tem uma grande capacidade para a tristeza, para o destino, para a melancolia, enfim, para o Fado.
Nota: caso queiram saber as características científicas deste lindo animal, aqui estão:


